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Francisco Vaz da Silva

No pa铆s das letras (ou as hist贸rias que a minha av贸 me contava)


Ficha Técnica O país das letras (ou as histórias que a minha avó me contava) Autor: Francisco Vaz da Silva (texto e ilustração) © 2010, Francisco Vaz da Silva e Edições Afrontamento Edição: Edições Afrontamento, Rua Costa Cabral, 859 4200-225 Porto · Portugal Colecção: Tretas e Letras Impressão: Rainho & Neves


Para a Dulce, a quem, em primeira m茫o, escrevi esta hist贸ria.


No tempo em que eu era pequeno como vocês e a minha avó era grande como eu... No tempo em que eu só podia ler histórias quando chegava o carro da Gulbenkian cheio de livros para emprestar... Nesse tempo, a minha avó contava-me histórias maravilhosas! Num desses dias fantásticos em que a minha avó me falava das aventuras do meu avô e do seu primo Ferreira de Castro, contou-me uma das histórias mais fabulosas de que eu tenho memória...

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— Avó, o que andava o avô a fazer com o Ferreira de Castro? — Fizeram uma grande viagem. — Aonde foram? Conta-me! — Ouve com atenção... Era uma vez um país muito distante e muito civilizado que se chamava “País das Letras”. Nele, toda a vida girava em torno das letras... — Como? Eu nunca ouvi falar desse país na escola! Da França, do Canadá, da Austrália, da Suécia, da Hungria, da Alemanha, da Espanha, do Brasil e tantos outros já ouvi, mas desse... não me lembro...

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— Nesse país, as pessoas viviam muito felizes e com tempo para tudo. A esmagadora maioria dedicava-se à agricultura, mas não das batatas e das cebolas! Todas as casas tinham o seu jardim ou quintal e em todos eles floresciam plantas e árvores que davam letras... — Letras? — Sim, havia árvores cheias de “pês” maiúsculos, outras com “pês” minúsculos, plantas cujas flores eram “efes” e até as ervas daninhas davam


letras, pequeninas claro, algumas com o corpo doze, outras com o corpo dez, outras com o oito, outras ainda mais pequenas. Todas as pessoas colhiam as suas letras e ao fim-de-semana iam ao Mercado das Letras para aí poderem fazer as suas trocas. Uns levavam sacos cheios de “xis”, outros levavam “éles” e por aí adiante... de maneira que todos acabavam por ter o alfabeto completo e repetido, alguns mesmo até coleccionavam outros alfabetos como o “cirílico” e o “grego”.


Na primavera, os campos enchiam-se de letras que ondulavam ao vento formando poemas lindĂ­ssimos, enquanto outros viam crescer prosas fantĂĄsticas.

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O verão era passado na praia cujas areias eram banhadas pelo mar das letras que trazia nas ondas letras lindíssimas, algumas raras como o “ípsilon” e o “dâblio”. As noites davam-nos um espectáculo extraordinário de céu letrado. Os pescadores, nos seus barcos, lançavam as redes ao mar e, por vezes, para além de grandes quantidades de letras, apanhavam algumas frases lindíssimas. Esses eram dias de festa para todos.

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No Outono, as ĂĄrvores deixavam cair as suas letras, ficando as ruas e os campos cobertos de letras lindĂ­ssimas, das mais variadas cores e tamanhos. Todos corriam para as apanhar, enchendo os seus cestos e carrinhos, e de seguida levavam-nas para casa onde eram conservadas e usadas para fazer os livros.

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Com a chegada do Inverno e das primeiras chuvas, era um espectáculo maravilhoso ver todas aquelas letras a caírem do céu. Alturas havia em que era possível ver o arco-íris das letras. Nesse momento mágico, todos vinham para a rua admirar o fenómeno com que a natureza os prendava. Quando as temperaturas desciam mais, e começavam a cair os primeiros flocos de letras, aí sim, era um verdadeiro acontecimento que ninguém queria perder.

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Quando alguém saía à rua, era habitual cruzar-se com o Fernando Pessoa e o Mário de Sá-Carneiro. Também era comum encontrar o Ernest Hemingway fazendo longas caminhadas pela praia, talvez relembrando “o velho e o mar”, muitas das vezes acompanhado pela Sophia de Mello Breyner... Por vezes, passeavam por lá o Jean Paul Sartre e a Simone de Beauvoir e paravam longas horas para conversar, enquanto que o Milan Kundera costumava encontrar-se com o Bohumil Hrabal num cafezinho de esquina onde tinham por hábito saborear a famosa “Sopa de letras”, especialidade da casa e a refeição preferida dos habitantes do país das letras. Não havia restaurante que se prezasse que não tivesse na sua ementa a deliciosa “Sopa de letras”. Também o Aldous Huxley, pensando se aquele não seria o seu “admirável mundo novo”, por ali parava habitualmente e o Kafka passava os dias caminhando pelas ruas estreitas e mal iluminadas, durante horas a fio. O Gil Vicente fizera amizade com o Shakespeare, havia muito tempo, e ambos passavam os dias em longas e amenas cavaqueiras em que o Saramago e o Camões participavam muitas das vezes.

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À noite, era o Céline quem mais vagueava pelas ruas acompanhado pelo Léo Ferré. O Coetzee divertia-se a misturar letras pretas e brancas, por vezes, dias a fio, escrevendo textos inflamados em defesa dos animais e da condição humana. O José Eduardo Agualusa visitava-o na companhia do Mia Couto. Também o Lobo Antunes por lá andava, um pouco mais sorumbático que os demais. Fizera grande amizade com a Virginia Wolf tendo-se tornado, os dois, amigos inseparáveis... O Herberto Helder passava os dias na cama, com o cobertor cheio de letras que o vizinho Ramos Rosa lhe levava, compondo os seus poemas. O Marx e o Engels, amigos inseparáveis, passavam o seu tempo preocupados com a humanidade. Depois da escrita, apenas paravam para ouvir o Léo Ferré, de quem gostavam muito e que actuava todas as noites no Café das Letras. Aí estava, habitualmente, o Luís Sepúlveda — um companheirão — diziam todos, sempre preocupado com os homens e a humanidade e com as baleias.

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O Mário Henrique Leiria, sempre de volta do seu “gin-tónic”, fizera grande amizade com o Tom Sharp, seu vizinho do lado, e ambos passavam as tardes a falar das histórias do “Wilt” e a dizer piadas aos vizinhos que passavam. O Gabriel García Márquez, Gabo para os amigos, vivia na casa mais engraçada de todas, fazendo lembrar uma obra do Gaudí, onde era frequente encontrar-se com o seu amigo Jorge Amado e o Rainer Maria Rilke. Também a Rosa Montero por lá aparecia e, nesses dias, era um gosto ouvi-los discutirem ideias com ela, que tinha a particularidade de nunca se dar por vencida nas longas discussões que provocava com os seus companheiros. O Umberto Eco, sempre com aquele ar sério que o seu corpo imponente lhe dava, passava os dias a estudar. De vez em quando marcava encontro com os seus amigos Vergílio Ferreira e Eduardo Lourenço em que os três falavam durante horas a fio. Enfim, não havia memória de lugar algum em que as letras fossem tão bem tratadas...

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A esta hora, j谩 a minha av么 me passava a sua m茫o carinhosa pelos cabelos enquanto eu, adormecido no seu colo, sonhava com as hist贸rias que ela me contava.

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Que saudades que eu tenho desse tempo... Que saudades que eu tenho das hist贸rias que a minha av贸 me contava...

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Em mem贸ria da minha av贸 que me contava hist贸rias fant谩sticas.


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