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Distribuição Gratuita

Jornalismo UEPG ­ Outubro ­ 2019 ­ 212 Foto: Eduardo Machado

Moradores do Bonsucesso e da Palmeirinha correm risco ao passar por pinguelas em situação precária. p.4 Farmácia Escola apresenta des­ de abril redução de 70% do es­ toque de medicamentos.

Política p.6 Envie pautas. Comente. Compartilhe. Contato do Foca Livre: (42) 99700­0565

Ponta Grossa registra, ao ano, uma média de 35 casos de gra­ videz de adolescentes.

Política p.7 Aumento na passagem de ônibus descumpre recomen­ dações do TCE.

Problemas Urbanos p.5 Após 20 anos, Secretaria Mu­ nicipal de Saúde volta a regis­ trar caso de sarampo.

Esporte p.13

Foto: Emanulle Soares

UEPG p.3

Operário adere ao movimento que defende fim da homofobia no futebol.

Cultura p.14 Centro de Música inicia digi­ talização de partituras antigas compostas na cidade.

Entrevista p.10 Hein Leonard Bowles comenta sobre os 10 anos do livro “Jacu Rabudo”.


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Menos de 3% dos estudantes optam pelo sistema de cotas raciais nos vestibulares da UEPG Desproporção mostra a diferença entre estudantes brancos e negros que tentam ingressar na universidade

número de inscritos pelo O sistema de cotas raciais vindos de escolas públicas

nos vestibulares de 2016 a 2019 da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) não alcança 3% do total de inscritos em cada ano. Os dados são do Informativo das Inscrições nos Vestibulares, divulgado pela Coordenadoria de Processos de Seleção (CPS) da UEPG. Em 2017, a UEPG recebeu 21.821 inscrições por cotas universais e de escolas públicas nos dois vestibulares. Entretanto, apenas 470 pessoas se inscreveram por cotas raciais, representando 2,15% do total das inscrições daquele ano. Já em 2018, o número de inscrições por cotas universais e de escolas públicas foram de 18.371. Porém, apenas 402 pessoas se inscreveram pelo sistema de cotas raciais no mesmo ano, correspondendo a 2,19% do total de inscritos. No primeiro vestibular realizado em 2019, foram recebidas 10.664 inscrições por cotas universais e de escolas públicas, enquanto apenas 216 pessoas se inscreveram por cotas raciais, representando 2,03% do total de inscritos. Dos sete vestibulares no período de 2016 a 2019, 72.701 inscrições foram feitas nesse período pelo sistema universal e de escolas públicas. Por outro lado, apenas 1.620 inscrições foram realizadas pelo método de cotas raciais na UEPG, representando 2,23% do total no período de quatro anos. Essa desproporção mostra a diferença entre estudantes brancos e negros no ingresso no ensino superior público. Para a Pró-Reitora de Assuntos Estudantis, Ione da Silva Jovino, a falta de informações sobre o funcionamento das cotas raciais é um dos fatores para o baixo número de inscrições nos vestibulares. “As cotas necessitam passar por uma mudança, serem mais flexíveis para os estudantes que optam por esse modelo”, explica Jovino. “O sistema de cotas raciais é um projeto de País. Para

Estudantes encontram nas cotas raciais um meio para entrar no sistema superior em Ponta Grossa. Foto: Alexsander Marques

algumas pessoas, a única possibilidade de ascensão social passa pela educação, seria uma forma de dizer para as pessoas negras que existe um espaço no meio acadêmico para elas, onde poderá futuramente mudar opiniões na sociedade por diferentes meios como político, econômico e social”, completa a Pró Reitora. Para a estudante de pedagogia da UEPG, Dayane Barbosa, as cotas representam uma possibilidade de crescimento profissional. “Se não houvesse esse sistema, eu não estudaria em uma universidade pública, pois comecei a trabalhar com meus 14 anos”, relata Barbosa.

No primeiro vestibular de 2019, 2,03% do total de inscritos concorreram às vagas por cotas

Barbosa conta que inicialmente era contra cotas pois considerava vergonhoso recorrer ao sistema. “Compreendi que obtive minha vaga porque lutei comigo mesma, fui contra o que me foi imposto toda a minha vida, portanto as pessoas têm que entender que se a pessoa opta pelo sistema de cotas não é para se aproveitar e sim por uma necessidade”, diz. A estudante de Pedagogia da UEPG, Hemili Maruim, acredita que as cotas servem como uma reparação social.

“Este sistema não representa que as pessoas negras sabem menos, mas que têm uma realidade social diferente, na qual a única alternativa para um crescimento é a educação”, enfatiza Maruim. De acordo com a presidente e fundadora da Sociedade Afro-Brasileira Cacique Pena Branca de Ponta Grossa, Tânia Mara Batista, ainda existem muitos negros que desconhecem o acesso à universidade pelo sistema de cotas. “A informação é um fator crucial para que as pessoas negras possam ir atrás do direito às cotas raciais e usufruam de uma educação de qualidade”, conclui Batista. O Brasil adota o sistema de cotas nas universidades de diferentes formas desde o início de 2003. A partir da apro-vação da Lei nº12.711/2012 as instituições de ensino superior federal têm a obrigação de reservar parte das vagas para alunos oriundos de escolas públicas, de baixa renda e negros, pardos e índios. Em 2004, a Universidade de Brasília (UnB) foi a primeira instituição federal a implementar o ingresso pelo sistema de cotas raciais, ofertando 20% das vagas nos vestibulares a candidatos autodeclarados negros. Na UEPG, as cotas raciais foram adotadas em 2007. A resolução em vigor, de 2013, destina 50% das vagas para o sistema universal e outros 50% para candidatos provenientes de escolas públicas. Dessa porcentagem, é separado 10% das

vagas para candidatos autodeclarados negros. Os interessados devem preencher uma ficha de autodeclaração na inscrição do vestibular, com identificação quanto a sua cor. Os candidatos devem possuir traços fenótipos desse grupo étnico-racial, sendo critério sua característica física e não ascendência. Os mesmos podem ser chamados pela universidade para comprovação das informações. Para este ano, a PróReitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) prevê realizar consulta aos coordenadores de grupos de pesquisa e programas de extensão para que possam participar da nova Comissão de Acompanhamento e Avaliação da Política de Cotas da Universidade. A consulta visa a avaliação do sistema na UEPG para atualização do atual regulamento, previsto para entrar em vigor no ano de 2022.

Este sistema não representa que as pessoas negras sabem menos, mas que têm uma realidade social diferente"

Úrsula, de 1859, o primeiro romance abolicionista brasileiro e escrito por uma mulher negra, a escritora Maria Firmina dos Reis, já chamava atenção para importância da escolaridade como liberdade para os negros: “Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher e ainda brasileira e negra de educação acanhada, espero que no futuro as mulheres com imaginações mais brilhantes e com educação mais acurada e com instruções mais vastas e liberal possam ser melhor do que nós hoje”. Por Alexsander Marques


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Farmácia Escola da UEPG apresenta baixo estoque de medicamentos Redução chega a 70% do normal devido ao novo processo de compras estabelecido pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná

Farmácia Escola Professor Horácio Droppa, no campus Uvaranas da UEPG, contém baixo estoque de medicamentos desde abril deste ano, devido à necessidade de adequação ao processo de compras estabelecido pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR). A farmácia precisou adequar-se a essas normas por ser estabelecimento de um órgão público. É o que explica o professor de estágio supervisionado em farmácia e responsável técnico pela Farmácia Escola, Arcélio Benetoli. “Nossos medicamentos são comercializados a um preço mais acessível à população”, afirma. “Isso auxilia a comunidade, que pode obter os fármacos a um preço mais barato”, completa o professor. A licitação para a compra de medicamentos da farmácia que era diária, passou a ser anual. “A farmácia não vai fechar, mas vai mudar a forma de atuação devido às condições impostas”, finaliza. A Universidade está fir-

Comunidade interna e externa a uepg são afetados pela falta de medicamentos. Foto: Germano Busato

mando um convênio com a Secretaria de Saúde e Terceira Regional de Saúde para o acesso a medicamentos no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Os medicamentos são ofertados gratuitamente para pacientes que possuem cadastro no SUS, com justificativa de uso dos fármacos. “Esse convênio amplia os atendimentos realizados na farmácia, possibi-

litando aos acadêmicos o contato com este âmbito de atuação do profissional farmacêutico, além de oferecer um atendimento de qualidade à população”, explica a Chefe do Departamento de Ciências Farmacêuticas (DEFAR), Priscileila Colerato Ferrari. Ao entrar na Farmácia Escola, é visível a escassez de produtos nas prateleiras. Se-

gundo Benetoli, a redução foi grande, chega a mais de 70% do estoque normal, visto que não há reposição. “Medicamentos e produtos de higiene vão continuar a diminuir, até conseguirmos reestabelecer as compras.” A falta dos medicamentos afeta a população, que ficará sem os remédios mais baratos, e os alunos estagiários da farmácia. Segundo a acadêmica do quinto ano do curso de Farmácia, Lohanne Elis Cordeiro, a situação prejudica o ensino diretamente. “Estamos fazendo menos atendimentos ao dia. Não aparecem mais casos diferentes para termos experiência”, lamenta a acadêmica. Segundo a Chefe do DEFAR, a Farmácia Escola é essencial para a formação acadêmica dos alunos. “A farmácia tem um papel social com a comunidade interna e externa, que se beneficia com a excelência de atendimento promovido pelos acadêmicos do curso”, conta Ferrari. Por André Ribeiro

‘Abrace o HU’ quer construir casa de passagem para pacientes de outras cidades Objetivo é atender usuários que passam o dia no hospital para procedimentos médicos

