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No Brasil a população de negros e pardos é superior a de pessoas não negras, por volta de 71%, mas ainda assim somos apagados da mídia, de campanhas publicitárias, nas universidades, etc. Visto a necessidade do negro ser colocado em foco, o livro Idê tem como objetivo nos dar um lugar de fala, para dividir nossas lembranças, nossas vivências, nossa história. Aqui no Idê, negros e negras LGBT compartilham um pedaço das suas histórias e também de suas identidades. Misturando a fotografia com entrevistas, o livro é feito para causar uma imersão visual do leitor nas histórias contadas por essas pessoas e estourar a bolha que vivemos para mostrar que existem diferenças e que elas são lindas.

Florianópolis, 20 de novembro de 2019


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hugo p. 18

jordan p. 26

paula p. 36

henry p. 46

gabriel 5


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Meu nome é Hugo Horácio, tenho 21 anos, nasci em Foz do Iguaçu - PR, mas como fui criado por mãe solteira vivi em outras cidades. Estudo Design Gráfico, procuro estágio, no momento [risos] e trabalho com telemarketing.

Qual a primeira lembrança da sua infância que vem à sua cabeça? Acho que são mais as brincadeiras, eu tinha brincadeiras mais criativas. Até porque eu tive uma infância mais solitária, então sempre que minha mãe dormia, eu esperava todo mundo dormir pra começar a brincar e fazer criações, inventar mundos e se inserir neles, essas coisas.

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pra mim, foi mais difĂ­cil, mais demorado me ver como negro

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Qual sua Identidade de gênero e Orientação Sexual? Orientação sexual seria gay e Id. de gênero eu seria mais...entraria no guarda-chuva do trans, no caso, porque trans não é só transsexual, trans é uma pessoa não binária, mas não é uma coisa que me afeta tanto. Gênero é uma pessoa que tá sendo chamada de ele, ela ou qualquer outro pronome, mas também se identifica com ele, no meu caso, que é o mais comum que as pessoas falam, mas não é algo que me afeta

Como você descobriu a sua sexualidade? Eu não descobri minha sexualidade [risos] num momento eu fui percebendo, aos poucos eu fui percebendo que eu estava gostando de meninos, aí eu pense“olha...sou gay” [risos]

Teve alguma dúvida? Tive alguns conflitos, principalmente em questões familiares, mas pra mim foi mais difícil, mais demorado me “assumir”, me ver como negro (que antes eu me via como pardo).

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Sou baixo, negro, tenho dreads curtos. Tenho traços indígenas, olhos mais puxados, nariz mais avantajado.

Descreva suas características físicas

Hoje em dia é tranquilo, por parte de mãe, que é mãe solteira. Por parte de pai biológico, eu não tenho muito contato. Por parte de mãe é bem tranquilo hoje em dia, mas já tiveram brigas e discussões quanto a isso.

Relação da família com a sexualidade

Faz uns dois anos que eu me considero uma pessoa negra. Foi processo que, tava tudo dando errado na minha vida em vários sentidos, faculdade, trabalho, vida amorosa...aí como já tinha discussões, na época, eu lembro que a Nátaly Neri, uma youtuber, falava sobre isso e eu parei pra me perguntar se isso tudo que eu tava passando era por ser negro. Eu fui teorizando na mente questões que faziam sentido pra mim, aí depois eu fui pesquisar melhor, fui ver vídeos, fui ver relatos de outras pessoas e acabei vendo que isso não era só eu que achava, que se comportava também com outras pessoas.

Quando você se descobriu negro?

