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O Carpinteiro do Tempo

Carlos Alberto Potoko

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A imaginação, assim como a intimidade, é o nosso último refúgio.

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SUMÁRIO

Prefácio............................................................................................................................05 As casas e os móveis de Sant’Ana do Livramento no início do século XX....................06 Diploma de marceneiros de 1888 e início do conto........................................................08 Biografia dos carpinteiros da vida de Sant’Ana do Livramento......................................65 O carpinteiro Dino...............................................................................................66 O carpinteiro Noé de Oliveira..............................................................................67 Os carpinteiros José e Daniel...............................................................................68 Roberto Martinez da RM móveis.........................................................................69 O Ely da carpintaria União e depois Benedetto...................................................70 Carpintaria e marcenaria Villa Madera................................................................73 Enrique Figueroa Um carpinteiro da vida............................................................74 Os últimos ferreiros de rodas de madeira........................................................................74 Cledson Vargas Ferreira......................................................................................75 A ferraria do Seu Bao..........................................................................................76 A alma das casas de Livramento - crônica......................................................................77 Casas do início do XX – fotos.........................................................................................78 Praça Gen. Flores da Cunha – foto anos 1940 engraxates...............................................82 A alma das casas de Livramento – poema.......................................................................82 Araucária - a madeira mais usada....................................................................................83 Bicho carpinteiro.............................................................................................................84 Ferramentas..........................................................................................................85 Aprendendo a serrar.............................................................................................86 Aprendendo a aplainar.........................................................................................93 Aprendendo a furar..............................................................................................97 Aprendendo a lixar.............................................................................................101 Emendas encaixadas..........................................................................................106 Modelos para você fazer....................................................................................107

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P R E F Á C I O O Carpinteiro do Tempo é um conto poético da vida de um carpinteiro atemporal que entrelaça elementos humanos e físicos locais no início no século passado. Baseado em fatos reais, busquei nesse tema uma alma que se identificasse com a minha natureza, cuja brandura martelada em cada palavra revelasse a beleza do trabalho com pensamentos voltados para a pureza, a inocência, a natureza e a vida do homem diante de Deus. A magia desta história é buscada na explosão de meus sentimentos como avô, pai, filho e amigo, sem nunca recuar do propósito de sempre perpetrar o bem. Este trabalho é uma narrativa ficcional com fatos verídicos ou não, inspirados por algumas pessoas que conheci em canteiros de obras e com uma introdução à história da carpintaria de fazer rodas, que mergulha em uma fábula enternecida pela carpintaria, as ferramentas e os indivíduos. Há histórias simples dentro do conto, narradas por artífices nos canteiros de obras que aumentaram meus conhecimentos e que transpus para personagens fictícios, dando-lhes vida através de escritos poéticos, ecológicos e espirituais. A geografia humana, a imaginação, a fabulação, a lenda e o anedótico integram o conteúdo deste livro com expressões míticas universais. Distingue-se do romance e da novela por ser uma história breve. Entretanto, a brevidade da descrição junto com as fotos dá densidade aos fatos e associa à rapidez da descrição à circunspeção das palavras com a sagacidade popular. Num 2º mote contém histórias reais dos principais carpinteiros de Livramento do final do século XX e o registro do último mecânico de carroças e mais algumas fotos das casas do início do século XX que alguns deles trabalharam. Termina com algumas dicas aos “bichos carpinteiros” que como eu, gosta do ofício como hobby.

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As casas e os móveis de Sant’Ana do Livramento no início do século XX Depois que D. Pedro II esteve em Sant’Ana do Livramento em 1865, virou moda nas famílias de posses redecorarem suas casas com a última moda na Europa com o estilo neoclássico. A sala de uma típica residência de gente rica no Brasil no final do século XIX eram de linhas equilibradas, traços simples e serenos. Nada a ver com aquelas formas arredondadas, esculpidas e cheias de pompa do barroco e do rococó. Era o estilo neoclássico, uma tendência de franca inspiração iluminista, que foi buscar sua essência nas culturas da Antiguidade Clássica. Contudo isso não restringiu o bom gosto de fronteiriços de origem espanhola com o estilo mais arrojado nos detalhes europeus, com pequenas esfinges florais decorativas incrustadas nos móveis e fachadas das casas. Muitas casas iguais a estas aqui ilustradas, especialmente no centro foram habitadas por famílias vindas da Europa ou mesmo funcionários com altos cargos na administração do frigorífico. Seus moradores tinham dinheiro e estudo. Frequentavam o teatro, iam a festas, eram convidados para jantares e recitais... enfim, desfrutavam de todo status e conforto que o topo da pirâmide social santanense podia oferecer naqueles tempos. Os alfabetizados eram uma parcela ínfima da população, ou seja, um móvel daquele tempo, feito para escrever e guardar documentos, só poderia estar numa casa de gente culta. Além das fechaduras de marfim, as escrivaninhas tinham gavetas secretas, atrás de uma frente falsa, que se soltavam ao ser empurradas. Muito usadas para o descanso depois do almoço, as cadeiras podiam ser de vários tipos, mais ou menos sofisticadas, dependendo do poder aquisitivo da família. Eram feitas com palha indiana delicadamente trançada e madeira de lei, adornada com discretos entalhes. O jacarandá, uma madeira mais dura que as outras, era a matéria-prima de praticamente todo o mobiliário das famílias nobres. Móveis grandes, como armários, podiam levar até um ano para serem concluídos. O trabalho de carpintaria era lento. E respeitavam-se as fases da lua no corte das árvores. Para se ter uma ideia de como se vivia no início do século XX em Livramento, tínhamos um Delegado da Higiene, o Dr. Adalgiso Ferreira que veio para combater a gripe espanhola de 1918 aqui instalada. Como homeopata o Dr. Clemente Tanajura Guimarães, dono da conhecida Farmácia Guimarães. Em 1910 um médico espanhol progressista, Agapito Esteban Gonzales, instalara em seu consultório o 1º aparelho de Raio X da cidade para como complemento os exames dos pacientes. É importante registrar de como era o saneamento. Simplesmente não existia, começou a partir de

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1920 com um projeto de distribuição de água e esgoto apenas nas vias centrais. O projeto foi executado pelo Eng. Militar Saturnino de Brito, que veio especialmente do Rio de Janeiro para isso. Foi todo feito com manilhas de barro e as casas tinhas os encanamentos de águas servidas todo de chumbo e servidos com caixas de descarga de ferro fundido, assim como os WC (Water Close) e banheiras de ferro esmaltado de branco. Foram construídos basicamente dois emissários de esgoto, onde um passava pela Sanga do Piola e se encontrava com outro que vinha do centro e se uniam na altura da barraca Ibarra. E ali para a estação de tratamento inaugurada em 31 de outubro de 1929 na gestão do intendente Cel. Francisco Flores da Cunha. O luxo e o lixo, lógico, era trabalho duro para os moradores, pois até então, precisavam de serviços como o de carregadores de água. Embora alguns já pudesse contar com iluminação devido uma usina termoelétrica instalada em 1906, os santanenses não tinham água encanada, rede esgoto e muitos ainda usavam luz de velas. Quem carregava água para os ricos eram os empregados, que iam buscar toda a água necessária para o abastecimento em poços de balde nos quintais ou simplesmente compravam de aguateiros que carregavam suas pipas nas fontes do Cerro do Marco ou do Registro. Algumas famílias tinham muitos empregados, entre cozinheiros, copeiros e arrumadeiras. A maioria dos moradores também tinham de levar para fora o lixo e os excrementos das residências. Enchiam uma cuba (pequenos barriletes), depois uma carroça passava regularmente para recolher. Nos bairros, quando não podiam enterrá-lo, como em casinhas com buraco (as patentes), carregavam até um riacho onde a sujeira pudesse ser despejada. O calçamento foi a partir de setembro de 1930, o prefeito Hugolino Cruxem Andrade, acertou com a Companhia Armour um empréstimo de 157.894 dólares, a serem pagos em dez anos, com juros de 8% ao ano. Esse dinheiro destinavase a custear as despesas com calçamento das ruas da cidade (Escritura Pública de Contrato Mútuo, Cartório de Registros Especiais, livro 6, folha 8) *Dados do livro "Armour uma Aposta no Pampa" de Vera Albornoz.

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Diploma da Sociedade Beneficente dos Marceneiros e Carpinteiros de 1888

A marca do homem na terra é, pois, um fato que o envolve por seu ofício em cicatrizes no solo pisado por ele em suas lendas e estas se originaram de um legado de realizações e ensinamentos que teimam em ser passadas aos filhos. Pelos seus braços é que se transformaram os meios terrestres em seu habitat, é uma fisionomia nova encravada na terra que só o homem consegue modificar causando inúmeros problemas ambientais. Suponhamos de um lado uma terra tal qual era antes da aparição do homem, com suas paisagens puramente naturais, e do outro, olhemos o globo atual com tudo que têm de esforços humanos: casas, cidades, estradas, hidrelétricas, canais e também fazendas, plantações, pradarias e florestas dizimadas pelas queimadas. A diferença entre estes dois mundos será considerável e precisamente esta diferença, esta subtração, constitui o preço de uma civilização, pois o culto às florestas não é só do seu sacrifício, mas fundamentalmente dos ofícios desenvolvidos através dela e os que estão se extinguindo por causa da tecnologia. Atualmente temos como fato uma massa humana no planeta, cujos governantes já não se sabe mais como fazer para ocupá-la convenientemente com suas respectivas habilidades manuais. Por isso temos grandes deslocamentos de massa humanas para perto de onde haja mais recursos naturais ou desenvolvimento industrial. Como resultado o efetivo humano é marcado visualmente na superfície da Terra muito mais pelo que se relaciona ao seu habitat, como pela visão do formigamento humano. É quando a casa se revela ao homem um problema: o progresso. As florestas no início das comunidades foram um obstáculo aos homens, quando estes se tornaram bastante numerosos e quando dispuseram de ferramentas eficazes, se organizaram que nem formigas cortadeiras e começaram a atacar as

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florestas para construírem suas moradas e demais objetos de uso do dia-dia. É mais ou menos nestes princípios que nasceram e se multiplicaram na Terra, os madeireiros, depois os carpinteiros, como José, pai de Jesus e tantos outros espalhados neste templo azul dos sonhos. E de sonho em sonho, por aqui, mais precisamente no povoado de do Livramento, existiu uma família que respirava,

cortava

e

moldava as madeiras de árvores nativas: A família do

seu

José

Machado,

conhecido como o Zé da serra, apelido este dado por Honório Lemes da Silva, seu principal freguês. E nessa descendência de geração pós-geração construindo rodas de carroças e carros de boi, nas pegadas das forças imperiais em acampamentos militares desde a guerra da Cisplatina. A entrada do carro de boi nesta região, além de trazer consigo uma logística de ferreiros e carpinteiros, foi um veículo essencial para o desenvolvimento das comunidades fronteiriças, igualmente também se soma a eles a contribuição de carreteiros de outras praças que cruzavam esta região transportando mercancías das mais diversas origens, em especial de Livramento em 1839 onde atingiu o auge com esse veículo na guerra dos farrapos, está na sombra da economia do Império do Brasil, nos séculos XVI e XVII com o primeiro governador-geral do Império, o qual trouxe consigo carpinteiros e carreteiros práticos, aliá, em 1549, já se ouvia o “cantador” nos caminhos que cruzavam o país. A presença do carro de bois também foi mencionada no “Diálogo das Grandezas do Brasil”, de Ambrósio Fernandes Brandão: “É necessário que tenha (…), 15 ou 20 juntas de bois com seus carros necessários aparelhados (…)”, e mais adiante, “A vaca, sendo boa, é estimada a (…), e o novilho, que serve já para se poder meter em carro (…)”. Com ele era possível transportar diversas cargas: da colheita as madeiras, materiais de construção, produtos agrícolas, artigos e até a própria família. O primeiro veículo de rodas a adentrar-se de fato aos pampas foi um carro de bois por volta de 1824. Como era de se esperar então, vinham da capital ou do Uruguai carregando vários mantimentos onde cruzavam de um lado para o outro com lã, velas e charque.

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Foi desse crepúsculo onde nasceu um lugarejo ao pé do Cerro de Palomas daquela então Livramento, que Armando Machado receberia do seu pai José Machado, carpinteiro diplomado pela Sociedade de Carpinteiros e Marceneiros do Império, o legado de seu pai. Trabalhou nesta arte desde menino, tanto no comércio como no manuseio da madeira que lhe empunhara assim certa ligação umbilical para com o espólio, pois os segredos acumulados só passavam de pai para filho como a seiva de uma árvore para a sua semente. Como único filho, pois seu irmão o mais velho fora esmagado por uma roda de carreta num confronto entre Pica-paus (legalistas simpatizantes de Júlio de Castilhos) contra Maragatos (os que queriam libertar o Estado RGS do poder centralizador do governo federal, liderados por Gumercindo Saraiva, Joca Tavares e Juca Tigre) durante a Revolução Federalista de 1893 a qual campeava ferozmente pelas bandas de Livramento. Ainda poderia se dizer de Armando que pertencia a uma das últimas famílias das saúvas humanas, o qual se diga a bem da verdade, conheciam e respeitavam a madeira para todas as finalidades como ninguém. Porém, madeira para eles, na época, não era o problema, era só pegar um machado e lá já se ouvia o grito de agonia da pobre árvore. O pai, junto com a geração dele, descendia da abundância de matas nativas com todas as suas lendas e sábios conhecimentos espirituais sobre o vegetal. Depois da morte trágica do irmão Dorval, que adorava árvores também, Armando nunca se atreveu a lamentar aquele destino claramente tão cruel para com o irmão, pois acreditava que o destino de um homem é como de uma árvore, igualmente tinha o espírito da finitude. Sempre falava seu irmão Dorval: “Uma árvore plantada por nós mesmos é como um bálsamo para a alma. Ao regarmos, alimentamos sua vida e o nosso espírito. Ao abraçá-la, sentimos uma força misteriosa de transferência de resistência às adversidades da vida. Já as suas folhas, ao contemplá-las planando, lembra-nos a beleza da liberdade de movimentos que tanto buscamos em nossa existência. E para cortá-la, temos que fazer uma oração justificando um nobre motivo”. Quem sabe, as árvores não aceitavam o destino do machado e por aquele motivo resolveram levar meu irmão junto através de uma roda feita pelo seu pai, como um tributo, indagava-se junto aos amigos que de vez em quando o relembravam do trágico acontecimento. O pai do Armando forjou os dois filhos com o mesmo fogo da composição de aros de aço feitos pelos ferreiros para rodas de madeira, as quais as fabricavam de todo o tipo: desde rodas para carros de boi até aranhas, tipo de charrete de um cavalo que os

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fazendeiros locais gostavam de comprar para passear. Mas o forte da carpintaria era mesmo as carroças de dois eixos, com quatro rodas, duas pequenas na frente e duas maiores atrás, muito usadas para transporte a granel das colheitas e todo o trabalho da lida no campo. Eram produzidas num galpão velho quase sem paredes, tinham uma técnica própria que marcou época naquelas bandas de tempos duros de peleja política, mas abundante de trabalho em carroças. Além do mais, e principalmente era um meio garantido de subsistência da família somando aí a habilidade herdada dos seus antepassados. Tinham consciência que a roda para a humanidade era uma das mais importantes invenções tecnológicas, isso porque aplicada na mais vasta variedade de máquinas e equipamentos, uma roda movida pela água, por exemplo, movia um moinho através da transmissão de força de maneira reduzida para a borda a qualquer força aplicada no seu eixo de rotação, amplificando assim a transmissão tanto da velocidade quanto da distância que foram aplicadas. Para ele, não fora as gerações sucessivas de competentes carpinteiros de rodas, a humanidade certamente estaria bem mais atrasada. Tratava-se de uma profissão quase não praticada na sua forma original, mas podia-se considerar que a carpintaria, por via da evolução, desencadeou e permitiu que nascessem os sucessores, os engenheiros mecânicos do futuro, em termos da engenharia da mobilidade sempre em evolução. Na época reinava duas variantes do carro de bois, o carretão e o tilbury (carretinha), veículos movidos por juntas de bois, o carretão era feito de forma rudimentar, com eixo reforçado para receber cargas mais pesadas e sem a típica carroceria com objetivo de transportar mais volume, como toras de madeira, arrastando-as para a construção de benfeitorias das fazendas. Com a utilização destes veículos ou com o uso exclusivo de juntas de bois era possível realizar diversos serviços, inclusive obras públicas, como pontes, aterros, edificações de prédios, consertos de estradas e outros serviços. Desde o início até metade do século passado, os carros de bois se constituíram no mais importante veículo de transportes usado na região. Afinal, um carreteiro, puxando um carro de boi, e um tropeiro representava o povo, está lá registrado em 1886 na tela da independência do Brasil do Pedro Américo. Embora fossem lentos, capazes de percorrer apenas três a quatro léguas por dia a dois quilômetros por hora, era comum observar filas destes em praças e pelas principais estradas carreteiras. A quilômetros de

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distância se podia ouvir o som característico do movimentar de seus eixos, como se entoassem tristes canções. Era como uma agonia do reduto gaúcho de carreteiros a provocar a imaginação. Eles eram considerados os construtores do Rio Grande do Sul. Os pioneiros que abriram estradas, ajudaram a demarcar as fronteiras, abasteceram povoados, serviram de trem de guerra e até de hospital nas revoluções. Na fabricação de carros de boi e carroças, a parte mais difícil era fazer as rodas: primeiro tinha que tornear a maça (cubo, buquê ou núcleo central da roda de madeira) num torno movido com o pé com precisão, depois fazer os furos no cilindro sem descentrá-la para o encaixa do eixo da carroça e também de onde partem os raios de madeira em direção as cambotas. A árvores preferidas eram lei, caramuru, graviúna ou ipê, por serem muito duras e resistentes ao atrito do rodar no solo, depois cortavam as cambotas, pedaços de madeira semi-curvo, para encaixar nos raios, dando assim o seu formato circular. Por último vinha o arco de metal, primeiro o malhavam aquecido e soldavam no fogo rigorosamente sob medida por um ferreiro, depois faziam uma fogueira com restos de madeira e colocavam-no ali até ficar meio em brasa, para logo em seguida encaixá-lo em brasa na roda sob pressão a marretadas onde o fogo desprendido ia sendo apagado com água gerando uma contração muito firme na roda. A fumaceira que saía do contato do aro de ferro quente com a madeira arrematava o serviço num espetáculo que se completava na bela e perigosa tarefa. De mais um círculo mágico de fogo nascia uma hierarquia de uma coisa originária de um vegetal unida com o aço para rodar com um homem. Nessa empreitada, para não cometer erros, era preciso destreza no manejo da serra, do serrote, da enxó, do grupião, da plaina, da pua, do prumo, da lima, da grosa, só para falar de algumas ferramentas. Por isso era importante ser, no mínimo, carpinteiro. Era como uma metamorfose de mãos que interviam na natureza para dar forma e uso de um pedaço de madeira para uma coisa que se mexia, que a partir daquele momento passaria a andar. Surgia assim uma roda, depois o veículo e que a partir daquele momento teria uma alma só: carregar o homem com os seus sonhos. Essa magia que todo mundo sabe que existe, mas que quase ninguém analisa é de certo modo um desperdício da encantadora poesia lúdica que sai de nossas mãos, uma magia boba para muitos, magia esta que veio do universo para nos encantar e para nos acordar para a beleza da vida nas coisas simples que podemos fabricar para o seu uso da lida do dia-dia, como os carrinhos de mão, taboas de lavar, coxos para os animais, cabos de ferramentas, armário de cozinha, enfeitado até com jornais cortados em renda... Naquele tempo praticamente, tudo era fabricado em casa por um membro

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habilidoso da família. E mais, tudo que se prometia, era uma só palavra, dada não se duvidava e não discutia. Como em nem toda terra se produz boa árvore, o progresso também não produziria um bom lugar para se viver, pois trazia embutido o crescimento desordenado com bairros inchados e casebres forrados de latas. Contudo, por outro lado começava a aparecer o dinheiro suado dos habitantes por meio de carros motorizados, construção de casas com beirais (telhados de antigamente que possuíam eira, hoje conhecido como platibanda, e beira conhecido como beiral, detalhes que conferiam status ao dono do imóvel. Possuir eira e beira era sinal de riqueza e de cultura. Não ter eira nem beira significava que a pessoa era pobre – dito de outrora) e palacetes que se erguiam do solo, do dia para a noite devido à industrialização desenvolvimentista das fábricas como de sabão e velas que começavam a se instalar com os bônus das charqueadas, donde os estancieiros puderam capitalizar-se. Também a chegada do trem e mais tarde um frigorífico com projetos de casas e fábrica para os seus funcionários, feito que fizesse Livramento nos anos 1920 pular de 847 prédios para 2.129 em pouco mais de 20 anos. Enfim, a urbe ia se interligando com o país via ferrovia com uma estrada embalastrada, telefone em 1905 e uma usina de energia elétrica em 1906. E como sempre, tudo que se apresentara com um conceito de prosperidade, haveria um custo para àquela vidinha rural: o desenvolvimento urbano engolindo os costumes rurais. Disso, digam aquelas famílias no passar de cada ano, com despedidas cada vez mais frequentemente dos jovens na Estação recém-inaugurada em 1910 que rumavam à cidade grande em busca de estudos e de seus sonhos. Com o tempo, a carpintaria de carroças e também os negócios do ramo foram diminuindo porque já não se usava tanto carros com rodas de madeira porque começara as mercadorias a chegar e a partir da cidade, de trem, também começara a rodar pela região um carro que não precisava de carpinteiro e nem de tração animal, mas de um mecânico e de combustível. Todavia, o Armando não era destas pessoas que a modernidade ainda não lhe havia chegado, trabalhava com talento no que sabia e além do mais os trocados que possuía ainda davam para o seu sustento. A única preocupação dele era com seus pais que já tinham uma idade bastante avançada para o serviço pesado, pois na época deles não existia a previdência social, porém eram muito saudáveis. Não obstante, um dia a saúde do seu pai se complicaria devido a mais uma má notícia, a primeira foi à morte trágica do filho mais velho, e agora uma visita de um agente do governo na sua propriedade. Este, surpreendentemente o intimou a

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comparecer à repartição da capital do Estado porque a maior parte da sua propriedade iria ser desapropriada para a construção de uma larga carreteira de ligação para a região. Pronto, estava ali decretado o fim da saúde do seu pai. O tempo de 5 anos o qual lhe fora dado não foi necessário, pois a decepção e ressentimento de ter que abandonar o lugarejo e ainda por cima imaginar vê-lo rasgado por uma estrada, o golpeara o peito tão forte, pelo qual não resistiu mais do que uns dois anos e pouco de xingamentos e todo o tipo de insultos, sempre gritados contra o governo e a quem mais quisesse ouvir, ou não, a sua indignação. Não havendo outra saída, Armando já meio contagiado pelo espírito de progresso nas cercanias de Livramento devido à instalação em 1905 de uma usina termoelétrica na cidade e também estranhando a ausência de seus principais amigos, convence a mãe de que não adiantava mais brigar com o destino. E de comum acordo resolvem se mudar para o povo e deixar a história no passado na esperança de que com o passar do tempo à dor se desvaneceria. Era o alívio que buscavam, resolvendo então vender o resto dos animais e dos pertences mais difíceis de carregar, os quais não eram muitos, pois o maior patrimônio que possuíam mesmo, era uma pequena floresta de árvores nativas, algumas ferramentas, um pequeno baú cheio de livros e a velha casa com o galpão que seria demolida. Encaixotou todo o ferramental de mão, separou uns poucos móveis e pediu para um velho amigo do pai, o Chico da ferraria, para ajudá-lo a colocar tudo que podia na última carroça que ainda não tinha sido entregue ao novo dono, não por acaso, mas para esse inevitável e triste dia de partida. O Chico Ferreira, além de amigo íntimo do seu José, era o ferreiro que fazia as peças de metal das rodas e das carroças, gostava de trabalhar as chapas de rodas de carreta, as quais chegavam a ter oito, nove centímetros de largura. Ele superaquecia o metal na frágua, trabalhava na bigorna, resfriava ao natural e temperava na água. Isso para aumentar a durabilidade do ferro, dizia. O aro devia ficar um pouco menor que o diâmetro da roda de madeira para ser colocado ainda quente - com ajuda de uma ferramenta chamada "gato" - enquanto o ferro ainda estava dilatado. Quando esfriava a chapa, o ferro encolhia e a roda chegava a estalar de tão apertado que ficava. Era um serviço garantido para sempre. Mas um dia, ao ferrar um cavalo, esfacelou a mão esquerda por causa de uma mula que dava leite,

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isso o levou a pensar em descansar os ferros devido à perda dos movimentos da mão e também pela partida do inseparável amigo Zé da Serra. Assim sendo, ao nascer do sol do 1º dia de outono de 1910, numa manhã triste, sem ouvir o canto dos pássaros silvestres, porque o coração não permitia, parte com sua mãe sem coragem de olhar para trás, consolando-a: – Minha mãe as matas nativas estão se terminando. Escute! Os passarinhos hoje nem se quer estão cantando! É como se eles soubessem que terão um dia destes que se mudarem também. Nós mutilávamos as matas deles para tirar o nosso sustento e agora o governo faz o mesmo conosco por uma estrada. – Também, como queríamos que eles se sentissem. – exclama sua mãe se lamentando baixinho com o peito apertado. E seguem se afastando cada vez mais rápido da porteira, sem se quer fechá-la, por medo de não aguentarem a emoção da despedida. Na passada pedem um último favor ao seu Chico, no sentido de que os objetos e o cavalo que ficara fossem entregues aos compradores. E como na vida enquanto uma árvore morre e outra nasce, também nascia aos 22 anos, com os olhos cheio de lágrimas, um novo homem, um jovem homem urbano, um carpinteiro da vida, pois o rapaz ficara cara a cara com a realidade nua e crua de um artesão de rodas sem sua mata e sem a sua matéria prima. O pai morrera para nascer um progenitor da continuação de uma espécie de bicho da madeira com um passado em metamorfose de ofício, a de continuar em nome de todos os seus antecedentes e também de cuidar não só de si, como de sua terna mãe, D. Natividade. Na

carroça,

pensativo,

corria em sua mente todos que amara e que se foram ou viraram sombras de lembranças. Também com o

olhar

paisagens

distante

nas

que

se

ofuscavam na sua retina, tentava em vão fixá-las para se despedir delas sem tortura. Diferentemente de muitos outros jovens, achava que embora o pasto não falasse, o mato não falasse, o rio não falasse, o morro não falasse, mas que pareciam falar com ele, era porque ele gostava de conversar com a natureza. Dizia que tudo que aprendera na vida era caminhando dentro de uma mata. Tinha aprendido que era melhor ter um pai e um irmão mortos, do que não ter tido nenhum e

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sentia naquele conceito uma espécie de paz, como num tempo trazido pelo vento e que lhe atravessava o peito num prenúncio da decisão de continuar no ofício do pai, era verdadeira. Claro que sabia que não seria na mesma linha de oficina de carroças de campanha do pai, mas talvez em obras que já se avistavam ao longe surgindo de dentro das coxilhas, assim matutava tocando as rédeas dos cavalos. E em voz alta, soltou o pensamento pressentindo o futuro num suspiro interrogante perguntando a mãe: – O que a senhora acha mãe de começarmos uma nova vida no povo? – O que você decidir para mim está ótimo meu filho. Concordara D. Natividade submissa e entregue ao destino. Chegando à povoação, dirige-se a um hotel para só depois, no outro dia, ir procurar uma casa para alugar, pois o dinheiro não era o suficientemente para comprar um imóvel na cidade mais ou menos compatível com o que eles sempre estiveram acostumados, de muito espaço. Porquanto na cidade os preços eram outros, pois parte do dinheiro juntado fora gasto com a saúde do seu pai. Então seria prudente se garantir com o que sobrara para sobreviverem até ele se estabilizar com o ofício. A partir daí, sim, um dia com o que guardasse, economizasse mais um pouco, e assim construiria uma casinha num local mais adequado. Aquele dia fora longo, cansativo. Depois cai à noite com o seu manto negro e mágico para fazê-los sonhar e aquecer a esperança de uma boa e nova estadia na cidade.