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Hospital Universitário (HU) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) atende, em média, 127 pacientes por dia, 60% a mais se comparado com janeiro de 2017. O hospital atende não só aos moradores de Ponta Grossa, mas também de outras cidades da região. Em muitos casos, os pacientes e acompanhantes saem de suas casas por volta das duas, três horas da manhã e passam o dia inteiro no hospital para os procedimentos médicos. Devido a demanda, a associação Abrace o HU pretende construir uma casa de passagem para os pacientes do HU. No mês de setembro, o Abrace o HU realizou a Festa da Primavera, evento beneficente com o objetivo de arrecadar dinheiro para construir a casa de passagem. Professor do Departamento de Educação Física da UEPG e um dos responsáveis pela organização da Festa da Primavera, Miguel Arcanjo, diz que as verbas governamentais mantém o hospital e que, por-

tanto, não seria possível fazer a casa de repouso só com o dinheiro disponibilizado para o gerenciamento do hospital. “A ideia é tornar um pouco mais humano o atendimento que tem ali. Concomitante a isso, precisamos divulgar a Associação Abrace, porque muitos de nós podemos fazer doações e ajudar a melhorar a vida dessas pessoas também”. A festa teve apoio de 28 empresas, orgãos públicos e instituições. O evento contou com orientações jurídicas e atividades físicas, educação em saúde, barracas de alimentos, bazar, corte de cabelo e bingo com prêmios. O evento contou ainda com a participação das atléticas, times de cheerleading e baterias da UEPG. Segundo Arcanjo, a festa deve entrar para o calendário de eventos da UEPG. O estudante do 4º ano de Medicina da UEPG, Matheus Santos, observa que, nos atendimentos no HU, praticamente metade dos pacientes são de cidades da região. Além disso,

geralmente chegam de carro próprio ou no transporte da saúde fornecidos pelas prefeituras dos municípios. Residentes de Irati, Castro, Sengés, Guarapuava e Telêmaco Borba são os que mais se locomovem para a cidade em busca de atendimento médico. “Fui encaminhada pela Secretaria de Saúde do município porque o HU era o único hospital que tinha vaga no momento para a especialidade que

eu precisava”, relata Juliana Valenga, professora e moradora de Irati. Ela se consultou com um médico especialista em mama e realizou biópsias no HU, o que foi preciso ficar horas para os procedimentos médicos. A assessoria do HU foi procurada seis vezes, mas não respondeu à reportagem até o fechamento desta edição. Por Denise Martins

Praticamente metade dos pacientes do HU são de fora de Ponta Grossa. Foto: Eder Carlos


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Moradores do Bonsucesso e da Palmeirinha sofrem com situação precária de pinguelas Mães são obrigadas a passar por pinguela para levar filhos à escola

pinguelas situadas nos T rêsbairros Bonsucesso e Palmeirinha encontram-se

em situação precária. Moradores da região correm risco ao passar pelas travessias, pois todas estão com tábuas podres e chegam a chacoalhar no momento em que as pessoas atravessam. Além disso, é a única forma dos habitantes do bairro saírem das casas, porque não passa ônibus e nem outros meios de transportes pelos locais. Na Palmeirinha, a ponte maior fica localizada na Rua Francisco Camerino. Nela, moradores passam até com veículos sobre a travessia, correndo risco do carro cair da ponte, pois, ao passar pelo local, é perceptível que as tábuas não estão firmes e bem afastadas. Ambulâncias e viaturas da Polícia Militar também ficam impedidas de trafegar pelo local. Assim, moradores são obrigados a subir até a rua principal para receber o atendimento. Transporte dos Correios e ônibus circular também não passam pelo local, apenas na rua ao lado, porém, para chegar ao ponto de ônibus, é necessário passar pelas pontes. A moradora Lucimara de Almeida, do lar, 37 anos, utiliza a ponte todos os dias e diz ter

Ponte localizada na Rua Francisco Camerino, na Palmeirinha.

Foto: Eduardo Machado

medo em passar com o carro pela travessia. Segundo ela, a situação sempre foi a mesma. Dias atrás, o marido e a filha tiveram as mãos mordidas por um rato, que saiu do esgoto e foi até sua residência. A moradora pensou em tomar providências. “Eu queria fazer um abaixo-assinado para quem sabe melhorar, pois estamos praticamente ilhados e com medo de cair no esgoto”, relata Almeida. Outra travessia fica na rua ao lado, a Rua Bandeirantes, que além de se mover quando moradores passam, a pinguela também está torta. Em dias de chuva, a água do esgoto chega a bater às margens da ponte.

Segundo o aposentado, Vitor Buti, 57 anos, foi necessário fazer reclamações duras ao poder público para que a pinguela fosse construída. “O Marceli­ nho (prefeito Marcelo Rangel) ‘garganteou’ e não queria fazer, mas tive que falar que eu mesmo faria e iria tirar dinheiro do meu bolso para fazer”. Buti relatou que, durante a construção da travessia, informou aos rapazes que estava realizando a obra que a pinguela estava torta, eles responderam a Buti que “não tinha perigo e era assim mesmo”. O aposentado, que mora há dois anos no local, relatou também que já precisou de ambulância, mas teve que ir

“se arrastando” até a rua principal, pois o veículo não chegava até sua casa. Um caso semelhante ocorre a menos de um quilômetro do local, na ponte que liga o Bonsucesso ao Jardim Três Rios. Para deslocamento das crianças para escola de uma vila a outra, a única passagem é pela pinguela de madeira de oito metros de comprimento por 60 centímetros de largura. A assessoria de imprensa da Prefeitura, através de email, informou que equipes técnicas da Secretaria de Obras “já estiveram no local para colher as informações sobre a viabilidade do serviço e com isso os trabalhos estão previstos para serem iniciados até o fim de setembro”. A nota da assessoria informa que “a população deve formalizar as reivindicações por meio do protocolo 156” para que os pedidos entrem no cronograma para análise da “viabilidade e posterior execução”. Porém, mesmo com o comunicado da assessoria de imprensa, a Secretaria de Obras do município não consertou a pinguela que liga o Bonsucesso ao Jardim Três Rios. Por Eduardo Machado

Do total de 116 travessias elevadas na cidade, 52 são próximas a escolas e Cemeis Comunidade escolar reclama da falta de travessias elevadas nas escolas públicas

de segurança ao atraF altavessar e imprudência de motoristas causam medo

em pais, alunos e professores em horários de entrada e saídas das escolas em Ponta Grossa. A cidade conta com 116 travessias.

Do total, 52 são próximas às escolas municipais, estaduais, particulares, Serviço Social da Indústria (Sesi), Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e aos Centros de Ensino Infantil (Cemei), conforme da-

Em média, há uma faixa elevada para 3,6 mil habitantes em Ponta Grossa. Foto: Germano Busato

dos da assessoria da Autarquia Municipal de Trânsito e Transportes (AMTT). Segundo a Autarquia, para este ano, o investimento é de R$ 352 mil para implantação de novas faixas. Presidente da Associação dos Usuários do Transporte Coletivo de Ponta Grossa (Autrans), Luis Carlos Gorchinski revela o pedido de duas travessias elevadas em frente à duas instituições de ensino. Nos Colégios Estaduais General Osório, na Avenida Carlos Cavalcanti, e General Antônio Sampaio, na Vila Coronel Claudio, Gorchinski conta que a implantação foi feita após mais de três pedidos na Secretaria Municipal de Trânsito. O presidente da Autrans ainda fala sobre a burocracia para a instalação. “É uma questão complicada. Um jogo de empurra para um lado, joga para o outro entre administração pública municipal e es-

tadual’’, complementa. O presidente da AMTT, Gary Dvorecky, destaca que, para implantação das travessias, leva-se em conta a nova resolução do Conselho Municipal de Trânsito (Contran), de número 738, aprovada no dia 10/09/18. “De acordo com o artigo 5º da Resolução, não podemos simplesmente colocar uma faixa elevada, sem que antes tenha um dispositivo anterior a ela (faixa), que reduza a velocidade dos veículos’’. Para o presidente, a medida que deve ser tomada pela autarquia, é a implantação de radares antes das faixas. O pedido de travessia é feito através de solicitação protocolada pela comunidade ou direção das escolas, junto a AMTT. Por João Paulo Pacheco


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Mais de 2 mil ataques por animais de rua em menos de 2 anos são registrados em Ponta Grossa

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Média de casos é de 2,90 por dia e 86 por mês na cidade

ados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) mostram 2.052 ataques por cães e gatos registrados nas ruas de Ponta Grossa de janeiro de 2018 a setembro de 2019. Segundo relatórios do Corpo de Bombeiros, ocorreram 67 casos de ataques por animais de rua que precisaram da ação dos bombeiros nos últimos 12 meses. Os relatórios mostram que Ponta Grossa é a cidade do Paraná que mais registra ataques por animais de rua, ficando à frente inclusive de Curitiba, com 46 casos, e de Londrina, com 40. O problema já é presente na cidade há anos. Em 2013 o advogado Rodolfo Ribas, 25, foi atacado por cachorros de rua próximos à UEPG Central. Ribas estava à caminho da faculdade para realizar uma prova, quando foi surpreendido por cães que o cercaram. “Estava subindo a pé a rua Barão do Cerro Azul e tinham uns três cachorros de rua descendo. Quando se aproximaram, saí da calçada e fui para a rua. Mas um deles começou a vir atrás de mim e mordeu minha canela”, conta o advogado. “Fiz a prova em 10 ou 15 minutos e fui direto para o pronto-socorro. Tive que tomar três vacinas antirrábicas e mais al-

guns remédios”, completa. Procurar atendimento médico para tomar as vacinas antirrábicas, como fez Ribas, é a atitude correta nesses casos. “Quando o animal é de rua, é mais complicado, pois não se tem o histórico de saúde deles. Nesses casos, a orientação é procurar uma Unidade de Saúde ou um pronto-socorro para que as vacinas antirrábicas sejam aplicadas o mais rápido possível”, explica a médica veterinária Fernanda Guedes. Além da transmissão da raiva, a mordida dos animais de rua podem causar outros problemas à ví-

tima. “Na boca dos cachorros e gatos, existem muitas bactérias. Ao morder uma pessoa, o local mordido pode ser infectado”, completa Guedes. No início de setembro deste ano, a Prefeitura de Ponta Grossa lançou o programa Patrulha Animal, que oferece serviço de urgência para animais de rua. O programa, realizado em parceria com a Guarda Municipal, disponibiliza 15 médicos veterinários contratados pela Prefeitura Municipal, que atendem, com auxílio de uma antiga ambulância do Samu reformada, principalmente animais

Cachorro de rua no centro de Ponta Grossa

Foto: Isabela Gobbo

de rua que foram vítimas de atropelamento ou sofreram algum tipo de trauma. Desde 2015, existe também o programa Castramóvel, que realiza castramentos e convênios com clínicas veterinárias. Em relação ao alto número de ataques nas ruas do município, a Secretaria Municipal de Saúde argumenta que não é possível afirmar que Ponta Grossa é a cidade com mais ataques por animais de rua no Estado, pois isso depende da sensibilidade de cada notificação nos registros. “É importante esclarecer que o número de notificações também está atrelado à sensibilidade de notificação. Às vezes o município tem número menor, mas pode ser que notifique menos também. Para comparar, precisa-se conhecer a política pública desses municípios”, disse a SMS por meio de sua assessoria. As assessorias das Secretarias Municipais de Saúde de Curitiba e de Londrina não responderam à reportagem sobre os registros de ataques de animais de rua.