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Estava tudo dando errado na minha vida em vĂĄrios sentidos

eu parei pra me perguntar se isso tudo que eu tava passando era por ser negro

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Pra você o que é ser negro/gay? É uma união de dois universos diferentes. Já é bem complicado ser negro, no Brasil principalmente que tem toda a questão do racismo estrutural, é uma estrutura pra estatificar o negro, é um controle social. Nasceu do racismo científico, nasceu de políticas públicas que apoiavam a miscigenação, então é tudo uma questão estrutural e eu ser gay também é uma questão estrutural. A gente não estuda gays, travestis na nossa história. Por exemplo, a primeira travesti da história do Brasil foi uma escrava, Chica do Congo, mas o LGBT é uma luta que tá começando agora, que as pessoas estão começando a dicutir melhor sobre isso. Na estrutura do racismo, o negro vai estar lá embaixo. Na estrutura heteronormativa quem vai estar embaixo é o gay e embaixo do gay vão estar as travestis, lésbicas, transsexuais. Então é uma união de dois mundos que são ditos pelos outros, como inferiores e é a criação de uma nova realidade, a gente tem que começar a debater pra conhecer mais esse universo. Como lésbicas negras se vêem, como gays negros se vêem, como travestis e transsexuais negras (os) se vêem, que tem como fazer essa separação entre LGBT. O LGBT branco, independente da classe, vai ter mais privilégios do que o LGBT negro. Não dá pra comparar travesti com gay, mas se você comparar uma pessoa transsexual branca com uma transsexual preta, a branca vai ter mais privilégios e assim por diante. Então assim como existe o feminismo negro, que está sendo discutido há tempos, a gente tem que começar a pautar e discutir melhor sobre o que é ser LGBT negro. Mas pra mim, é a união desses dois universos e é uma experimentação do ser político, porque é uma coisa que está sendo discutida agora.

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Se você pudesse mudar algo na sua vida como negro/gay, você mudaria? Se eu pudesse mudar algo na minha vida? Olha, eu mudaria minha questão econômica [risos] Se eu pudesse nascer rico, eu nasceria rico. Na questão de nascer branco, nascer hétero não é uma coisa que eu faça muita questão não, mas na questão monetária ia fazer diferença pra mim [risos]

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Idê Meu nome é Jordan Moraes da Fonseca, tenho 19 anos, nasci no Rio Grande do Sul, mas eu cresci em São Paulo e vim pra cá (Florianópolis) aos 9 anos. Eu estudo Design Gráfico na UDESC, eu vendo brownies de forma autônoma e é isso. Eu sou bi e me considero cisgênero.

Qual a primeira lembrança da sua infância que vem à sua cabeça? A primeira lembrança? Pô, eu lembro muito das minhas tias. Fui criado por elas. Eu lembro daquela horta que elas tinham atrás da casa, era bem legal. Eu ficava brincando de esconde-esconde, elas até brigavam comigo porque elas tinham umas coisas muito boas plantadas, tipo, melancia… 21


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Como você descobriu a sua sexualidade? hmm...Na verdade, eu não sei...eu só sei que eu descobri que eu sempre tive ela a partir de um momento que eu desenvolvi um senso crítico pra perceber o quanto eu tava sendo censurado. Quando eu era censurado em umas brincadeiras de alguns familiares, por parte dos pais mesmo. Não querendo me oprimir, só por convenção social mesmo.

Teve conflitos internos ou dúvidas?

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Eu tive muita dúvida por causa disso, né. Não parecia certo pelo jeito que eles falavam, sabe? Aí parecia que era muito heteronormativo também por causa disso. E me afetou bastante, na verdade.


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Eu tive muitas dúvidas. Não parecia certo pelo jeito que eles falavam. Idê


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Você tem contato com a parte negra da sua família? Só com a minha avó. Eu não conheço meu pai. Minha vó, meu bisavô, que ajudou bastante a minha mãe e são eles.

Quando você se descobriu negro? Sempre falavam do meu cabelo e isso é uma coisa que sempre aconteceu.

Sua família discute sobre racismo? Não muito. O que acontece é quando a gente fala sobre religião. A minha família é da Umbanda, a gente percebe coisas que a gente não perceberia numa conversa normal, sabe? Falar coisa que não sabe, por exemplo.

Sua família se identifica negra?

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A minha mãe, não. Eu moro com a minha mãe. Mas a minha avó, sim.


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Pra você, o que é ser negro e bissexual? Bah...é ser você. Atualmente é ser resistência. Ser você no sentido de ser você na sua essência, não deixar ninguém te reprimir.

