Rudá - A Divindade Nascida do Amor

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Ruda

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RUDÁ - UMA DIVINDADE NASCIDA DO AMOR

Texto - Pedro Henrique Noronha de Paula Todos os direitos reservados.

CARTA AO LEITOR

Victor Henrique Rodrigues da Silva

PROJETO GRÁFICO E ILUSTRAÇÃO

Gabriel Nogueira DIAGRAMAÇÃO Gabriel Nogueira

Esta é uma obra de ficção escrita para um trabalho acadêmico do curso de Direto da PUC - Pontifícia Universidade Católica, na matéria Direito Romano e História do Direito O design e diagramação desta obra foi desenvolvido para um trabalho acadêmico do curso de Design Gráfico do Centro Universitário UNA, na matéria de Design Editorial.

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Pedro H. N. de Paula

Ruda A Divindade Nascida do Amor

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Carta ao leitor

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Precisamos falar sobre colonialidade e isso nunca é fácil, com ela adveio comportamentos que entram no nosso ser e traz consigo um olhar misógino, racista e preconceituoso. É um desafio desligar esses olhares nas tradições indígenas, principalmente porque são povos de tradição oral e o contato com o homem branco introduziu muitos dos preconceitos que hoje carregam. Não à toa, atualmente existem muitos jovens indígenas analisando o passado da sua ancestralidade nas academias com o objetivo de conhecer como o processo colonial marginalizou o comportamento sexual que era tido como normal em muitos povos indígenas. Neste sentido, podemos falar de Estevão Rafael Fernandes, antropólogo referência nesse assunto, que chegou até um conceito dos indígenas da América do Norte chamado two-spirit (dois espíritos): trata-se de como as pessoas que fugiam dos padrões de gênero eram chamadas, acreditava-se que além de possuírem dois espíritos, a representação do feminino e masculino, também ligavam o mundo dos vivos e dos espíritos, como um xamã. Rafael afirma que não diferente eram os indígenas brasileiros quanto a normatização da sexualidade, comportamento descoberto através de relatos em cartas que repudiavam o liberalismo libidinoso dos indígenas. Assim chegamos ao objetivo dessa história, que não foge do que os estudos apresentam: diz respeito a normatização da sexualidade através da descolonização do olhar. Acredito que temos tantas coisas lindas para aprender com nosso povo originário, o respeito certamente é uma delas.

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Meu povo me contava estórias de deuses e heróis muito anteriores da chegada dos Brancos. Uma que me marcou muito foi a história de Rudá, A divindade nascida do Amor. Ficou conhecido por reunir a nossa tribo em uma só, e ter recebido no nascimento a graça dos dois Espíritos:

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Imedu, o espírito dos caçadores, da coragem e do sustento.

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E Aredu, o espĂ­rito do cuidado, do carinho, da sensibilidade e da casa.

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Rudá nasceu de uma união proibida pelo humano e abençoada pelos Deuses. Seu pai e sua mãe eram de tribos inimigas...

Seu pai era caçador...

...e sua mãe filha de um cacique muito respeitado.

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Certo dia, quando o pai de Rudรก estava caรงando, caiu num rio e se afogou.

Por sorte a mรฃe de Rudรก estava nadando nas รกguas e o salvou.

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Deste dia em diante, eles se tornaram amigos, e a amizade foi crescendo e se tornando amor.

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A mulher se entregou ao Homem e, nesse momento, o Deus Tupã abençoou a união dos dois e permitiu que ela carregasse uma criança muito especial.

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Porém, as tribos não foram de acordo e os condenaram à morte, pois a união com o inimigo era proibida.

Os dois tiveram que fugir se alocando numa praia afastada, esqueceram seus povos e tentaram ser felizes.

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Por todo o tempo em que a criança esteve sob a proteção do corpo da mãe, eles conseguiram ser...

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...até que Rudá nasceu...

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As duas tribos os encontraram por causa do primeiro choro do curumim. Assim, os guerreiros da ambas as tribos, ao encará-los novamente, lançaram flechas sobre o casal e feriram gravemente os pais da criança.

Estavam se preparando para matar a pequena criatura vinda de uma relação proibida, quando no céu, de repente...