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Por Marcus Benedetti

Ponta Grossa registra primeiro caso de sarampo

arampo volta a se manifestar no Brasil. Em 90 dias, foram registrados 2.800 casos no país, sete no estado e um em Ponta Grossa. Embora o caso no municipio foi contraído fora da cidade. Considerada doença erradicada, os últimos casos de sarampo no Brasil foram registrados em 1999. Com os novos casos, o país perdeu o certificado de erradicação da doença. O Programa Nacional de Imunizações indica duas doses da vacina tríplice viral para pessoas até 29 anos, e 30 a 49 anos uma dose. O programa disponibilizou uma dose extra para crianças de seis a 11 meses de idade. Após completar um ano de idade, a criança retorna aos postos de saúde para iniciar a imunização a partir da dose única. Cada cidade determina uma meta para a vacinação contra o sarampo. Em Ponta Grossa, essa meta ainda não foi atingida. Cerca de 90% das crianças já foram vacinadas. O grupo de pessoas que não deve ser vacinadas

incluem crianças menores de seis meses, pessoas com imunidade baixa proveniente de doenças ou por medicamentos e gestantes. Mulheres que planejam engravidar devem aguardar 30 dias após ter tomado a vacina. O mesmo acontece com doadores de sangue. O Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná (Hemepar) não aceita doações com menos de 30 dias após a vacina. O sarampo é uma infecção viral aguda que se instala na via aérea da pessoa. A transmissão ocorre pelo ar, através da fala, tosse ou espirro por pessoas contaminadas. Não existe tratamento específico para o sarampo. O procedimento é realizado a partir dos sintomas apresentados. Febre, dor, tosse são alguns dos indicadores. A pessoa apresenta mal-estar geral na primeira fase, quando o vírus é transmitido facilmente. Na segunda fase, aparecem manchas, na face, atrás das orelhas, que se espalham pelo corpo. A partir dessa fase, a ma-

ioria dos casos evolui para a cura, mas muitos pacientes podem ter complicações, como meningite e pneumonia. O aposentado João Alberto, conta que foi levar a filha de 10 anos para se vacinar e relata a importância das pessoas se conscientizarem. “Ve-mos muitos pais resistentes na vacinação dos filhos contra diversas doenças, eu acompanhei a época do surto de sarampo no Brasil. A doença é

perigosa. A população precisa ser vacinada para evitar novos casos’’, diz. Segundo a assessoria da Prefeitura, não foi realizado aumento de vacinas pelo Ministério da Saúde por conta da não confirmação de novos casos na cidade. As UBS atendem para vacinação contra o sarampo das 9h às 11 e das 13h às 16h. Por Mirella Mello

Foto: João Paulo Pacheco

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Doença considerada erradicada volta a contaminar no país

Cidades com um caso são consideradas em surto, como acontece em Ponta Grossa.


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Caminhoneiros ainda têm reivindicações não atendidas após a greve nacional em 2018

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Entre as principais exigências da categoria está a aplicação do CIOT para todos os fretes e a elaboração de piso mínimo

óleo diesel voltou a sofrer alta quase um ano e meio após a greve. Uma das principais exigências dos caminhoneiros na greve nacional de 2018 era impedir o aumento sobre o custo de óleo diesel. Embora o preço do combustível tenha baixado na época da greve, agora, conforme dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP), o óleo diesel voltou a subir. Após a greve de maio do ano passado, o preço médio do diesel ficou em R$ 3,59. Em maio deste ano chegou a R$ 3,64 e, em setembro, foi vendido a R$3,67, conforme dados da ANP. Os motoristas reivindicam a aplicação do Código Identificador de Operação de Transporte (CIOT) a todos os fretes. O CIOT é o código numérico gerado quando o frete é registrado no próprio site da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e funciona como nota fiscal para serviços de entrega. O CIOT garante ao motorista que ele receba o valor integral do trabalho. Apenas quem contrata o transportador autônomo é obrigado a cadastrar o frete nos sistemas da ANTT pagar eletronicamente o frete. O responsável pela emissão do código será sempre o contratante. O cadastro do frete é gratuito e pode ser gerado pela internet.

A categoria pede também a elaboração do piso mínimo para o frete. A tabela de frete exigida pelos caminhoneirosprevê valores mínimos estipulados conforme a carga transportada, eixos do caminhão e quilômetros rodados. O valor é negociado entre o contratante e o contratado, e não possui valor mínimo. O julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para avaliar a constitucionalidade do piso mínimo do frete estava marcado para o dia 04 de setembro, mas foi adiado sem nova data prevista. O adiamento gerou protestos na região metropolitana de Curitiba e em Ponta Grossa. O presidente do Sindicato dos Caminhoneiros Autônomos (Sinditac), Neori Tigrão, destaca que uma das principais reivindicações conquistadas para a categoria foi a liberação de financiamento para caminhoneiros autônomos de até R$ 100 mil: “Antes o valor era de até R$ 30 mil. Não dá nem para comprar pneus para o caminhão”. Tigrão relata que a manifestação, 4 de setembro, em Ponta Grossa não foi organizada pelo Sindicato, mas por próprios caminhoneiros autônomos. Porém, Tigrão disse que o Sinditac apoia as reivindicações da categoria: “Apoiamos os caminhoneiros e queremos o preço mí-

nimo do frete que dá condições de trabalho mais justas”. Tigrão e Amauri Manosso, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Ponta Grossa (Sindiponta), afirmam que uma das razões pelas quais não há nova paralisação é porque as empresas não estão apoiando os autônomos: “Para elas estabelecerem um preço mínimo para o frete não é interessante. Quem sofre com a falta do preço justo nas cargas é o trabalhador. O autônomo é quem passa dias longe da família, dormindo na cabine do caminhão”. Como confirma, o motorista Diego Denck: “Nós autô-

nomos somos fracos. Se as empresas não pararem, é difícil começar uma nova greve”. Outra pauta defendida pelo Sinditac é o direito à aposentadoria mais cedo: “Os caminhoneiros não têm a chance de ver os filhos crescerem por passar tanto tempo na estrada. É um direito deles poder se aposentar antes e ter mais tempo para a família”, comenta. O Sinditac afirma que, por hora, não há novas paralisações ou manifestações agendadas. Por Maria Fernanda de Lima

Mesmo com a lei nacional , algumas praças de pedágio estaduais cobravam a tarifa sobre o eixo elevado. Foto: Yuri A. F. Marcinik

Suicídio infantil exige mais atenção de família e escola

A Secretaria Municipal de Saúde registrou, até setembro, quatro casos de suicídio em Ponta Grossa. Entre eles, o de uma criança de 11 anos.

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saúde mental infantil é tema pouco abordado na sociedade. Muito se fala sobre saúde mental em adultos, mas esquecem e deixam de lado a depressão infantil. Dados da Secretaria Municipal de Saúde apontam, entre 2011 a 2019, cerca de 136 tentativas de suicídio, entre crianças de 10 a 14 anos. O ano com a maior incidência foi em 2018, com 38. Até setembro deste ano, o número de tentativas nessa faixa etária foi de 32 casos. Entre as causas de depressão infantil, estão os conflitos familiares, ambiente escolar e abusos físicos, verbal ou sexual. “A família, como promotora direta do cuidado da criança, quando é disfuncional, pode desorganizar a saúde emocional de uma criança”, informa a Secretaria de Saúde. A depressão infantil se

manifesta de maneira diferente do que em adultos, pois muitas crianças ainda não sabem externar suas emoções e sentimentos. Porém, há sinais que podem ser percebidos, como a mudança brusca no comportamento, na rotina e em atividades, que devem ser observados com atenção.

criança. O bullying sofrido nas escolas pode deixar uma criança deprimida, isolando-se do convívio social, e tornando o ambiente escolar um território hostil. A Secretaria Municipal de Educação relata que as escolas são orientadas a atuar de maneira preventiva em relação ao bullying. “O componente

A Família pode desorganizar a saúde emocional da criança" “É preciso ter atenção com o comportamento da criança e conversar para entender as causas dessa tristeza, para então começar uma abordagem terapêutica”, afirma a psicóloga Adriana Gomes. Segundo a psicóloga, a família é um fator importante para tratar a doença. A escola também tem um papel importante na vida da

curricular formação humana, por exemplo, serve de espaço para trabalhar sentimentos, afetividades, respeito e outros temas que fortalecem o convívio saudável entre os alunos”. Para tratar a saúde mental da população, os municípios contam com o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Em Ponta Grossa, há o CAPS exclu-

sivamente voltado à infância e juventude, o CAPS IJ. Localizado na Rua Coronel Dulcídio, no Centro, o CAPS IJ atende 150 pacientes, sendo 17 deles crianças. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA18) classifica a infância a idade até os 12 anos. As crianças que chegam ao CAPS IJ apresentam transtornos afetivos e mentais como esquizofrenia, bipolaridade, depressão, ansiedade e usos abusivos de substâncias psicoativas. “Quando não há possibilidade de abordar determinados problemas no coletivo, então é feita sessões individuais com a criança”, informa o setor de Saúde Mental da Secretaria de Saúde do município. Em alguns casos o tratamento também é feito com o auxílio de medicamentos controlados. Por Renata Oliveira


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Prefeitura concede aumento na passagem de ônibus sem cumprir recomendações do TCE

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Reajuste no valor representa mais de R$ 355 mil por dia à VCG