Se você pudesse mudar algo na sua vida como negro/bi, você mudaria? Não tem como mudar as outras pessoas, né? [risos] Eu sempre tento constatar muito as coisas e ver quão tóxico é o lugar que eu to e tentar mudar isso. Não ficar ali ou pelo menos fazer uns amigos pra deixar esse ambiente menos tóxico.

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Meu nome é Paula Delfino Martins, eu prefiro que me chamem de Paula Martins...ou Rihanna [risos] Tenho 22 anos, eu sou bissexual e uma mulher cisgenero vim de Tubarão, faço Design Industrial na UDESC. Também faço bolsa na direção geral...a minha vida em Florianópolis não é tão badalada quanto eu pensei que ia ser. Me arrependi um pouco com o Design Industrial, um desabafo.

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Qual a primeira lembrança da sua infância que vem à sua cabeça? Nossa...teve tanta coisa! Eu lembro que quando eu era criança, eu, meu irmão e meus primos, a gente gostava de pegar as bikes pra andar num corredor que tinha do lado da casa da minha avó e a gente seguia até o final, que no final tinha uma árvore e ali a gente passava a tarde e comia chips de 50 centavos.

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Como voce descobriu sua sexualidade? Foi bem complicado. Foi no meu ensino médio, na verdade. Eu tinha esse grupo de amigos de Tubarão e todos nós não somos héteros, todo mundo tava no primeiro ano e do segundo ano naquela fase de todos se descobrindo, uns se assumindo homossexuais, outros se assumindo assexuais e foi quando eu fiquei refletindo se eu realmente era hétero. Eu vi que não e que eu realmente sentia atração por pessoas do mesmo sexo, mas eu me assumi bissexual mesmo um ano depois, porque foi meio difícil aceitar, né.

Teve conflitos internos ou dúvidas?

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Minha mãe falava muito que essa coisa de bissexualidade era coisa de gente promíscua e eu ficava bem magoada com esse tipo de comentário, então eu demorei muito pra aceitar que eu era bi, mas hoje em dia é de boa. Ela não sabe ainda, mas meu pai sabe e acho que ela não vai saber por muito tempo, porque ela é uma pessoa bem religiosa. Eu já aceitei que vai ser isso e...é a vida.


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Descreva as suas características físicas Sou alta, sou uma mulher negra de pele clara, eu tenho cabelo crespo bem crespo, raspado nos lados e descolorido, uso óculos, tenho rosto fino, nariz e boca são bem largos.

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Quando voce descobriu que era negra? Essa coisa de se descobrir negro meio que não aconteceu comigo porque desde muito tempo, a minha mãe que é uma mulher negra retinta, desde sempre a minha mãe falava que eu era negra porque eu perguntava pra ela do por que a gente ser diferente, por que as pessoas não me consideravam como negra, mas ela sempre explicava que existiam pessoas negras com o tom de pele dela e que tinham pessoas negras como eu, com a pele mais clara. Então essa coisa de descobrir que é negra, eu sempre soube, mas aceitar já é um negócio mais complicado, porque até meus 15/16 anos eu ficava naquela de “Ah, eu sou negra, mas tenho pele clara” como se fosse uma vantagem sobre os outros, como se eu realmente não quisesse me aceitar como pessoa negra. Hoje em dia eu sei que eu sou uma pessoa negra, eu tenho pele clara, mas isso não é bem uma vantagem é mais de ter essa miscigenação que teve no Brasil, de ter esse apagamento de identidade. É uma parte que quando as pessoas de pele retinta falam, eu escuto, porque eu como uma pessoa de pele clara eu nunca vou saber realmente a sensação de sofrer como sofre uma pessoa de pele mais retinta.