No início do outro dia, procurou informações sobre a locação de um imóvel e com o dinheiro na mão foi fácil alugar uma casinha com um bom quintal. Precisava de alguns reparos, mas nada que um carpinteiro não resolvesse nas horas de folga, o principal era ter um bom pátio para a D. Natividade se entreter com uma hortinha e algumas galinhas. Logo-logo começaram a fazer amizades com os vizinhos. Devido a sua qualificação, consegue um emprego numa grande empresa que construiria as casas dos empregados de um frigorífico que estava se instalando no povo de Livramento. E assim, o 1º ano no povo corre bem no palco da sua vida, casa-se com uma mocinha muito trabalhadora do mesmo bairro, cujo pai chamado de Flor de Deus morrera na

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Revolução Federalista, de nome Maria, que o presenteia no ano seguinte com um belo menino de nome Dorval, aliás, em homenagem ao irmão a quem o estimava muito. A mãe neste meio tempo morre de causa natural, fechando-se assim as cortinas de mais um ato no palco na vida do Armando. Certo dia, numa tarde chuvosa no trabalho, desabava água como nunca, escorria de modo a abrir sulcos pelo volume, ao observa-la passar pela ruela de terra vermelha, isso o transportava a um tempo que já não sabia mais discernir: se valeria à pena viver no seu ofício de transmutar madeira bruta em obra lúdica, como uma casa para pessoas viverem seus caprichos ou se continuaria no ofício, obediente ao destino, sem questionar e só trabalhar. Pensava nos que dependiam do deu serrote, que em movimentos rítmicos, mais parecia que o serrote conduzia o seu braço no cortar da madeira. Eram caibros para a montagem de um telhado, aonde os que nele se abrigassem, ali encontrassem repouso sossegado e quem sabe sentir-se-iam protegidos das chuvas ou geadas da vida. E assim viajava em seus pensamentos, nem se dava conta do voo do seu martelo, que descia certeiramente na cabeça dos pregos por uns quantos anos. Bem quisto pelos colegas de obra, conversava pouco, isso até ser interrompido abruptamente por um auxiliar da obra: – Caro Armando, como era sua vida na carpintaria de campanha do seu pai? Era melhor fazer uma carroça ou atualmente fazer uma casa para os homens? – Ah! Deixe-me ver... Já sei! Vou lhe contar um causo. – Conte-me companheiro, adoro conto de causos. – Muito bem... Tinha uma junta de bois, cujo guia gostava de mostrar aos outros que eles eram imbatíveis no trabalho, obrigava de forma cruel, os bois puxar uma carreta com toras de madeira a superar uma ladeira onde a carroça de um tal João Bala havia tombado. Um dia, de tanto esforço, um dos bois morreu, e o outro depois desse fato nunca mais quis trabalhar, ficou tão triste, mas tão infeliz que o carreteiro de dó, teve que sacrificá-lo. – Mas bah! Armando! Pobres animais! – Pois é meu amigo, nós trabalhadores, às vezes, também somos que nem os bois: quando um companheiro cai de tanto esforço por ajudar o outro, que um dia este também cai. O dono da junta perdeu um capital, já os bois perderam a vida por ele. Eis o mundo que é! – Mas é a carreta ou a casa que o senhor prefere fazer? – Já lhe respondi, o que os homens fazem do seu trabalho é assunto deles, eles pagaram por um trabalho e um trabalho não tem juízo, tem somente pão. – Ah! Entendi. O Senhor não teria outra para me contar? Gostei tanto! – Tenho. Certa vez uma vespa pega carona num carro de boi, pulou na canga dos bois articulando: – Como vocês são lentos! Por que vocês não vão mais rápido? Quero só ver se pico meu ferrão no pescoço de vocês.

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Um dos bois, disse: – Não nos interessa suas ameaças, só prestamos atenção a quem está sentado sobre onde você não está. É ele quem nos dá o ritmo com a vara e nos segura com cutuques. E o outro boi também completa: – É! Vá embora, com a sua insolência, pois sabemos bem das nossas passadas, são devagar, porém firmes. Moral da história: se você conhece o seu dever de casa e sabe como fazer o seu trabalho, não ouça as distrações externas ou insinuações... – Gostou dessa? – Gostei. E assim seguem conversando e aplainando tábuas com todo o cuidado de não rebentar os nós, pelo resto do dia. Para ele não importava o luxo, importava é a sua obra, um abrigo que confortasse as famílias, afinal, um lugarzinho para se descansar é sempre abençoado, embora muitos não parem para pensar onde vão ficar um dia: se em uma casa decente ou numa casinha de cartão na rua, aos rigores do tempo e da violência, porquanto uns não se importam mesmo como viver. Mas ele se importava com o tamanho desta brutalidade que se impunha, não só ao seu próprio espírito, como dos colegas que faziam casas para os outros e não podiam fazer para si e suas famílias. Com mais idade sentira que fora feito para grandes caminhadas, tanto no céu como na terra. No céu a estrada era as nuvens, não as nuvens de chuva, mas sim as nuvens do subconsciente, errante, imprudente, culpada e pouco inocente. Já na terra a caminhada era pesada, as pernas muitas vezes sucumbiam. Observara que os braços de muitos amigos, às vezes não conseguiam abraçar ninguém direito e outras em vez de apertarem mãos, apertavam gatilhos. Que pena! Levavam uma carga que conforme a distância iria aumentar com os seus reclamos, lastimava. Armando, longe em seus pensamentos, pensava que ainda tinha uma escada a instalar, escada esta que requeria reforço providencial. Cortava e pregava, degrau por degrau esperando ainda manter forças para subi-la até o final, se é que há finalidade maior na vida de uma escada de obras, pois certamente a escada e suas forças estariam exauridas um dia, devido ao tempo da dura serventia de ambos. O seu receio maior era no caso de um degrau não aguentar o seu próprio peso ou de manter-se em forma devido às contingências laborais do ofício de si e dos demais operários. Sempre buscava a verdade no legado da sua astúcia em cada batida, em cada prego que enterrava nas madeiras, como se estes penetrassem nas suas veias, injetandolhe fortificante aos músculos dos braços. O tempo e o suor já não importavam mais, importava sim, uma parede que ia surgindo, um teto sendo cobrindo, de janelas preenchendo paredes, portas se abrindo e tempo consumido. Era mais uma casa que ia

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surgindo, o sonho de alguém se consolidando. O trabalho da vida ia medindo metros de esperança e tudo somando confiança para que um dia, ele, viesse juntar economias o suficiente para construir a sua própria casa, pois naqueles anos o que poderia sobrar algum vintém, estava todo empenhado na compra de um terreno com uma casinha de madeira e nas adequações da nova morada. Ele não tinha medo do tempo e nem de nada porque lia muito, um livro para ele era como uma janela. Quem não lia, era como alguém que ficasse distante da janela. Dizia que existiam só três coisas que eram para sempre: fé, esperança e amor. O amor é a maior delas. Não existe melhor conselheiro do que um espelho. Alguns até que podiam tentar, mas o espelho se estilhaçaria. Fora criado ouvindo as pessoas dizer que tudo que fazemos de errado é pecado. Mas para ele, Deus nos enviaria um poema muito famoso ao mundo, composto por uma só e enorme palavra: “Amor”. Não o amor da posse do tipo: meu filho, minha esposa, minha casa, meu isto, meu aquilo, etc. Os bens seriam apenas para o nosso uso e desenvolvimento espiritual, um empréstimo, dizia. Nada neste mundo é nosso, nem o nosso corpo e muito menos o nosso conhecimento. Para ele, Deus amaria a todos, bom ou mau indistintamente, pois sabiamente criou as leis naturais do universo para controlá-los, ou seja, tudo o que fizessem de bem ou de mal ao outro, as leis do universo o julgariam. Só um tolo, diria que Deus viria a castigar alguém por uma estupidez pessoal ou coletiva, ele não perderia tempo conosco. Se é que tempo e espaço existiria para ele decidir o que fazer com cada um de nós em particular, afirmava. Assim era Armando, espiritualizado, correto e bom profissional, ficou conhecido como seu Andorinha, uma referência à asa de andorinha, um corte trapezoidal similar ao formato das asas do pássaro que os carpinteiros fazem nas extremidades da madeira para que elas se unam com firmeza por uma cunha. E isso ele fazia com tanta perfeição que até tornou-se popular, um apelido é comum entre os operários para facilitar a sua localização no canteiro de obras. E assim foi se esparramando a fama de bom carpinteiro pelo bairro, pois todos sabiam que uma casa feita por ele era uma garantia de resistência e durabilidade para o resto da vida. Certo dia, questionado por um de seus auxiliares aprendizes, o qual insistia no porquê de tanto rigor num simples corte de madeira, o qual entendia que àquela madeira um dia iria apodrecer mesmo e não seria um simples corte bem ou mal feito que a

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livraria do destino final, além do mais, os pregos sempre é quem as uniam de verdade: – Escuta aqui gaúcho velho – disse o Armando. – A minha geração é das que acreditam que o trabalho é a única razão da existência de um homem e além do mais, respeito muito um pedaço de madeira; ao manuseá-lo, 1º deve ser acariciado nos seus veios e nós com sentimento de gratidão por sua existência, pois é neste ato que a madeira me diz como aproveitá-la melhor. Agradecimento, companheiro, é o mínimo que um homem pode sentir em consideração a uma árvore, uma matéria vegetal cuja existência consumiu anos de alimento da terra, terra que um dia, sabe-se lá, o fará também de seu alimento. Já os pregos, disse seu Armando, é uma história que vou te contar por outro lado. Você sabia que as ferragens e todos estes metais de uso corrente que o homem criou para móveis e casas, na verdade, são apenas caprichos da natureza humana para prender, grudar, dobrar, puxar e até mesmo enfeitar? – Não. – São como se fossem para distinguir às diferenças dos objetos em que serão usados, desde, nas suas mais diversas modalidades de uso, bem como espiritualmente convenha a quem o usa. – Espiritualmente? – indagou surpreso o aprendiz. – Sim. – afirma o Armando. – Quando se constrói alguma coisa ou qualquer objeto para uma pessoa, essa coisa passa a ter utilidade ou finalidade. E tudo que tem utilidade para uma pessoa tem a manifestação dos caprichos humanos, como por exemplo: a posse, o segredo, o egoísmo, a vaidade... Esses caprichos são quase sempre representados por uma simples fechadura com maçaneta colocada em uma janela ou porta qualquer. Como a gaveta da nossa cômoda, por exemplo, essa peça é como um espírito que o homem coloca nesse móvel, não é apenas para dar beleza no móvel, é também para um sentimento no objeto que se pretenda usar. – Bah! Essa eu nem imaginava – fica admirado, o ajudante. – E ai de quem duvide de um criado-mudo quando se põe a falar de segredos do leito de um casal. – finalizou o Aramando, sorrindo. Depois de alguns minutos de conversa ante aquele barulho peculiar de obra, o silêncio não cala, sim por que as batidas do martelo não davam trégua, os dois continuaram o trabalho até ao entardecer já com umas nuvens escuras lá onde se encontra o céu e a terra, um tanto ameaçadoras avançavam sobre a cidade. O vento começara a arrastar folhas, a areia cortava a pele, mas o serviço era arrematado provisoriamente com urgência para fugirem do temporal. Finalmente mais um dia longo, com o entardecer chuvoso, chegara com muita vontade de contemplar com uma agradável notícia em sua casa, era uma carta do filho, que por sinal já sem tempo, estava atrasada em uns dias. Nada o angustiava mais, do que a falta de notícias de seu filho,

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pois era filho único, amado e levara quase 19 anos de sacrifício para educá-lo. Lê a carta em voz alta diante dos olhos umedecidos, da esposa saudosa do querido filho. Sabe Armando – falou Maria: – Acho que quando nosso filho abandonou esta casa, parece que ficou um pedaço do espírito dele nesta cadeira da mesa, parece às vezes que até o enxergo fazendo os temas da escola. Como o tempo passou rápido, Armando! Sinto-me como por um amor interrompido, mas ao mesmo tempo vítima de um capricho do destino para com o nosso filho pelo mundo. O meu sentimento, é não entender o porquê de ele não trabalhar junto contigo e ainda por cima ir para esta lonjura, desabafara Maria. Armando por ser como a maioria dos pais, sempre entendem que um filho tem mesmo que buscar o seu destino, sair da barra da saia da mãe, concordara em parte com Maria e procura fugir do assunto, mas continua conversando sobre as amenidades do dia com a esposa. Janta e vai dormir com o barulhinho da chuva no zinco, sem todavia, fazer a sua costumeira oração. As semanas sumiam, os dias cada vez mais curtos, tanto na estação que mudara como na quantidade de trabalho na obra, donde de um dia para o outro tudo se amainava. Até que na metade de uma manhã de segunda feira, chega ao canteiro de obras atrasado devido à falta de madeira, pelo qual fora avisado anteriormente. Era um dia daqueles que prenunciaria calamitoso com más notícias devido à instabilidade econômica do empreendimento. Ô Andorinha! Andorinha, depressa, vem até aqui. Eram gritos de colegas o avocando. – O que foi pessoal? – responde Armando, já angustiado sem tempo para pensar. – Escuta essa... A obra foi interrompida pela gerência. – fala um dos líderes da associação de operários. – Mas por que aconteceu isso? – perguntara Armando. – Não sei, para mim é coisa séria dos chefes lá de cima! – responde outro operário. – Para mim, pelo o que eu ouvi o engenheiro falar no escritório, é alguma coisa como... “obra de orçamento esgotado”. – falou baixinho outro colega. – Ala puxa! Estamos ferrados! – lamenta-se mais outro operário. O silêncio já era de túmulo, quando de repente surge um senhor bem vestido com camisa remangada falando com uma voz bem postada: – Escutem todos: vão para suas casas e aguardem

novas

ordens, primeiro passem no escritório para cobrar.

Pronto, o cenário da via sacra de Jesus estava mostrando o caminho no rosto daqueles pobres cristãos. Todos já se postando em fila, como numa cerimônia de funeral militar, só que este era para encarar com coragem o sofrimento da injustiça, dado o improviso

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dos senhores da indústria, dos que fazem planos e mais planos em seus ofícios da insensatez vestindo gravatas. Era um anúncio como para encarar uma dor pressentida, daquelas que sacode com a gente ou até enlouquecer de vez um vivente. Foi quando um recruta da obra muito entusiasmado e sonhador, o Maneco, se apresentou ao Armando. Estava ali, como mais um futuro desempregado, já meio desesperado. E diante daquela postura ereta, aparentando inabalável confiança com uma dignidade imperturbável, não perdeu a chance de uma conversa com aquele senhor meio indiferente a tudo com uma aparência preenchida de paz espiritual. Aquela atitude fria remexiam os brios do Maneco, que numa fila de longa espera, resolve então indagar aquele senhor. Estendeu-lhe a mão dizendo seu nome num gesto solidário e não se atreveu a interrompê-lo do silêncio, afinal a dor era por todos sentida na mesma intensidade, porém diferente nas consequências para cada um deles. O dia desta vez fora perdido e mais sentido ainda com um silêncio no pisar dos operários como se estivessem descalços nas pedras. Era assim visto e sentido os passos dos operários em direção ao portão de saída da obra, alguns até meio sem rumo. Muitos até ficaram indecisos para ultrapassa-lo. Mas o Maneco, nestas alturas já estava meio que anestesiado pela má notícia, porque o Armando passou-lhe sem ele saber, uma espécie de sentimento de aceitação de que a circunstância era passageira e esperançosa, pois ele tinha em mente os ensinamentos da sua única leitura como base na obra de seu autor preferido, Machado de Assis: “Assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim também é de boa prática social acautelar um ofício para a hipótese de que os outros falhem, ou não indenizem suficientemente o esforço da nossa ambição” Assim era o seu caráter, no pensar, no agir. Sem escola formal, porém educado em livros, na sua carpintaria da vida e, tão forte ao tempo como a madeira de lei no esteio de uma casa. Os dias se sucederam com as chuvas de inverno e todos iam vivendo um dia de cada vez sem o pão que madrugava nos fornos. Até que veio a resposta definitiva para todos via notícia de boca em boca. A empresa dissolvera, mas que as obras continuariam com uma pequena parte dos operários, uma vez que a parte de carpintaria estaria encerrada, pois o revestimento das paredes seria agora de estuque deployê, com argamassa executado por pedreiros até o acabamento final, enterrando assim a esperança e o sonho de cada família de carpinteiros que dali tirava o pão de cada dia. Armando, como por um breve alívio e de costume, recebera mais uma carta do filho contando-lhe maravilhas do lugar de onde vivia, eram notícias boas do seu

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emprego e que havia construído uma casa com duzentos sacos de cimento, demonstrando assim na carta, muito contentamento. Aquelas notícias alegraram e confortavam muito o Armando e a Maria: – Bem! Pelo menos o nosso filho está empregado... está progredindo. – suspiravam os dois com satisfação. – Para nós, Maria, não poderia ser melhor ver o nosso filho encaminhado neste mundo. – Que maravilha Armando, mas eu preciso te dar uma notícia. – O que foi? – Acho que vamos ter outro filho. – Bem, dizer o quê, Deus é astuto, mas é honesto. – Precisamos providenciar um berço... – Deixa para lá Maria, mais tarde a gente conversa. – diz apressado já de saída para a rua, estava entusiasmado com a possibilidade de um trabalho. A primavera chegara e Maneco encontra o Armando entabulando conversa com um e com outro por notícias de emprego, quem sabe, de um serviço temporário ou um reparo qualquer. Maneco se aproxima, comenta os maus momentos que vivem. E conversa vai, conversa vem, ele conta a sua história ao Armando, que confrontada com a dele, era muito pequena, a não ser pelo seu desejo profundo de ser alguém na vida: um carpinteiro. E quem sabe, mais tarde até um poeta. Nesse bate papo, o Armando o provoca brincando: – Escuta futuro carpinteiro, ser carpinteiro é fácil, já ensinei muita coisa para ti, mas vou te adiantar que a poesia pertence a quem a usa na vida e não a quem a escreve. – É! Espero que um dia eu consiga escrever a sua e a minha vida com os nossos sonhos realizados. – concordou surpreso o Maneco com o incentivo incomum do Armando. – Por acaso já fizeste algum poema Maneco? – Ah sim! Veja esta que fiz em homenagem ao meu pai que é carroceiro, se chama CARROÇAS DA MINHA VIDA: A carroça é um sonho sem futuro Um carro de madeira sem destino Carregando sinas de toda uma vida! A carroça da minha rua É mais que o andar de uma mula É vida viva do meu dia-a-dia Do leite servido num copo Do padeiro e dos cubeiros! Sei que a carroça Um dia vai acabar Como naus que não chegam ao porto Por isso gosto dela, todos os dias!

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Ah! Carroça da minha rua É mais que uma alegria É o meu alimento num caminho Móvel das minhas esperas... Uma poesia na minha vida! Que beleza companheiro! – soltando um sorriso discreto e colocando a mão no ombro do Maneco, completa: – Só não te esquece, que as folhas de um livro, um dia tiveram vida e as palavras impressas nelas serão eternas. – Obrigado. E assim terminam a tarde conversando sobre planos de trabalho, finalizando o bate-papo e se despedindo com um até logo para se encontrarem no outro dia. Como

flores

que

brotam

na

primavera, as soluções do cotidiano vão se normalizando, até que conseguem por informações de amigos, um recado de que o padre andava a procura de um carpinteiro para uma tarefa bastante gratificante. Era para fazer o telhado da nova igreja e também fazer uma escada de acesso ao coro. O que mais o Armando poderia querer? Afinal eram tempos difíceis, o serviço era num lugar de paz, bastante trabalhoso nos detalhes de bom acabamento e garantiria o sustento deles por algum bom tempo. Trata o serviço com o padre, chama o Maneco para ajudá-lo, os trabalhos se iniciaram sem imprevistos, com muita conversa entre ambos sobre filosofia de carpinteiro, especificamente é claro. Sempre falando com detalhes do trato com a madeira, desde o cheiro do serrim para identificá-la, até as explicações da função de uma ferramenta. Explicava o Armando: – Um martelo não teria função no mundo caso não existissem pregos para ele martelar, e mesmo assim, continuaria sem função se um homem se limitasse apenas em usá-lo a esmo, sem concentração, em vez de fazer com que o martelo se entregasse a mão firme do carpinteiro. Enterram-se pregos de preferência em apenas em dois ou três golpes certeiros. Ou seja, o martelo tem que agir entregando-se à vontade do carpinteiro. E não o inverso. – advertia. – Acho que entendi esta lição do emprego da força do martelo. – disse o Maneco meio receoso de não o ter compreendido corretamente.

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Deste modo passavam os dias trabalhando e contando causos na igreja: – Sabe Maneco, dizem que o hábito de bater na madeira para afugentar a má sorte tem origem ancestral. – É? – As árvores eram reverenciadas como elementos sagrados, uma espécie de ligação entre o céu e a terra, e, além disso, como morada dos deuses. Assim, para penitenciarem-se de culpas ou para invocar a divindade, os antigos batiam nas árvores. E depois o costume se estendeu para qualquer objeto de madeira. – Mas que bem seu Armando! Falou admirado, o Maneco. – E o lápis seu Armando, o que o senhor tem a dizer desta simplicidade que tanto nos serve para marcarmos os cortes? – Bem... Aí parece um objeto simples, mas não é bem assim, é uma complexa simplicidade. Um lápis é o resultado da combinação de esforços de inúmeras pessoas trabalhando de forma autônoma, independente, talvez se queira sem saber o que estão produzindo. Da extração da madeira e grafite, passando pela produção da cola, da tinta, da borracha que vai numa ponta até que finalmente, combinam-se os produtos na construção de um simples lápis que custa menos que um caramelo. Concorda o Maneco: – É! E o lápis de grafite, daqueles lápis comuns de madeira, conhecidos de todas as crianças e adultos que sabem ler e escrever? – Um mistério. – rezinga o Armando. – Mais do que uma árvore ou um pôr do sol ou até mesmo um relâmpago. Mas, infelizmente, não é devidamente considerado por aqueles que o usam, que o veem como se ele fosse uma mera ocorrência natural sem todo um histórico de experiências. Essa atitude desdenhosa relega-me ao nível da trivialidade. – Como seu Armando? – Te explico, esse é um tipo de erro lamentável no qual a humanidade não pode persistir por muito tempo sem riscos. É como o sábio Gilbert Keith Chesterton observou, um escritor inglês conhecido como o príncipe do paradoxo, que nasceu em 1874:"Nossa decadência vem da falta de encanto, de maravilhas." Um Lápis, apesar de parecer simples, merece todo seu maravilhamento e espanto. Na verdade, ele pode ajudar a salvar a liberdade que a humanidade está infelizmente perdendo. Ele tem uma lição profunda a ensinar. E pode ensinar melhor do que um automóvel ou um avião ou uma máquina de escrever por que... bem, porque é simples. – Simples? – indaga o Maneco. – Sim! E mesmo assim, não há uma única pessoa na face da terra que consiga produzi-lo sozinho. – Parece fantástico, não? – É! – Especialmente quando não há muito que contemplar: há um pouco de madeira, verniz, a marca impressa, a ponta de grafite, e às vezes, uma borracha enfiada na outra ponta. E lógico, um pouco de sonho e liberdade na mão de quem o segura... – Agora entendi. – responde o Maneco olhando para porta que rangia.

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E assim continuam a trabalhar, até que de repente àquela conversa entre pancadas na madeira foram ficando bem baixinho diante de um soluço feminino. Eram os sentimentos esparramados de uma moça bem em frente ao altar. Seu Armando olha surpreso para os lados, como que se perguntando o que estaria acontecendo e depois localiza pelo canto da vista, uma jovenzinha de aparência muito frágil, debruçada por cima do banco bem em frente ao altar como toalha mal posta em mesa de boteco. Estava num pranto compassivo de dar dó. Apavorados, os dois aproximam-se dela cautelosamente sem dar um pio sequer. Armando senta-se timidamente ao lado dela com curiosidade e pergunta com doçura: – Que mal tanto lhe aflige mocinha? Ela nada responde, escondendo o rostinho entre os braços ensopados de lágrimas. Então, ele com uma expressão de compaixão, pede para o Maneco alcançar um copo d’água e que chamasse o padre urgente. O Maneco atende prontamente e depois de alguns instantes de procura, não consegue localizar o padre, mas avista um bilhete na sacristia dizendo que ele estaria de volta no final da tarde. Volta rapidamente com o copo d’água e encontra os dois conversando sob admirável emoção fraternal. Contava a jovem que se chamava Nanci, tinha um pai ferreiro das tropas da Guarda Nacional (foi uma força paramilitar da cidade organizada por lei no Brasil durante o período regencial, em agosto de 1831, para servir de "sentinela da constituição jurada", e desmobilizada em setembro de 1922) e que era muito bravo. Contou que o seu pai a advertira várias vezes: preferiria vê-la morta a fizesse passar vergonha. Não queria ficar grávida, exclamava chorando copiosamente. Se acalme, articulava Armando. – Mas, e o seu namorado? – Não sei, ele foi embora para outra cidade com medo do meu pai. – Como assim foi embora? – Ele disse que conseguiria um emprego e depois me chamaria para casar e criar o nosso neném. Enfim, não havia consolo que chegasse, alegava que não podia se conformar com um ser crescendo dentro dela, que estava com muito medo, que era muito jovem e que ela e o namorado não tinham como dizer aos pais porque seriam duramente repreendidos ou algo mais grave poderia acontecer devido à cólera do seu pai, assim lamentava-se lacrimejando. – Gostaria de tirá-lo de dentro de mim, como vou resolver isso? – perguntava para a Nossa Senhora, no altar desesperada. Mas o Armando insistia: – Minha filha, o que tu tens aí dentro de ti, não te pertence, pertence ao mundo. – Como pertence ao mundo? – pergunta ela com os olhos estalados. – Sim! ... Você não tem o direito de tirar uma vida que é sagrada e que por isso pertence à humanidade, isso vai te atormentar o resto da tua vida. – Como vou fazer para criá-lo? – responde ela

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inocentemente aflita. – Há! Temos que enfrentar a vida, conforme vamos caminhando com ela. – responde o Armando. E continua com sua bondosa mansidão: – O segredo é ser paciente como os agricultores, eles sabem que um dia sempre vem a chuva, que no outro o sol e que depois a colheita. A nós cabe apenas plantar, pois um dia colheremos. – Mas eu vivo numa cidade pequena com os meus pais e eles vão me matar se souberem. – argumenta a menina. – Me dói muito fazer os meus pais sofrem por um erro meu. – Não te preocupes, se não conseguires o perdão dos teus pais então eles também estarão infringindo uma lei sagrada. – Sabe Nanci, há, em minha opinião, duas espécies de dores: as do coração, legítimas e santas, e as do orgulho, baixas e desprezíveis. Portanto, pense nisso, reze e vá para casa e espere um momento ideal e conte aos seus pais, pois a dor por mais cruel que seja, sempre poderá ser consolada. Verás, que daqui a alguns anos tudo terá passado e as feridas curadas. Depois de um silêncio sepulcral e lágrimas mais enfraquecidas, ela bem mais calma e com mais coragem começa a secar o rosto com o dorso das mãos. Já confortada, se despede muito agradecida, desaparecendo entre a luz do sol intensa vinda da porta entreaberta. O Maneco se sentindo mais aliviado por aquela situação vivida em um lugar tão sagrado como aquele, retorna aos poucos ao seu trabalho rotineiro, enquanto que o Armando se dirige até a porta para receber o padre que chegava meio afoito com o semblante extasiado. Coloca as mãos na cintura, elogiando admirado pelo acabamento final na escadaria de acesso ao coro: – Que capricho! E para completar não vejo um único prego aparecendo. – Não têm pregos Padre. Disse Armando timidamente contente. – É! Acho que o Senhor abençoou suas mãos. – respondeu o padre. – É! Acho que eu também me considero abençoado pelo ofício que tenho seu vigário. – completou Armando com certa emoção no olhar. – Tudo é harmônico e deslumbrante seu Armando, ela está ocupando um mínimo de espaço. Ela se eleva graciosamente como se dirigisse ao céu. – falava o padre sem cansar de se maravilhar. E assim, mais tarde a tal escada viraria uma história tão surpreendente quanto encantadora e o padre a justificaria por inteiro uma devoção popular como Escada Milagrosa. Depois de algum tempo de conversa jogada fora, recebe um adiantamento, o padre se recolhe para a sacristia e o seu Armando chama o Maneco: – Vem cá! Vamos indo companheiro comemorar com um trago no armazém do seu Felício, amanhã teremos que vir mais cedo, vamos ter que praticamente desmanchar o telhado e ele terá

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que ficar coberto por uma lona no final do dia. E se foram a passos cansados, porém realizados. Na primeira hora da manhã, como de costume, Armando preparava o mate na cozinha juntamente com esposa Maria, quando de repente escutam um estrondo na janela da sala e correm para ver o que estava acontecendo. Surpresos, veem uma pomba negra debatendo-se contra o vidro, como que querendo entrar. Armando abre a janela rapidamente, porém a pomba se afasta. Ah! Não é nada Maria, isso é comum aos pássaros, costumam se confundir diante de seu reflexo num vidro. – diz Armando sem dar muita importância. Terminam de preparar o chimarrão e vão se sentar na varanda da casa a desfrutá-lo. E para interromper a conversa dos dois, eis que vem a pomba novamente a se mostrar atrevidamente, só que pousa num dos braços entre as cadeiras deles, parecia, bem mansinha, dócil até demais, no entendimento dos dois. Armando e Maria então acariciam ternamente a cabecinha da avezinha sentindo uma forte emoção. – Mas que estranho Armando? – exclama Maria intrigada com o inusitado. – Viste que ela não teve medo de nós Armando? – Pois é, muito estranho, até parece que este animalzinho quer nos dizer alguma coisa! – responde o Armando, sentindo o coração palpitar de anseio. Nisso, repentinamente ela levanta voo até o galho da árvore da calçada, de lá fica que como a observá-los por um instante, dá umas duas voltas no galho, remonta voo ao mesmo tempo e some entre as árvores. O casal fica ali, extasiado, como que a espera de um novo desfecho mais explicável. Mas não, só a do leiteiro anunciando o dia com o seu leite fresquinho, bem como o café matinal que precisava ser servido antes que ficasse tarde. No decorrer dos dias a vida do lar e o serviço transcorrem normalmente, mas ele perde metade do tempo daquele dia amolando suas ferramentas com a precisão necessária e em total meditação para espantar os maus pensamentos. Tentava concentrar energia espiritual em busca da perfeição da carpintaria, era como uma saga poética do ofício, até que em uma manhã qualquer no final da primavera, onde se anunciara com a cantoria alegre dos pássaros por mais um dia feliz, o sol revelava matizes do vigor do verde das árvores, despertando um dos melhores momentos da natureza. Maneco observara que o Armando, desde a primeira hora do dia, mal podia com o peso do seu próprio corpo, logo ficou se indagando, o que teria acontecido. O Maneco preocupado toma coragem e pergunto com um tom de voz alegre: – O que houve seu Andorinha? O senhor não acha que o dia está lindo? Ele responde suspirando de ansiedade: – Estaria se eu conseguisse esquecer este pressentimento ruim de dentro de mim. – Que

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bobagem... Ora! Pressentimento ruim que nada – diz o Maneco tentando animá-lo. – Não! É verdade sim, o meu filho sempre escreveu pontualmente todo o final de mês e agora a mais de três meses não manda notícia. A Maria e eu não sabemos se quer se ele recebeu a notícia de que ela está grávida de meses. – Mas que maravilha seu Armando! E o senhor nem me disse nada que estão para receber um bebê. – É, é meio temporão como eu fui. – Mas que bom! Não se preocupe logo-logo vocês vão receber notícias. – Deus lhe ouça amigo! – suspirou o Armando um pouco mais aliviado. Depois não tocaram mais no assunto, e o Maneco se distraía encantado com a paisagem vista do alto do telhado da igreja: o pipoqueiro com seu carrinho, as pessoas apressadas, o sol que ia se escondendo atrás da prefeitura e dos demais prédios que abraçavam a praça. Tudo parecia mais belo e atraente lá de cima, até que em um determinado momento, sua visão se detém numa cena não muito agradável, era o jardineiro da praça xingando uma senhora de idade, ela chorava em pé, com o rosto escondido entre os braços apoiados numa palmeira. Como

o

serviço já estava se

encerrando,

deu um até logo para o Armando, desceu do telhado ligeiro indagar

e

foi do

jardineiro o que acontecera, pois era do seu temperamento, não sabia se pelo espírito de poeta que brotava dos seus poros ou se era curiosidade mesmo. – Como vai amigo, tudo bem? – perguntou o Maneco educadamente. – Tudo mais ou menos. Respondeu meio indiferente o jardineiro. Ele sem entender nada, puxa mais conversa até conseguir perguntar o que teria acontecido, explicou que estava no telhado da igreja trabalhando e havia observado que o fato lhe chamara a atenção naquela praça. – O senhor tem um tempinho? – indaga o jardineiro. – Sim, respondeu Maneco. – Então vou lhe contar tudinho. E o Maneco fica na escuta bem atento. – Pois bem! – continua o jardineiro: – Eu estava terminando este plantio de flores, que o senhor está vendo aí todo pisoteado e reparo que aquela senhora vinha em minha direção falando sozinha e gesticulando muito, quando de repente sobe no meu canteiro e se agarra nesta palmeira aí, a que o D.