Conselho Municipal do Transporte (CMT) anunciou, no dia 17 de setembro, o aumento da tarifa do ônibus circular em Ponta Grossa. Após 18 meses sem mudanças, o valor subiu de R$3,80 para R$4,30. O aumento de R$ 0,50 para o bolso do consumidor a 15%. Porém, o reajuste concedido à tarifa de transporte foi feito sem o cumprimento pela Pre-feitura Municipal de Ponta Grossa das recomendações do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PR), que após auditoria realizada no início do ano indicou diversas falhas recorrentes no transporte coletivo municipal. Com o aumento da tarifa, a Viação dos Campos Gerais (VCG) passa a receber mais de R$ 355 mil por dia, considerando os 100 mil usuários do transporte coletivo diários. Para a empresa, o aumento represen-

ta R$ 60 mil a mais do que recebia no valor passado, que passava dos R$ 295 mil. Somente com as passagens de 9.845 estudantes, que têm o direito à meia passagem, o valor arrecadado será de R$21.659,00. Cerca de 5.900 pessoas têm direito à isenções e 6.593 que utilizam o Passe Livre. O padeiro Osni Lopes, de 52 anos, mora no bairro Dom Bosco e utiliza transporte coletivo todos os dias. Lopes reclama da falta de conforto que há nos ônibus, pois paga a passagem inteira. “É uma porcaria! Se tivesse pelo menos lugar para a gente sentar, mas nem isso tem. Não tem conforto algum”. Sobre as irregularidades no transporte público em Ponta Grossa apontadas pelo TCE-PR, o presidente do CMT, Elídio Curi de Macedo, respondeu: “Essas recomendações foram ao muni-

cípio e não à VCG. Isso deve ser perguntado a eles. Com relação ao reajuste, existe um contrato entre o município e a concessionária assinado pelo prefeito e também uma lei sobre o transporte e regimento interno do conselho que deve ser seguido”. A VCG afirmou por email que as “recomendações de melhorias” são “destinadas não à concessionária, mas sim ao poder público, que é quem cabe avaliar e implementar as sugestões que entenda viáveis”. A Prefeitura informou por email que “iniciou adequações e melhorias no transporte coletivo antes mesmo das recomendações do TCE e que, após a análise e o encaminhamento do resultado dos levantamentos promovidos pelo órgão, o Município intensificou esse processo, implementando medidas como a otimização e atu-

alização de itinerários de diversas linhas, assim como deu início aos devidos trâmites para viabilizar a construção do novo Terminal Santa Paula”. A Prefeitura disse ainda que há “iniciativas do município para ampliar a oferta de pontos de ônibus cobertos como, por exemplo, a aquisição de novos pontos através de recursos junto ao Governo do Estado”. Sobre o aumento da tarifa, a Prefeitura respondeu que “trata-se de um dispositivo da concessão previsto em lei e que tem sua análise e deliberação promovidas pelo Conselho Municipal de Transportes”.

Recomendações à Prefeitura para adequações expiram em 9 de outubro

ma dos terminais e pontos de ônibus para dar acessibilidade a pessoas com deficiência; aumento de linhas e veículos para melhoria aos usuários nos horários de pico; criar um centro de controle das operações para fiscalizar a execução do contrato entre concessionária e Prefeitura; e atendimento humanizado destinado a pessoas com

necessidades especiais. O TCE-PR afirmou que o prazo concedido à Prefeitura na auditoria termina no dia 9 de outubro deste ano. “Após este prazo, as ações tomadas pela Prefeitura para adequação das impropriedades apontadas na fiscalização serão avaliadas pela Coordenadoria de Monitoramento e Execuções - CMEX, in-

clusive a aderência deste aumento às recomendações realizadas pelo Tribunal”, ressaltou o órgão. Diferente do TCE-PR, a Prefeitura informou que as recomendações são para o próximo processo licitatório, que deve acontecer em 2023.

Da auditoria realizada no transporte público de Ponta Grossa no final do ano passado, o TCE-PR emitiu parecer em janeiro com 13 recomendações ao município, entre elas refor-

Por Eduardo Machado

Número de gravidez entre adolescentes em Ponta Grossa preocupa Fundação e janeiro a setembro de 2019, foram registrados 19 casos de gravidez de crianças, entre 10 e 14 anos e 466 adolescentes, entre 15 e 19 anos em Ponta Grossa. O número engloba nascidos vivos, óbitos infantis e óbitos fetais, de acordo com dados da Fundação Municipal de Saúde. A média é de 35 gravidez precoce por ano, na faixa etária dos 10 aos 14, e de 871, dos 15 aos 19 anos. Desde 2010 estes números estão diminuindo, com exceção a 2014, onde 70 crianças e 1039 adolescentes engravidaram. O Secretário Adjunto De Saúde, Dr. Rodrigo Manjabosco, afirma que a prefeitura busca entender e auxiliar as adolescentes, para que o número de gravidez adolescente diminua. “Os adolescentes começam sua vida sexual muito cedo, é um público grande que tem aumentado e isso nos preocupa”, relata. Dados do SUS e do Ministério

da Saúde, disponíveis no Fundo de População das Nações Unidas, de 2012, 26,8% da população brasileira sexualmente ativa iniciou sua vida sexual antes dos 15 anos de idade. O Secretário ressalta que a Fundação trabalha com programas dentro das escolas estaduais, em que abordam a educação sexual, orientando e conversando com os adolescentes sobre gravidez precoce, sexualidade, e métodos contraceptivos. “Os programas são bem tímidos ainda, principalmente porque e-

xiste um tabu. Muitos pais ainda acreditam que com isso estaríamos incentivando e não conseguem perceber o benefício de se ter um adolescente bem informado”. A professora de ciências, Daniella Almeida, relata que a discussão sobre educação sexual acontece dentro da disciplina e é bem recebida pelos alunos. “A gente tem problemas com alguns pais, que não aceitam, acham que estamos interferindo na vida pessoal dos alunos e passando dos limites”. Infográfico: Denise Martins

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Segundo especialista, educação sexual ajuda a prevenir gravidez na adolescência.

Almeida relata que nas escolas em que trabalha houve casos de adolescentes grávidas. “As pedagogas trabalham para tentar fazer com que essa menina continue estudando, tendo um plano de vida e explicam também as mudanças que irão acontecer”, afirma Almeida. Segundo o relatório da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), de 2018, no Brasil 18% dos recém nascidos são filhos de mães adolescentes, cerca de 400 mil por ano. Até Setembro deste ano, em Ponta Grossa dos 3522 nascidos, 479 são advindos de gravidez precoce (dos 10 aos 19 anos de idade), segundo dados da Fundação Municipal de Saúde. Por Emanuelle Salatini


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Segundo dados do CNJ, para cada 263 cadastros de adoção há apenas 1 para criança com mais de 14 anos família. “Eu não me encaixava no perfil que eles estavam procurando e, depois de um tempo, a gente sabe que não será mais adotado”. Bruno fez curso técnico no período em que estava em acolhimento. “Foi um suporte que eu recebi. Hoje eu tenho uma família, minha mulher e minha filha”, completa. Segundo a assistente social da APAM, a instituição possui parceria com empresa da cidade em projeto como menor aprendiz. As jovens realizam também cursos online ou presenciais para aperfeiçoamento profissional. A adoção no Brasil é vista como um processo lento e burocrático, o que pode desestimular os pretendentes à adoção. No entanto, o CNA considera que a demora no processo está relacionada com o perfil escolhido pelos pretendentes durante o processo. Ao escolher o perfil da criança, o pretendente pode determinar o sexo, raça, cor, idade, estado de saúde e se aceita ou não grupo de irmãos. Encontrar uma criança com o perfil desejado pode levar anos. Por Renata Oliveira

Em 2019, 14 crianças em situação de acolhimento já foram encaminhadas para adoção em Ponta Grossa

Foto: Amanda Dombrowski

Adoção homoafetiva enfrenta resistência cultural

de crianças e adoA adoção lescentes por casais homo-

afetivos foi e ainda é uma luta constante. A Constituição Federal, até meados de 2011, condicionava como “família” o casal representado por um homem e uma mulher. Com compreensão de que “família” é constituída por relações de afeto, o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a reconhecer a união entre pessoas do mesmo sexo, abrindo então a possibilidade e o direito à adoção. No Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não há impedimentos a casais homoafetivos de realizarem a adoção. O Cadastro Nacional de Adoção (CNA), de responsabilidade da Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ainda não registra dados referentes às adoções por casais homoafetivos. Embora as condições obrigatórias para adoção sejam iguais para todos, ainda há resistência cultural que problematiza a adoção por casais que são homoafetivos. Professora de Direito e coordenadora do Núcleo Maria da Penha (NUMAPE) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Maria Cristina Rauch Baranoski, explica como funcionava

o processo de adoção. “A lei não cita expressamente a condição hétero para adotar. O que acontecia era uma interpretação equivocada do sentido de família, como se essa pudesse ser constituída apenas por um homem com uma mulher”. Com atuação na área do Direitos da Criança e Adolescente e da Família, Baranoski desenvolveu pesquisa de mestrado sobre adoção homoparental. Já no doutorado, defendeu uma tese sobre a relação das instituições de ensino com famílias constituídas por casais homoparentais. “Quando desenvolvi a pesquisa de mestrado a respeito da adoção por pessoas do mesmo sexo, na ocasião ainda não havia sido julgada a ação que pleiteava os mesmos direitos dos casais héteros para os casais homossexuais, porém, muitos pedidos já estavam sendo postulados no judiciário. A experiência da época mostrou que há o preconceito em todos os meios. Após o julgamento do STJ equiparando os direitos das famílias, houve a necessidade de alterar também a postura de muitos juízes e membros do Ministério Público”, explica.