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eu como uma pessoa de pele clara eu nunca vou saber

a sensação de sofrer como uma pessoa de pele mais retinta

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Sua família discute sobre racismo? Nossa, muito! Se tem uma coisa que a minha família faz, é discutir racismo o tempo todo. Meu pai é policial e ele é negro, ele também tem pele clara, mas ele sempre falou que essa questão dele ser policial e ele ser um homem negro na polícia sempre conflitou muito com ele. Ele sabe que é errado o que a PM faz com as pessoas negras, mas é uma coisa que ele não conseguia conter porque ele é uma pessoa só e ele tinha que se sustentar, então é algo que sempre esteve em conflito com ele. A minha mãe, que era professora hoje aposentada, a escola que ela dava aula era num morro, ela sempre teve muitos alunos negros, então sempre tiveram essas questões de discutir sobre racismo dentro da família, em qualquer parte. Na minha família poucas pessoas têm pele clara ou que não são negra, então a gente discute situações que a gente vê que a pessoa foi racista com a gente.

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Pra você, o que é ser negra e bissexual? ...No momento é uma coisa bem complicada, ainda mais no meio universitário que a gente acha que as pessoas vão ter empatia, entender vocÊ e a gente percebe que é um lugar ainda mais elitista, tóxico e bem abusivo. Ser uma pessoa negra e ainda ser a primeira pessoa negra da família a estar numa universidade pública é uma questão de resistência mesmo, de afirmar que eu tô aqui, que eu consegui chegar aqui porque outras pessoas antes de mim, não digo nem ancestrais, mas falo da minha avó, mãe que lutaram pra isso e eu consegui chegar aqui e eu to aqui por elas. Ser bissexual é algo que eu tenho que reafirmar todos os dias, sempre tem alguém que pergunta “Ah, mas você é isso mesmo?” “Não puxa mais pra um lado do que pra outro?” é uma coisa de ter sua própria identidade, as pessoas pensam que bissexual é uma mistura de héteros com homossexuais, mas não, eu sempre digo que nós somos nós mesmos. Não tem essa coisa de sorvete misto, é um sorvete inteiro.


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Se você pudesse mudar algo na sua vida como negra/bissexual, você mudaria? Cara, não mudaria nada. Em relação a essas duas coisas, é difícil sim, mas eu sei que por mais que tenha os parênteses, é uma coisa que eu gosto, eu sou e isso vem muito com a minha auto estima, então não mudaria nada.

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Meu nome é Henry, sou de Floripa, tenho 18 anos. Cursando a 3ª fase de Design Gráfico na UDESC. Me identifico como bissexual e cisgênero.

Qual a primeira lembrança da sua infância que vem à sua cabeça? Acho que era quando eu tinha uns 5 ou 6 anos, lembro da minha vó me pegando no colo e é muito viva essa lembrança na minha cabeça. Eu lembro que eu olhava pra tudo e eu lembro de todos os detalhes.

Como você descobriu a sua sexualidade? Eu tinha 15 anos, mais ou menos, e foi meio conturbado no começo porque eu vivia naquela fase que ser “bicha” era uma coisa feia, engraçada, que todo mundo ria e no começo eu meio que fiquei 1 ano, mais ou menos, sem falar pra ninguém e tal. E quando eu tava na metade do meu ensino médio que eu comecei a me enturmar mais com as meninas da minha sala de aula e comecei a me abrir mais com elas, aí me abri com uma e foi aos poucos. A medida que eu fui criando intimidade eu fui me abrindo com as pessoas e tals. Até no final do terceirão toda minha turma já sabia. E hoje, quando eu entrei na faculdade eu não vi tanta necessidade de falar, porque encontrei pessoas no mesmo nível de classe, então me senti mais a vontade.

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Teve conflitos internos ou dúvidas? Foi tudo uma experiência, no começo era muito novo e eu fica me perguntando porque os outros não tinham essa mesma postura, se os outros tinham e não falavam nada, mas depois ao longo do tempo eu fui percebendo até pelo acesso à informação que eu era o que eu era, não é que eu era diferente, mas que eu tinha uma orientação diferente das outras.

Relação da família com a sua sexualidade Os meus pais...eu não vou dizer que eles não sabem, mas a minha mãe era bibliotecária da minha escola então eu acredito que ela já saiba, mas eu nunca contei oficialmente pros meus pais. Os meus irmãos sabem e são super “a vida é sua, tu faz o que quiser”, mas eu não me senti preparado ainda pra chegar e contar e me abrir com o resto da família.