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Pedro II plantou em 1865 quando da sua visita na cidade! – Sim, continue... – falou o Maneco ansioso pela história. – Pois é! Ao repreendê-la pelo mal feito, a pobre senhora começou a chorar muito e eu me assustei. – disse o jardineiro. – Por que ela chorava? Perguntou o Maneco jardineiro. – A verdade é que a pobre senhora estava transtornada porque acabara de saber que seu filho havia falecido por causa de uma queda daquela chaminé, lá! E apontou na direção da chaminé da cervejaria Gazapina que estava sendo construída. – Que horrível! E o que o senhor disse a ela? Perguntou Maneco comovido com a discrição do jardineiro pela dor da mãe. – A única coisa que me ocorreu, foi a de inventar uma história que a confortasse um pouco. – E o que o senhor disse? – Disse-lhe que o espírito de uma pessoa ao morrer voa junto à alma de um pombo como estes que estão aí nesta árvore. O Maneco olha para cima e observa que vários deles estão perfilados, todos juntinhos num galho, atentos com a charla deles, como se estivessem escutando a conversa. – E ela acreditou? Perguntou Maneco admirado. – Custou um pouco, mas eu a convenci que o seu filho, sabe-se lá, quem possa saber, talvez que ele estivesse mesmo voado livremente neste momento com esses pombinhos todos aí... ó! Afinal quem de nós não gostaria desta liberdade? – finalizou o jardineiro teatralmente com os braços abertos. – Está bem! – concorda emocionado o Maneco com a história. No entendimento do Maneco, aquela senhora precisava tanto de uma palavra de conforto, que a história do jardineiro a encantara, aliviando-a daquele sofrimento e ainda fez com que o Maneco ganhasse o dia com chave de ouro pela solidariedade compartilhada, sem contar a lição de vida que o jardineiro lhe proporcionou. Despediuse daquele senhor maravilhoso com um aperto de mão e começou a andar. Saiu dali surpreso com tamanha sabedoria de uma pessoa tão simples quanto aquela. Aliás, já era a segunda pessoa especial que ele conhecera naquele ano. Pensava consigo há caminho de casa em passos contemplativos e a tudo o que lhe cercara naquele momento ao longo do percurso. Ali, exatamente naquele local, começaria uma nova vida para o Maneco, pois lhe despertara a consciência de que não olharia mais a natureza se perguntando por que às vezes estava só, olharia agradecendo-a por estar desfrutando-a. Quem conhece e experimenta a doçura de pessoas puras com suas histórias de amor pelo mundo, vê que nada mais neste mundo tem importância sem o amor, como o amor de Jesus pela humanidade. Foi tão grande esse amor, que sacudiu estrelas e impérios mudando a história dos homens. Normalmente as pessoas creem que neste mundo a nossa missão é

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só trabalhar para adquirir bens. Esquecem, muitas vezes creem, que a nossa missão é simples, fácil e sem riscos, mas não é. Muitas vezes sofrem por travar uma luta com um inimigo que é a parte má delas mesmas, esse conflito interno de um lado bom contra o lado mau, significa risos e piadas das pessoas que convivem, por parecerem contraditórias. Isso lhes rouba as forças criativas à procura de histórias que revelem o seu lado bom, e assim ganharem energias criadoras para um desenvolvimento afetivo, contemplativo, poético, romântico, sonhador, contestador, ecológico, rebelde, político... Porém com uma felicidade emprestada para o bem da sua vida. Enfim, tudo isso fervia na cabeça do Maneco, revelando o seu verdadeiro estado espiritual diante do mundo. Depois de matutar até cansar, o Maneco vai dormir mais cedo, pois o novo dia seria longo devido ao tamanho da obra. No outro dia então, acordara mais disposto e ansioso para chegar logo ao trabalho, estava louco para encontrar o Armando no serviço e comentar do acontecido na praça. Armando também, chegara mais leve ao trabalho, pois tinha resolvido com Maria que ao terminar o serviço da igreja, iria dar uma esticadinha até a capital do Estado, onde estava morando seu filho e saber o que estaria acontecendo. No trabalho, Armando notara mudanças no estado de espírito do seu ajudante pelo assobio alegre enquanto preparava as ferramentas. – Ué! Que bicho te mordeu rapaz? – O senhor nem imagina seu Armando, o fato que presenciei ontem lá na praça, o jardineiro dela me contou uma história admirável. – É? Então me conte! O Maneco relata tudo enquanto enfrentavam alguns contratempos na tarefa árdua de acomodar uma nova tesoura no telhado. Logo, com eloquência termina de contar a história. – Mas que bom ouvir essa linda história de ti companheiro! Acho que tu já estás pronto para eu te passar o resto dos segredos da carpintaria e mais, se tu te empenhares, te transformarei no meu sucessor do ofício... Maneco surpreso, diz: – Mas vai ser uma honra ser um carpinteiro como o senhor. Só não entendi o porquê, de ser o seu sucessor, o senhor tem um filho trabalhando na capital e outro a caminho para lhe herdarem a profissão. – Nisso tu está certo, mas a verdade é que o meu filho Dorval lá na capital nunca quis trabalhar comigo e o que vem vindo, quando chegar a hora de trabalhar, já estarei meio velho e nem sei se estarei vivo para ensiná-lo. – Que velho nada seu Armando! Mas se é para contentá-lo, o senhor pode esperar o máximo de mim. – Só tem uma condição que te empenho Maneco. – E qual é essa condição seu Armando? – A de que, se um dia não puder ensinar este ofício aos meus filhos, que não lhe falte a mesma vontade que agora te

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transfiro para instruí-los ou orientá-los. – Está feito! O senhor pode ficar sossegado! Compromete-se o Maneco efusivamente. Desde

aqueles

momentos,

os

dois

transformaram-se em uma espécie de amigos da terra, da vida e da espiritualidade mutua também, inclusive na curiosidade, pois os dois não deixaram de notar pelo lado de fora da igreja, que havia umas faixas curvas em alto relevo em alvenaria, na parte superior das janelas da sacristia, nelas continham imagens de demônios e dragões como ornamento.

Indagavam-se com

curiosidade, se isso não seria um sacrilégio do padre, no entanto os dias transcorrem tão atravancados de serviço que se esqueceram de perguntar ao padre. Até que chegou o dia de entregar o serviço do telhado, onde o padre muito contente admira o trabalho impecável, inclusive com a limpeza de tudo a volta da igreja. Inclusive com as sobras de escombros empilhados num canto isolado, pronto para o transporte. – Seu Armando! – chamou o padre. – Quero lhe apresentar este senhor! – Pois não! – responde vindo em sua direção e já estendendo a mão timidamente ao estranho. – O senhor não é o famoso Andorinha? – pergunta o estranho. – Sim senhor, ao seu dispor! – rebate Armando meio curioso. – Não me leve a mal chamá-lo assim, é só admiração minha pelo seu trabalho. Não sei se o senhor sabe, o seu talento e capricho é falado em todo o lugar que ando. – Não me diga! – disse surpreso o Armando. – Mas em que eu posso lhe ser útil? – Muito seu Armando! Muito! Eu quero contratar o seu talentoso serviço para a construção de uma ponte muito especial... O padre neste instante interfere e põe o seu Armando a par da situação, informando-o de tão distinto católico e colaborador de muitos anos daquela paróquia. Desculpa-se e se afasta para deixar os dois conversarem, pois alguns fiéis se aproximavam da igreja naquele instante para ver a tão falada escada do coro. Pois é, continuando o nosso assunto, o que eu quero do senhor é uma ponte num lugarzinho lá no interior pelas bandas da Coxilha Negra. O detalhe é o seguinte: é muito especial para mim, é uma ponte que tem que ser de madeira de lei, evidentemente, e que tenha um vão livre inteiro todo encaixado com um bom acabamento. – O Senhor já tem a madeira cortada e curada? – Não. – Muito bem, mas eu vou precisar de um esboço e tirar as medidas certas, para fazer um orçamento. – Não tem problema. – Amanhã o senhor me pega lá na minha casa e vamos até a sua propriedade para fazermos um rascunho e

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calcular a madeira necessária. Teremos que mandar cortá-la e deixá-la curar na água por no mínimo uns três meses. – Não se preocupe, faremos isso – responde contente o velho fazendeiro: – Adianto-lhe que farei o serviço depois da minha viagem a capital para tratar de um assunto familiar. Enquanto isso deixe a madeira ficar se curando. – Sem dúvida, concordo. – Muito bem! – Mas qual é mesmo seu nome? – Augusto Pereira de Carvalho, mas pode me chamar de Coronel, afinal aqui nestas bandas é o nome que todo mundo me conhece porque fui coronel da Guarda Nacional. – Muito bem seu Coronel, está bem, vou viajar por umas semanas, enquanto isso eu lhe deixo a lista de ferragem para o senhor ir providenciando. Depois da volta ainda vou tirar um tempo para mim lá em casa, é que vou iniciar a construção da minha casa. Mas vou manter contato com o senhor sim. – Combinado, o meu serviço não é nenhuma sangria desatada mesmo, vou lhe esperar. Tudo combinado, se despediram simpaticamente

e

o

Armando

juntamente com Maneco acertam o pagamento final do trabalho da igreja com Armando

o padre, não

mas o

esquece

de

questioná-lo a respeito daqueles demônios

acima

das

janelas

laterais da igreja: – Padre, por mal não lhe pergunto, mas por que o senhor mandou colocar esses demônios decorativos nas janelas? Num lugar sagrado tão como esse! – Ah sim! Já lhe explico meu filho: Isso são gárgulas usadas nas igrejas desde os tempos medievais. – Mas o que significam? – Acredita-se que as gárgulas eram colocadas nas Catedrais para indicar que o demônio nunca dormia, exigindo a vigilância contínua das pessoas, mesmo nos locais sagrados. Tem uma lenda francesa, gira em torno do nome de São Romano (641 D.C), primeiro chanceler do rei merovíngio Clotário II, que foi feito bispo de Ruão. A história relata como ele e mais um prisioneiro voluntário derrotaram "Gárgula", (La Gargouille), um dragão do rio (ou serpente do rio) que vivia nos pântanos da margem esquerda no rio Sena, em Rião, e que afundava os barcos e comia as pessoas e os animais da região. Um dia, o bispo atraiu a Gárgula para fora do rio com um crucifixo, e usando seu lenço como cabresto, levou o monstro até à praça principal. Lá, os aldeões a queimaram até a morte. Apesar de a maioria ser figuras grotescas, o termo gárgula inclui todo o tipo de

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imagem. Algumas gárgulas são esculpidas como monges, outras combinando animais reais e pessoas, e muitas são cômicas. – Ah, está bem padre, ainda bem que o senhor nos explicou direitinho. – É, que alívio! – suspira o Maneco. Despedem-se do padre e combinam uns trabalhos pequenos que o Maneco conseguira a caminho de casa. Armando deixava fluir um contentamento que lhe escapava os poros com uma mistura de emoção e ansiedade, estava impaciente para dividir com a mulher uma prosperidade que se lhe avizinhava, e essa prosperidade, não era mais condensada em sentimento de realização pessoal, isso porque lá no fundo do seu peito existia uma dorzinha incomoda, a do seu filho que não estava junto deles e sim num lugar distante sem dar notícias. – Sabe Maneco, falando com a voz embargada: – O ofício de um homem é como uma religião, se desobedecê-lo, significa a morte. – A morte seu Armando? Como assim... a morte? – Veja eu por exemplo, a cada trabalho executado por mim, é como se fosse minha obra filosofal. – Ah!... Quer dizer então, que não há explicações concretas, quando simplesmente buscamos ser melhor do que somos e tudo em nossa volta se tornará melhor também. – responde Maneco, num tom também filosofal. – É isso mesmo companheiro, o mundo não precisa de explicações, porque o universo não pede explicações a nós vivente para nos deixar girar em cima de um planeta por este colossal espaço sideral sem fim... Os dois conversaram tanto na caminhada que quando se deram conta estavam chegando à esquina que separava seus trajetos de suas casas. Despediram-se com mil e uma recomendação, onde Maneco desejou uma boa viagem e que o reencontro com o filho fosse de pura satisfação sem nenhum tipo de impedimento. Passados dois dias, a cidade de Livramento despertara para suas horas de trabalho coxilhas afora, de amores perdidos, com seus sonhos escondido e lógico, a livreta da venda a pagar. E seu Armando e Maria amanhecidos com planos e mais planos discutidos nos mínimos detalhes durante os últimos dias e toda a noite passada, na perspectiva da viagem para o encontro com o filho na capital. Afinal de contas, era uma viagem muito longa, dispendiosa, com quase um dia dentro de um trem e nada poderia ser esquecido como o doce de leite, o queijo contrabandeado do Uruguai e tudo mais que uma mãe tem direito para paparicar o seu eterno filhinho. No outro dia o trem Livramento/Porto Alegre encostou às 7h na estação cuja linha fora inaugurada em 1910, foi o primeiro a encontrar seu lugar no vagão. Fechou os olhos e respirou fundo para espantar a ansiedade e pronto, despede-se de Maria com um longo abraço e olhar lagrimejante. Na estação uma agradável surpresa, os vizinhos

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abanando e o Maneco que corria ao lado do trem, gritando para que ele não se preocupasse com a D. Maria, pois estaria atento para o que ela necessitasse. A sensação de partir para uma suposta liberdade, no sentido de que o inusitado poderia surpreendê-lo no final da jornada, era angustiante naquele momento, mas depois de alguns quilômetros, o mundo falava com ele através das paisagens que corriam pela janela do trem numa linguagem que o transportava para as lembranças passadas e do amor das pessoas que eram capazes de entendê-lo em seus corações. Para ele, a mais pura manifestação do mundo às pessoas da terra, era entender que o mundo falava com elas através do amor de uns pelos outros com princípios a nortear o pensar reto, o agir reto, o falar reto, interligando-se assim espiritualmente para infinitas pessoas e infinitas coisas apenas na confiança mútua. Com a paciência de um carpinteiro, que sabe que sempre antes de cortar a madeira precisa medir duas vezes para não errar, o ofício atolou sua mente em reflexivos pensamentos a desfrutar o desfecho da viagem encantado pela imensidão do pampa, pois nunca tinha parado para pensar na possibilidade de uma jornada dessas, a não ser pelas circunstâncias do sonho de seu filho, e filhos, todos sabem, são como desejos que se realizam, ou seja, da mesma maneira que a árvore velha se quebra, não quer dizer que ela não teve o seu valor na continuação pelos brotos, ou se olharmos ela ao sol e observarmos a fotossíntese e observar as pequenas plantinhas, são da velha árvore as sementes que espalhou. Achava seu Armando que é nesse sentimento de amor de um pai, que muitas vezes a autoridade se engana como uma árvore velha ou um filho. Às vezes não se sabe reconhecer isso, mas também achava ele, que é a insegurança dos pais para educar um filho poderia não ser justo, é que a vida das crianças não é fenomenal, pois toda a criança nasce feliz, igual e em total inocência. Nós, adultos é que não temos habilidade para dizer mais ‘sim’ do que ‘não’ a elas. De repente, como que se estivesse acordado de um verdadeiro transe, com esses pensamentos todos, depara-se que os passageiros começaram quase que ao mesmo tempo levantar-se das suas poltronas, era a primeira parada do trem para colocar água na caldeira do trem e o embarque e desembarque de passageiros. Naquela confusão toda, por uma falta de costume, teve que pedir orientação ao fiscal da estação, como ele deveria proceder para localizar o outro trem, o que de pronto foi atendido. – Mas o

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senhor não precisava descer é o mesmo trem que o levará até a capital. – explicara-lhe o guarda da estação, advertindo-o: – Suba, suba, antes que o trem parta! Mas naquela balbúrdia toda, pega-mala, solta-mala, ele já meio nervoso, indagava de um, conversava com outro, ficou um pouco desatento e quando se deu conta, eis a pergunta que se fez: – E as minhas malas? Procurava aqui, procurava ali e nada. Roubaram as malas do seu Armando. Ai meu Deus! Exclama passando a mão na cabeça meio atordoado. Que vou fazer agora, sem os presentes da Maria para o nosso filho? Como vou chegar lá de mãos vazias? O quê que eu faço meu Deus? Aquela situação toda era de tamanho desespero, que ele andava em volta na plataforma da estação como um autômato, não sabia se continuava ou chorava de raiva e ainda por cima não enxergava nenhuma pessoa conhecida para ajudá-lo, a segurança e o guarda não resolveram nada. Até que logo seu sofrimento é interrompido pela última chamada com o apito do trem – E aí senhor passageiro, o que o senhor decide? Vai embarcar ou vai ficar? E ele ainda se sentindo oco da cabeça só se lamentava. – Felizmente o senhor ainda têm as passagens e seus pertences pessoais. Insiste o guarda ferroviário consolando o Armando. – É, pensando bem, vou continuar chefe, diz com a voz embargada, pois ele não se achava merecedor de tão humilhante acontecimento. Dentro do trem, sentado incomodamente pelo profundo mal-estar que o dominava, repara que ao seu lado sentara um novo companheiro de banco, um senhor de meia idade com uma aparência simples como a dele. Este o observava com atenção e que a sua vontade de falar era bloqueada por um sentimento de solidariedade, mas não se contém e fala soltando uma voz rouca e colocando a mão no ombro do seu Armando: – Não há de ser nada companheiro! Eu sei que existem coisas muito piores neste mundo seu...? Dá uma pausa e se apresenta soltando uma voz rouca e estendendo a mão ao Armando: Manoel! A seu dispor! – Há! Muito prazer: Armando. – Mas como eu estava lhe dizendo, esta viagem não é um passeio qualquer, é como se fosse à ressurreição de um tempo perdido entre eu e o resgate de um filho quase perdido para o mundo, desabafara Armando quase inconscientemente àquele senhor desconhecido. Como em toda longa viagem que se preze, a conversa entre os dois é ampla como as coxilhas que se perdiam de vista pela janela do trem. O Armando agradece a solidariedade do desconhecido amigo, aonde invadido pela exaustão, adormece um pouco, depois acorda e a conversa dos dois passageiros se intensifica. Um conta a vida do outro e assim o mundo vai acomodando as coisas a sua maneira. Ou seja, sempre há um ser humano ao nosso lado para ajudar-nos, nós é que não nos permitimos baixar a

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guarda, por medo de expormos nossas fragilidades. É como se todo o dia fosse feito para viver ou para abandonar o mundo. A viagem assim ficou rápida com o coração acelerado pelo suspense, quando se deram conta, estavam a pouco mais de hora da chegada à capital. Depois de se espreguiçar com o corpo todo dolorido e a metade dos passageiros já desembarcando, lembrara-se de que teria que fazer uma higiene, para não enfrentar algum imprevisto, claro. Apenas fez xixi e se deu uma lavada. Era como se aquilo tudo não estivesse acontecendo com ele, pois a sua rotina de vida era de apenas trabalhar e não se sentir sem rumo e desorientado com uma jornada, a não ser pelo propósito firme de rever o filho. Chegam à central de trem de Porto Alegre, descem conversando estendendo as mãos para despedirem-se. Neste momento, o Manoel, num ímpeto inesperado, põe a mão no peito

do

seu

Armando

interrompendo

a

conversa: – Escute só, acabo de me lembrar de uma coisa! Apesar de esta foto estar um pouco diferente acho que conheci um rapaz com estas descrições do seu filho, nós trabalhávamos na mesma empresa a um ano atrás, mais ou menos. Só que eu era motorista. – Não pode ser! – Será que este mundo é tão pequeno assim seu Manoel? Reponde o Armando interrogativamente surpreso. – Que pequeno nada, isso é a força espiritual de um pai e essa força é captada do universo amigo. Deixa nós chegarmos lá no meu endereço, que eu vou até a firma onde trabalhei e vamos confirmar isso, reafirma o Manoel. – Eu tenho o endereço dele aqui, olhe! – Ah! Deixe-me ver isso direito. Hummm!... Não tenho muita certeza não, mas acho que esse endereço aí é lá dos correios, o senhor não viu aí que está inclusive o número da caixa postal. – Pois é, mas é tanto carimbo, selo e números, que nós do interior nos atrapalhamos e até ignoramos, a gente só copiava tudo isso direitinho que está aí e mandávamos carta e ela chegava direitinho. – Seu Armando, não quero ser um portador de más notícias, ainda bem que o senhor me mostrou esta carta, mas vou tentar lhe ajudar. – Aí meu Deus, ainda bem que a Maria não veio, senão ela morreria do coração com esses acontecidos todos, lamentase o Armando. A emoção para ele era dupla, primeiro porque ia ver o filho e segundo porque estava na capital do Estado, o centro das decisões da sua vida, tudo era emocionante.

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Àquela chegada à Estação, onde de cara se avista aquele vai e vem de gente, então, nada podia roubar-lhe àquele instante mágico e especial. Ocorrido àquele excitante momento era ora de enfrentar a realidade, o endereço de seu filho em primeiro lugar. E nada mais triste que o previsto pelo seu companheiro de viagem, o endereço era mesmo dos correios. – E agora o que faço amigo Manoel? – Não se preocupe, eu vivo aqui há 40 anos e conheço muito bem todas as manhas desta cidade. Vamos fazer como eu já lhe disse e tenho certeza que vamos resolver esse malentendido, primeiro vamos até a minha casa, lá o senhor descansa um pouco, lhe empresto alguma roupa, pela manhã bem cedinho vamos até a firma onde está o cadastro do pessoal. – Está bem seu Manuel. Não tenho palavras para lhe agradecer. – Não se preocupe homem, se Deus quiser tudo vai terminar bem. – Deus lhe ouça seu Manuel! Deus lhe ouça! Como o combinado, no outro dia, depois de tomar o café com o seu Manuel e a sua bondosa esposa, os dois tomam o rumo da rua ansiosos para chegarem até a firma. Lá, depois de explicarem o inusitado, uma moça do departamento de pessoal, muito atenciosa, os ajuda resolver o problema. Pede que lhe aguardasse que demoraria um pouquinho, pois era nova na empresa e que ela verificaria se existisse algum registro. Depois de mais ou menos uma hora, a moça, muito contente, estende-lhes uma ficha com todos os detalhes da vida funcional do Dorval. Estava lá: Nome completo, filiação, endereço, função na empresa e tudo o mais. – Eu não disse que tudo se resolveria, comenta seu Manuel alegremente. Seu Armando tomado de emoção, senta-se numa poltrona para olhar com calma o que estava ali escrito sobre o seu filho. Fixou a vista em quatro itens, estava ali registrado: função de funcionário como ajudante de carpinteiro, data de admissão e de demissão, ou seja, há dois anos fora demitido, também um outro endereço. Num misto de decepção com esperança diz: – Seu Manuel, vou lhe pedir mais um favorzinho, me leve lá neste endereço, por favor. – Mas é para já, vamos, lá. Atravessaram Porto Alegre inteira a pé, até a outra ponta do cais, chegando no dito cujo endereço, era uma pensão familiar, onde uma senhora lhes informara que a mais ou menos uns dois anos não via aquele rapazinho. Que decepção. Seu Armando olha para o seu Manuel com um semblante tão angustiante como se lhe enterrara um prego na carne. Seu Manuel tomado de dó daquele pai reage positivamente para dar ânimo ao seu Armando: – Tive uma ideia, não fique nervoso, vamos até a polícia e quem sabe eles nos ajudem. Nesse momento chega um rapaz residente na pensão e quer

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saber daquele drama todo, pois os que estavam ali de uma maneira ou de outra queriam prestar alguma informação que ajudasse. Tomando pé do acontecido e falando todo diferente, o rapaz informa: – Ah! Eu conheci esse guapo e também, já se cruzamos nas tabas! – Mas que taba é essa? Onde fica isso? – perguntou o Armando sem entender nada. – Explico seu!.. A dona da pensão interrompe: – É um lugar de trago e jogo do osso! – Vamos até um amigo que mostro aonde ele pode viver agora. – Então vamos até lá, pede seu Manoel já mais aflito que o seu Armando. Os três pegam um frete e se dirigem até o dito cara, este indica outro e este outro para outro. – Chiii! Está brabo mesmo! Exclama o rapaz dizendo: – O negócio é o seguinte, o seu filho encontra-se morando na rua, é bem perto daqui. Seu Armando nestas alturas, só lhe restava um consolo, rezava que ao menos seu filho se encontrasse bem, para levá-lo para casa de uma vez por todas. Chegam ao dito lugar. – É aqui ó... Pare... Pare moço! – gritava o rapaz ao condutor. – Mas eu não vejo nada, só tem uma rampa de cimento debaixo daquela rua. – argumenta Armando muito aflito. O rapaz apontando o dedo para um pilar da rampa, mostra o lugar: – É ali, ó! – Não pode ser, é um abrigo de bolsas de cimento!? – lamentava horrorizado o Armando. – Vamos até ali, disse seu Manuel com a mão por cima do ombro em solidariedade ao Armando, já meio pressentido o pior. – Oh de casa! – gritavam batendo palmas. – Minutos intermináveis de ansiedade se interrompem com a alma atenciosa de um médico. – Estamos atrás de notícias de um rapaz assim etc. e tal! Por acaso o senhor não saberia nos informar? – perguntara seu Manuel. O mendigo coça a cabeça olhando para o chão e solta uma voz confusa: – Morreu! - Oh, não! – lamentam-se – Acabou!!! Eu pressentia isso! – se lamentava desesperado o Armando. Chorando e mal conseguindo se sustentar em pé, desabafa: – Vamos embora daqui! Mas seu Manuel o acalma e o convence a adentrar o abrigo em busca de algo de que lhes confirmassem o infortúnio. E o Armando logo encontra algo que reconhece: uma sacola toda suja com algumas roupas, continha algumas roupas velhas e algumas cartas de Livramento, onde continham as suas e de Maria e ainda uma carta volumosa endereçada ao seu Armando ainda não postada. Era a prova cabal que buscavam. Tentaram então conversar com aquele miserável homem, mas não era possível devido ao estado de demência que se encontrara, ele só falava que era amigo do rapaz e ele morrera no dia dos pais por estar muito doente e que depois vieram buscar a saúde pública, e que soube da sua morte no hospital. Sobre a carta ele disse que tinha vontade de botar no correio, mas as pernas não o deixavam ir e também porque não tinha dinheiro.