O enfermeiro Antônio Carlos Gomes Araújo, 54, conta como foi o processo de adoção de Carlos, 13, adotado aos 6 anos, e fala sobre a relação com o filho. “Tudo foi muito rápido e atípico. Fui fazer um trabalho voluntário na instituição onde ele estava, me encantei com ele e resolvi adotálo. Ao todo o processo levou cerca de um ano mais ou menos”. “Não costumo conversar com ele sobre adoção homoparental, pois acho que o preconceito está no adulto e não na criança. O adulto julga, e acusa, A criança só quer atenção e carinho. É o adulto que a induz a homofobia”. Araújo também dá dicas aos casais homoafetivos que queiram adotar crianças. “É necessário ter muita paciência, tanto antes da adoção, quanto depois. Muitos pensam que é fácil, mas não é. Nossa paciência, nossa capacidade de amar é testada todos os dias. Mas também deve ter muito amor no coração e, estar aberto a novas experiências. Quando adotamos alguém, estamos nos comprometendo a amar, educar e preparar a pessoa para a vida”. Por Laísa Braga

Infográfico: Denise Martins

sustentar sozinha. A APAM possui 10 meninas em acolhimento aptas para a adoção, com idades entre 5 e 17 anos. Ao completar 18 anos, o jovem deixa de estar em situação de acolhimento do Estado, devendo, portanto, sair do abrigo. A ação é assegurada pela lei 8. 069, de 13 de julho de 1990, que diz que os lares de acolhimento só podem manter os jovens até os 18 anos. A psicóloga do abrigo Francisclara - Resgate da Criança, Jéssica Carolina da Silva, relata que, ao se aproximar da idade limite de acolhimento, o jovem recebe instrução voltadas ao mercado de trabalho. “São oferecidos cursos preparatórios para que o jovem saia capacitado para o mercado”, completa. O abrigo acolhe 13 crianças, com idade entre 0 a 12 anos. Em 2018, 8,7 mil crianças e adolescentes aguardavam por uma família, apesar de 43, 6 mil pessoas estarem cadastradas como pretendentes no CNA. Pelos números era para a fila de adoção no país estar zerada. O eletricista Bruno (identidade preservada), 24 anos, saiu de um abrigo aos 18 anos, sem nunca ter passado por uma

Infográfico: Denise Martins

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ados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) registraram 7. 207 crianças e adolescentes em lares de acolhimento por todo País em 2016. Cerca de 23% das crianças aptas a serem adotadas possuíam mais de 14 anos. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), apenas 0,38% dos pretendentes estão dispostos a adotar crianças nesta faixa etária. A Vara da Infância e Juventude reforça que os lares de acolhimento são locais provisórios às crianças e adolescentes, em casos em que todas as alternativas de mantê-las em suas famílias originais foram esgotadas. A assistente social da Associação de Promoção à Menina (APAM), Ana Cláudia Ribeiro Gomes, relata que houve casos de meninas que completaram 18 anos de idade e deixaram de estar em situação de acolhimento a adoção. “Tivemos um caso recentemente, em que a jovem permaneceu no abrigo após completar 18 anos, pois ainda não tinha conquistado a sua independência financeira”, completa. A assistente social informa que a jovem permaneceu no abrigo até ter condições de se

Perfil escolhido pelos casais torna o processo mais lento


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Segundo dados do CNJ, para cada 263 cadastros de adoção há apenas 1 para criança com mais de 14 anos família. “Eu não me encaixava no perfil que eles estavam procurando e, depois de um tempo, a gente sabe que não será mais adotado”. Bruno fez curso técnico no período em que estava em acolhimento. “Foi um suporte que eu recebi. Hoje eu tenho uma família, minha mulher e minha filha”, completa. Segundo a assistente social da APAM, a instituição possui parceria com empresa da cidade em projeto como menor aprendiz. As jovens realizam também cursos online ou presenciais para aperfeiçoamento profissional. A adoção no Brasil é vista como um processo lento e burocrático, o que pode desestimular os pretendentes à adoção. No entanto, o CNA considera que a demora no processo está relacionada com o perfil escolhido pelos pretendentes durante o processo. Ao escolher o perfil da criança, o pretendente pode determinar o sexo, raça, cor, idade, estado de saúde e se aceita ou não grupo de irmãos. Encontrar uma criança com o perfil desejado pode levar anos. Por Renata Oliveira

Em 2019, 14 crianças em situação de acolhimento já foram encaminhadas para adoção em Ponta Grossa

Foto: Amanda Dombrowski

Adoção homoafetiva enfrenta resistência cultural

de crianças e adoA adoção lescentes por casais homo-

afetivos foi e ainda é uma luta constante. A Constituição Federal, até meados de 2011, condicionava como “família” o casal representado por um homem e uma mulher. Com compreensão de que “família” é constituída por relações de afeto, o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a reconhecer a união entre pessoas do mesmo sexo, abrindo então a possibilidade e o direito à adoção. No Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não há impedimentos a casais homoafetivos de realizarem a adoção. O Cadastro Nacional de Adoção (CNA), de responsabilidade da Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ainda não registra dados referentes às adoções por casais homoafetivos. Embora as condições obrigatórias para adoção sejam iguais para todos, ainda há resistência cultural que problematiza a adoção por casais que são homoafetivos. Professora de Direito e coordenadora do Núcleo Maria da Penha (NUMAPE) da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Maria Cristina Rauch Baranoski, explica como funcionava

o processo de adoção. “A lei não cita expressamente a condição hétero para adotar. O que acontecia era uma interpretação equivocada do sentido de família, como se essa pudesse ser constituída apenas por um homem com uma mulher”. Com atuação na área do Direitos da Criança e Adolescente e da Família, Baranoski desenvolveu pesquisa de mestrado sobre adoção homoparental. Já no doutorado, defendeu uma tese sobre a relação das instituições de ensino com famílias constituídas por casais homoparentais. “Quando desenvolvi a pesquisa de mestrado a respeito da adoção por pessoas do mesmo sexo, na ocasião ainda não havia sido julgada a ação que pleiteava os mesmos direitos dos casais héteros para os casais homossexuais, porém, muitos pedidos já estavam sendo postulados no judiciário. A experiência da época mostrou que há o preconceito em todos os meios. Após o julgamento do STJ equiparando os direitos das famílias, houve a necessidade de alterar também a postura de muitos juízes e membros do Ministério Público”, explica.

O enfermeiro Antônio Carlos Gomes Araújo, 54, conta como foi o processo de adoção de Carlos, 13, adotado aos 6 anos, e fala sobre a relação com o filho. “Tudo foi muito rápido e atípico. Fui fazer um trabalho voluntário na instituição onde ele estava, me encantei com ele e resolvi adotálo. Ao todo o processo levou cerca de um ano mais ou menos”. “Não costumo conversar com ele sobre adoção homoparental, pois acho que o preconceito está no adulto e não na criança. O adulto julga, e acusa, A criança só quer atenção e carinho. É o adulto que a induz a homofobia”. Araújo também dá dicas aos casais homoafetivos que queiram adotar crianças. “É necessário ter muita paciência, tanto antes da adoção, quanto depois. Muitos pensam que é fácil, mas não é. Nossa paciência, nossa capacidade de amar é testada todos os dias. Mas também deve ter muito amor no coração e, estar aberto a novas experiências. Quando adotamos alguém, estamos nos comprometendo a amar, educar e preparar a pessoa para a vida”. Por Laísa Braga

Infográfico: Denise Martins

sustentar sozinha. A APAM possui 10 meninas em acolhimento aptas para a adoção, com idades entre 5 e 17 anos. Ao completar 18 anos, o jovem deixa de estar em situação de acolhimento do Estado, devendo, portanto, sair do abrigo. A ação é assegurada pela lei 8. 069, de 13 de julho de 1990, que diz que os lares de acolhimento só podem manter os jovens até os 18 anos. A psicóloga do abrigo Francisclara - Resgate da Criança, Jéssica Carolina da Silva, relata que, ao se aproximar da idade limite de acolhimento, o jovem recebe instrução voltadas ao mercado de trabalho. “São oferecidos cursos preparatórios para que o jovem saia capacitado para o mercado”, completa. O abrigo acolhe 13 crianças, com idade entre 0 a 12 anos. Em 2018, 8,7 mil crianças e adolescentes aguardavam por uma família, apesar de 43, 6 mil pessoas estarem cadastradas como pretendentes no CNA. Pelos números era para a fila de adoção no país estar zerada. O eletricista Bruno (identidade preservada), 24 anos, saiu de um abrigo aos 18 anos, sem nunca ter passado por uma

Infográfico: Denise Martins

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ados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) registraram 7. 207 crianças e adolescentes em lares de acolhimento por todo País em 2016. Cerca de 23% das crianças aptas a serem adotadas possuíam mais de 14 anos. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), apenas 0,38% dos pretendentes estão dispostos a adotar crianças nesta faixa etária. A Vara da Infância e Juventude reforça que os lares de acolhimento são locais provisórios às crianças e adolescentes, em casos em que todas as alternativas de mantê-las em suas famílias originais foram esgotadas. A assistente social da Associação de Promoção à Menina (APAM), Ana Cláudia Ribeiro Gomes, relata que houve casos de meninas que completaram 18 anos de idade e deixaram de estar em situação de acolhimento a adoção. “Tivemos um caso recentemente, em que a jovem permaneceu no abrigo após completar 18 anos, pois ainda não tinha conquistado a sua independência financeira”, completa. A assistente social informa que a jovem permaneceu no abrigo até ter condições de se

Perfil escolhido pelos casais torna o processo mais lento


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Jacu Rabudo completa dez anos

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“O ponta-grossense se viu ali: essa é a minha identidade. Esse livro sou eu”, relata Bowles

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o escritório de sua editora, o escritor Hein Leonard Bowles conversa tranquilamente sobre Jacu Rabudo, obra de sua autoria em que retrata a linguagem coloquial em Ponta Grossa. Prestes a completar 10 anos da publicação, Bowles relata com ânimo o processo de produção da edição até chegar à quarta edição em 2015. Cheio de histórias e com 72 anos, o escritor nasceu na Holanda, mas desde os 9 anos mora em PG Bowles possui um casal de filhos, duas netas e, no início deste ano, perdeu a esposa. Formado em Letras pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), onde também atuou como professor até a aposentadoria. Atualmente, Bowles trabalha exclusivamente com sua própria editora, atividade que desempenha com muita satisfação. Em quase uma hora de entrevista com o escritor, notase a importância das quatro edições para a história da cidade, embora ele deixe bem claro que não fará um segundo volume. Queria que o senhor falasse sobre o processo de produção do livro.