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O meu maior receio é que eu não sei qual vai ser a reação deles, sabe? Logo quando eu me descobri, com 15 anos, eu até tinha feito uma promessa que quando eu fizesse 18 eu ia assumir, porque eu já estaria na maturidade, etc, mas hoje eu paro e penso que não é a melhor hora, melhor momento pra isso e acabo ficando meio em cima do muro quanto a isso.


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O meu maior receio é que eu não sei qual vai ser a reação deles, sabe?

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Quando você se descobriu negro? Eu tinha uns 13 anos e teve a semana do dia 13 de maio, que teve a abolição da escravatura e tinha uma professora de filosofia que fez uma série de palestras no cológio e teve uma apresentação que ela fez e ela quis chamar só os negros da escola. Aí quando eu vi, eram só 7 ou 8 e foi aquele baque, porque por mais que eu tinha bolsa, eu estudava numa escola particular e foi aquele baque e eu pensei “caramba, olha só, eu sou negro” e desde ali eu comecei a perceber como as coisas eram diferentes, como as pessoas te olham diferente. Eu vi isso muito pela minha mãe, quando ela tava na biblioteca e alguém chegava procurando por ela e quem não sabia que ela era e a via com uma pessoa branca, a pessoa ia direto na pessoa branca porque achava que a branca era a bibliotecária.

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Descreva suas características físicas Me considero de altura média, não sou alto e também não baixo. Um pouco mais cheinho, eu diria assim. Me considero negro, tenho característica de boca, nariz, que são características da etnia negra. O cabelo, eu gosto dele mais curtinho, mas já tive ele maior, mais encaracoladinho. 43


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Sua família discute racismo com você? Não muito, eu me considero o mais militante lá de casa porque eu vejo que eles têm muito aquela coisa de eles verem que o racismo é horrível, mas eles partem muito do princípio de que as vezes o negro pode estar errado e eu sempre bato nessa tecla e, as vezes a gente entra em discussões bem boas, políticas, mas no geral, eles entendem que existe o racismo. Eu vejo da parte deles que eles não fazem muita coisa pra tentar reverter isso, mas eles sabem que racismo existe e que isso faz parte da sociedade.

Sua família se identifica como sendo negra?

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Sim, tanto que agora, uns 3 meses atrás, minha mãe só usava cabelo liso e agora ela já tá fazendo transição e agora ela tá com o cabelo encaracolado e tá gostando bastante, tá super “voltei pras minhas raízes”. Isso foi uma coisa que eu percebi que ela mudou o cabelo, mas também afetou meu pai, meus irmãos, eles começaram a ver que nem sempre só o liso é o bonito, coisas assim.


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Pra você, o que é ser negro e bissexual? Eu acho que é um duplo sacrifício, eu sei que sendo negro dentro de uma sociedade já é horrível porque sempre tem umas pessoas que vão te olhar torto, você vai sofrer aquela discriminação e é como a bissexualidade fosse um adicional de raiva. Eu sei que a partir do momento que as pessoas souberem que eu sou negro e bissexual, é como se eu recebesse o dobro de preconceito das pessoas que vão querer ser racistas e homofóbicas.

Se você pudesse mudar algo na sua vida como negro/bi, você mudaria? Em mim não, mas nas outras pessoas, sim. Acho que conscientizar elas que a gente é normal, que se todo mundo fosse igual, seria horrível. As pessoas tem diferenças e essas diferenças são importantes.

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Meu nome é Gabriel, tenho 23 anos, sou de Biguaçu, mas já mudei de cidade tantas vezes que já perdi as contas. Sou estudante de design gráfico na udesc e também trabalho como designer numa empresa de software de engenharia. Sou gay e cisgênero.