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Transtornados com aquele quadro sem uma explicação racional, resolvem irem ao hospital para maiores esclarecimentos, lá tudo se confirma, fora internado em coma alcoólico e teve como causa mortis parada cardíaca devido a uma infecção pulmonar grave. O rapazinho que ainda os acompanhava pronuncia: – É! Essa foi feia, acho que o cara cometeu o karosch. – Como? – pergunta o Armando. – Sei lá, só sei que dizem que é um comportamento suicida de trabalhador japonês quando tiram o trabalho dele. Como a tarde sabia o que a manhã não suspeitava, recém dão-se conta que se esqueceram até do almoço, pois o dia passara rápido como tiro de corrida de cavalos em cancha reta. Seu Armando olha para aquele céu azul que abraça tudo, menos ele que não conseguia enxergar um pai atordoado por um golpe do destino. Todos os três num silêncio de doer. Diriam o quê num momento como aquele. Só caminham, caminham a passos fúnebres até um armazém, lá os conselhos do seu Manuel entram-lhe na cabeça com mais clareza. E depois ali se despedem do rapaz afetivamente e resolvem de ali ir direto a Estação para comprar a passagem de volta para Livramento, pois Porto Alegre não lhe dera boas vindas espiritualmente. Sem antes se despedir do filho no cemitério, chegou lá quando o entardecer já revia a solidão daquele campo santo e finalmente seu Armando chega em frente ao túmulo do filho contendo apenas uma cruz de madeira com um número de identificação para o reconhecimento. A tristeza daquelas almas frente a frente em estados físicos diferentes se comunicara como folhas ao vento nas árvores, uma evolução de dor com lágrimas de fazer sulcos no rosto. A morte gritava mais uma vez em lamentos para o Armando, todavia acreditava que o céu certamente traria o sol ascendente de dia, e um cobertor à noite para seu espírito sonhar. No outro dia, depois de trocar de roupa, já limpinha pela senhora do seu Manoel, despede-se com um longo abraço de cortar um coração. No trem a caminho de casa, num olhar triste e crítico das paisagens que corriam pela janela, pois já não lhe pareciam mais do mesmo lugar, só conseguia ver terras ardendo em queimadas, lembrança das crianças esmolando pelas ruas da capital. Casebres esparramados em campos tristes e descampado de mato. Só via pela janela, de longe em longe, uns tocos gemendo pela mutilação das serras. – Há senhor! Perdoe-nos por essa devastação.

Armando

suspirando cai exausto em sono profundo. Depois de algumas horas ininterruptas dormindo, acorda ali no banco duro do trem em meio a estranhos. Buscara no subconsciente Maria, mas não a encontrava para dividir o peso do fardo, o que, lógico, estava delirando. Devorando-se a si mesmo na ânsia de encontrar uma maneira de contar tudo sem machucá-la, até mesmo para evitar o pior, um comprometimento pré-

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natal com um bebê a nascer. As cenas que se passavam em sua mente pareciam-lhe irreais, cada vez mais lhe era difícil acreditar que um filho criado com todo o sacrifício para que ele não precisasse dar duro como o pai, fosse se envolver com álcool, terminando com sua vida de uma maneira tão cruel para todos, pensara com a carta do filho. Batendo com a carta na mão, só naquele instante percebe que há algo mais na carta para entender. Inseguro resolve guardá-la novamente no bolso sem coragem para abri-la. Os seus olhos ainda permaneciam fixos como numa obsessão de horror, isso enquanto o trem brecava novamente para abastecer as caldeiras. Neste trajeto final, seu Armando num estado de embriagues emocional, pegou no sono novamente e teve um sonho divino: “Caminhava com suas aflições meio sem rumo, em busca de uma resposta um tanto milagrosa que há na criança dentro de um vivente. Até que se deparou que estava dentro de uma mata das redondezas do lugarejo que abandonara, onde continham árvores muito antigas, umbus enormes de estonteante beleza silenciosa, tudo emoldurado e de um perfume de floresta jamais sentido antes a invadir sua alma cansada, alma como que perdida nos seus sentimentos sofridos. Isso lhe despertara uma profunda saudade daquela criança que ainda habitava nele. Já totalmente entregue ao passado da sua mente e sem perceber o quanto já havia andado dentro daquela que é a mais pura manifestação da sua vida, impregnando-lhe de essência de um aparecimento. Andando então por entre elas deu-se com um clarão de céu azul e raios de sol tão fortes e brilhantes que pintavam a relva daquela coxilha dourada. Sentou-se para descansar comodamente entre as raízes enormes de um umbu. Ali continuava na sua visão fotográfica, a de um menino que descia do céu à terra. Acordando-se repentinamente daquele vácuo mental, levantou-se rapidamente sem saber se era sonho ou realidade, ficou estático a espera de algo que o acordasse. Via que dele se aproximava pela encosta de um monte de pedras, a correr e a rolar-se pela relva, arrancando marias-moles. Ria de modo a ouvir-se de longe: – Teria fugido de algum lugar? Mas ele veio do céu... – matutava com o coração saindo pela boca. Não, não!... Apenas estou confuso. – dizia para ele mesmo em voz alta e ao mesmo tempo sem escutá-la. Lá em cima ele parece estar sempre sério. – pensava impaciente. Esperou ele se aproximar um pouco mais. Então ele veio em sua direção, limpando o nariz com a manga da camisa meio que puída pelo sabão e estendeu-lhe a outra mão com um sorriso. O Armando hipnotizado, segura-a, firme e de corpo tremulo, não conseguia pensar direito e muito menos perguntar nada. Apenas a sua imaginação é que voava: – Ele parecia uma criança tão humana, sorri, brinca e até atira pedras à

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toa. Porque será que ele anda comigo, pois sou um simples carpinteiro? Vivia aquelas sensações e o mais pequenino dos sons parecia falar com ele em intermináveis instantes. E com uma mão dada com ele e a outra a tudo que existe, foram pelos caminhos que nunca ousou passar. Saltando, cantando, rindo e compartilhando um segredo comum: que é o de saber que não há mistério no mundo e que tudo vale a pena quando se usa o coração. Deram-se tão bem, que só pensavam um no outro. O Armando contava-lhe histórias das coisas só dos homens. E ele ria porque tudo parecia incrível. Ria dos políticos que não governavam, tinha pena das histórias das vítimas de guerras, não entendia o comércio da modernidade que se avizinhava a atormentar os homens e chorou com as histórias dos meninos de rua da capital. Enfim, ele sabia que em tudo isto faltava àquela verdade, a de que uma flor tem ao florescer com a luz do sol ao rodear as coxilhas, o imenso pampa fazendo doer os olhos ao avistar uma casinha caiada lá longe no campo. Logo, cansado das histórias tristes do Armando, adormece com um sorriso doído na sua face de anjo. Armando se deita na raiz do umbu, como seguindo um ritual paterno, acomodando-se a seu lado. Sente que ele dorme dentro da sua alma, a brincar com os seus sonhos. Vira uns de pernas para o ar, põe uns em cima dos outros e assobia uma melodia para seu sono não terminar. Entretanto, o assobio aos poucos vai se transformando em apitos do trem adentrando na sua cidade.” Então, desperta abruptamente e se dá conta de que teve um devaneio de luz, para ele aquela fora uma história do Menino Jesus, por uma simples razão, a de que não há de ser ela menos verdadeira, do que tudo que os filósofos, os religiosos e as igrejas contavam. Um menino que aparece num sonho de um homem só para ouvir uma triste história paterna, sempre será um menino divino para consolar e fazer parar de chorar um coração que padeceu. E assim caminhando de volta para casa, depois de uma chegada tranquila, uma vez que a Maria jamais o esperaria tão cedo, compreende o significado daquele sonho como uma benção e com isso ganha mais coragem para abrir a carta com a Maria e retomar a normalidade da sua vida. O sonho o fortificara para ser um sustentáculo da mulher mãe do seu filho, aliás, como sabemos, toda mãe sofre mais a dor em se tratando da perda de filhos. Já em frente de casa, olha para céu, olha para os pés, respira fundo, abre o trinco do portão e entra. – Já veio! – grita alegre e surpresa a Maria. – Já Maria! – Mas como foi? – Calma, já te conto. Primeiro quero te mostrar uma carta do nosso filho. Depois

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conversaremos. Ela nervosa apanha e abre o envelope amarelado e amassado e começa a ler: “Amados pais... É difícil de expressar o que se sente em relação a uma pessoa que tem tanta importância em nossas vidas, minha e da mãe, a amizade o amor e a preocupação constante que tu tens por nós, é algo de uma grandeza difícil de colocar numa simples folha de papel, pai. Na minha vida, tu tens um espaço muito especial e importante, essa capacidade que tu tens muito especial de saber um pouco de tudo, a habilidade, o jeito de arrumar e de concertar as coisas e eu vendo isso desde pequeno ao longo dos anos me ajudou sempre a não desistir de resolver problemas sem ao menos tentar solucioná-los mesmo que aparentemente, o problema seja complicado e de difícil solução. Principalmente agora que eu estou trabalhando no que eu acho que possa ser o meu futuro. Eu tenho encontrado problemas e dificuldades dos mais fáceis aos mais difíceis e em todos eles eu me lembro de ti, das coisas em que sempre me dissestes e eu tenho tentado superar eles, mas não estou conseguindo porque deixei aí no ventre da minha namorada um filhinho, que não tive coragem de lutar contra o pavor, de eu a Nanci enfrentar a fúria do pai dela que sempre pronunciava: Prefiro ver a Nanci morta do que me faça passar vergonha. Por isso que vim para cá, para tentar uma vida que o senhor e a mãe tivessem orgulho de mim. E depois trazer a Nanci e o meu filho, mas está dando tudo errado, não estou conseguindo. Agora mesmo estou desempregado e doente. Pergunto-me como vou resolver isso? Como posso te pedir ajuda, sei que a vida aí, a exemplo do vovô não é fácil. Penso na tua vida, na tua casa que ainda estás fazendo com sacrifício. E eu aqui, tento e tento e nada consigo. És um orgulho para mim que me ajudou sempre com tuas cartas e da mãe também. Que saudade de estar aí contigo e com a mãe, me perdoe por não ter pedido a sua opinião desta vez e ter entrado tão erroneamente numa aventura. Peço-te encarecidamente um favor: Procura uma moça de nome Nanci, filho do seu Ferreira lá do quartel e diz para ela que estou bem e que volto em seguida para cuidar do nosso filho. Quero voltar. Quero estar aí e recomeçar com tua ajuda. Beijos na mãe e em ti. Até breve. Dorval. O Armando não se contém de emoção e grita: Meu Deus! Temos um netinho Maria! – Como assim Armando, não estou entendendo nada. E o nosso filho, como ele está? Vai voltar? Diga... Diga... Não aguento mais para saber.

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Naquele momento o peso do corpo era tão enorme que o Armando se atira na cadeira de embalar que ele havia feito para a Maria amamentar o Dorval quando bebê. – Vou te contar tudo Maria, escuta: – Lembra aquela pomba na janela? – Como se fosse hoje, nossa intuição já se revelara ali, não nos atrevemos a externá-lo por medo de preocupar um ao outro. – É Maria, acho que o nosso filho veio se despedir de nós naquele dia, pois foi exatamente naquela hora que ele faleceu lá na capital. – Oh! Meu Deus! É verdade Armando... E entram noite adentro conversando abalados e chorando muito. O amanhecer de Maria é tão estranho e entristecedor no reencontro com o Armando, que tomados pela emoção do reencontro pós-viagem que não fecharam se quer a entrada da frente antes de dormir, ficara toda noite trancada somente com a luz prateada da lua por uma fresta da porta entreaberta. A notícia se esparramara como leite derramado na vizinhança através da Dona Etelvina, sua comadre dos mates com leite de todas as tardes, de tal modo que todos acorreram para confortá-la. Evidentemente que o Armando não contara toda a história, ainda faltava esclarecer a história da moça que conhecera no altar da igreja, que caso se confirmasse, seria sua nora, pois o nome Nanci não tinha como esquecer. Como em toda tragédia tem que se dar um tempo para se acostumar com a dor, nada como o trabalho para ocupar a cabeça. E então o Armando se dedica na conclusão da sua casa. Casa esta de madeira, muito velha que entrou na compra do terreno lá atrás. A reconstrução fora iniciada algum tempo nas horas de folga, nada que representasse muita coisa em termos de obra propriamente dita. As tábuas já em visível estado de fadiga, igual um velho cobertor furado que deixava passar frio e vento. A primeira coisa que fizera foi plantar uma araucária com mais ou menos uns dois metros de altura na calçada. Queria que a árvore preferida se desenvolvesse como um marco da casa para o futuro juntamente com a restauração dela, em parte que a reconstrução do novo lar fosse marcada pelo suor e os calos das suas mãos. Mas a maravilha maior foi que ao longo do tempo, da compra dos primeiros cinco anos de árduas parcelas, a árvore crescera juntamente com a transformação da casa e com ela já se elevando a mais de seis metros de altura. Então, numa bela manhã de céu anil, anunciara-se magnificamente, aos gritos, um alegre casal de bem-te-vis trazendo no bico algumas ramas para armar ali uma morada. Instalaram-se sem dar nenhuma satisfação ao Armando e a quem quer que seja. No decorrer dos dias, enquanto o Armando terminava de assentar as últimas tábuas do forro da casa, eles terminavam

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um novo ninho. Um tanto extasiado pelo feito em comum, constatou na perseverança deles um lar edificado de tal maneira por um pássaro como por um ser humano se assemelhavam nas adversidades da vida, tanto em dias calmos como em dias de tempestade. Com o inverno chuvoso havia chegado ao fim, setembro mês de ventanias, certo dia anunciara uma tempestade se enfeando para as bandas do Uruguai, observara aflito cortando as últimas peças para o acabamento da casa, que o vento já estava fortíssimo. Observa pela janela aquela inocente família de um lado para outro, grudadinhos como prendedor de roupas no varal. Embora o ninho estivesse bem fixo, mas sobre frágeis galhos de um pinheiro jovem e que estes a ventania os envergava ferozmente de um lado para o outro como se os quisesse arrancar. O Armando comovido ficou de prontidão para socorrê-los caso o sinistro se confirmasse. Passada a tempestade... Ufa! – respirou aliviado o Armando. Lá estavam incólumes. Resistiram graças a um abrigo forte, mesmo construídos em galhos duvidosos, foi muito bem edificado devido às tramas complexadamente entrelaçadas por seus bicos. A Primavera aborda, a casa fica pronta, ao menos a parte interna, é hora de se mudar, é hora do José Neto nascer, é hora de vida nova, da alegria das crianças, tanto do filho, como do neto que ainda não conhecera. Então, também é chegada a hora de se aproximar do que estava faltando: por às claras o resto da história do falecido filho com a Maria e procurar a Nanci. Armando entendia na sua sabedoria de carpinteiro, tanto as árvores como as pessoas são todos diferentes. Tinha que se conhecer cada árvore para se conhecer uma mata e assim, como tudo tem o seu tempo, Armando se desloca até o quartel para conhecer o possível outro avô do seu já óbvio neto, pressentimento aflitivo este, desde que lera a carta do filho. Chegando ao quartel, pediu para falar com o tal Ferreira, foi fácil, afinal era o chefe da ferraria, portanto bem conhecido. Diante de um momento nada confortável, se apresenta e conta do ocorrido com o seu filho. O que o Ferreira massageia o bigode e diz: – Saiba seu Armando, não sou muito de reclamar das minhas penas porque todos vivem delas, inclusive o senhor agora ao me contar esta história tão triste do seu rapaz, o que me alivia os olhos de brabeza. Seu filho desonrou a minha filha e desgraçou a nossa família. – Lamento muito seu Ferreira, até hoje tenho dificuldade de entender o

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ocorrido. – É! Estas crias dão o que fazer, não é? Mas fique tranquilo, anote aqui o seu endereço que eu vou mandar a Nanci lhe procurar com o Davi. – Davi? – Sim! –Seria uma alegria imensa seu Ferreira, afinal, a dor que mexe com a gente é que nos torna indigentes. Eu conheci a sua filha lá na Capela enquanto trabalhava, e lhe digo mais... jamais poderia imaginar que ela conhecesse o meu filho, muito menos que ela carregasse um netinho. – Pois é, moramos em lados opostos da cidade... Que diria a gente se falar?! – completa o Ferreira. – Mal posso esperar para contar a Maria. – Y bueno, asi es la vida! – Bem... acho que no momento não temos mais nada a conversar, vou me despedir para deixar o senhor trabalhar. – Está bem, até outra! E ambos se distanciam pensativamente sobre o assunto. Chegando em casa, já o esperava o Augusto Pereira de Carvalho, o coronel estancieiro que queria uma ponte. Salve meu carpinteiro! – o saúda o coronel. – Buenas tarde coronel! – responde Armando estendendo a mão. – Estive lá na sua outra moradia e me informaram que o senhor estava de morada nova. – Pois é coronel, depois de muitos anos, chegou a minha hora também. – rebate Armando sorrindo. – Conheci este lugar antes, agora está ficando uma beleza por suas mãos. – Obrigado. – Mas o assunto que me traz aqui é para combinarmos o dia que senhor vai pegar lá fora. A madeira já está lhe esperando seu Armando. – Segunda-feira Coronel. Pode me aguardar. – Esteja bem, até lá então. O final de semana fora espetacular para o Armando e a Maria, o José Neto nascera assistido por uma conhecida parteira, a D. Diva, e a nora Nanci veio trazer o netinho Davi, já com dois anos para os avós conhecerem. Foi um belo fim de semana, digno da glória dos fins de semana, com uma luz que encharcava as manhãs e uma temperatura suave como a carícia da mulher amada. E para arredondar a mente, Armando saí de casa a caminhar como quem não quer nada... A rua bem que poderia se chamar felicidade. Era uma rua de duas mãos com calçadas estreitas e com uma venda bem surtida. A poucas quadras a praça central, o local fora conhecido como praça das carretas, foi o ponto escolhido para a concentração do grosso do exército de Caxias que chegou em Livramento no dia 10 de agosto de 1851, acompanhado pelo segundo regimento de Cavalaria e alojando-se com o seu estado maior em uma casa da praça que tomou o nome de "Praça de Caxias" (remodela em 1942 como Gal. Osório). Em frente à praça, a prefeitura inaugura em 1910, de estilo eclético, com citações de românicos, enriquecidos por elementos neoclássicos, o coroamento feito por frontão curvo, com sótão e campanário para o relógio. A cobertura feita com platibandas vazadas pelas janelas do sótão

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e o telhado de mansarda em ardósia no campanário do relógio. Diziam até que durante a Guerra do Paraguai o D. Pedro II teria visitado o palácio. E na outra rua lateral, nada menos que a nova igreja matriz inaugurada em 1922, de estilo barroco que orgulhosamente havia feito o telhado. Enfim, passeava de mãos para trás, maravilhado com os casarões, palacetes e bela Escola. Contemplando aquelas obras tão sólidas, pensara: para se fazer uma casa destas, deveria primeiro de tudo, abrir-se os alicerces, antes de se fazer uma janela, uma porta, uma estante de livros, dever-se-ia traçar um desenho. Mas antes que a casa, a janela, a porta, a estante estivessem acabados e pudessem se dizer coisas vivas, são precisos muitos outros pequenos trabalhos, que tomados um por um, pareceriam insignificantes, mas que somados juntos, têm quase a mesma importância que o alicerce e o desenho. Notava aliviado agora que a sua profissão ainda não estaria acabada, que seria agora mais especializada. Sobre a questão urbana, notara também que a cidade estava se

estruturando de acordo com o capital, com um modelo urbano e arquitetônico mais propício à segregação, com menos espaço. Contudo, aquele olhar que debruçara sobre a cidade e sua inclusão nela, não o assustava mais, sabia que teria apenas de adaptar com um serviço mais segmentado. Foi para casa feliz por descobrir que nada mais o espantava, tudo que sentia era apenas o tempo sobre o tempo. O novo sobre o que já passou, mas ainda se faz presente. O novo se opondo, dando ao velho um ar de ultrapassado e sem funcionalidade. Decidira-se então que a ponte seria o seu último trabalho como obra civil. Na segunda, depois de avisar o Maneco, estava pronto para o batente. Chegando lá na propriedade do coronel Augusto de Carvalho, pensara em algo que lhe parecera inusitado: como tinha uma ponte relativamente boa porque fazer uma novinha em folha se no lugar não passava se quer um risco de água. Então resolve consultar novamente o coronel. Este, chamado pelo Maneco lhe pergunta: – Alguma dúvida seu Armando? – Só confirmar com o senhor, e esta velha ponte pode perfeitamente virar lenha, pois aqui acho que nunca passou água, ou se for o caso, algumas carretas de cascalho resolveria o problema. Afinal, para que construir outra ponte novinha em folha? – Não se preocupe, é isso mesmo. Como o senhor não sabe o motivo da ponte vou lhe pôr a par do assunto: Este caminho secundário é de ligação entre as propriedades desta região e o apelidamos de Caminho da Solidão, isso porque o tempo passa gerações pós gerações na mesma ilusão de que nós, geração mais velhos, somos os reais donos deste tempo. Mas todos sabemos que o próprio tempo é uma ilusão dos humanos, aliás, acho que Deus foi mais bonzinho com os animais, poupando-lhes da ilusão do tempo, embora eles saibam

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quando estão em eminente perigo, eles não têm a consciência da vida como nós e nem imaginam de que um dia tudo se acaba. Quando olhamos para o cerro de Palomas, por exemplo, pensamos por que a pergunta que nos cala é a mesma que nos faz gritar, imaginamos quantas gerações destas famílias daqui testemunharão com suas histórias de trabalho, às vezes de dor, de sonhos ou até mesmo de fortuna, sem nunca perder esperanças. Nestas bandas não há rios, mas há pontes imaginárias separando as pessoas, é como se vivêssemos em ilhas, onde os moradores daqui ficam postados nas cabeceiras opostas da ponte esperando que um tenha a iniciativa de cruzá-la. E assim se encontrarem no meio dela e descobrir que não é difícil atravessá-la onde ambos possam usá-la em sentidos contrários, pois não é ela que interferirá em nossos destinos. Tem um causo sobre esta velha ponte que me intriga muito. Vi um andarilho chegar à beira desta ponte, onde gritou para o meu capataz que estava deste lado: – Que tipo de pessoa vive neste lugar? – Depende de quem pergunta. – Mas que tipo de pessoa vive no lugar de onde o senhor vem? – gritou-lhe por sua vez o meu capataz. – Oh! Um lugar de egoístas e malvados. – replicou o andarilho – Estou satisfeito de haver saído de lá. A isso o meu capataz replicou: – A mesma coisa o senhor haverá de encontrar por aqui. No outro dia, um outro andarilho se posicionou na cabeceira da ponte para pedir uma caneca d’água e vendo o capataz lhe perguntou: Que tipo de pessoa vive por aqui? – O meu capataz respondeu com a mesma pergunta: – Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem? – O andarilho respondeu: – Um magnífico lugarejo formado por pessoas amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las. – O mesmo encontrarás por aqui – respondeu o meu capataz. Eu que havia escutado as duas conversas perguntei ao capataz: – Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta? Ao que o meu capataz respondeu: – Cada um carrega no seu coração o meio ambiente em que vive. Acho que quem nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também poderá encontrar aqui, porque, na verdade, a nossa atitude é a única coisa na nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto. Concluí neste causo que se conseguirmos atravessar nossas próprias pontes, certamente faremos cada vez mais deste abençoado lugar, um oásis para as próximas gerações. Por isso quero que o senhor me faça uma bela ponte para que os meus vizinhos e em especial os meus filhos tenham vontade de atravessá-la.