Fui professor de Língua Inglesa do departamento de Letras da UEPG. Sempre gostei de estrutura das metáforas e expressões idiomáticas. Inclusive a minha tese do doutorado foi feita sobre este tema. Em determinado campo, comparando Inglês e Português. Sempre gostei desse tipo de coisa. Quando inventava de estudar outra língua, as coisas que mais me interessavam eram as metáforas, as metáforas cristalizadas, as expressões idiomáticas. Um dia me chegou às mãos um trabalho de um jornalista formado pela UEPG e que ainda era estudante. Chegou um trabalho feito em folhas chamex, dobrada e com oito folhas ao todo. Ele deu o nome deste trabalho de “Vocabulário Ponta-grossense: um glossário com o melhor do léxico de hoje, já hoje e sempre”. Ele aproveitou a brincadeira do “já hoje”, uma expres-

são muito regional. Li, falei com ele e, no final, eu já lidava com isso. Pensei uma pesquisa com bastante pessoas, vamos achar mais coisas em nível regional. Vou fazer uma pesquisa sobre isso. Levei uns cinco anos pesquisando. E o que é pesquisar? É você falar com diferentes pessoas e não dizer que está fazendo este trabalho e, sim, quando a pessoa falar alguma expressão que você acha, que você suspeita que possa ser regional, então toma nota. Dizer que está entrevistando a pessoa, isso a inibe, eu nunca fiz isso. Você vai numa farmácia, num supermercado, você vai conversando com as pessoas. Além disso também fui fonte, porque eu moro em Ponta Grossa desde os 9 anos. Fui pia aqui em Ponta Grossa. Muita coisa veio de mim mesmo. Fui pesquisando. Eu tenho um grupo de pessoas as quais eu consultava, de alguns amigos e professores. Cada expressão ou

Professor Hein Leornard Bowles, participou das "Noites de Sexta" no Museu Campos Gerais e falou sobre o vacabulário ponta­ grossense. Foto: Emanuelle Soares

esse, não conhece, até digamos cada palavra ou expressão chegar a se ler ganhar o código. Comigo é um processo longo. Fiz a coisa do ponto de vista científico e mesmo assim a linguagem é fluida. Não pode dizer isso é 100% certo. Fui até onde pude.

O resultado é interessante, até um pouco divertido, mas o procedimento, como dizem por aqui, é serviço para ‘preso’. palavra passou por um processo de seleção, de triagem, falando com outras pessoas. “Você conhece sim? Quem usa?”, “A minha vó usava!” Tudo isso eu tomava nota e depois olhava em dicionários convencionais e dicionário de palavras regionais, dicionário do nordeste, dicionário da ilha de Santa Catarina, dicionário do caipiracicabano e por aí vai. Você vai procurar em todas essas fontes também para ver se a expressão está lá. Então se faz um processo assim. O resultado é interessante, até um pouco divertido, mas o procedimento, como dizem por aqui, é serviço para ‘preso’. Porque é muito, você toma nota de alguma coisa, aí vai, consulta cada palavra ou expressão. Se faz um artigo ou se faz todo o histórico. Conhece

Mas é um trabalho de caráter científico e fui fazendo isso durante cinco anos. Claro, trabalhava, mas quando podia, eu fazia as coisas. Levou cinco anos, mas no final de 2009 eu publiquei o livro. Por que o senhor preferiu fazer em forma de diálogo ao invés de dicionário normal?

Tenho uma experiência muito ruim com um livro que publiquei, que é um livro por sinal, modéstia parte, bastante interessante para quem gosta de expressões idiomáticas, que se chama Arqueologia da Raiva e do Entusiasmo. Peguei os conceitos de raiva e entusiasmo e fui saber quais são as fontes das expressões que tratam disto. Mas ficou um título (eu não

Arte: Larissa Hofbauer e Denise Martins

queria), mas ele não é convidativo. Com base nesta experiência, pensei: “Tenho que fazer uma capa de livro que chame atenção, que seja divertido ou que, pelo menos, a pessoa “Opa, o que é isso? Parece um jacu na capa”. Então vai aparecendo. Pensei: “Tenho que pegar uma expressão que se usa aqui”. Ou seja, você conhece “Ele está se metendo jacu rabudo”. Ele está se intrometendo onde não deve. Isso é ser Jacu Rabudo. Por sinal eu fui vendo expressões e tudo mais, mas eu me fixei nesta. O título vai ser esse! Tenho um amigo chamado Elio Chaves, que lida com arte e que acabou fazendo a capa do livro. Tinha que ter uma coisa que chamasse a atenção. Por sinal, esse termo não é inteiramente regional. Ele é usado aqui, mas também em Santa Catarina. Então pensei: “Tenho que fazer alguma coisa que tenha algum apelo, algum chamamento”. Então saiu o tal do Jacu Rabudo, a linguagem coloquial de Ponta Grossa. Esse meu amigo fez as capas e foi assim. Como o ponta-grossense reagiu ao livro?

Tinha uma expectativa de que fosse razoável. Não sou de natureza otimista. Primeiro decidi: “Tomara que seja uma coisa decente e que as pessoas


OUT/1 9 gostem”. O que notei é que o livro acabou fazendo o seguinte: o ponta-grossense se viu ali. “Essa é a minha identidade, esse livro sou eu”, revela o autor. Digamos que ele conseguiu congregar essa coisa de sentimento de pertencimento. Ele se sentiu representado. Foi uma reação na época. Eu sou uma pessoa bastante caseira e não sou de grupos, muito na minha. Mas na época apareci em toda a parte e até me animei. Foi uma experiência interessante, era uma chamada aqui

11 “Não tem sabugo que tape”, que descreve problemas sem solução. “Muito bem carçado” que é o terceiro, fala de dinheiro. “Tudo escafiotado” é sobre coisas que estão estragadas Fiz esses títulos e fiz as pessoas conversarem. Tem uma organização. Você tem que fazer 20 ou 30 unidades, senão ia ficar tudo esparso. Mas verbete eu me recusei a fazer pois tinha que ser mais dinâmica, mais limpo. E isso chamou atenção. “Buenarada” é de pessoas que estão se cumprimentando.

Se a expressão é interessante, outros acabam usando e ela se torna convencional. Esse processo de criação continua e sempre vai haver expressões novas." outra lá e até às vezes na rua alguém, até hoje, que faz 10 anos, alguma coisa ‘o Jacu’. Até na época, veio muita gente me procurar - “Você viu aquela expressão? Minha vó usava”. Era aquela coisa toda. Digamos, eu não quero ser pretensioso, mas Ponta Grossa não precisaria ser representada pelo cálice da Vila Velha. Tem o livro também. Se alguém chega aqui, vem em um congresso, ver um familiar ou algo assim, não precisar dar um cálice para a pessoa para representar Ponta Grossa, o livro fala da cidade. Também fiquei sabendo que o livro foi mandado para vários lugares do mundo. Se você pegar um livro de expressões regionais, eles são todos em verbetes, determinadas expressões, usadas para tal, tudo em ordem alfabética. Pensei: “Tenho que fazer algo mais dinâmico”. Foi pensando, trocando ideias com outras pessoas e cheguei na seguinte fórmula: “Vamos fazer unidade de pessoas conversando, como se diz por aqui, prozeandinho”. Mas como você vai separar isso por uma questão semântica, deu um trabalho do cão. Mas se você for ver aqui no livro e pegar o primeiro capítulo “Deu aio!”, nesta unidade você tem pessoas falando em problemas. O que eu fiz? Fiz por unidades semânticas. O primeiro capítulo fala de problemas. Depois era

A respeito de morrer é o capítulo cujo o título “Secou a quirera”, só para dar uns exemplos. Tem um “Home é tudo jaguara” que dialoga com os relacionamentos. Deu bastante trabalho. O resultado, às vezes, me parece leve e pode ser um pouco divertido. Até um amigo me falou um tempo atrás do livro: “Sabe onde que fica o livro da minha casa? No banheiro. Você abre em qualquer parte e lê”. Ele não tem compromisso de sequência.

Isso está na cabeça de que daria engraçada e cria uma exmais valor. É muito relativo e pressão. Em algum momento não tem nada a ver. alguém faz isso. Se a expressão é interessante, outros a acabam Para o senhor, a linguagem usando e ela se torna convenmais coloquial está morrendo cional. Esse processo de criação ou desaparecendo? continua e sempre vai haver expressões novas. Mas acho que Uma das minhas fontes cada vez menos. A lavoura está era um senhor aqui, já falecido. todo mecanizada. O pessoal que Ele meio que se desculpava trabalha em fazenda tem para falar e era uma coisa muito equipamentos de última gerarica. Porque a metáfora é uma ção, de informática, de tudo. coisa extraordinária. Você fala Onde também se comunica de determinado assunto usando com todo mundo. Hoje em dia o campo e a atividade que é você não vai encontrar alguém completamente diferente nas que diga “ah, vá fuçar banhado”, associações. Disso pode sair que antigamente se usava para coisas muito interessantes, “ah, vai tomar banho”. A criação muito bonitas e muito criativas. hoje é confinada e uniformiEntão vai se perdendo. zada. Mas a capacidade criativa Muitas expressões tam- de criar coisas novas? Contibém pertencem a outras gera- nua! Porque essa coisa rural e ções e elas estão morrendo. Isso local que ficou por sei lá quannão quer dizer que tenhamos tas dezenas, quantas décadas, perdido nossa capacidade de isso aí tende a desaparecer. criar. Mas o que é criar neste Por Emanuelle Soares sentido? É criar uma metáfora. Você fala uma coisa de maneira

Por que na visão do senhor o sotaque carioca é mais valorizado do que o sotaque regional e do interior?

Você entra na questão do prestígio. Isso tem em qualquer país, a versão ou norma. Aqui é o sotaque, o jeito de falar e é assim o carioca. Muitas vezes, quem quer se meter de Jacu Rabudo fala meio ‘carioquês’ porque dá um ‘tchan’ pelo menos na cabeça das pessoas. Essa questão do sotaque é interessante. Sou muito observador nesta questão, a linguagem que as pessoas usam. Tive a oportunidade inclusive de observar em alguns momentos uma pessoa dirigindo uma reunião, apresentando algo importante na universidade e, de repente, mudava o sotaque. A pessoa pode nem perceber e, do nada, ela começa.