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...o deus TupĂŁ se manifestou.

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Seu som estrondoso e seu clarão energético impediram que qualquer um se aproximasse da criança ou dos pais.

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E como se Rudá fosse feito das mais leves pétalas de flores, um vento forte carregou a criança em direção á luz divina de tupã, fazendo com que todos largassem as armas, pasmos diante do que viam.

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Os xamãs entenderam que o Deus Tupã guardava grandes coisas para o futuro de Rudá e pediram para cessar o ataque.

Os curandeiros ajudaram os pais de Rudá a se recuperar e assim ficou suspenso o conflito entre as duas tribos.

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As tribos separaram o casal, e eles ficaram impedidos de se relacionar com qualquer outra pessoa. Por essa razão, à medida em que Rudá crescia...

...deveria suprir as tarefas de índia quando estava na tribo de seu pai...

...e as tarefas de índio quando estava com sua mãe.

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Enquanto todos estranhavam a nova realidade, Rudรก sentiase confortรกvel, mas sabia que independente de onde estivesse,

nunca

se sentia

completo.

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O tempo passou...

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16 ciclos da natureza se foram, e assim como as plantas que comeรงam como sementes, mas se transformam em รกrvores frondosas, Rudรก foi crescendo e vivendo nas duas tribos.

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Uma sempre difamando a outra. Isso fazia com que a criatura se sentisse ainda mais fora do lugar.

Mas ele conseguia perceber que nĂŁo era apenas isso...

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Todos o tratavam diferente, havia sempre um olhar de espanto.

Principalmente na tribo de seu pai, porque fazia coisas que eram costumeiramente feitas pelas índias, já que eram agraciadas pelo espírito de Aredu,

Porém o mesmo também acontecia na tribo de sua mãe, estranhavam o fato de Rudá ajudar sua mãe nas tarefas que eram apenas dela, ao mesmo tempo que caçava alimentos.

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Certo dia...

...os caciques decidiram...

...que a crianรงa...

..ficasse...

...com apenas...

...um dos povos.

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E, por isso, uma nova guerra entre as tribos comeรงou...

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...No meio da batalha, enquanto sangue inocente era derramado...

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...os xamãs de cada tribo pressentiram novamente a presença do Deus Tupã...

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...e como numa explosĂŁo de energia o ClarĂŁo e o estrondo da entidade pararam a batalha novamente.

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e de dentro de seu corpo saíram os dois espíritos, Aredu e Imedu, que começaram a dançar em volta do corpo de Rudá, entrando novamente em seu corpo.

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Ambas as tribos fascinadas pela manifestação dos espiritos, novamente largaram as armas e interromperam a guerra. Os Xamãs das duas tribos vendo tudo o que acontecera disseram aos povos:

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-NÃO PODEMOS MAIS LUTAR!

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-Tupã nos ordenou! A criança nascida do amor que surgiu entre povos inimigos representa não só a união de nossos povos, mas o contato do nosso mundo com os espíritos. -Ela deve ser educada por nós e será Xamã de um só povo unificado... ...pois Rudá não é só Aredu... ...E nem apenas Imedu.

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-A sua natureza são os dois espíritos. Rudá é Imedu-Aredu e assim sempre o será. -Cabe a nós respeitar essa benção que Tupã nos trouxe, pois ele é o guardião entre o nosso mundo e o mundo dos espíritos, Nós devemos nos unir para celebrar Rudá “ImeduAredu.”

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A partir desse dia, os dois povos se unificaram, os pais de Rudá finalmente se reencontraram, e ao nascido do amor foi ensinado os segredos de ambas as culturas. Assim, Rudá passou a manifestar livremente seus dois espíritos, não sendo estranhado, mas sim admirado por conta disso. Por fim, reuniu e remodelou os novos costumes de amizade, respeito e amor entre as duas tribos, transformandoas em uma só.

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Nasce do proibido a mais pura alma, um ser que dele se distancia: Se o contrário de proibido concebe-se como liberdade, é nela que se encontra o amar. Assim é Rudá, um ser de amor que não o pode ser se não liberto. Uma história onde a existência e a liberdade de uma simples criança encarará de frente fronteiras além da geografia: medo. exclusão e preconceito.

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