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E como a natureza, grande mestra de todas as coisas verdadeiras, belas e boas, não tem teorias nem dogmas, mas atém a grande opera da vida universal dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Tudo que parecia inexplicável ao Armando, não era senão a soma de milhares e milhares de coisas infinitamente pequenas, como aquela história a sustentar uma pontezinha ao meio de uma estradinha que mais parecia uma cicatriz naquele imenso mar de marias-moles. Armando então concorda com o Coronel se despedindo com um aperto de mão. Volta-se ao Maneco e fala: – Sabe meu poeta, nós gaúchos temos esse defeito de ver tudo e tudo digerir com princípios largos e gerais, desprezando as minúcias. Quando se fala de liberdade, de virtude, de felicidade, estamos sempre prontos para discutirmos ou nos batermos, e temos sempre muitas belas teorias para resolver os mais cabulosos problemas. – Está bem seu Armando, quero ver agora por onde é que comecemos a cortar estas toras. – Ah sim! Primeiro, temos aqui dois tipos de serras: a de fender e a braçal. Veja, a de fender tem estes dentes. Tem pontas no formato de talhadeiras, a aresta cortante de cada uma toma toda a largura do dente em ângulos retos a lâmina da serra. Isso é para quando os dentes penetrarem na madeira como uma fileira de talhadeiras, uma atrás da outra. – E a outra serra seu Armando? – É a braçal, tem o formato de facas, foi criada para cortar transversalmente a veia da tábua, enquanto a serra de fender foi produzida para cortá-la verticalmente. Observe, quando precisares serrar, certifique-se que está usando a serra adequada, senão criarás dificuldades para si próprio. – Ah, agora sei por que o senhor usava dois serrotes lá na igreja. – É, vai aprendendo. E com estas serras é a mesma coisa. E de causo em causo, as toras iam sendo serradas, a ponte pegando forma. Só se ouvia o eco das batidas do martelo ao longe, uma imensidão com um eco que parecia até que estavam dando chicoteadas nas madeiras. O Maneco, um rapaz também de espírito rural se lembrara de suas historíolas de guri campeiro: – Sabe seu Armando, uma atividade que eu gostava era procurar ninho de perdiz ou de quero-quero, cujos ovos a gente comia cozidos, e alguns amigos meus faziam furinho na casca com prego e por ali chupavam clara e gema. Eu me arrependo barbaramente dessa passagem da minha infância e me tornei um defensor da natureza quando me dei conta das ninhadas e ninhadas de quero-quero e de perdiz que eu pilhei e depredei para comer, sem nenhuma necessidade. – Não me diga! – articulou surpreso o Armando. E continuou o Maneco: – Uma ninhada de quero-quero tem quatro ovos que são cinza-esverdeado com umas manchas pretas. Uma ninhada de perdiz tem muito mais, e os ovos são do mesmo

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tamanho dos ovos do quero-quero, só que são marrons, parece de chocolate. Quando descascam é bonito ver as ninhadas cuidadas pelos pais, quatro quero-querinhos e um bando de perdizinhas. E o Armando continua: – Outro bicho campeiro muito bonito é a ema, a “rhéa” americana que nós gaúchos chamamos de avestruz, é uma limpadora de campo que até cobra come. E o Maneco completa o assunto com uma advertência: – Quando era guri campeiro eu me pelava de medo da avestruz choca. Nesse estado, macho ou fêmea ataca quem se aproximasse de seu ninho de ovos. E se a gente estava a pé não adiantava fugir, porque ela corria muito mais rápida. Aí só tinha o recurso de saltar dentro de uma sanga, como fez o meu irmão Joca da sanga, certa feita... – Mas bah!.. Que susto! Aposto que o apelido Joca da sanga foi por isso. – Nunca mais esquecemos. E caíram na gargalhada. Rematado mais um dia de trabalho se dirigem para o galpão da propriedade para descansarem e se alimentarem antes de dormirem. Lá, tendo como fogo de chão o conforto, tanto para o espírito como para o corpo, os esperava o capataz, o seu Naná, com o aconchego do chimarrão. Diz o seu Naná: – Estava aqui pensando enquanto revolvia este tição: foi nessa função de revolver a lenha que ela queima mais ardentemente. Assim meu pai, que era ferrador, colocava suas astilhas de lenha, e mais tarde para avivar a fogueira ele inventou o seu próprio atiçador. E pensar enquanto sopro aqui ajoelhado sem necessidade, enquanto meu pai inventava o seu próprio fole. – É seu Naná, apesar dos benefícios dele à civilização, todas as pessoas sensatas temem e respeitam o fogo, talvez o homem, ou tivesse desaparecido da terra ou permanecido no estado em que se encontrava há milhões de anos. – Pois é, ainda bem que o domamos. – finaliza o seu Naná esparramando uma paleta de cordeiro na trempe. Êta vida boa! – gritou o Maneco. Trabalhava-se, nessa altura, de Sol a Sol. E numa manhã de domingo enquanto o Maneco afiava os ferros, chega o Coronel para conferir o serviço: – Bom dia, como está o serviço? – Bom dia Coronel! – responde o Armando. – Já vi que vocês e os ferradores tiram o domingo para afiar os ferros. – É verdade Coronel. – Muito bem! Estou gostando do que vejo. – responde o Coronel. Mas como o milagre da vida não é encontrar-se consigo mesmo, o Armando ao contemplar aquela linda manhã primaveril, detém seu olhar numa tapera ao longe belamente florida de marias-moles e pergunta ao coronel de quem seria aquela propriedade, pois tinha uma bela vista. – Ah, seu Armando, ali aconteceu uma bela história de amor. – Ah é, é? O que aconteceu Coronel? – Quer um charuto? – pergunta

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o Coronel já se sentando na grama. – Quero. – responde o Armando e também senta na grama se preparando para ouvir. O Coronel depois de uma boa baforada continua: “Sabe... há muitos anos, em um dia como outro qualquer para uma fazendeira na rotina de lida diária, é repentinamente interrompido por três batidas de palmas na porteira da frente. Corre para abrir a porta e se surpreende. Era um enorme arranjo de flores amarelas do campo tapando o rosto de um rapaz, lá na porteira. Flores bem ao gosto dela. – O que ela achou muito estranho, claro. Curiosa, se perguntava: quem além do seu marido, a presentearia no dia do seu aniversário com suas flores preferidas, oro del sol? Ela perguntou ao peão quem enviou e ele meio sem jeito respondeu que não sabia, apenas disse que olhasse o papel dentro das flores. Ela, com a voz meio embargada leu rapidamente e disse: Mas isso não é possível? Ele faleceu há poucos meses! O que o rapaz respondeu que só fazia o que lhe mandaram. No que ela o advertiu que iria agora mesmo lá na venda saber quem é que fez esta brincadeira de mau gosto. Abandonou seus afazeres e correu para a venda. Chegando lá, mais uma surpresa. O seu Omar, já a aguardava. – Pois é minha senhora... O seu esposo já acertou tudo em vida comigo... O combinado foi para eu colher suas flores preferidas no mesmo caminho que ele e a senhora usavam, era donde ele costumava apanhá-las para a senhora nesta época, ao irem para a fazenda. Lembro como se fora hoje, senhora, recomendou-me muito bem, para que eu não esquecesse de lhe mandar no dia do seu aniversário. Ela sob forte comoção voltou apressadamente para a fazenda, e com as mãos tremendo de nervosa, abre o envelope rasgando o cartão do arranjo de flores sem querer. Mal conseguira ler novamente àquelas linhas devido os olhos estarem ensopados de lágrimas. Dizia o cartão: “Feliz aniversário querida! Sei que está surpresa, mas não tanto quanto eu com esta doença maldita que me arrancou violentamente da tua vida. Se não encontrastes explicação para estas flores, por favor me perdoe, tenha a certeza de que é com a fé em Deus de que nunca estaremos sozinhos, que encontrei conforto para o meu destino”. Naquele instante, ao apertar as marias-moles no peito, sentiu o perfume das flores nas carretas enfileiradas na frente da casa da fazenda. Iam da porteira, onde tinha uma gruta com a imagem da Santa Ana, até o portão da casa. Enfim, sua mente era de momentos vivos de tempos felizes em que ele aparecia, quando mandava apanhar estas flores do ano só para agradá-la. Logo, com a emoção mais controlada

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pelo sentimento de saudade daquele amor intenso que a sufocara, deixara ali, naquele momento tão ardente de saudade, os raios brilhantes do sol atravessar àquelas flores para aquecê-la a alma. Foi uma manhã de cegar a vida cotidiana dela, para só depois, então, poder ler o restante da mensagem no outro lado do cartão, escrito assim: “No momento em que escrevo esta, na mais completa solidão desta última tropeada, não consigo nem rezar porque minha alma desconsolada pelo meu silêncio pensa que talvez me faltasse coragem para escutá-la ou talvez receie de levar uns pedidos a Deus. Temo que ele não tivesse tempo para preocupar-se com meus caprichos, e sendo assim, eu deveria ter tido mais seiva de angico para esses passos sozinhos e incertos, pois as decepções, as derrotas e o desânimo que Deus me mostrou, foram para eu valorizar as estradas de almofadas de ouro a caminho da nossa casa. Nunca desista da tua vida meu amor, pois foi através do perfume dos campos floridos das nossas marias-moles, donde vivemos os melhores momentos da nossa existência. Foram como uma candura do poema dos poemas: Teu sorriso, por cada braçada de flores em que eu te presenteava! Adeus, meu amor! Para sempre... Teu.” Atravessando a melancolia de tão saudoso amor, ela enxugou as lágrimas com o dorso da mão sussurrando para si como numa oração: – Embora o destino seja cruel comigo, o que mais admirei em ti meu amor, é que tu nunca permitiste que eu sequer desconfiasse do teu sofrimento na solidão da tua doença. Mesmo partindo... Sempre fez de mim uma mulher feliz. Sempre! Aguarde-me! Logo-logo estaremos juntos, meu amor! Dias depois, no balanço de um banco suspenso sob a árvore em que ele costumava embalá-la, ela adormeceu para sempre. – Mas que emocionante Coronel. E pensar que olhando assim, não se diria o que passou ali. O silêncio de uma tapera, apavora. Ali a vida acaba-se em si, como uma lápide que quer dialogar com os vivos, ou, com Deus, nosso único interlocutor. – Pois é! ... Ali, naquele momento, era o princípio da existência, o começo de uma vida, que se enaltecia e não se renegava. À rudeza daqueles homens, a frontalidade aos seus bons costumes, deve-se um pouco, aquilo que acreditavam: que o trabalho enobrece. Por isso eram admirados, homenageados em frases de gratidão

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como: "mãos calejadas da vida" ou "aos homens honrados da minha terra". E então, deste ou desse ou daquele modo, com o passar dos dias ficou pronta a ponte. Uma beleza na Estrada da Solidão, um paradigma moral do amor pelo amor dos homens. Sonho sonhado de um fazendeiro para aproximar ali quem quer que seja. O Coronel que não era de muitas palavras, de tão contente com a ponte agradeceu o Armando com uma bela bonificação, muito além do tratado, dizendo com a voz embargada: – Que Deus lhe pague seu Armando! – De nada Coronel! – Até mais! – Até! E se despediram, cada uma com o seu destino. Para o Armando, que assistiu da janela da carpintaria do seu pai a Revolução Federalista, donde ouvia as histórias da Guerra dos Farrapos, depois nos jornais: O Maragato, desde 1896 dirigido por Rafael Cabeda e a redação do Rodolfo Costa. Na época por razões de segurança foi transferido para Rivera. Com sua beligerância radical contra o Partido Republicano e seus líderes, editou seis fascículos extremamente violentos. O jornal fora atacado por republicanos e soldados à paisana convocados do Caty. Resolveram resistir, armando o pessoal da casa e recebendo a adesão de maragatos asilados em Rivera. Foram 18 homens combateram enquanto houvesse munição. Rafael e Rodolfo escaparam, porém dois dos defensores, um deles o tipógrafo e o outro o administrador Pedro Caranta, ferido, foram degolados pelos “vitoriosos” (republicanos) e os demais lutadores (adeptos dos maragatos), aprisionados. Naquele tempo o jornal O Maragato foi atacado e destruído, sem mortes. O Maragato ressurgiu depois em Taquarembó ainda dirigido pelos idealistas Rafael Cabeda e Rodolfo Costa. O Republicano, jornal publicado em Livramento (RS) na segunda metade da década de 1910, como órgão do Partido Republicano. Em 1937 identificava-se como órgão do Partido Republicano Liberal. Nesta década, entre seus responsáveis, apareciam Alceu Wamosy, Flores da Cunha e Cid Corrêa Lopes. Circulou em: 1921, 1936, 1937, 1942, 1945. Para ele o pampa tinha sido a matriz da barbárie continental. Nele ainda sobrevivia o que os jornais estrangeiros diziam: “São uns cristãos selvagens estes gaúchos.” A superfície inculta, os bosques raros, a pobreza do seu arvoredo e a ventania endoidada, sem freios, açoitando a vastidão, era a imagem do mar na terra. Que o pampa só permitia vagar por ele aqueles rudes nômades que viviam ao deusdará, mandibulando aqui e ali a abundante carne que devoravam ainda meio crua, abrigados em toldos de couro cru erguidos de improviso no meio do campo, no meio do nada. O que não concordava, contudo, na verdade tudo isso estava se acabando exatamente na hora em que Livramento estava dobrando a esquina da modernidade, mas

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que ainda arrastava todas as marcas de um lugarejo selvagem devido aquelas revoluções. Quando lia nos jornais tais assuntos, matutava introspectivamente um modo de se reagir ao desgosto de tão más palavras, que doíam como prego enferrujado no pé. Se prosperidade tivesse outro nome, se chamaria Armando, o rapaz tímido da campanha, não perdeu tempo, viveu todas as fases na arte de bem tratar a madeira, do transporte das toras puxadas por bois a construções de toda qualidade. Mereceria então uma carpintaria nos fundos da sua casa. Como ele tinha uma casa, até que não foi difícil conseguir um empréstimo ao Brando do Estado do RGS para financiá-lo, pois tinha bens que garantiriam o investimento do Banco. Armando se dizia doente por carpintaria, tanto que agradecia a Deus por ter chegado aonde ele chegou. Para ele o segredo de vencer, que descobrira por conta própria, estava na confiança com quem ele trabalhava e na valorização do cliente. Além do Maneco, que detinha um percentual dos serviços, contratou um carpinteiro para tocar a carpintaria, denominada de “São José”. Como

a

cidade

estava

crescendo com a construção de casarões neoclássicos, serviço de aberturas com bom acabamento é que não faltaria. Muitas vezes, por não dizer, na maioria das ocasiões, as

realizações

anônimos

profissionais

ocupam

de

posições

destacadas numa comunidade. Com o Armando foi assim, de boca em boca a carpintaria se desenvolvia a olhos vistos. O neto e o filho cresciam como ele, em meio ao serrim. Até já tinham afazeres próprio à idade deles depois da escola, uma vez que para o Armando isso era natural, pois o menino Jesus havia ajudado o José carpinteiro numa clara mensagem de que a vida é uma eterna escola, onde se começaria na família e depois para o mundo. O qual, aliás, é grande e difícil para se lutar sozinho. Um dia seu filho José, já com 10 anos e o neto Davi, com 12 anos de idade, não quiseram cumprir suas tarefas de limpar as aparas de madeira, estavam acabrunhados, como se estivessem cometidos algo errado, estavam tristes sentados na sombra de um dos cinamomos na calçada. Cada um com um bodoque que o Maneco lhes havia ensinado a fazer. O Armando vendo que eles estavam meio desanimados e sem graça, os interpela: – Ué! O que houve, não vão nos ajudar hoje? – Já vamos vô! – responde o

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Davi sem vontade e sai andando de cabeça baixa arrastando os pés displicentemente. – É que ele matou um passarinho, pai. – entregara o jogo o José. – Ah! É isso é? Armando senta-se numas tábuas empilhadas contra o galpão e os chama para que os ouçam: Escutem, quando a gente faz o que não deve, dá nisso. O importante do erro é a lição. Pergunto, gostaram de matar a avezinha? – Não pai! – Não vô! – replicam os dois tristemente. – Pois bem, vou contar a origem do bodoque e uma historinha para vocês: “O bodoque é uma pequena arma manejada por crianças como vocês, servia para abater caças, aves, lagartixas. É um dos primeiros brinquedos de infância de muita criança. Durante muito tempo o bodoque foi considerado como brinquedo de origem indígena e pré-colombiana. Em 1918, o sueco Erland Nordenskiöld definiu-o como uma combinação da funda e do arco já usados pelos romanos como o arcus ballista, passando para a França como arbalète ou baliste e para a Espanha e Portugal como ballesta, balista e besta, utilizados militarmente até o surgimento e domínio da pólvora e das armas curtas. O tipo de árvore mais comumente usada foi o leiteiro, goiabeira, jaboticabeira, entre outras que naturalmente tem galhos perfeitos em Y, e com uma boa resistência. Para o elástico, é um material comum, de elástico de suspensório, de câmaras de ar, cortada em tiras como esses que vocês usam.” Portanto, isso que vocês têm aí para brincar também é uma arma, e pode ser perigosa, como vocês bem viram. – Mas vô todo mundo tem um bodoque e ninguém disse que é perigoso. – indaga o Davi. – Está certo, a culpa também é nossa, mas não quer dizer que nós não nos importamos. – reconhece o Armando. – Muito bem, agora a história: “Há muitos anos, quando eu tinha a idade de vocês, a minha mãe, tua avó José e tua bisavó Davi, tinha uma rotina, simples, feliz. Observava com um olhar vigilante tudo o que ocorria no entorno do galinheiro: desde um simples apanhar de aveia por mim para as galinhas ao de como manuseava a foice. Até um simples inseto que ali pousasse, me mostrava à utilidade para a natureza. Um dia ela viu um desajeitado louva-a-deus, muito estranho. Com um temido ar de poucos amigos, parado na tramela da porta do galinheiro, como que querendo adverti-la. – Está vendo Armando? Presta muita atenção onde pisa! Isso é um louva-a-deus e é sagrado. Viste que o louva-a-deus parece uma pessoa rezando? Por isso que ele se chama assim. E foi logo aclarando que aquele inseto não era ele, era ela. Um louva-a-deus fêmea, e que estava assustada, talvez por ter tido devorado seu parceiro depois de um longo namoro. Minha mãe acreditava que Deus escrevia o certo por linhas tortas. Na sua simplicidade, me ensinou a respeitar um louva-a-deus, dizia que trazia boa sorte e não se deveria jamais machucá-lo. Era uma festa toda vez

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que eu achava um na horta, a qual, era orgulho do meu pai, que gostava de repartir a produção com os vizinhos. Para a minha mãe, quando se encontrava um louva-a-deus, provavelmente algo muito bom aconteceria. Todavia, para mim, o bicho mais parecia um abismo de dúvidas, um destino tragicômico, não entendia a morte após o namoro. Pairava-me dúvidas de que meu pai talvez fosse um homem que aparecera ali, em casa, talvez em busca de comida e que a minha mãe teria devorado o meu verdadeiro pai após um ato sexual. Eu não dizia nada para minha mãe, por via das dúvidas, matava os insetos e os enterrava num canto da horta. Com a ajuda do meu irmão até brincávamos com a morte, colocando os defuntos em caixas de fósforos, lembro bem, era da marca mimosa. Às vezes, meu irmão me acompanhava os enterros além de louva-a-deus, enterrávamos até joaninhas, aranhas... E certo dia, até a boneca da minha prima numa caixa de sapatos. Escrevemos nomes e data bem caprichados numa pedra como se fora uma lápide. E construíamos cruzes com gravetos. Um dia minha prima deu por falta da boneca dela e ficou uma fera, contou para a minha mãe, que pelo malcriado fato, levamos uns “tapas” na cabeça com uma senhora bronca. Por incrível que pareça, minha tia não disse nada para mim, pelo contrário, saiu em nossa defesa dizendo a minha mãe que aquilo tudo era brincadeira de criança e era bom que fosse assim, pois nos acostumaríamos desde cedo com a morte. Os dias foram passando e os fantasmas de insetos sobrevoavam meus sonhos, até me assustavam. Depois terminou aquele verão e eram tempos raros de matar um louvadeus, pois já havia poucos. Na missa, aos domingos, levado por nossa prima mais velha, eu ajoelhava e rezava por ter matado os insetos nos meus dias de louva-a-deus. Numa manhã, minha mãe que não podia mais com as nossas artes, nos levou para aulas de catequese na escola, onde logo fomos expulsos por sermos muito “arteiros”. Eu, assustado com a represália da catequizadora, me lembrei de o que aprendera com a minha mãe: Que na vida, Deus escrevia o certo por linhas tortas. Foi o porquê de não desistirmos. Então, Eu e meu irmão decidimos ir à Capelinha falar com uma bondosa senhora, a D. Gilma, para fazermos a primeira comunhão. Com o sim dela, o mundo não poderia nos sorrir melhor. Tínhamos agarrado às mãos invisíveis de Deus para reescrever a nossa história, agora de maneira certa. Depois daquele susto no quintal da nossa casa lá na campanha, nunca mais morreu um louva-a-deus por nossas mãos.” Depois de ouvirem a história atentamente, por instantes, os dois meninos ficaram num silêncio de sentinela, como se meditassem com a lição. Eis que o Armando

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pergunta de novo: – Gostaram? – Simmm! – responderam em coro alegremente. – Então, vamos ao trabalho. Está na hora de vocês aprenderem algo mais útil. Vejam, esta bancada aqui é só para vocês, e como primeira missão quero que façam um banquinho para a Maria descansar os pés enquanto faz crochê. Faz tempo que ela me pede e eu sempre esqueço – diz o Armando limpando e esparramando algumas ferramentas de mão na bancada. Como chegara um cliente, o Armando chama o Maneco e diz para ele ensinar o manuseio correto das ferramentas e que os orientasse bem porque a partir daquele momento eles passariam a ter mais responsabilidade na carpintaria. Por uma boa temporada aquela bancada foi um templo de aprendizado para os meninos, desde o banquinho que aprenderam a fazer, bem como pelos brinquedos que ali construíram. Começara a nascer ali à nova geração de carpinteiros dos Machados. O Armando se dilatava profissionalmente sabendo que as mãos são as ferramentas da alma e nisso não havia contraste mais marcante, do que observara nas massas urbanas das cidades, mescladas de todas as classes e nacionalidade, tanto na capital como fronteiriça, onde grupos dispersos e homogêneos do campo tinham diferenças. Isso ele descobriu muito bem porque sentia na carne desde que se mudou para a cidade. Observara que o trabalhador do campo estava muito mais próximo e em relação mais direta com a natureza: solo, flora, fauna, água, rio, o sol, a lua, o céu, o vento, a chuva e assim por diante do que o trabalhador da cidade. Este é separado de tudo isto, pelas grossas paredes dos prédios e pelas muralhas de ferro e de cimento, que forram as cidades. Quer ele se ache em casa ou no escritório, na fábrica, na igreja, no teatro, na biblioteca, na escola ou em trânsito – que se ache fora de casa, na rua ou praças da cidade – ele estará raramente em contato com a natureza. Ele está por assim dizer: “embrulhado num grosso cobertor de cultura artificial”. Algumas vezes, tem que andar muito, antes de sair da cidade. Não é bafejado por nenhuma lufada de vento nem aquecido e iluminado pelo sol, mas pela a luz artificial, não pisava sobre a terra, mas sim sobre o pavimento. No lugar de um rio ou canal, alguns dispunham até de um encanamento debaixo dos pés e outros produtos da indústria urbana que crescia. Construções de fábricas pairavam diante do seu olhar, e juntamente com a espessa cortina de fumaça, roubavam-lhe o espetáculo do firmamento azul e da paisagem que o rodeava. Os bocados de flora e fauna que existiam com o nome de parque, como o da Praça Internacional, era raramente visitado e dava uma ideia pálida do que é a natureza. Os milagres e mistérios do reino orgânico eram vistos só no cinema, como o Internacional, na revista o Cruzeiro em algum pic-nic ocasional. Tijolo,

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pedra, ferro e na época, papel impresso sob forma de jornais, eram os principais componentes do meio artificial agora em que se lhe anunciando o que viria futuramente. Tinha saudade do diverso ambiente em que viveu no meio rural. Trabalhava a céu aberto, passava quase todo o seu tempo no seio da natureza. Quando no campo, a natureza o circundava de todos os lados, onde quer que esteja. Lembrava-se do lugarejo, onde seus amigos deviam lembrar que vinham em casa apenas para dormir, tempo em que o patrão rural, que lidava sempre com os seres vivos aprendia a estimá-los como verdadeiros amigos. O mesmo não acontecia com o trabalhador urbano, que, isolado do meio orgânico, fenômenos naturais e sociais, é apenas uma identidade anônima no seu trabalho, como o que ele testemunhou quando os demitiram, sem dó nem piedade, lá na fábrica em que trabalhou. Sentia que existia uma estratificação urbana e social no País, onde as desigualdades mais drásticas de salários e riqueza estavam sendo verificada, menos perversa no lugar que deixara não fosse à desapropriação do governo. Na cidade os pobres são mais pobres do que no meio rural. A despeito do padrão de vida, cada vez mais alto do trabalhador da cidade, a pobreza disseminada e o desemprego cíclico, a par da falta de garantias, ameaçavam o poder aquisitivo, e sem um poder aquisitivo geral uniforme, a indústria urbana, a economia de produção em massa não poderia continuar a funcionar prosperamente. Em resumo, longe de ele querer tecer teses de sociologia, a cidade para ele se revelara um mosaico de criaturas e culturas num desenho étnico de pequenos mundos que se unem parcialmente. Mas que permanecem em parte separados durante algum tempo, quando não entram em conflito uns com os outros, contrapondo-se com a dinâmica social do mundo rural, como o que vivera. Para ele, a comunidade rural se assemelhava à água plácida de um balde e a comunidade urbana à água em ebulição em uma chaleira. O que pensava, é que na cidade parecia que todos estavam em uma eterna busca de um sentimento de explosão de vida. Advertia os seus amigos: Se quiserem ser felizes, que conservassem afastados da sua árvore da felicidade: o fungo do orgulho, o verme da inveja e a lagarta do medo. Dizia também, que nunca sabemos direito o porquê escolhemos viver num local, por isso é que caminhamos pelas calçadas, como que num encontro da nossa alma com a estampa gastas das pedras inundadas de histórias. Tudo nela é mistério envolto por admiração das lajes de pedras desenhadas por brincadeiras infantis, como a sapata ou mesmo do rabisco no papel com um nome e um número, de cada lugar, de cada rua, de

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cada passeio, da nossa calçada... Não sabia se vivia a perambular ou a meditar nas calçadas da sua cidade, íngremes e enfadadas. Umas delas, até o cansavam quando subia, mas que o empurravam a um destino louco como num sonho. Quando começava a andar por sua calçada, ao longe, via outros caminhos, outras miragens, como outra língua que o acenava com “saludos”. Andava sempre lentamente nas alamedas. Gostava de ir aos poucos, saboreando o azul do Céu, que lá, ao fundo, se unia com os telhados dos prédios, alguns bem cuidados, outros desbotados do tempo, tempo que contava com seus passos, meio com saudade dos que nelas já não passariam mais dentro de pouco tempo. As calçadas do centro da sua cidade rumavam para outro país, pareciam caminhos vazios de pátria, em nome do berço sem

fronteiras.

Isso

se

interpolava entre ele e a sua alma rural. Andava lentamente, o seu campo visual ia ficando pequeno,

sempre

menor,

quando se aproximava do obelisco da Praça Internacional recém-inaugurada no verão 1943. A certa altura de cada caminhada, via uma paisagem que o serenava, sabia, no entanto, que era um caminho muito especial, o seu predileto, e que ele continuava sempre ali, lhe esperando com um sorriso das janelas das moradas, era a calçada da sua casa, que apesar de escondida entre o casario, ela era quem o localizava e o chamava. Nela encontrava os amigos, uns meios desaparecidos, outros, nem tanto, mas sempre era bom jogar conversa fora, com um, com outro.... Depois, os perdia novamente, desapareciam pelas margens das outras calçadas. Por isso, abrolhava sempre uma paradinha olhando para todos os lados, fechava os olhos, logo os reabria.... Esperançoso, que seus amigos lhe encontrassem novamente, em qualquer calçada, em qualquer esquina. Pois que não existiria fato ou tempo que o separasse de um novo batepapo. Quanto às calçadas dos seus vizinhos, via-as como belas pontes imateriais a ligar com sua casa. Delas, juntava a sua paz com a deles, pois sabia dos fins de uma calçada, era para se perpetrar a amizade. Os obstáculos entre ele e seus vizinhos tinham outra

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dimensão, a do bem comum, pois as pendências pisavam ali, à frente de todos, intensas, transcendental, para fazê-lo aceitar: que passear na calçada todos os dias, não dava nenhuma garantia privilegiada e que ao acariciá-la com uma vassoura era apenas uma fútil ilusão da posse dela. Aceitava o propósito da vida, o que achava ser seu, que sua casa é só um teto temporário, que dia mais, dia menos, seria o abrigo para uma outra família. Estava convencido de que a vida sempre continuaria com ou sem ele e que o mundo em pouco tempo lhe esqueceria. Tudo que sobrava depois que ficava sozinho, frente a frente com a sua casa, era uma ocasião de olhar para a calçada grato, depois olhar para o céu e agradecer a Deus por mais um dia poder ter tido andar no seu portal do tempo. Como o Armando nunca caminhou em vão, seus cabelos agora brancos, crespos pelo que vivera, escutara num vizinho pela 1ª vez uma rádio local, denominada Rádio Cultura, sensação na cidade inaugurada no dia 14 de julho de 1946. Agora já se podia ouvir as notícias da cidade e do país elegantemente anunciadas pelo locutor Volkamar Martins, o Didi, e também pelo gerente, o Sr. Romulo Araújo. E num lampejo sem igual, pensou: vou comprar um rádio para o meu lazer e expandir o negócio da carpintaria. Anunciarei nele os serviços da carpintaria, aliás, não mais seria carpintaria, mas uma marcenaria para fabricar armários e móveis em geral. E assim, chama o Maneco para informar e convidá-lo para uma nova empreitada na carpintaria e igualmente os meninos, o neto Davi e o filho José, agora rapazes habilitados para encarar um desafio, a arte da marcenaria. Tudo ocorreu como o planejado durante o resto do ano. Muitas coisas boas acontecendo com todos eles: um novo galpão e máquinas, o Davi e o José namorando, o Maneco se casando e publicando seus poemas no jornal A Plateia, criado em 1937 pelo pecuarista Carlos Eugênio Varella com o seu tio César Tettamanzi para divulgar a programação do Cine Internacional, notícias da II Guerra e tudo o mais. Enfim, para o Armando, a esperança não fora negada porque nenhuma dor acaricia com a mão benfazeja nenhuma fronte de um homem infeliz. Armando soube sofrer calado, sofrer sorrindo e permanecer em pé com seus cabelos hirtos, mas com a fronte imóvel, tanto nas tempestades do céu como da terra. Sentira-se mais forte do que as dores da vida e mais poderoso que o destino. Eis uma das maiores grandezas humanas. Mais alguns anos com as máquinas da carpintaria consumindo muita madeira, o Armando contrata mais carpinteiros, pois o serviço não dava basto e ele já não trabalhava mais como antes porque sua coluna não permitia. Aos poucos delegava aos