Primeira edição do livro que embasou a entrevista

Arte: Larissa Hofbauer e Denise Martins


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CULTURA

Editais de Literatura em Ponta Grossa têm pouca participação

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Apenas três inscrições foram realizadas nos editais publicados pela Fundação de Cultura

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ditais na cadeira de literatura, do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Ponta Grossa, não têm procura esperada pela Fundação Municipal. Dos R$ 35.000 disponibilizados para literatura no passado, apenas três inscrições foram realizadas nos dois editais da cadeira, do 1° Concurso Estadual de Crônicas Jovens Talentos (editais 014 e 015/2018). Ao todo, são sete cadeiras do Conselho de Políticas Públicas: Literatura; Música; Artes Visuais; Artes Populares; Teatro, Circo e Dança (que não possui representante atualmente); Cine-foto-vídeo. Neste ano, o orçamento do Fundo Municipal de Cultura, administrado pelo Conselho é de R$275.625,00, valor que foi dividido igualmente entre todas as áreas. A Fundação Municipal de Cultura de Ponta Grossa se torna o principal meio de apoio aos

É uma cadeira importante para a Fundação, mas não se tem a procura esperada” artistas locais. “Cada conselho possui uma verba oriunda do Fundo Municipal de Cultura. A partir disso, os conselheiros fazem ações, como lançamento de editais, concursos e oficinas”, explica Fernando Durante, presidente da Fundação Municipal de Cultura de Ponta Grossa. Durante conta que, no ano passado, foram feitos editais, mas não tiveram inscrições suficientes para fazer as chamadas. “A Prefeitura, como entidade, não pode publicar livros, só através de editais e concursos, que devem ser feitos pelo conselho de literatura” A Fundação de Cultura

não sabe informar o porquê de não se ter procura na área. De acordo com Durante, existem áreas em que as inscrições são 20 vezes maior que a cadeira de literatura. “É uma cadeira importante para a Fundação, mas não se tem a procura esperada”. Quatro editais literários divulgados em 2015, relacionados à concursos nacionais de literatura infanto-juvenil, contos, crônicas e poesias, tiveram os resultados divulgados somente em dezembro de 2018. Contudo, segundo Durante, a baixa procura pelos editais de literatura sempre existiu. “Temos que aplicar o

dinheiro público naquilo que as pessoas vão usufruir mais”, afirma. A população costuma procurar outros entretenimentos, como a Banda Lyra dos Campos, Coro Cidade de Ponta Grossa e Orquestra Sinfônica Cidade de Ponta Grossa. Em março deste ano, foram divulgados os resultados dos dois primeiros editais de 2019, referente ao 5° Festival Nacional de Contadores de História, o concurso de seleção de contadores oficineiros e contadores maratonistas. Atualmente, um novo edital literário está aberto, chamado Poesia da Vila, direcionado a oficinas de produção de literatura marginal. Os editais são divulgados no site e no facebook da Prefeitura. Por Emanuelle Salatini

Centro de Música digitaliza partituras históricas de Ponta Grossa

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Com o risco de deterioração e perda do material, as partituras são recuperadas em catálogo físico e digital para acesso ao público

Centro de Música de Ponta Grossa, ligado à Fundação Municipal de Cultura, em parceria com o Museu Campos Gerais, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), iniciou o processo de digitalização e catalogação de partituras antigas de bandas e corais da cidade. O que as pessoas ouvem mais é justamente o que está mais acessível"

Cerca de 10 mil arquivos compõem o acervo em peças da Banda Lyra dos Campos, Coral Santa Cecília, Orquestra Sinfônica de Ponta Grossa e da biblioteca do Conservatório Maestro Paulino. Idealizador do projeto e diretor artístico do Centro de Música, Douglas Passoni desenvolve pesquisas sobre acervos musicais desde 2005. Quando assumiu o cargo público, Passoni identificou peças raras e a possibilidade de um espaço para armazenamento e criação de um acervo

no Conservatório. “Outras gestões não tiveram interesse e uma próxima pode ser que não tenha. De repente, tudo aquilo que poderia fazer diferença na vida musical da cidade poderia ir pro lixo”, expõe. Com graduação em Música pela UEPG e Especialização em Música em andamento pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), Cassiano Rodrigues Vaz reforça que o acervo ajuda a contar a história de Ponta Grossa e permite acesso a algo fora do que é mais presente no que chama de “música midiática”. “O contato com a diversidade musical é difícil. O que as pessoas ouvem mais é justamente o que está mais acessível”, afirma Vaz. O acervo histórico-musical foi batizado de Waslau Borkowski, em homenagem ao violinista da orquestra que cuidou de parte dos documentos que compõem o acervo. A catalogação é feita em caderno de tombo e digitada em uma planilha, que identifica autor, letrista, tonalidade e situação de conservação do documento, como bom ou mau estado, tamanho, editora e ano de publicação.

Passoni reforça a importância do arquivo físico, mas a preocupação em garantir a preservação do conteúdo fez com que optassem também pela digitalização do acervo. “O arquivo digital nos dá a possibilidade de socialização do material de forma múltipla”, diz Passoni. O Museu Campos Gerais firmou a parceria ao ceder o equipamento necessário para a digitalização dos arquivos. Segundo Passoni, o processo se-

manal é de quatro dias em catalogação e um dia para digitalização. “Mais de mil partituras já foram catalogadas e o montante continua visualmente igual. É um trabalho que levará cerca de quatro anos para ser concluído”. As obras de domínio público ficarão disponíveis no repositório da UEPG. Por Cássio Murilo

Orquestra Sinfônica de Ponta Grossa em apresentação na Concha Acústica. Foto: Veridiane Parize


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Operário defende fim da homofobia no futebol

Juntamente com outros clubes do país, gritos homofóbicos são rechaçados pelo clube e proibidos por entidades

O

Operário Ferroviário aderiu ao movimento dos clubes brasileiros em defesa à igualdade de gênero, iniciado nacionalmente em setembro deste ano. Na internet e redes sociais, o clube realizou postagens sobre incentivos à igualdade no futebol, com a campanha "O Operário é de todos", onde rechaça qualquer tipo de racismo, homofobia, machismo e preconceito contra deficientes no futebol. Nas redes sociais do Operário, houve comentários positivos e negativos em relação à adesão da campanha. Alguns comentários foram encontrados no Facebook, em uma postagem do Operário Ferroviário sobre o movimento de igualdade e respeito às diversidades sexuais. Afirmações sobre o futebol estar virando "militância" e até mesmo repúdios ao direito igualitário de LGBT's frequentarem os estádios foram identificados na postagem. Em postagem nas redes sociais, o clube escreveu: “Preconceito relacionado à orienta-

ção sexual é uma das coisas mais enraizadas em nossa sociedade. Apesar de muito esforço para conscientização, foram necessárias medidas de criminalização para se garantir uma das coisas mais básicas: respeito”. Assessora de imprensa do Operário, Bianca Machado, reforça a história do clube nas causas sociais. “O Operário está engajado nas causas sociais, portanto não podemos deixar de participar de uma campanha contra a homofobia”. Machado afirma ainda a necessidade das medidas impostas pelo Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em conjunto com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Em agosto foram aprovadas punições, que podem chegar à perda de três pontos, aos clubes que tiverem torcidas com gritos preconceituosos. Outros clubes da primeira e segunda divisão em nível nacional fazem parte da campanha. O Operário alterou ainda as bandeiras localizadas nos arredores do campo do Germano Krüger, com símbolos de

Bandeira LGBT colocada para a partida entre Operário e Cuiaba pela série B. Foto: José Tramontin | OFEC

movimentos sociais. Vice-presidente do Grupo Universitário de Diversidade Sexual e Identidades de Gêneros (GUDI), movimento ativista da UEPG em defesa dos LGBT’s, Brendo Francis Carvalho, aponta que a realidade dos estádios é de uma “falsificação do próprio gênero”, ou seja, para se sentir segura no ambiente a pessoa “finge” ser heterossexual. Mestrando em Geografia, Carvalho afirma que dar visibilidade à variedade de pessoas é uma mudança de pensamento da sociedade. "Homofobia é um problema social e não são soluções pontuais que vão mudar toda a situação, mas sim complexas", ressalta Carvalho. Uma fonte que afirma ser homossexual, mas não quis se identificar, disse gostar de futebol, mas que evita ir aos estádios. “Quando se ouve o grito da torcida de “bicha”, os torcedores estão querendo ofender o adversário, e assim se caracteriza homofobia”. Para ele, na internet as coisas ficam mais complicadas: “Nas redes sociais as pessoas se sentem mais protegidas; já vi comentários homofóbicos muito maldosos”. Membro da Comunicação e Marketing da torcida organizada do Operário,Trem Fantasma, Felipe Cabral afirma que o grupo não se importa com a orientação sexual. “Pouco nos interessa a sexualidade, somos extremamente democráticos, defendemos a igualdade”. Cabral reforça ainda que qualquer um é bem-vindo à torcida organizada do Operário.

menda que os árbitros anotem nas súmulas das partidas (relatos que a arbitragem faz após os jogos) casos de homofobia e transfobia para a devida punição ao clube. A medida atende à recente criminalização da homofobia no país estabelecida pelo Supremo Tribunal Federal e as diretrizes recomendadas pela Federação Internacional de Futebol e Associação (FIFA). Repercussão nas redes

Nas redes sociais do Operário, houve comentários positivos e negativos em relação à adesão da campanha. Alguns comentários foram encontrados no Facebook, em uma postagem do Operário Ferroviário sobre o movimento de igualdade e respeito às diversidades sexuais. Afirmações sobre o futebol estar virando "militância" e até mesmo repúdios ao direito igualitário de LGBT's frequentarem os estádios foram identificados na postagem. Uma morte a cada 23 horas