Qual a primeira lembrança da sua infância que vem à sua cabeça? A primeira lembrança que vem a minha cabeça sou eu me divertindo no sítio que eu cresci. Na verdade é um conjunto de lembranças, mas sempre lembro de brincar com os animais, subir nas árvores, andar a cavalo, etc

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Como você descobriu a sua sexualidade? Quando eu tinha por volta dos meus 11 anos eu morava no sítio e o nosso vizinho era muito amigo da nossa família e um dia eu vi o filho do vizinho andando a cavalo sem camisa e com chapéu de vaqueiro. Eu senti meu coraçãozinho bater mais forte e foi ali que me liguei que eu era diferente.

Teve conflitos internos ou dúvidas? Eu nunca tive dúvidas que eu não era hetero e nunca tive nenhum conflito com minha sexualidade, pra mim sempre foi muito normal. 50


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Descreva suas características físicas Sou alto e magro, tenho cabelo castanho claro crespo black power, tenho olhos castanhos e meio puxados, tenho lábios carnudos e nariz largos.

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Quando você se descobriu negro? Eu cresci numa família branca e sempre fizeram questão de me fazerem sentir como se não fizesse parte dela, nas fotos de família com meus sobrinhos eles tiravam foto comigo e depois tiravam fotos só com os brancos, jogavam na minha cara que eu era feio porque tinha pele marrom, na escola eu era escolhido como o mais feio por ser negro, esse tipo de coisa.

Sua família discute sobre racismo? Minha família nunca discutiu racismo comigo, inclusive me diziam que eu não era negro porque negro era quem tinha a pele muito escura.

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Sua família se identifica negra? Não se identificam como negros pq a maioria é branca, os poucos negros que tem ou negam a sua etnia ou dizem que são morenos claros.

Você tem contato com a parte negra da sua família? Tenho muito pouco contato, até porque são poucas pessoas e eu quase nunca vejo elas. 53


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Eu cresci numa família branca e sempre fizeram questão

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de me fazerem sentir como se não fizesse parte dela


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Pra você, o que é ser negro e gay? É uma luta diária, né. Até porque ser gay no meio negro eu vou sofrer homofobia e ser negro no meio gay é sofrer ataques de racismo quase que sempre. Então é uma desconstrução constante.

Se você pudesse mudar algo na sua vida como negro/gay, você mudaria? Eu mudaria o fato de ter me empoderado muito tarde kkkk eu devia ser o primeiro a me amar e mesmo assim, diante de tudo que me foi falado eu demorei bastante pra me aceitar e me ver de uma forma diferente.

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Idê é um ivro da disciplina de Projeto de Graduação, do curso de Design Gráfico da Universidade do Estado de Santa Catarina Orientadores de Projeto: Anelise Zimmermann e Maurício Dick Editor: Gabriel José da Silva Projeto gráfico: Gabriel José da Silva Fotografia e Tratamento de imagem: Gabriel José da Silva Colaboradores: Gabriel José da Silva Henry Castelar Hugo Horácio Jordan Moraes Paula Martins Sofia Amorim Rosado As entrevistas desse material são de responsabilidade dos autores/entrevistados e não refletem necessariamente a opinião da revista. É proibida a reprodução total ou parcial de textos e fotos por qualquer meio sem prévia autorização dos entrevistados ou do editor da revista.

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Agradecimentos Gostaria de agradecer a todos que tiraram um pouco do seu tempo para ajudar com este projeto, especialmente os entrevistadosHugo Horácio, Jordan Moraes, Henry Castelar e Paula Martins Também gostaria de agradecer a Sofia Amorim Rosado por ter emprestado a câmera fotográfica, caso contrário as fotos não teriam ficado do jeito que eu pretendia. Gostaria de agradecer aos professores orientadores do projeto Anelise Zimmermann e Maurício Dick. E por fim, gostaria de me agradecer, pois sem mim esse projeto jamais existiria.

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Profile for Gabriel Silva

Livro Idê  

Idê é um projeto editoral que tem como objetivo dar foco à população LGBT negra de Florianópolis. O projeto foi baseado em cinco conceitos:...

Livro Idê  

Idê é um projeto editoral que tem como objetivo dar foco à população LGBT negra de Florianópolis. O projeto foi baseado em cinco conceitos:...

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