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seus três herdeiros, o fiel amigo, o filho e ao neto, a arte da sua vida. Agora só continuaria como conselheiro, amigo, pai e avô de uma equipe que se preparava depressa para novos tempos, a fabricação de aberturas, armários e alguns móveis em nível de escala de fábrica para lojas do ramo da construção. Com mais tempo para si, numa manhã Armando sai de casa cedo. O dia era dos mais sombrios dos primeiros dias do inverno, onde o ar parecia amuado a mostrar a carranca do nevoeiro. O inverno é sono da natureza, o fim do outono é a agonia das folhas que caem e o céu chora. Até as folhas que se encontravam na pérgola da praça dos cachorros que ainda se conservavam nos ramos, estavam moribundas, nenhuma era já verde e viçosa. Tudo chorava e tudo morria. Foi precisamente ao olhar para aquelas folhas caídas das árvores que ele notou os sapatos cheios de barro e que por distração não calçara os outros engraxados. O tempo estava tão feio que até os seus sapatos aumentaram o seu mau humor, e ele sentia penetrar até aos ossos, com a névoa úmida e fria, um arrepio ao ver todas aquelas folhas mortas que o rodeavam. Incapaz de pensar em coisa alguma elevada, porque o frio o entorpecia até os pensamentos para reagir. Como, porém, os seus sapatos eram a preocupação mais saliente do momento, dirige-se automaticamente para o largo do Internacional, onde certamente encontraria um engraxador. E lá estavam com suas caixinhas, uns quantos, de todas as idades. Alguns jogando bolita (bola de gude) de pé no chão, outros com calçados rotos, pareciam não sentir frio, mas com bonés esfarrapados na cabeça, difícil determinar qual tipo de fazenda e todas as vestes parecia um museu arqueológico de remendos, que tinham pertencido Deus sabe a quantas outras pessoas. Os sapatos proclamavam bem alto a verdade do provérbio mais antigo que roda de carreta: em casa de ferreiro, espeto de pau. Por que os dele também não poderiam estar velhos e sujos? Um deles vendo que o Armando parara na calçada em frente à deles e que os firmava no olhar, o maiorzinho deles, prático neste gênero de diagnoses psicológicas, entendeu e foi certo ao encontro dele que precisaria dos seus serviços, gritando: – Uma engraxadinha aí, meu senhor? – Sim. E ei-lo aí se abancando na caixa a esfregar as

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mãos, arregaça-lhe as calças e a estender com um prazer quase voluptuoso uma pouca da sua pasta negra sobre os sapatos do freguês carpinteiro. Disso resulta um vaivém de escova, acompanhado de um assobiar alegre e rumoroso. Armando olhava admirado aquele rapaz ajoelhado diante de si, com o casaco sujo, cantarolando e assobiando como o mais feliz dos mortais. Questionara-se: Com que satisfação ele cuspia sobre o seu pé! Com que prazer via a tinta opaca tornar-se brilhante, brilhantíssima no vaivém do pano, a ponto de retratá-lo nos seus sapatos! Toda aquela alegria contrastava com o outro engraxate a poucos metros de distância. Com cabelos grisalhos, em pé, brandindo nos ares um sapato, que tinha enfiado na mão esquerda e que engraxava furiosamente com a mão direita. Como era diverso do que lhe estava engraxando, embora tão vizinho dele e dos outros na arte de engraxar. Estava com a barba rala e falhada por fazer a muitos dias, o nariz escarlate, o rosto cheio de manchas e apesar de pequeno aparentava uma idade que não lhe afeiçoava. A expressão do seu rosto era abjeta, feroz, de quem deveria beber muito. Resmungava entre dentes, mordia os lábios, tremia. Parecia devorado por um rancor profundo, que ele parecia desafogar inteiramente contra o pobre sapato que estava engraxando. Aquele homem certamente não era feliz. Armando fitava-o sem que ele pudesse notar a sua inquirição. Mas eis que de repente, dando no pobre sapato uma pancada tão grande que o dobrou todo e fez ir pelos ares com muitos pelos de sua escova. Gritou em voz alta e repetidas vezes: – Mierda de sapato! Mierda de vida! Aquele homem estava descontente consigo mesmo e com todos os seus semelhantes, amaldiçoava a vida, a pobreza e o seu ofício. Ele havia procurado na aguardente ou no vinho aquela idealidade, aquela poesia de que todos necessitamos, e o álcool tinha-lhe queimado as entranhas, tinha lhe embrutecido o cérebro, tinha lhe escrito no rosto o rancor do fígado, do estômago degenerado, dos nervos exaustos. E o seu pobre cérebro não sabia meditar senão um delito, não fosse desejar a própria morte e dos outros. Aquela cena fez mal ao Armando. Pensou por um momento em se aproximar dele, em lhe perguntar a razão do seu pessimismo, da sua maldição, do seu voto feroz e de dor, mas depois desistiu do seu propósito. De repente sua distração é interrompida por um grito alegre: – Pronto Senhor! Armando volta sua atenção ao rapaz, paga-o e comovido com o estado lastimável das caixinhas de engraxar dos meninos, aproveita e faz um convite: de que o visitassem em sua marcenaria que ele iria fazer uma caixa nova para cada um deles e mais uma cadeira de engraxate para o aconchego de seus clientes com a finalidade de fazer se sentirem mais prósperos. Não parou por aí,

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continuou assim até o seu tempo consumir sua existência. Não dormia sem antes escutar o seu programa favorito na rádio Cultura, reminiscências do radialista Oriovaldo Greceller e de dia com o seu velho martelo e serrote sempre em ação até o último dia de vida ajudava um e outro. Indagado por todos por que não parava de trabalhar. Respondia sempre sorrindo: é só para não perder o costume meu filho! Embora o Armando e seus antecedentes fossem cortadores de árvores, os carpinteiros foram muito importantes para a humanidade, tanto nas construções de abrigos com seu mobiliário, como moinhos que industrializavam o alimento. De catapultas assassinas a pontes para unir povos. De naus que atravessaram o mundo a lendas maravilhosas. Falara que cada homem neste mundo tem a sua história e um destino a cumprir e a dele e seus ancestrais foi com a família e o lugar em que nasceu e vivia. Basicamente queriam chegar ao fundo do seu ser, no alvorecer silencioso da energia criadora dos homens, onde não basta só sonhar com o hipnotizante sono do mundo material se não arregaçar as mangas para sentir que o trabalho é uma dádiva. No caso deles, foi daí que brotou a força criadora do cortar, entalhar, estraçalhar a madeira, para só depois uni-la novamente, agora já não mais como um vegetal, mas como uma obra, tão nobre como a sombra e o fruto que a árvore produz: amparar a existência da humanidade. E para apagar a sua culpa, pregava que as sementes de cada árvore derrubada deveriam ser colocadas nas mãos das crianças para que elas a jogassem como se fossem pedras por onde quer que andem. O mais perfeito tempo é a grande época de uma pessoa. Por mais bela que seja a história de uma comunidade, mais bela é ainda a história individual de um ser, isso porque esse tempo pertence a essa pessoa e a mais ninguém. Armando não sabia se Deus reservava parte de um paraíso a um carpinteiro qualquer como ele, mas sabia muito bem que ele bancou as suas boas horas neste mundo, também povoado de tantos covardes, de tantos falsários, de tantos desalentados. A importância da vida para o Armando foi em se transformar num homem verdadeiramente livre por transmitir os seus conhecimentos profissionais, estes a compactarem-se num único bloco chamado humanidade. Para ele a família foi como uma caixa de ferramentas, a qual em todo lar há uma, bastava abri-la para usa-las com arte. Sem essa concepção de vida, não havia possibilidades de realizações, nem chance

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de desenvolvimento humano familiar. Isso é como uma confidência do silêncio, onde Deus é o silêncio e nós apenas gritos no universo. Para ele, o homem que tinha medo de Deus não tinha fé e muito menos religião, tinha escravidão e aí bastava olhar as estrelas contemplativamente, que se chegaria à mesma conclusão como num poema de Castro Alves que gostava de citar: “As estrelas são o horizonte da alma”. Quando ele olhava um arco íris no céu, lembrava-se da união do Universo com todos os seres vivos. Pensava que jamais devíamos permitir a devastação ambiental, jamais a exploração dos mais fracos, pois o universo era uma parteira que assistia ao nascimento de tudo, como um útero alimentado por uma seiva espiritual parida do cosmo. Não se deixar assistir essas forças era romper o fio do tecido social da humanidade, inconscientemente era um desafio todo o tempo para ele. O mundo mudara porque a vida estava mudando todo o tempo dentro dele e de todos que tivessem um olhar generoso para com o outro. A lição do Armando se encaixa como um corte de rabo de andorinha a unir duas madeiras diferentes. E individualmente, somos como criança a brincar com fogo, onde muitas vezes não sabemos o que estamos fazendo quando esquecemos gravetos em brasa nas florestas. Os ornitólogos dizem que nos últimos anos, cerca de 40% dos pássaros estão desaparecidos. O dia em que não houver gorjeios, apenas silêncio das florestas espedaçadas, rios contaminados com agrotóxicos, degradados e poluídos. Então é de se perguntar: que tipo de pássaros teremos? Pois já se observa nos campos um aumento de parasitas devido à humanização, inclusive os pássaros Anús já estão colocando seus ovos para outros chocarem. É de se ressaltar, que por ouvidos de cientistas, os fazendeiros deveriam replantar suas terras com árvores nativas tendo em mente a florestação como manejo sustentável como matriz da produção industrial. Armando foi um carpinteiro de um tempo periférico da nossa vida, de minha parábola, meu repousar numa velha caixa de ferramentas: amada Sant’Ana do Livramento.

Sempre deixamos alguma coisa de nós no lugar quando partimos... Mas nunca esquecemos o lugar que levamos!

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Carpinteiros da vida de Sant’Ana do Livramento

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Os carpinteiros foram muito importantes na nossa cidade, tanto pelas construções comercias e residenciais, bem como pelos móveis das casas e um esteio de suas famílias. Registro isso porque penso que cada homem neste mundo tem a sua história e um destino a cumprir, tanto os Noés e os Josés como os demais carpinteiros desta cidade que foram ou são com suas famílias uma referência para este lugar em que nasceram ou vieram. Aqui viveram como num santuário de manjedouras, mesclando berços e suas obras. Aqui sempre trabalharam acreditando basicamente chegar ao fundo do seu ser, num alvorecer silencioso da energia criadora dos homens, onde não bastaria só sonhar com o hipnotizante sono do mundo material se não arregaçar as mangas para sentir que o trabalho é uma dádiva. No caso destes carpinteiros santanenses, foi desse suor que brotou a força criadora do cortar e entalhar a madeira para uni-la novamente em outro formato e só depois contemplá-la, agora já não mais como um vegetal, mas como uma obra, tão nobre quanto a sombra do fruto da árvore que os alimenta e os presenteia como um amparo à existência deles e humana como um todo. Eis aqui então a história de alguns deles para que com a benção da padroeira Santa Ana e do São José, estes e todos os outros carpinteiros não sejam esquecidos.

O carpinteiro Dino da Carpintaria Livramento Bernardino Fernandes de Oliveira nasceu em 03 de outubro de 1901, iniciou como auxiliar de carpinteiro no Exército, depois deu baixa e montou a Carpintaria Livramento em 1920 na Rua Prefeito Hugolino Andrade, perto da antiga torrefadora de café Nocchi & Irmãos. Na foto, o Dino com um amigo, sentado no capô do Ford T em 1930.

Cerra de arco

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O carpinteiro Noé de Oliveira Legatário da carpintaria Livramento Noé Nunes de Oliveira não construiu uma arca como o Noé da religião abraâmica, que fez uma a mando de Deus antes que viesse o Grande Dilúvio Bíblico, depois claro, a história da Arca de Noé foi objeto de muita discussão na posterior literatura rabínica. Mas, tais histórias é que contribuíram para ele construir a sua nau denominada Marcenaria Livramento. Nascido em 26 de agosto de 1929 é casado com a Ana Maria Rafone, que há mais de 37 anos trabalha em prol da Creche Santa Elvira com muita dedicação, onde dessa união tiveram três filhos. Este estimado marceneiro santanense, maçom, filho do carpinteiro, o seu Dino. A carpintaria progrediu juntamente com Sant’Ana do Livramento, e o menino Noé, mesmo estudando no colégio dos padres, ajudava o pai sem reclamar. Amadureceu ao meio do serrim até decorar pelo cheiro de qual árvore a madeira ele provinha. Foram tempos memoráveis, disse o Noé. Logo em seguida, por intermédio do Banco do Estado do Rio Grande do Sul ele e o pai compraram um novo galpão em 1941e máquinas novas importadas da Alemanha. No novo endereço no centro da cidade à Rua Conde de Porto Alegre. Ali sob o comando do mestre Noé, a carpintaria fez incontáveis aberturas e armários para metade dos prédios da cidade, estâncias, o Lanifício Thomas Albornoz e até o edifício da Associação Comercial e Industrial inteirinho. Era fácil, disse, as medidas e os detalhes constavam minuciosamente nas plantas. Os caminhões chegavam à carpintaria carregados de madeira bruta formando pilhas enormes para aplainar e cortar. Trabalhavam com ele os melhores carpinteiros da cidade, tais como: o seu Antônio Martins, Aladin Fadenille, Nilo Linhares, Raul Costa Severo, Enildo Rodrigues, José da Fonseca, Luiz Cleber... Todos falecidos, recorda com tristeza. Tudo começou a mudar depois de escassearem as madeiras de lei devido à nova legislação ambiental. Isso encareceu muito a matéria prima, em contrapartida vinha como novidade, mais em conta, a madeira aglomerada, um derivado formado por aparas e cola que são prensadas a altas temperaturas. E com esse material novas máquinas, agora totalmente semi-automatizadas, própria para este tipo de material. Além disso, claro, vieram as aberturas em ferro fabricadas em série por grandes serralherias ou

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metalurgias. Foram 70 anos dedicados a um trabalho executado de sol a sol, onde o sábado era para limpeza e manutenção das máquinas. Enfim, era feito por ele e por homens de muito valor, dedicadíssimos a profissão. Finalizou com a voz embargada.

Na foto, os pais do Noé em frente a Marcenaria na Rua conde de Porto Alegre em 1941.

José e Daniel da Marcenaria BR São José é o patrono dos carpinteiros e não poderia faltar mais um carpinteiro aqui em Livramento com um nome desses tão considerado. É o do marceneiro JOSÉ CHAVES, que aprendeu com o tio, Eitor Pereira Siqueira, hoje com 78 anos, veio de Quaraí em 1955 para trabalhar na Carpintaria Livramento com o Noé. Seu bisavô também foi um carpinteiro, de rodas de carretas e carroça, no tempo da Revolução Federalista. Seu sócio na marcenaria BR é o marceneiro doble-chapa DANIEL MARTINS que iniciou o ofício desde menino em Minas de Corrales. Os dois são carpinteiros da nova geração tecnológica. Operam equipamentos de última geração no corte e montagem de armários feitos sob medida para qualquer projeto desejado. A marcenaria fica no conjunto Alfaville. Trabalham com todo tipo de lâminas de madeira, tanto contraplacado como aglomerado. Também constroem em madeira nobre, embora seja raro devido o preço e a compra da madeira ser difícil. Pensam que animais, como os castores que derrubam árvores para construir barragens, macacos que utilizam gravetos para catar alimentos em orifícios das árvores

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ou pedras para quebrar cocos usando recursos naturais como extensão do corpo, de certo modo, também sabem utilizar ferramentas. Mas só o homem o faz com alto grau de sabedoria.

Roberto Martinez da RM móveis Roberto é filho de espanhóis de Valencia, Espanha, nasceu em 29 de agosto de 1946, em Santa Fé na Argentina, lá fez escola de marcenaria aos 17 anos. Veio para o Brasil em 1982 devido às consequências da Guerra das Malvinas por intermédio do escritório político do então ministro da justiça Paulo Brossard, o qual o estima até hoje. É casado com Elsa Albertina Frechou e com ela teve quatro filhos. Chegou aqui em 1983, instala uma cartografia conjuntamente com uma marcenaria já na condição de santanense por opção como a carpintaria de sua vida. O negócio e a profissão prosperam ao bel-prazer dos ventos minuanos num poema de mapas sobre madeira e cola. A marcenaria virou fábrica de móveis, além de seis marceneiros: GUSTAVO, WAGNER, CHIAN, MAGUILA, RODRIGO, CARLOS EDUARDO e quatro ajudantes, todos muito bons no que fazem.

Tem ainda a sua filha Celeste, arquiteta que projeta os móveis e

interiores dos clientes da fábrica. E há vagas para mais marceneiros, mas não encontra, como o SENAI fechou a escola de marcenaria aqui em Livramento, ele lamenta que isso deixasse um buraco que poderia ser preenchido com novos aficionados das serras, tornos e afiadores de ferramentas. Nunca lhe faltou trabalho, das obras mais importantes, ao menos do ponto de vista simbólico, foram os móveis novos da Igreja Matriz, dos bancos ao altar. Isso o recheou de sentimentos enternecedores, tanto que realizou

muitas

obras

gratuitamente, entre elas, 50 mesinhas e 200 cadeiras de estudantes para escolas de infância

de

Livramento

e

Rivera. O carpinteiro Roberto não parou por aí, além de participar em diversas campanhas humanitárias, espiritualizado, nos fundos da sua marcenaria, transformou

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quase um hectare de solo pedregoso em terra fértil com diversas espécies de árvores, comuns e frutíferas, as quais as colhem para distribuir nas creches, sempre com o sentimento puro de apenas ser útil a cidade que o acolheu de braços abertos. Enfim, ele compreendeu que o ofício não é só uma escola de ocupação de algo que precisa fazer ao domínio do possível para ser modificado com o sol das almas, mas pregado, para sempre no peito da sua comunidade.

O Ely da carpintaria União e depois Benedetto Ely Benedetto Chipollino, na foto ao lado em Buenos Aires, nasceu em Sant’Ana do Livramento, em 31 de outubro de 1930, Ely foi um grande mestre nas artes da madeira. Seus pais, Honorina Gonçalves Dutra Chipollino e Inocêncio Benedetto Chipollino, conheceram-se na capital gaúcha. Honorina, habilidosa artesã no tear, fazia lindos cobertores e roupas de lã. Moça da campanha, sua família era originária do distrito de Cerro Chato. Inocêncio, mestre sapateiro, vinha de Artigas, onde havia sido criado com seus irmãos. Seu avô, Leoni Di Benedetto, foi um jovem italiano que havia emigrado para o Uruguai com seu irmão na década de 1880, com destino a uma colônia agrícola próximo à cidade de Salto. As colônias agrícolas espalhavam-se pelo interior do Uruguai e Argentina nessa época. Quando jovem, paralelo às atividades na madeira, Ely

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foi amante da velocidade. Nas décadas de 1950/60, cultivou o hobby do ciclismo e motociclismo, sendo sócio do Moto Clube Livramento- Rivera. Possuía motos importadas (Vitória, Ariel, Índia e Kawazaki), e participou de várias competições no autódromo riverense Eduardo Prudêncio Cabrera, considerado o melhor circuito do Uruguai.

Costumava participar em eventos de velocidade em outras cidades na

Argentina e no interior do Uruguai. No natal de 1955, casa-se com a jovem normalista recém-formada, Glória Peducci Iturbide Chipollino, filha de Natália Peducci e Anselmo Iturbide. O casal teve quatro filhos, Sandra, Lyz Rovênia, Jânio e Liane. Iniciou suas atividades profissionais no ano de 1948 como aprendiz e carregador de madeiras na Barraca Brenner, sendo registrado no INPS com a carteira de trabalho para menores de idade. Paralelo aos estudos, cursava o ginasial. Como filho único, sua remuneração era importante para o sustento da família, já que o pai ausentava-se em viagens de trabalho constantemente. Iniciando a vida profissional, valeu-se do sólido aprendizado que recebeu nos estudos de carpintaria e marcenaria na Escuela Industial de Rivera, na Calle Brasil com San Martin. O fundamento de estudos matemáticos adquiridos nessa instituição, como o cálculo e a álgebra, estimularia futuramente o êxito profissional em grandes construtoras, quando os engenheiros costumavam ouvir sua opinião na obra, além de sua reconhecida capacidade em projetos na área da marcenaria. No ano de 1948 deixou a escola para o alistamento obrigatório no Exército, no Oitavo Regimento de Cavalaria, onde, além da iniciação militar, atuava na Carpintaria do quartel. A partir de 1954, começou uma parceria com seu primo Dorival Dutra na Carpintaria União, na rua Dr. Fialho. Logo após um ano, tornou-se sócio majoritário da Carpintaria União. A sociedade tinha filial em Rivera (na calle Tangarupa, atual Leandro Gomes entre os anos 1955-1962), atuando com trabalhos de marcenaria especializada em aberturas, balcões, prateleiras para várias firmas comerciais, escolas, farmácias, bares, clubes, residências e estabelecimentos rurais da fronteira e em outras cidades da região de Alegrete, Uruguaiana, Quaraí, Dom Pedrito, Bagé e Rosário. Em 1963, muda-se com a família para a Rua Duque de Caxias, atual Av. João Goulart. A região, no coração da cidade, ainda estava repleta de chácaras e regatos. Na nova

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residência, inaugura a Marcenaria Benedetto, seria especializada em esquadrias, restauro e móveis comerciais,

enquanto

Ely

atuava

também

em

importantes construtoras santanense. A partir de 1970 ao início dos anos 80, dirige a marcenaria da CISICConstrutora Imobiliária Santanense, de propriedade do engenheiro Paulo Fossati de Abreu e Wilma Severo de Abreu. Paralelo a sua carpintaria, prestou serviços significativos à Construtora Lubianca, de propriedade do engenheiro Léo Lubianca, a qual construiu edifícios e residências em Santana do Livramento, Porto Alegre e Viamão. Nesta empresa, em 1970, foi responsável pela confecção das esquadrias do Edifício Castelo Branco. Também trabalhou na reforma de modernização da filial da Casas Pernambucanas, em Santana do Livramento. Continuou atuando em sua marcenaria e com trabalhos paralelos, encomendados por outras construtoras da cidade, como a Construtora Sivesa, de propriedade do espanhol Juan Vergara. Entre os anos de 1978 e 1980, Ely, foi sócio da Serralheria União, onde executou os trabalhos de carpintaria para a reforma do novo prédio do Banco do Brasil paralelo, retomou a colaboração com o engenheiro Léo, para a Construtora Lubianca, trabalhando em várias construções na fronteira. Entre os anos de 1981 e 1982, também atuou na Construtora Sam, especialmente em obras para diversas propriedades rurais. Prestou serviços ao engenheiro Arno Bidel, atuando nas obras para a Escola Estadual Cyrino Luiz de Azevedo. Na Escola Silveira Martins, executou o restauro de portas, janelas, carteiras, cadeiras. Desde o seu falecimento em 24 de março de 1988, em Porto Alegre, a marcenaria é dirigida por seu filho, Jânio Iturbide Chipollino. *Biografia cedida pela filha Liane Chipollino.

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Carpintaria e marcenaria Villa Madera Instalada na Av. Marechal Mallet em Sant’Ana do Livramento desde 2006, a carpintaria e marcenaria Villa Madera é especializada em casas pré-fabricadas, esquadrias de madeira/exportação, marcenarias/móveis, atacado e fabricação de móveis para igrejas, para jardins, piscinas, terraços, móveis para piscinas e móveis planejados. Enfim tem solução com madeiras nobres, tratadas e secadas para decks, pisos, forros, portas, janelas, pergolados e móveis para jardim. Sob coordenação do marceneiro sênior Julho Cesar Leites e uma equipe de ótimos carpinteiros e marceneiros fronteiriços: Humberto Costa, Juan Manfru, Jair, Fábio, Daniel, Marco e Ângelo. Todos cobertos de pó sorriem e brincam com suas ferramentas em cima das madeiras na maior alegria. São homens, madeira, ferramentas e suas obras que nascem para o encanto de quem as aprecia.

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Enrique Figueroa Um carpinteiro da vida O Enrique nasceu em 29 de julho de 1941, é filho de Agustín Figueroa, então dono de uma chácara onde funcionou um curtume até 1974, a qual foi vendida para o Sr. Nicola Galanos para a construção do atual Jardim Athenas. Exerceu outras atividades antes de aprender o ofício de marcenaria com Fernando Damiani, este veio especialmente de São Paulo com todo seu ferramental para trabalhar na Construtora Galanos, na qual, ali entalhou sua vida por 23 anos, desde a primeira casa no Jardim Athenas, do Dr. Strapasom, como nos edifícios da construtora. Trabalhou também na Marcenaria BR, e do Ílio Sanches lá na Marques Pavão. Foram 40 anos ininterruptos e sem férias até aposentar-se em 2014. Conta que aprendeu a aplainar madeiras de acordo com a espécie dela, pois a cerejeira, por exemplo, uma das madeiras mais usadas devido a sua beleza, tinha que passar nas máquinas obedecendo os veios e os nós para não lascá-la. Ficava tão perfeita que quase não precisava lixar.

Os últimos ferreiros de rodas de madeira. Ao longo dos séculos, as povoações se transformam, vão se adaptando às novas condições e necessidades de vida, perdem e ganham características, crescem ou ficam estagnadas conforme as mudanças econômicas, políticas, culturais, sociais. Artistas, fotógrafos e pesquisadores captam instantes da vida, que ajudam a entender como ela era então. No caso aqui de Livramento registro a ferraria das carroças, as partes de madeira eram todas confeccionadas manualmente, incluindo a parte central da roda. Antigamente o torno para produção da massa da roda era tocado com o pé, pois não existiam motores para aquele tipo de máquina. As ferragens eram todas feitas manualmente por um ferreiro, sem esquecer das ferraduras dos animais. Velhos ferreiros de rodas de carretas e carroças como o Sandico da Ponte Seca, o Cachucha do Armour, o Mutuca e o Seu Bao no Prado sabem como ninguém, que com

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o serviço deles e outros mais, contribuíram e muito para o progresso, pois desde o início até metade do século passado, as carroças e os carros de bois se constituíam no mais importante veículo de transportes usado para as mais variadas cargas.

Cledson Vargas Ferreira Aprendeu o ofício com o seu pai que era ferrador do 2º RP Mont da Brigada Militar. Desde quando deu baixa do serviço militar em 1987, encontrou sua vocação por intermédio do seu maior e mais respeitado mecânico de carroças da cidade, tinha uma ferraria no bairro Wilson foi o Seu Valter Veiga, cuja esposa confeccionava centenas de bombachas o ano todo, tinha oficina sob um umbu de três metros de diâmetro de mais de 200 anos, que ainda amaina em sua sombra até hoje uma arte cultural do passado ao Sr. Cledson que resiste a extinção do ofício com muita bravura sentimental. Hoje neste mesmo lugar centenário ainda faz-se concerto de rodas de madeira, montam-se as cambotas nos raios e na massa da roda. Malham-se aros de ferro e montam-se rodas como lhe fora passado e ensinado há mais de 20 anos. É uma técnica que atravessa gerações desde a chegada das forças imperiais nos acampamentos militares, aonde a técnica chegou ao seu Valter Veiga e outros mais mecânicos de carroças de então e sucessivamente até hoje. Seu Cledson disse que é um dever e um prazer contribuir com uma cultura, que segundo ele, lamentavelmente,

está

se

perdendo,

pois

os

carroceiros, já não usam mais rodas de madeira, uma vez que é compreensível, já que carroças com pneus de carro são bem mais apropriados para o asfalto. De qualquer maneira não se queixa da modernidade, tem computador e não é contra a evolução dos costumes. As carroças com rodas de madeira são usadas nas propriedades rurais e CTGS como um modo de cultivar as tradições, e só isso já é um consolo, pois elas, mesmo em desuso ainda precisam de manutenção para exibições em momentos especiais como no 20 de setembro. Além do concerto rodas, seu Cledson prepara ferraduras e ferra as patas dos cavalos, pois eles precisam desse “sapato de metal” que protegem seus cascos do atrito com o asfalto, e assim mantém seu ofício com o maior orgulho, faça sol ou faça chuva o ano inteiro. E se alguém precisar de ferro como mordaças, ferro de marcar animal e até para o trabalho de pedreiro, como ponteiros e

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talhadeiras ele também arranja. Enfim, com todo o trabalho que lhe é confiado, tem ali no seu lugar, calmo que lembra os anos 40, um simpático galpão que fala dos velhos tempos e chora faísca de fogo sob as pancadas implacáveis da marreta sobre à bigorna.

A ferraria do Seu Bao Reconhecido até pelo Jóquei Clube de Curitiba, onde recebeu uma belíssima homenagem quando lá esteve em visita para conhecer o jóquei-clube juntamente com o seu Filho Edgar. Quem fala com Edwar Henke Teixeira não diz que daqueles braços franzinos criou e formou seus quatros filhos, pelo qual lamenta não poderem viver aqui com ele, mas que graças a Deus vivem muito bem, longe daqui é verdade, mas realizados em seus ofícios. Seu Bao, como foi e é conhecido, trabalhou 70 anos, desde os 14 anos de idade com o pai e mestre, fazendo ferraduras sob medida para cada tipo de cavalo, era um especialista. Advertia que ferraduras mal ajustadas poderia causar dano permanente ao animal. Parou de trabalhar recentemente por ordem médica, pois seus pulmões com 84 anos não aguentaram mais a fuligem do carvão e do oxigênio. Trabalhava de domingo a domingo, onde consumia o dia a ferro, fogo, bigorna e água. Nunca foi a médico, como bom ferreiro tinha saúde de ferro, conta ele orgulhoso da sua tenacidade diante do trabalho. Agora em visita a sua morada, me mostrou o lugar, já demolido, da ferraria que vai dar lugar a um novo espaço de descanso e lazer. Doou todo o seu ferramental ao seu último e fiel escudeiro, que também iniciou menino com ele na profissão. É uma tristeza alegre, diz ele, é o fim de um tempo, como o meu, para dar início a outro tempo, de ferreiro para serralheiro, como o do meu auxiliar e bom aluno de longa data.

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A alma das casas de Sant’Ana do Livramento Às vezes, caminhando pelas nossas ruas procurando casas desamparadas, sejam elas antigas, sejam elas contemporâneas. Mas que tenham peculiares sutilidades, as quais se expressem em suas arquiteturas os anseios familiares. E dentre tantas, umas que possuam esperança de serem afagadas por pintores com generosidade, porque não há generosidade alguma destas beldades se continuam penteadas a cimento encardido, necessitando até, serem lavadas com certo carinho. Os santanenses precisam de mais olhos que gostem de arte, para que a fortuna da imaginação seja encontrada em qualquer calçada, lugar que nos faça ouvido, que aprecie a música dos pássaros nas praças, nos prédios, a trazer lindas recordações da nossa infância que já se foi, porém habita imortalmente dentro de nós, numa sinfonia natural que seja sempre um deleitável amparo espiritual. Uma mente que se deleite com um poema tem a capacidade de ver o mundo arquitetado por outro desenho humano, um corpo que desfrute da tranquilidade dos espaços urbanos, pois neles há outra dimensão, onde existe um encantador portal de embarque: Um coração que dispara quando o sol se põe e incendeia quando a lua aparece. Pois os fenômenos naturais, a essência humana sempre enaltece nossa existência, e às vezes, a sorte se apresenta como companhia solitária de alguma casa abandonada, sussurrando para mim a história da família que ali encontrou não só o abrigo do tempo, como também amor e felicidade. Elas são testemunhas de inefáveis encontros exuberantes de casamentos binacionais. Isto aconteceu aqui em vários lares, em terras desconexas, com idiomas diferentes, mas em distintos lares de bandeiras desiguais, que na maioria das vezes vivenciaram nessa ânsia, um lugar de felicidade, isso os levou a descoberta de habituar-se com amores transcendentais como em nenhum outro lugar no mundo. Então, vez que outra penso, talvez por isso exalto esta pretensão impetuosa, alma apaixonada a manifestar o anseio para ver nossas veredas com suas históricas casas acariciadas pelo afago dos pincéis. Afinal, elas merecem, são almas com enternecedoras histórias materializadas por nossos ancestrais.

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Casas do início do século XX

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Araucária - a madeira mais usada

Usada em larga escala por ser nobre devido a robustez, se observa no campo ou na cidade hoje em dia que quase não se vê mais araucárias novas no Rio Grande do Sul com menos de 30 anos de idade. Aproveitada em larga escala na nossa cidade e exportada para o Uruguai por aqui, através das madeireiras, como a Cadermartori, localizadas em torno da Estação Férrea até meados dos anos 1970. O alto consumo dela em todo o Estado as colocou em situação de risco de ameaça de extinção. O alerta dos pesquisadores desta magnífica árvore, que foi uma das espécies que mais forneceu madeira de 1ª qualidade para a construção de casas no Rio Grande do Sul e Uruguai por décadas, quase não existe mais. Ambientalistas afirmam que cada vez se percebe menos pinheiros jovens e que são necessárias medidas urgentes para que a espécie volte a brotar no Estado. Diante dessa perda de quantidade e qualidade, muito já se falou que a mata de araucária no norte do Estado não teria mais condições de se recuperar, estaria extinta. Há controversas. Enquanto os pessimistas acreditam apenas em medidas paliativas para que esse tipo de formação vegetal não desapareça da paisagem, pesquisadores e ambientalistas defendem que preservar o que resta e ainda buscar soluções para ampliações de áreas, com incentivos locais, pode assegurar a continuação da espécie. Adoro essa árvore, tanto que a plantei na minha calçada, ela também é muito suscetível às mudanças climáticas. É uma espécie que gosta de clima frio e necessita de um regime regular de chuvas e os aumentos previstos nas temperaturas podem afetar drasticamente as áreas. Considerada um fóssil vivo, já que é uma espécie primitiva, com milhares de anos de existência no planeta, a araucária pode ter mais dificuldades para se adaptar à mudança do clima, mas não aos cuidados de um carpinteiro.

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Bicho Carpinteiro

Dicas de carpintaria para iniciantes

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Ferramentas As ferramentas que você e eu usamos hoje foram desenvolvidos por um longo processo de melhoria gradual cumulativo de implementos muito mais simples e menos eficiente de madeira, pedra, osso, bronze ou ferro, há séculos aperfeiçoadas, e às vezes centenas de séculos atrás, pelos nossos rudes antepassados ou macacos como precursores. Elas ainda trazem a marca da sua origem remota e das diferentes organizações sociais e econômicas em que foram feitas primeiro e usados. No decorrer do tempo durante o qual os arqueólogos podem acompanhar a história de ferramentas, os homens mudaram não só suas ferramentas, mas também todo o caminho em que eles têm a sua vida (a economia) e, consequentemente, a forma como a sociedade foi organizada para cooperação. E nesse sentido, não paramos de evoluir, pois inventamos todo um ferramental elétrico portátil que muitos, ainda tem alguma dificuldade para lidar. Então trago aqui algumas dicas para bichos carpinteiros como eu:

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Aprendendo a serrar LISTA DE EQUIPAMENTOS ALICATE DE TRAVAR: Esta ferramenta serve para regular a inclinação dos dentes das serras usuais (exceto as de dentes temperados). BANCADA: É mais fácil serrar sobre uma bancada munida com grampos ou cunhas de aperto. MESA DE SERRAR: Algumas marcas de maquinas fabricam mesas de serrar metálica permitindo a utilização estacionária de algumas serras elétricas manuais. GUIA DE CORTE: Esta regula-se muito facilmente segundo vários ângulos, para materiais de todos os comprimentos e espessuras. FERRAMENTA DE ESQUADRIAS: Existem em madeira alumínio ou plástico e permitem serrar a 45 ou 90º. LIMAS: Utiliza-se uma lima chata para nivelar os dentes da serra e uma lima de seção triangular (ou lima de três quinas) para os afiar. GRAMPOS: Principalmente se for trabalhar com máquinas elétricas, os materiais a serrar devem estar fortemente presos. GRAMINHO PARA MADEIRA: Para marcar ou traçar pontos de corte ou entalhe. ESQUADRO: Indispensável para transferir a linha de corte para todas as faces da peça a serrar. EXTENSÃO: A maioria das máquinas elétricas estão munidas com um curto cabo de alimentação, preveja uma extensão. OS ABRASIVOS AS SERRAS DE MÃO: As serras de mão, vulgarmente chamadas de "serrote", destinam-se a serrar tábuas e painéis de madeira maciça, aglomerado, MDF, compensado, etc. Em algumas delas, a lâmina está revestida com uma camada de teflon invisível que a protege e permite deslizar mais facilmente através da madeira. O PUNHO: O punho de uma serra de mão é feito de madeira ou de plástico. Este último adapta-se bem à mão e tem geralmente uma superfície antiderrapante e anti-

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transpiração. Os de madeira, mais clássicos, produzem calor. Alguns punhos podem servir de esquadro ou de guia de marcação (a 45º). FORMA DOS DENTES: A forma dos dentes depende da sua utilização. Os dentes direitos ou isósceles (1) permitem apenas traçar. O modelo mais polivalente é o chamado "dupla ação", de dentes universais ou semideitados (2) e permite serrar também no sentido dos veios (ao comprido) em vez de atravessado (traçar). DENTES TEMPERADOS: Os dentes de algumas serras manuais são temperados e não podem ser afiados. Mantêm-se por isso afiados durante um tempo 5 vezes superior em relação aos dentes não tratados. Os dentes temperados são reconhecidos pela sua cor azul escura. Estes são perfeitos para serrar materiais colados (aglomerado). TPI para o corte de tábuas espessas, utilize uma serra de 5-7 TPI (teeth per inch - dentes por polegada), como ferramenta faz-tudo um modelo de 7-9 TPI, para trabalhos finos uma de 9-13 TPI (muito finos: 13-16 TPI). Calcula-se as vezes as pontas (PTI), 8 pontas para 7 dentes/polegada, ou seja, o número de dentes +1 QUANTO AOS DENTES DAS SERRAS O TRAVÃO: Uma serra com dentes retos prende-se rapidamente na linha de corte. Para evitar este problema, os dentes da maioria das serras são travados. Ou seja, inclinados alternadamente para a direita e para a esquerda. O corte será assim mais largo que a lâmina. O NIVELAMENTO: Se a lâmina se prende e os dentes estão muito usados, convém nivelar a serra (exceto as serras temperadas). Coloque a serra na horizontal sobre uma bancada presa entre 2 tábuas. Com os dentes libertos e virados para cima, lime os dentes todos na mesma altura (com uma lima chata). O TRAVAMENTO: Esta operação efetua-se com um alicate de travar que regulará segundo os dentes por polegada da sua serra. Trave primeiro os dentes cujo ângulo se afastam de si (1 sobre 2), vire a serra e trave as restantes. Trabalhe apenas nas pontas (o terço superior do dente). AFIAR: Com a lima triangular, lime para afiar as pontas. A espessura da lima deve corresponder ao tamanho dos dentes. Mantenha a lima horizontalmente, com um ângulo reto em relação à lâmina para uma serra de fasquiar e a 60º para a lâmina de uma serra universal ou para traçar. MANUTENÇÃO: Limpe regularmente a lâmina da sua serra (elimine-lhe a resina) e lubrifique-a (com óleo) antes de a guardar. Para não danificar os dentes, coloque-a num estojo ou suspenda-a.

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Não esqueça, antes de a utilizar, limpe o óleo que se encontra na lâmina. AS SERRAS MANUAIS OS SERROTES DE COSTAS: Contrariamente aos serrotes estes têm uma lâmina retangular cujas costas são reforçadas por uma banda metálica que as mantém retas e aumenta a sua força. Os seus dentes finos (para traçar) permitem cortes limpos na madeira folheada, painéis finos, perfis e molduras. TÉCNICA: Comece por efetuar movimentos curtos, na sua direção e inclinando ligeiramente a serra na horizontal (e não a 45º como um serrote). Os serrotes de costas são ideais para traçar ripas e suportes de prateleiras ou fazer entalhes. AS SERRAS DE CAIXILHOS: São serrotes de costas pequenos com dentes pouco inclinados. Servem para cortar ripas finas ou molduras e fazem um corte muito fino. As serras de nivelar permitem cortar cavilhas ou entalhes que se destaquem da madeira; a sua pega pode ser colocada à direita ou à esquerda. CAIXA DE MEIA-ESQUADRIA / GUIA DE CORTE: Para conseguir cortar os ângulos (das molduras ou perfis), a serra de caixilhos fica completa com uma caixa de meia-esquadria. Pode assim serrar a 45º ou 90º. Uma guia de corte metálica oferece a possibilidade de escolher diversos ângulos compreendidos entre os 15º e 120º. A SERRA DE ÂNGULOS: Existem igualmente serras de ângulos de precisão profissional. Trata-se de uma guia de corte, metálica, à qual é fixa uma serra especial cuja posição pode ser regulada da direita para a esquerda, segundo ângulos fixos (22,5º 30º, 30º, 45º e 90º, por exemplo) ou grau a grau SERRA DE PAINÉIS / SERRAR NO MEIO: As características desta serra são a sua forma e nariz dentado, o que lhe permite começar um corte no meio de um painel sem ser necessário fazer um furo primeiro. A abertura pode em seguida ser feita com um serrote de ponta. SERROTE DE PONTA: Esta serra, geralmente equipada com uma pega de "pistola", deve ser empurrada, ao contrário dos outros modelos. A sua lâmina estreita acaba em ponta. O serrote de ponta permite cortes em curva e aberturas (com a condição de fazer, previamente, um furo antes). A SERRA DE RECORTE: A serra de recorte está equipada com uma lâmina longa, e o seu arco é pouco profundo. A lâmina é orientável sobre 360º e desmontável. Se tiver de serrar no meio de uma peça, faça um furo através do qual introduzirá a lâmina antes de a remontar com sua porca de orelhas.

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A SERRA DE RODEAR: A sua lâmina deve ser colocada no lugar com os dentes virados para baixo. Este tipo de serra é perfeita para efetuar trabalhos de modelismo, ou para recorte de contornos arredondados em materiais como folheados, madeiras delicadas, balsa e etc.. Coloque um pedaço de madeira em meia-lua sob a peça a serrar para a segurar. O SERROTE UNIVERSAL: Este serrote está equipado com uma lâmina universal que pode ser orientado segundo 7 a 9 ângulos diferentes, é por isso extremamente prática para os locais de difícil acesso. Além da madeira ele pode serrar plástico e metal. A sua lâmina pode ser substituída quando estiver usada. SERRAS DE METAIS E CONCRETO CIRCULAR A SERRA DE METAIS: A lâmina da serra de metais é segura num arco (arco de serra) e tem os dentes na direção do exterior. Não é reservada só ao corte de metal, pode igualmente ser utilizada para cortar plástico, madeira, etc.. A sua pega pode ser em metal, plástico ou madeira, fechada ou do tipo "pistola". PRESSÃO DA LÂMINA: A lâmina é presa e mantida no lugar por porcas de orelhas ou "borboleta". Uma pressão excessiva pode deformar a lâmina. Se a pressão for pelo contrário muito fraca, a lâmina pode torcer-se e partir-se-á rapidamente. Em alguns modelos, a orientação da lâmina pode ser regulada. A SERRA DE METAIS "JUNIOR": Em numerosos casos, este modelo revela-se bem mais prático que a serra de metais tradicional. A sua lâmina é muito fina e conta geralmente com 32 dentes por polegada. A MINI-SERRA DE METAIS: A mini-serra é constituída por uma simples pega sobre a qual é montada uma lâmina para metais comum, presa num só ponto. Pode serrar indiferentemente com a parte da lâmina compreendida entre a pega e o ponto de prisão ou com a sua parte livre. Aconselhável para peças pouco acessíveis. A SERRA PARA CONCRETO CIRCULAR: Se tiver de cortar blocos de concreto circular, utilize uma serra de dentes diamantados. Trata-se de um tipo particular de dentes temperados. Não se sirva nunca de uma serra para madeira, ela ficará irremediavelmente danificada. A TÉCNICA DE MANUSEIO AS LÂMINAS: Existem lâminas de serras de metais e diversas formas de dentes diferentes. Os modelos mais usados apresentam 14, 18, 24 e 32 dentes por polegada. Para saber qual o tipo de dente usar, calcule segundo a espessura do material a serrar, que deve corresponder a 3 dentes da serra.

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FLEXIBILIDADE DA LÂMINA: Para reduzir o risco de partir a lâmina, pode-se utilizar as lâminas chamadas "flexíveis". Algumas são de tal forma moles que podem ser dobradas. Uma lâmina flexível também é muito prática para chegar a locais de difícil acesso. INICIAR O CORTE: Prenda a peça à ser cortada num torno. Com o polegar da sua mão livre, guie os primeiros cortes da serra (que efetuará na sua direção, apoiando ligeiramente). Comece a serrar sobre uma superfície plana e não no ângulo. Em seguida, serre, mas sem exercer muita pressão. CORTE: Uma vez iniciado o corte, coloque a sua mão livre na parte da frente do arco para guiar a serra. Mantenha a serra o mais perto possível do torno para evitar as vibrações. Não se apresse, a lâmina deve deslizar sobre o material sem se prender. PEÇAS DE SECÇÃO ARREDONDADA: Os tubos ou as peças de secção redonda, podem ser cortados com a serra de metais tão facilmente como as peças planas. Gire a peça conforme o corte for avançando, até que as duas extremidades do corte acabem se encontrando. SERRA CIRCULAR ELÉTRICA AS LÂMINAS: As lâminas de dentes largos tratados com carbono (1) são ideais para o corte no sentido do veio. O grande afastamento dos dentes produz um corte suficientemente grosso. Estas lâminas permitem cortar a maior parte dos materiais (exceto pedra, alvenaria, metais de carbono e madeira com pregos). A lâmina universal (2), eventualmente tratada com carbono, corta e traça madeira maciça e seus derivados. A lâmina de traçar (3) tem mais dentes, faz um corte mais fino e corta pregos. A lâmina de dentes muito finos (4) é conveniente para painéis de isolamento e plástico pouco espesso (2 mm). PROFUNDIDADE DO CORTE: A profundidade do corte depende do diâmetro da lâmina. Quanto maior for o diâmetro do material mais espesso a lâmina pode serrar. A altura do corte na maior parte das máquinas situa-se entre os 4 e 6 cm. O diâmetro da lâmina depende da potência e capacidade da máquina. A REGULAGEM DA PROFUNDIDADE: Ajuste a profundidade do corte, de forma que a lâmina passe 3 mm do outro lado da peça, para obter um corte limpo. A regulagem da profundidade permite-lhe também fazer ranhuras. VELOCIDADE DE REGIME: Em alguns modelos, a velocidade é regulável e pode por isso ser adaptado à espessura e natureza do material a cortar. A regulagem da

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velocidade, opção vantajosa, assegura uma velocidade de carga constante (sem queda de potência), independentemente da natureza do material e da pressão exercida. A CAPA DE PROTEÇÃO: A capa de proteção abre-se assim que a serra começa a trabalhar. O bordo do material empurra a ponta arredondada da capa, provocando a sua abertura. Sendo assim você não terá que abri-la. Esta fecha-se assim que você afastar a serra da peça cortada. O SEPARADOR DO CORTE: O separador de corte é uma espécie de lâmina fina colocada por trás da lâmina de corte, destinada a manter um afastamento suficiente entre os pedaços da peça cortada, para evitar que a lâmina bloqueie. Respeite a regulagem aconselhada pelo fabricante (afastamento entre a lâmina e o separador). ASPIRAÇÃO DE PÓ: Dispor de um sistema de aspiração é aconselhável. Sem isso o pó acumula-se sobre o seu trabalho, tapando-o, de forma a não conseguir prosseguir nas melhores condições. Aconselha-se por isso, a ligar um aspirador à sua máquina (caso ela tenha o suporte adaptador). LÂMINA ORIENTÁVEL: É possível, na maior parte das serras, modificar a orientação da lâmina em relação ao corpo da máquina, o que permite efetuar cortes inclinados (de 0 a 45º). O ângulo é indicado por um mostrador graduado. A profundidade do corte diminui com o fato de serrar inclinado. COMO PROCEDER: Assim como no caso do corte manual, o material a serrar deve ser solidamente seguro num suporte estável (bancada ou torno), a sua face decorativa virada para baixo, o rompimento do veio produz-se em direção à parte de cima. Isto pode ser importante para, por exemplo, uma bancada de cozinha. SERRANDO COM A SERRA TICO-TICO FUNCIONAMENTO: A rotação do motor da serra tico-tico é transformada num movimento vertical de vaivém que aciona a lâmina, ao qual se pode também juntar igualmente um movimento pendular. Assim que a lâmina sobe (e corta) desloca-se simultaneamente para a frente. Isto permite trabalhar rapidamente e com mais facilidade, tudo reduzindo o desgaste da lâmina. De qualquer forma, se quiser obter um corte perfeitamente limpo (para painéis laminados ou com pouca espessura por exemplo) desligue o movimento pendular. AS CURVAS: As curvas são a especialidade da serra tico-tico. Quanto mais estreita for a lâmina empregue melhor pode serrar as curvas "apertadas", ovais, círculos e outras, mesmo materiais espessos (plástico, madeira metal e etc.).

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LÂMINA ORIENTÁVEL: A lâmina é geralmente "fixa", mas em alguns modelos, pode girar sobre ela mesma ("scroller"). Isto permite serrar transversalmente painéis ondulados apertados, o mais perto possível da sua superfície, para garantir uma capacidade de corte satisfatório. INSTALAÇÃO DA LÂMINA: No momento da compra, assegure-se de que a lâmina é de modelo adequado à sua máquina. Existem vários sistemas de fixação. Para a montagem da lâmina, uma chave de fendas ou uma chave de seis pontas, são geralmente necessárias, exceto no caso das lâminas SDS (que são simplesmente para encaixar). OS PRIMEIROS FUROS: Para efetuar um corte no meio de um painel, faça um primeiro furo (quatro para uma abertura retangular). Introduza a lâmina no furo, com a máquina desligada, depois ligue-a e dirija-a nessa altura apenas para a linha de corte. Serre a abertura com um só movimento. CORTAR SEM O FURO PRIMÁRIO: Para serrar sem o furo primário, coloque a máquina no centro do corte, inclinando-a para a frente, nariz e ponta da lâmina em contato com a madeira. Ligue a máquina e coloque-a lentamente em posição de funcionamento normal à medida que entra na madeira. Em seguida serre ao longo da linha de corte. GUIA PARALELA: Uma guia especial colocada na máquina pode permitir serrar perfeitamente em linha reta, paralelamente ao canto do painel. Se o corte a efetuar for muito afastado da borda, pode utilizar um suporte, (bem fixo), ao longo do qual fará deslizar a serra. CORTES CIRCULARES: A guia paralela é muitas vezes fornecida com uma ponta que permite fixá-la sobre o painel de madeira, para a utilizar como um compasso. Pode-se assim cortar círculos perfeitos. O seu comprimento é naturalmente limitado (e por consequência, o diâmetro dos cortes possíveis também). SERRAR EM ÂNGULO: Na maioria das serras tico-tico, a base pode rodar para ser orientada de forma a permitir os cortes em ângulo. Neste caso a profundidade do corte da máquina diminui, evidentemente. CORTE LIMPO: A lâmina da serra tico-tico corta de baixo para cima. A face decorativa, que ficará visível depois de feita a abertura, deve por isso estar virada para baixo (virada para cima no caso da utilização estacionária da máquina). Fixando uma fita adesiva, ao longo da linha de corte evitará o estilhaçamento da madeira. Podemos também, adaptar uma base auxiliar na base da Tico-tico para isso.

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SERRANDO METAL: Podemos usar uma lâmina adequada para cortar chapas finas (aço, alumínio, cobre,..). Fixe a chapa sobre um painel (aglomerado, por ex.), para serrar juntamente, assim o corte será limpo. Aplique aguarrás (alumínio) ou óleo de corte (aço) ao longo do traço. Corte usando baixa velocidade. SERRANDO PLÁSTICO: O plástico deve também ser serrado com a face visível virada para baixo. Utilize uma lâmina para plástico ou eventualmente para metal. No momento de efetuar o trabalho, pode ser necessário, jogar água sobre o corte da serra para a arrefecer (para evitar que o corte se feche caso o plástico derreta). A SERRA UNIVERSAL: Existem as chamadas serras universais para cortes retos ou curvas: são as serras de lâmina elétrica. As suas lâminas variadas, permitem adaptar-se a todo o tipo de trabalhos, existem ainda as lâminas flexíveis para os locais de difícil acesso. Uma outra serra elétrica também chamada universal, funciona com duas lâminas (tipo serrote) ligadas entre si que se deslocam em sentidos opostos. Enquanto uma corta a outra recua para a posição inicial. Além do gesso, corta vigas e troncos de árvore com facilidade.

APRENDENDO A APLAINAR LISTA E EQUIPAMENTOS Existem plainas em madeira e metálicas em diversos tamanhos e modelos diferentes. PLAINA ELÉTRICA: Verifique primeiro a largura, a potência e a profundidade do corte máximo que a máquina efetua. ESQUADRO: É indispensável para traçar os cortes a efetuar nas peças de madeira. RÉGUA: Uma régua comprida e reta serve para controlar o plano das superfícies das maiores dimensões. BANCADA: Uma bancada acima de tudo tem de ser estável, para executar trabalhos pesados ou delicados. GUIA: Para aplainar superfícies retas e em ângulos retos, é aconselhável a utilização de uma guia. TORNO/MORSA: Escolha um torno suficientemente pesado para ficar estável, ou um modelo que possa ser fixado na bancada.

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GRAMPOS: Indispensáveis para fixar corretamente as peças para trabalhar na bancada ou auxiliar em montagens. MACETE DE MADEIRA: Utilize unicamente um maço (em madeira) para exercer mais força sobre o formão. LUVAS E ÓCULOS: Calce luvas e utilize óculos de segurança para se proteger das farpas e lascas. PLAINAS DE MADEIRA A PLAINA MANUAL: Existem vários modelos e formatos de plainas manuais. O ferro (a lâmina) é ligeiramente saliente em relação à base. A plaina, ao deslocar-se, corta uma fina apara de madeira que em seguida é destacada pelo contra-ferro: o deslocamento da ferramenta não deve por isso ser interrompido. A PLAINA DE CALÇO: A plaina mais comum (chamada de calço ou de acabamento), é longa com cerca de 25 cm e não tem, em princípio pega. Existem modelos retangulares ou arredondados. Esta plaina serve para igualar a superfície de pequenas peças de madeira, (cantos de uma gaveta por ex.) para as preparar para o lixamento. AJUSTANDO A PLAINA DE MADEIRA: Para ajustar a profundidade do corte, que depende entre outras razões, da dureza da madeira a trabalhar, coloque primeiro aproximadamente no seu lugar o ferro, o contra-ferro e o calço. Martele em seguida o calço com um ligeiro movimento do macete, afim de manter provisoriamente estas peças. REGULAGEM: Controle a regulagem verificando sobre a base, a colocação do contraferro e a posição do ferro. Se a abertura não for suficiente, bata suavemente por cima da plaina. Bata no calço em seguida para fixar a lâmina no lugar. Para obter aparas mais finas, bata no corpo da ferramenta. COMO SEGURAR A PLAINA: Com a mão esquerda, segure o nariz da plaina enquanto a direita envolve o corpo. Algumas plainas estão equipadas com um parafuso ou um botão de regulagem; neste caso, coloque o polegar e o indicado em garfo à volta do apoio situado sob este parafuso, os outros dedos da mão segurando o corpo da ferramenta. AS PLAINAS METÁLICAS DESCRIÇÃO: Existem também as plainas com o corpo inteiramente metálico, munidos de pegas em madeira ou plástico. Ferro e contra-ferro são mantidos sob pressão por um suporte e regulam-se por um parafuso ou alavanca de ajustamento. A vantagem das plainas metálicas: podem ser ajustadas com precisão. BASE ONDULADA: As plainas metálicas estão, muitas vezes, providas com uma base

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ondulada que desliza melhor sobre madeiras resinosas ou úmidas. Este tipo de base reduz sensivelmente a fricção entre a ferramenta e o trabalho, o esforço a fazer e o risco de falsos movimentos são assim diminuídos. AJUSTANDO A PLAINA METÁLICA: As plainas metálicas não estão equipadas com um calço, mas com um suporte regulável através de um parafuso de ajuste. Estão igualmente providas com uma alavanca de ajustamento lateral que deverá ser retirada para poder colocar a lâmina, depois descida para a bloquear. Certifique-se de que a parte cortante da lâmina fica paralela à base. COMO SEGURAR A PLAINA: Segure a pega traseira de forma a que o seu indicador siga a inclinação do ferro. Esta posição permite controlar bem a deslocação da ferramenta. Com a outra mão, pode exercer pressão sobre a pega situada à frente. APLAINAMENTO FINO OU GROSSO: Para o aplainamento fino, deve ajustar a plaina de forma a obter aparas finas. Para a madeira dura igualmente. Para o desbaste (a preparação das madeiras brutas antes de lixar), ajuste a ferramenta de maneira a obter aparas espessas. Certifique em qualquer dos casos que a plaina não entra em esforço. MANUTENÇÃO DA PLAINA: Deite sempre a sua plaina de lado. Se não for utilizá-la durante muito tempo, desmonte e limpe todas as peças. Mergulhe regularmente as partes de aço em um pouco de óleo fino para evitar que enferrujem. Caso venha a restaurar uma plaina de madeira, não envernize a base, apenas encere. APLAINAMENTO MANUAL PRECAUÇÕES: Se trabalhar uma madeira já usada, verifique antes de tudo se não tem pregos ou elementos metálicos que podem danificar seriamente o ferro da plaina. Retire os pregos com a turquesa sem danificar a madeira: apoie a turquesa sobre um pedaço de madeira. APLAINAMENTO DE CANTOS: Fixe a placa num torno, entre dois calços para que as mandíbulas não danifiquem a madeira. Coloque uma mão na pega traseira da plaina e coloque-a na extremidade do canto. A outra mão, segura-a lateralmente. PRESSÃO: Quando aplainar um canto, certifique-se de que não "mergulha" no início nem no fim de cada passo. Exerça por isso a pressão, inicialmente na frente da ferramenta, depois uniformemente sobre toda a superfície de base e, ao acabar o movimento, sobre a traseira. APLAINANDO AS EXTREMIDADES (BORDAS): Fixa a placa na bancada, encostando ao longo do seu canto vertical um suporte de madeira (prolongando o extremo a aplainar). Coloque a plaina totalmente sobre o seu trabalho, em viés 30º em

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relação ao canto a trabalhar, e aplaine em direção ao suporte (o qual evitará a formação de lascas). APLAINAMENTO DE SUPERFÍCIES: Fixe solidamente o seu trabalho sobre a bancada. Comece por aplainar com uma grande abertura, a plaina em viés 45º em relação ao sentido do veio. Efetue movimentos retilíneos sobrepondo-se ligeiramente. Para o acabamento, reduza a abertura e proceda no sentido do veio. APLAINANDO COM PLAINA ELÉTRICA FUNCIONAMENTO: A plaina elétrica está equipada com um cilindro rotativo contendo duas lâminas. A base situada à frente deste cilindro é de altura regulável, pode-se assim ajustar a diferença de nível entre a base dianteira e a base (fixa) traseira. As lâminas rodam a grande velocidade levantando as aparas. AJUSTE: Aqui, é ainda mais importante ajustar o ferro e o contra-ferro em função do trabalho, a profundidade do corte regula-se simplesmente com um botão que permite um ajustamento muito preciso. Esta precisão de regulação, aliada à sua potência, fazem da plaina elétrica uma ferramenta eficaz, igualmente para os trabalhos delicados. AS LÂMINAS: As lâminas (também chamadas facas), são de aço resistente. As duas devem ser colocadas na mesma altura, caso contrário, causaria muita vibração à máquina. Algumas lâminas têm dois lados cortantes, uma vez danificadas, não podem ser afiadas, devem apenas ser montadas no outro sentido. As laminas convencionas têm um único lado de corte e permitem ser afiadas várias vezes. APLAINANDO SUPERFÍCIES: Ligue a plaina antes de a pousar na superfície. Deve segurá-la de forma bem estável. Utilize as duas mãos, efetuando movimentos regulares. Quando aplainar grandes superfícies, é recomendável trabalhar com uma regulagem pequena efetuando passagens sucessivas. SENTIDO DE DESLOCAMENTO: A plaina elétrica deve trabalhar também no sentido do veio. O trabalho faz-se de maneira mais confortável, a base desliza melhor sobre a madeira e as lâminas correm menos riscos de se danificarem. Se, no entanto, não puder seguir no sentido do veio, oriente o aparelho na diagonal. TÉCNICA DE MANUSEIO APLAINANDO A EXTREMIDADE (BORDA) DA MADEIRA: É quando fizer esta operação, que mais se arrisca a ver a madeira lascar. Para o evitar, comece a aplainar a placa dos bordos para o centro. Ou proceda como no caso do aplainamento manual: encoste um suporte de madeira ao longo do canto que vai aplainar.

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CHANFRAR: A ranhura em V, no centro da base frontal, permite chanfrar rapidamente e sem dificuldade. Basta para isso colocar esta ranhura sobre a aresta e guiar a máquina ao logo desta última. Mantenha constante um ângulo de 45º e efetue um movimento regular. A GUIA: Guia ou batente, paralela, lateral ou ao longo: todos estes termos designam um só acessório, que se utiliza para aplainar cantos. Se este acessório for também ajustável em ângulo, pode biselar peças de madeira. RANHURAR: A guia paralela permite regular tanto a largura como a profundidade do corte, é assim possível fazer ranhuras e mesmo, se a guia puder ser regulada em ângulo, fazer ranhuras em topos biselados. UTILIZAÇÃO ESTACIONÁRIA: Montando a máquina, com as lâminas viradas para cima, sobre uma bancada equipada com um suporte fica com as mãos livres para deslocar a peça trabalhada, ao longo de uma guia por cima da máquina. O suporte deve ter uma capa de proteção que esconda automaticamente as lâminas. A SEGURANÇA ASPIRAÇÃO: Uma plaina elétrica liberta muita serragem, porém, um saco coletor lhe oferece um desempoeirar constante. Como estes sacos são pequenos, torna-se mais eficaz se ligar a plaina a um aspirador (com um adaptador). OS NÓS DA MADEIRA: Antes de aplainar elimine pregos, grampos ou manchas de resina que possam estar na madeira. Os nós nas placas finas podem tornar-se perigosos se descolarem e saltarem. Para evitar isto umedeça-os previamente e aplaine do exterior para o centro. UTILIZAÇÃO DE UM SUPORTE: Quando utilizamos a plaina na forma estacionária, a proteção das lâminas não é suficiente. Se aplainar peças pequenas, sirva-se de um suporte apropriado para manipular sem aproximar as mãos das lâminas. ROUPAS DE SEGURANÇA: Utilize luvas e óculos de proteção para se proteger das farpas e lascas. Fixe sempre muito bem a peça à bancada, em particular as peças pequenas, que se arriscam a saltar ao colocar a plaina ligada em cima destas.

APRENDENDO A FURAR LISTA DE EQUIPAMENTOS FURADEIRAS FURADEIRA MANUAL: Apesar de menos rápida que os modelos elétricos, estes modelos manuais permitem um trabalho preciso.

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GUIA PARA FUROS: Esta pequena ferramenta astuciosa permitirá perfurar reto nos cantos de uma placa. FURADEIRA ELÉTRICA / MARTELETE: Escolha pelos seguintes critérios: potência, presença de um regulador, com ou sem fio. BROCAS + SERRAS COPO: As brocas e as serras copo, assim como o seu diâmetro, devem ser adaptadas ao material a perfurar. SUPORTE DE FURADEIRA: Fixando a furadeira a um suporte ou ao um torno anulará qualquer risco de derrapagem no curso da perfuração. VERRUMA: Esta ferramenta manual é composta de uma única peça metálica, sendo o punho um prolongamento da broca. TORNO/MORSA: Escolha um torno suficientemente pesado para ficar estável, ou um modelo que possa ser fixado na bancada. PUNÇÃO: O tamanho do punção deve, naturalmente, estar relacionado com o diâmetro da broca. ESQUADRO: Pode ajudá-lo a perfurar reto numa placa ou numa tábua. GRAMPO DE CARPINTEIRO: Encontram-se modelos de 150 a 1000 mm de comprimento. ESCOLHENDO A FERRAMENTA CERTA FURADEIRAS MANUAIS: As furadeiras manuais estão praticamente reservadas à perfuração em madeira e outros materiais macios. A vantagem deste tipo de ferramenta manual é que permite uma precisão notável. Todavia, estas ferramentas precisam de brocas especiais. PERFURAÇÃO ELÉTRICA: Entre as várias máquinas, distinguimos: Furadeiras clássicas, de percussão e martelos eletropneumáticos. Se, para os segundos, a força da percussão depende da pressão exercida, o martelo eletropneumático percute sem que tenha de o pressionar. MÁQUINAS SEM FIO: Para perfurar na ausência de uma rede elétrica, os aparelhos sem fio são os mais indicados. São alimentados por uma bateria recarregável por simples ligação a uma tomada. A sua potência e autonomia são mais limitadas. VELOCIDADE: A velocidade máxima de rotação, permitida pela velocidade mecânica engrenada, é atingida progressivamente no caso das furadeiras com regulagem eletrônica de velocidade, ou diretamente para as máquinas sem regulagem e sem velocidades ou ainda as duas velocidades mecânicas. A velocidade é regulada através do gatilho (com botão de bloqueio para velocidade contínua). A velocidade deve ser mais baixa quanto maior for o diâmetro da broca e maior a densidade do material.

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MANDRIL: Para montar uma broca (desligue sempre a máquina da tomada elétrica!) Desaperte o mandril, introduza a broca e aperte novamente (gire a chave nos 3 furos). Esta operação é bem mais rápida com mandril de aperto rápido e brocas com haste sextavada. PEDRA, TIJOLO E CONCRETO / PEDRA OU TIJOLO: Para perfurar concreto, pedra ou tijolo, engate a percussão ou o martelo pneumático. Se tiver que perfurar um material macio (como o gesso) antes de atingir a camada dura, espere por este momento para engatar o mecanismo, de forma a não danificar a superfície da parede. BROCAS PARA PEDRA E CONCRETO: As duas dispõem de pontas em vídea (geralmente coloridas). Se as brocas para pedra não conseguem perfurar o concreto, o contrário já é possível. Verifique se os veios das brocas são os que convêm à sua máquina. Ao equipá-la com um buril, pode perfurar as paredes. MATERIAIS MACIOS: A perfuração em materiais de construção macios (blocos ou placas de gesso, cerâmica, tijolo comum ou pedra macia) faz-se sem percussão. Caso contrário, arriscaria, devido às vibrações, a fazer um furo demasiado grande. Se quiser utilizar buchas, acrescente 3 a 4 mm de profundidade. GUIA DE PROFUNDIDADE: A guia de profundidade, inserida na máquina, e apertada à distância desejada, relativamente à ponta da broca, permite-lhe limitar a profundidade do furo (1). Se não tiver uma guia, pode enrolar a broca com fita adesiva, no comprimento desejado (2). PUNHO LATERAL: A máquina fica mais fácil de manusear na execução de trabalhos pesados, e permite-lhe exercer uma pressão mais forte. O punho é, às vezes, amovível. Durante a perfuração, mantenha a máquina na posição certa para não torcer ou quebrar a broca: uma broca torcida fica inutilizável. FUROS LARGOS: Para obter um furo largo na parede, perfure primeiramente uma série de furos na forma de um círculo. Durante a perfuração, retire regularmente a broca para que o furo não se encha de pó. Depois utilize a serra copo para executar o furo largo (não escavar com o buril). DETECTORES: Procure a presença de eventuais canos sanitários ou elétricos antes de começar os trabalhos. Para tal, pode utilizar um detector de corrente, ou de metais. Se encontrar um cano ou mesmo uma simples peça metálica (concreto armado), renuncie a perfurar nesse lugar. POEIRA: A perfuração liberta muita poeira. Pode recolhê-la dentro de um envelope aberto fixo à parede ou, se fizer uma perfuração no teto, enfie uma metade de bola de

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tênis, a tampa de um aerossol ou um filtro de café sob o mandril da máquina. CERÂMICA: Perfure a cerâmica com uma broca de ponta de vídea. Marque a colocação do furo com uma ponta aguçada e uma caneta hidrocor. Sobre a marcação coloque fita adesiva transparente, em cruz, e faça uma incisão no local de perfuração, para que a broca não deslize. Perfure lentamente (300/500 RPM). VIDRO: Perfure o vidro com uma broca para pedra ou uma broca especial em carboneto. À volta do futuro furo, faça um círculo com massa para vidro, enchendo-o de vaselina ou aguarrás para lubrificar a broca. Coloque a placa de vidro numa superfície completamente plana, use óculos de proteção e perfure a baixa velocidade. FURANDO METAL PUNÇÃO: Sobre o metal, comece por marcar a colocação do furo com o punção: depois posicione a broca com precisão, para que não deslize. Pode escolher as brocas HSS (high speed steel) em aço rápido. PLACAS FINAS: Não perfure jamais uma placa metálica fina, segurando-a com a mão. A broca, ao atravessar a placa, poderia arrastar a placa no seu movimento de rotação. Coloque a placa entre duas peças de compensado, presas num torno ou num grampo de carpinteiro. PERFURAÇÃO DE GRANDE CALIBRE: Se quiser fazer um furo de grande calibre em metal, comece por executar uma pré-perfuração de calibre mais pequeno, que seguidamente, guiará a passagem da broca maior, com precisão. Atue, se necessário, em 3 etapas: primeiro com brocas de 5 e 8 mm, e acabe com uma de10 mm. LUBRIFICAR: Não exerça mais que uma ligeira pressão na perfuração do ferro ou aço (nunca utilize a percussão). Mesmo assim lubrifique (com vaselina) durante o trabalho, para arrefecer as superfícies. Alivie a pressão no fim da perfuração, para não deformar o metal. TUBOS: Se tiver que perfurar tubos, utilize um suporte para assegurar uma perfuração perfeitamente vertical. Aperte a peça (protegida por um papelão ou um pano) num torno. Para evitar a deformação dos tubos ou outros perfis ocos, introduza uma cunha de madeira com o mesmo formato no seu interior. FURANDO MADEIRA COM VERRUMA: A verruma é muito prática na preparação de furos destinados a parafusos. Gire-a primeiro de direita para a esquerda, até que a ponta se introduza na madeira. Depois gire-a à direita, até à profundidade desejada. BROCAS PARA MADEIRA: A broca com hélice rápida permite a perfuração de lado a lado ou parcial com qualidade na madeira. A broca helicoidal possuí uma ponta de

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central e duas pontas cortantes, para os furos de lado a lado. As brocas para martelos eletropneumáticos devem ter um veio fresado. BROCAS CHATAS: As brocas chatas apresentam uma ponta de centrar colocada entre duas superfícies cortantes. Permitem a execução de furos em viés de grande calibre (até 35mm) em madeira, transversalmente ou no sentido do fio. Este tipo de operação efetua-se a velocidade elevada (1500/3000 RPM). FRESA DE ESCARIAR MADEIRA: Permite o acabamento da pré-perfuração destinada aos parafusos: executa o corte cônico, no qual se instalará a cabeça do parafuso. Geralmente basta um pouco de massa para a tornar completamente invisível. BROCA EXTENSÍVEL: Apresenta uma ponta de centrar e uma lâmina que se desparafusa para ser regulada à largura desejada (diâmetro da perfuração: até 60 mm e mais). Coloque a furadeira sobre um suporte, ou fixe muito bem a peça a trabalhar num torno. Essas brocas são difíceis de se encontrar e normalmente têm que ser importadas. FURANDO RETO: Perfurar reto em madeira nem sempre é uma operação fácil. Para as bordas dos painéis utilize uma guia de perfuração. Para as peças mais largas guie-se por um esquadro. LIMALHAS: Ao perfurar de lado a lado, existem grandes possibilidades de formação de limalhas à saída da broca (sobretudo em painéis estratificados). Para o evitar, coloque uma peça em madeira sob o local da perfuração, e aperte as duas peças com um grampo. FURAÇÃO EM VIÉS: Quando precisar de perfurar em viés num dado ângulo, encontre ou confeccione uma peça de madeira chanfrada no mesmo ângulo. Colocada sobre a peça a perfurar, irá servir de guia ao percurso da broca. EXECUÇÃO DE ENCAIXES: Para executar encaixes (ex : colocação de uma fechadura), comece por fazer uma série de furos cegos alinhados a todo o comprimento do encaixe. Perfure os das extremidades, o do meio, e depois, usando um formão, entalhe o local previamente marcado.

APRENDENDO A LIXAR LISTA DE EQUIPAMENTOS E SUPORTE DE LIXA

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Além dos blocos simples, existem modelos com uma pega curva e travas. Também pode-se usar um pequeno pedaço retangular de madeira para a mesma função. LIXA DE PAPEL OU PANO: Escolha a lixa, papel ou pano, em função do tipo de material e resultado pretendido. Algumas lixas podem ser usadas em diversos materiais diferentes. LIXA EM CHAPA DE AÇO: Esta lixa fixa-se sobre um suporte especial para utilização manual, ou numa máquina por meio a uma fixação tipo "velcro" LIXADEIRA ORBITAL: Para acabamentos finos e mesmo profissionais. Existem diversos modelos: base retangular, base quadrada, lixadeira de canto, etc. LIXADEIRA EXCÊNTRICA: Discos com dois diâmetros diferentes podem equipar este tipo de máquina: 115 ou 125 mm. LIXADEIRA DE CINTA: A sua eficácia depende de sua banda de lixar e da sua velocidade máxima. LIMA ELÉTRICA: Este modelo utiliza lixas muito estreitas e por isso acede facilmente a locais difíceis. ESCOVAS ABRASIVAS: As escovas de nylon têm uma duração 10 vezes superior à das escovas metálicas. DISCO PARA LIXAR: Escolha-o em função da natureza do material a ser trabalhado. Pode ser usado para desbastar ou apenas para lixar. MÁSCARA, ÓCULOS, ETC: Se for lixar com máquina, o uso de óculos de segurança e de uma máscara anti-poeira é recomendado. OS ABRASIVOS O PORQUE DE LIXAR: Lixar tem como objetivo tornar uma superfície plana e lisa, eventualmente com vista a um futuro tratamento (pintura, envernizamento, etc.). Lixar manualmente é geralmente reservado aos acabamentos, após o grosso do trabalho ter sido efetuado (geralmente) com a máquina. DIVERSIDADE DOS ABRASIVOS: Mesmo que lixemos a mão ou a máquina, dispomos de uma grande variedade de lixas de todos os tipos, granulometria e formatos. A maioria dos materiais disponíveis são utilizáveis manualmente ou para máquinas, cada um com as suas vantagens e usos específicos. PAPEL E PANO: Se a maioria das lixas de papel são destinadas a superfícies planas, as lixas de pano adaptam-se (devido à sua maleabilidade e robustez), aos trabalhos com formas arredondadas, tanto em madeira quanto aos metais ferrosos ou não ferrosos. LIXAS SINTÉTICAS E DE AÇO: As lixas sintéticas são folhas que, geralmente veem destacáveis em rolos. São feitas de material sintético muito resistente. São muito boas

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para lixar madeira e remover ferrugem e outras impurezas em metais. Os abrasivos ou palhas de aço (ex. Bombril), são apropriados para limpeza e polimento de metais. DIVERSOS TIPOS DE GRÃOS: O papel amarelo com grãos de sílex, gasta-se rapidamente e serve para trabalhos ligeiros sobre madeira macia. A pedra vermelha (vermelho-escuro) permite também lixar madeiras mais duras. Os óxidos de zircônio e de alumínio, bastante cortantes, utilizam-se em máquinas e para trabalhar o metal. Mais duro ainda, o carbono de silício difusa também, rapidamente, o calor da fricção (evita a fusão das matérias plásticas). A dita "lixa d’água", pode ser umedecida para o trabalho do metal. As lixas de qualidade "seca à prova de água" são revestidas com uma camada "auto lubrificante". DENSIDADE DO GRÃO: Para os grãos idênticos o abrasivo mais eficaz é aquele cuja densidade em grãos é maior. Neste caso ("grão fechado") o suporte satura mais depressa. Prefira por isso, um grão mais aberto ("grão aberto") para madeira macia ou resinada. TAMANHO DOS GRÃOS: A eficácia do lixamento depende da durabilidade, da forma e da densidade dos grãos, assim como do seu tamanho. Se forem pequenos, a sua ação é mais lenta, mas não arranham tão profundamente o material, ao contrário dos grãos grossos que deixam marcas mais profundas. LIXANDO MANUALMENTE TÉCNICA: O poder abrasivo é indicado a partir de números (antigamente de 1 a 9/0), atualmente de 30 a 600 e mais (número de grãos por cm²). Ao lixar deve-se utilizar uma lixa de cada vez: cada lixa usada deve ser mais fina que seu antecedente, isso irá remover as marcas deixadas por ela. EXEMPLOS DE GRANULOMETRIA: Muito grosso:20, 30, 40, 50 Grosso: 60, 80 Médio: 100, 120, 150 Fino: 180, 220, 340 Muito fino: 400, 500, 600 Extrafino: 1200, 2200 SUPORTE DE LIXA: Lixar uma superfície segurando a lixa apenas com os dedos, não irá remover todas as irregularidades. Enrolando a lixa num pequeno suporte é, conseguimos obter uma superfície mais plana. Existem suportes feitos de cortiça, plástico ou borracha, entretanto, pode-se usar um pequeno pedaço de madeira retangular para essa função. SENTIDO DO MOVIMENTO: Na madeira siga sempre que possível o sentido dos veios, lixando contra o veio você danificará as fibras, obtendo um resultado final muito ruim. Quando lixar os cantos de um objeto, certifique-se de que não os está arredondando.

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UMIDIFICAÇÃO: Para obter um resultado impecável na madeira (ou folheado), umedeça-o, bem de leve, antes de usar a lixa mais fina. Deixe secar bem antes de lixar: as fibras irão se endireitar. Agora já pode passar a lixa extrafina. Depois limpe com um pano embebido em "Aguarrás". FORMAS ARREDONDADAS: Para trabalhar as formas arredondadas, utilize um pedaço de lixa de pano, que não se rasga e adapta-se à forma do objeto. Um exemplo frequente desta aplicação é o lixamento de tubos de cobre nas extremidades onde depois vão ser soldados. Fixe-os eventualmente antes de lixar. USANDO A LIXADEIRA DE CINTA MANUAL DESBASTE: A lixadeira de cinta retira grandes quantidades de material, serve por isso, para os trabalhos mais difíceis (decapagem de um assoalho ou de uma porta por exemplo). Ela deve a sua eficácia à sua banda circular que roda a grande velocidade (e na qual o sentido de rotação é indicado por setas). DIREÇÃO DO MOVIMENTO: Ligue a máquina antes de pousá-la sobre o trabalho, inclinando-a 15º em relação ao veio. Faça-a efetuar um movimento regular e contínuo em vaivém, no sentido do veio, ultrapassando sempre a superfície lixada. Levante a máquina antes de pará-la. PRESSÃO: A lixadeira de cinta é um aparelho potente, é por isso que é normalmente munida com duas pegas para permitir dirigi-la corretamente. O seu peso é geralmente suficiente para assegurar um bom funcionamento: não é necessário exercer pressão sobre a máquina. UTILIZAÇÃO ESTACIONÁRIA: Várias lixadeiras de cinta podem ser montadas sobre um suporte fixo, com a base virada para cima ou em posição vertical. Ao encostar o seu trabalho contra a lixa em movimento (a máquina está, necessariamente, equipada com uma guia), pode-se lixar ou polir (arredondar, escavar e etc.). A LIMA ELÉTRICA: A lima elétrica está também munida com uma banda, mas com largura muito reduzida, o que permite utilizá-la em locais de difícil acesso (entre barras de uma grelha por exemplo). Pode servir também para polir dentro de uma peça de madeira (colocar uma fechadura). LIXANDO COM A LIXADEIRAS ORBITAL, ROTO-ORBITAL E DE DISCO TRABALHOS FINOS: A lixadeira orbital oferece um lixamento mais fino para superfícies planas, representando assim, uma boa alternativa (elétrica) à utilização dos suportes de lixa. A sua base efetua movimentos elípticos quase imperceptíveis, resultando em um acabamento fino.

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MOVIMENTO E PRESSÃO: Não pressione muito a máquina, deixe-a fazer o seu trabalho. Efetue movimentos de vaivém o mais amplo possível (não é necessário ser no sentido dos veios), libertando assim a aspereza da placa. Ultrapasse sempre as zonas já lixadas. AS LIXAS: Corte as folhas de lixa um pouco maior que a base da lixadeira. Prenda a lixa na base usando o sistema da máquina. Algumas maquinas têm grampos dentados nas extremidades para prender as lixas. A LIXADEIRA ROTO-ORBITAL: Esta permite, devido à sua base maleável, o lixamento e polimento de superfícies não planas. O dispositivo de "arranque suave" evita esfolamentos quando se inicia o funcionamento. Quanto mais apoiar, mais fino é o lixamento (neste caso subsiste só o movimento orbital). A LIXADEIRA ANGULAR: A lixadeira angular geralmente é utilizada para grandes desbastes. Pode-se usar lixas apropriadas finas ou grossas, dependendo do desbaste que se deseja executar. LIXANDO COM A FURADEIRA OS DISCOS DE LIXAR: A montagem de discos numa furadeira permite sobretudo fazer trabalhos mais delicados: remover ferrugem em metal, decapar superfícies pintadas (madeira reservado às superfícies côncavas ou não visíveis). O suporte de borracha deve estar sempre inclinado 15º em relação à superfície a ser trabalhada. UTILIZAÇÃO ESTACIONÁRIA: Pode ser interessante utilizar em suporte fixo a sua furadeira equipada com um disco abrasivo (este último deve estar perpendicular à superfície da bancada). Uma guia regulada a 45º permitirá lixar os ângulos. Não pressione demasiado o seu trabalho contra o disco, para evitar manchas negras de "aquecimento". O ROLO DE LIXAR: O rolo de lixar monta-se no mandril da furadeira. Ele é maleável, o que permite o trabalho de superfícies arredondadas, a banda abrasiva que o envolve adapta-se assim à forma do objeto a trabalhar (lixar objetos com formas complicadas como cadeiras e etc.). AS ESCOVAS DE NYLON: Em regra geral, a cor das escovas de nylon, muito robustas, indicam a sua utilização (vermelho: lixamento forte, azul: lixamento fino e assim por diante). Para trabalhar a madeira são preferíveis às escovas metálicas cujas partículas se incrustam e acabam por enferrujar.

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A SEGURANÇA: Lixar pode ser tão perigoso como serrar ou cortar. É recomendado utilizar sempre um saco coletor. Use máscara e óculos de segurança. Antes de arrumar a máquina desligue-a da tomada elétrica. RECAPITULANDO GRÃO E UTILIZAÇÃO: Qual maquina usar e que lixa usar, em determinados trabalhos? Para os trabalhos mais difíceis (eliminar grandes irregularidades da madeira bruta serrada, decapar velhas camadas de tinta ou verniz e etc.), escolha lixas 40, 60, 80 ou 100, dependendo do estado do material. Para a preparação antes de pintura, é aconselhável proceder 3 etapas de lixamento, para remover todas os defeitos. Para obter um acabamento suave, utilize lixas com grão cada vez mais fino entre duas camadas de tinta ou verniz (120 após a primeira, 180 após a segunda, etc.). MAQUINA DECAPAGEM ANTES DE PINTAR ACABAMENTO FINAL LIXADEIRA DE CINTA 30 - 60 120 - 180 LIXADEIRA ORBITAL 40 - 60 80 - 120 - 180 220 - 320 LIXADEIRA EXCÊNTRICA 60 120 - 180 - 240 320 - 400 ACESSÓRIOS MONTADOS NA FURADEIRA 40 60 - 80 - 120 LIXAMENTO MANUAL 40 80 - 120 - 180 A SECO: 120 - 180 - 240 - 320

EMENDAS Por razões que a sociologia tenta — no usual sem sucesso — explicar, o gosto das pessoas muda acentuadamente com o fluir do tempo. Quando certos padrões de gosto como que se estabilizam por períodos mais ou menos prolongados na história das civilizações esses padrões, expressos nas criações desses períodos, são denominados estilos. E assim as emendas encaixadas. Reparem que apesar da emenda ser muito, muito rasa, sem cola e sem parafusos, ainda assim o encaixe se sustenta com suficiente estabilidade

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Reparem na imagem à direita a inversão, evidente nas tabuinhas já cortadas de cedrinho à direita, e que serão os lados da gaveta. Caudas na frente e pinos atrás. Além da variação, parece-me deixar o conjunto mais monolítico. Bem, daí terei que fazer um livro só para isso.

MODELOS PARA VOCÊ FAZER Você precisará apenas de trena, esquadro, formão, martelo, serrote, serra tico-tico elétrica, furadeira elétrica comum, pregos, chave philips e parafusos de 2 pol.

Cadeiras de jardim

Cadeira rústica feita de estrados

Cavalinho

Eu como bicho carpinteiro

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Carlos Alberto Fernandes Corrêa, santanense de abril de 1955, codinome Potoko, de uso comum por meus amigos e familiares desde menino. Sou Colunista do Jornal Correio do Pampa e do site Fronteira da Paz. Além de poesias publicadas, tenho um Livro digital gratuito “1823” sobre a história político-militar da fronteira Livramento-Rivera. Participo como colaborador do Projeto Fronteiras Culturais do CELP-Centro de Estudos de Literatura e Psicanálise Cyro Martins. E membro da Academia Santanense de Letras ocupando a cadeira 35, cujo patrono é o Cyro Martins. Gosto de transitar na região fronteiriça entre a crônica e o conto, jamais abandono a emotiva concisão da profundidade poética para alcançar uma força nostálgica que me surpreenda. Sou de um “lugar comum” como uma porteira perdida no interior deste pampa sem fronteira. Contudo essa força vem do exílio voluntário que muitos escolhem para si. Meu corpo se distancia, mas a mente é presa às melhores lembranças que nunca se afasta da terra em que germinou meus próprios brinquedos de madeira. “Há motivos que levam uma pessoa a escrever que não são conscientes, mas acho que há uma parte que tem função de cartase, como fator equilibrante. Podíamos modificar o mundo e em vez de dizer o princípio do Verbo pela depressão porque, no fundo, nossa vida é a forma que a gente encontra para lutar contra o desalento. Viver, talvez, não seja mais que isso. ”

Funda com gatilho

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O carpinteiro do tempo  

"O livro digital O CARPINTEIRO DO TEMPO é um romance, bibliográfico e técnico ao mesmo tempo porque foi baseado em fatos reais num cenário d...