O Grupo Gay da Bahia (GGB) registra que, a cada 23 horas no Brasil, um LGBT morre no país. De janeiro a maio deste ano ocorreram 141 mortes no país, sendo 126 homicídios e 15 suicídios, conforme pesquisa. Os dados representam um aumento de 14% no número de homicídios em relação ao mesmo período no ano passado. O levantamento do GGB é baseado em notícias publicadas pelos veículos de comunicação, informações de parentes e reCriminalização da Homofo- gistros policiais. bia pelas Entidades Prints retirados da pagina do facebook do Operário Ferroviário Esporte Clube. A identidade dos envolvidos foi mantida em sigilo. Imagem: Emanuelle Benicio

Em nota oficial publicada no dia 19 de agosto, assinada pelo Procurador Geral do STJD, Felipe Bevilacqua, o órgão reco-

Por Germano Busato


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Ombudsman Fazer jornalismo é investigar, não a descrição de fatos! Temitope Aransiola é jornalista e mestre formada pela UEPG. Atua nos temas de Linguística com enfase em Identidades sociais e raciais. Ministra palestras sobre culturas africanas, representação e desconstrução de estereótipos. Contato: topejane@gmail.com Uma das funções jar, por ser meramente descrido jornalismo é a investigação e tiva. É legal saber da iniciativa a de apresentar diversas reali- dos alunos, mas faltou um posidades através da qual os pró- cionamento crítico do autor. Caprios leitores possam adquirir rece de informação pertinente informações e fazer uso. Ao ler a ao leitor, ao descrever que o proedição de setembro, o que me jeto existe há 10 meses, durante chamou atenção foi a falta de in- qual os alunos fazem reuniões vestigação e a ausência de plu- com os vereadores, deixa uma ralidade de fontes cujas vo-zes indagação; nessas reuniões o poderiam acrescentar importâ- que os vereadores estão fazenncia a alguns dos textos. do ou pensam em fazer como Ao ler a editoria meio plano de ação para preservar o ambiente achei digno, conside- meio ambiente? Não é só ser rando o acontecimento na Ama- favorável às ideias, tem que agir! zônia nas últimas semanas, inA mesma abordagem dica atenção do jornal em tratar descritiva é presente na reporda pauta, entretanto, a reporta- tagem, “Lei que garante pasgem apresentada deixou a dese- sagens gratuitas para estudan-

tes tem funcionamento precário em Ponta Grossa”. O texto apresenta os problemas e as dificuldades que os próprios usuários já devem saber, mas não indica informação relevante. Faltou séries de perguntas e dados, como por exemplo, quantos estudantes em Ponta Grossa aproveitam desse benefício? A dificuldade de horário é condizente com outras empresas da rodoviária? Se o destino for outro estado é mais fácil de conseguir? Do número geral, quantos alunos realmente conseguem utilizar o serviço? O que não está no texto, pois retratou somente a realidade de um aluno. É sério isso? A matéria está mais para a visão unilateral da situação do que uma investigação cuja problematização poderia ficar mais interessante

A cidade é de todos

caram o candomblé, em uma clara exposição de preconceito religioso, por conta de uma apresentação de maculelê, uma dança africana, no VII Congresso de Educação. Todos têm o direito de expôr sua cultura e religião de forma livre. O estado é laico e isso devia garantir a liberdade de cada um em seguir sua crença. Porém cada dia se observa que isso é um mito que perde espaço para o “falso moralismo”, pregado por alguns como a única verdade. Outra forma de intolerância abordada no jornal aparece nos comentários homofóbicos de torcedores do Operário, declarados em uma publicação de uma campanha do time ponta-grossense justamente contra a homofobia. No espaço das redes sociais, alguns acham que podem escrever qualquer ofensa sem se preocupar com as consequência do ato. É necessário o debate de políticas públicas, infraestrutura, educação e saúde entre os órgãos públicos e os cidadãos para a construção de uma sociedade melhor. Mas enquanto governarem apenas para uma parcela de pessoas, a cidade não irá se desenvolver de modo sustentável.

Editores-chefe: Emanuelle Benício, Gabriel Mendes, Marcus Benedetti Edição de Texto: Cássio Murilo, Daniela Valenga, David Candido, Denise

Martins, Eduardo Machado, João Paulo Machado, Kauana Neitzel Maria Fernanda de Lima, Mirella Mello, Robson Soares. Edição de Imagens: Amanda Gongra, Germano Busato, Juliana Cosmoski. Diagramadores:

Charge Charge: Larissa Hofbauer

O Foca Livre tem como compromisso ouvir os apelos da população, denunciando qualquer situação de abuso econômico ou de poder por aqueles que são privilegiados de alguma forma. Nesta edição tratamos da condição das pontes dos bairros Palmeirinha e Bonsucesso onde moradores correm riscos ao passar pela travessia e não recebem nenhum parecer da Prefeitura, órgão que deveria assegurar o direito de acessibilidade à população que paga impostos. E os problemas não param. No último mês a prefeitura aceitou a licitação da única concessionária responsável pelo transporte público da cidade para aumentar o valor da passagem de ônibus em 15%, mesmo sem demonstrar nenhuma forma de melhoria do serviço aos passageiros. Em um primeiro olhar, pode parecer pouco, mas na hora de fazer a soma do final do mês e depois em um ano, observamos que o aumento é muito maior do que o divulgado, o que prejudica principalmente famílias mais pobres. O valor aumentou mais que a inflação. Além da omissão em problemas de infraestrutura e transporte, a intolerância é outro problema presente no Poder Público municipal. Dois vereadores ata-

ERRATA

A Foca também é humana. Pedimos desculpas pelos erros da edição 210: -p.3: Capitular está com 3 linhas. O padrão era 2. -p.6: Entrelinhamento fora do padrão. Editoria, número da página e mês estão em fonte errada. A data não está em negrito -p.8 e 9: as palavras “ensino fundamental” e “ensino médio” estão em letra maiúscula erradamente

Foca Livre é o jornal-laboratório do curso de Jornalismo da UEPG Contato: focalivreuepg@gmail.com Whatsapp (42) 99970-0565

Jessica Alana, Laisa Braga, Larissa Hofbauer, Lucas Muller, Marcella

Os textos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não expressam o ponto de vista do jornal. Impressão: Grafinorte, Apucarana (PR)

Panzarini, Renata Oliveira, Vitor Almeida, Yuri A. F. Marcinik. Repórteres:

Tiragem: 2.000 exemplares

eAndré Ribeiro, Alexsander Marques, Emanuelle Salatini, Isabela Gobbo,

Consulte a autoria das reportagens diretamente na página da notícia.

com esses dados. “Insegurança no trabalho se destaca como principal causa de mortes em silos” é outra reportagem que cai na mesma armadilha. O texto traz dados relevantes sobre como o Paraná lidera a ranking com maior número de vítimas com 478 acidentes, fiquei empolgada esperando ler casos de outras vítimas, considerando o número de incidentes, mas esta pluralidade de voz está ausente, informação que poderia ajudar entender porque os trabalhadores não registram os acidentes como alega o Ministério da Previdência Social. Essa investigação e a diversidade de vozes dos subalternos faltou nessas e algumas outras reportagens.

Departamento de Jornalismo UEPG- Campus Central- Praça Santos Andrade, nº 01- Centro CEP:84010-790- Ponta Grossa- PR- Telefone +55 42 3220-3339 Professores responsáveis pela edição: Ben-Hur Demeneck (MTB- PR 5664) Rafael Kondlatsch (MTB- PR 6730) Professora responsável pela produção de notícias Hebe Gonçalves (MTB MG 5204)


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DEPOIMENTOS

Com a palavra, os pais-de-santo

Em fala livre, líderes religiosos discutem preconceito versus cultura de paz e revelam que as religiões de matriz afro se distanciaram da população pobre - ao contrário das igrejas evangélicas. Em Curitiba, em agosto, terreiro da Mãe Cláudia de Oxum foi incendiado.

U

ma apresentação de maculelê no VII Congresso de Educação, realizada entre os dia 7 a 15 de setembro, levou dois vereadores de Ponta Grossa a atacarem a manifestação, por conta de uma possível associação dela ao candomblé. Um dos políticos usou a tribuna da Casa de Leis para manifestar repúdio e, depois, a Associação dos Ministros Evangélicos de Ponta Grossa (AME-PG) demonstrou em nota apoio ao pronunciamento. O episódio levantou discussão sobre intolerância religiosa, e o Foca Livre foi ouvir dois pais-de-santo, um do candomblé e outro da umbanda, sobre o episódio e o que ele representa da ignorância contra as religiões de matriz africana.

Devoto do Candomblé desde 1996 e Babalorixá desde 2012, Pai Ricardo é regido por Ogum Xoroquê e é praticante da religião em Ponta Grossa. “Essa fala deles é de intolerância religiosa, crime racial, de racismo, de etnias, e outras coisas. O que eles fizeram também entra no artigo 42, de coação, porque eles ficam coagindo o povo que pratica os ritos afros com esses paradigmas. "É um trabalho lento, muito lento, de conscientização. Eu nunca sofri agressões dessa parte, mas essa postura dos vereadores é uma postura de pessoas que não servem nem para carregar o título de sacerdotes de alguma religião. "A conscientização contra o preconceito religioso é como se fosse uma alfabetização, né? É com cartazes, movimentos sociais, a favor da unificação dos povos, não da unificação das religiões, mas dos povos. O problema de tudo é a intolerância religiosa. "Se você analisar a fundo esse fenômeno, a intolerância está em tudo, na política, no

Foca nos Discos

THE WONDERBOYS

Ilustração: Levi de Brito

Pai Ricardo "Conscientizar sobre intolerância religiosa faz parte da educação"

Dança tradicional do Recôncavo Baiano, o maculelê possui raízes indígenas e africanas. Em seu “Dicionário do Folclore Brasileiro”, o folclorista Luís Câmara Cascudo (1898­1986) comparou o maculelê às manifestações de Congos e Moçambiques.

futebol, na religiosidade. Está cana com influências indígenas em tudo. E sempre tem a bola da também. Era uma dança de vez, desta vez foi a religião.” guerra, que utilizava ferramentas, facas. Pode, sim, ser enconPai Rafael trada em alguns terreiros, mas a "Umbanda precisa estar nas própria apresentação em si é comunidades pobres" bem contraditória, porque ela pode ter sido anunciada como Regido por Obaluiê, o sa- uma dança de candomblé, mas cerdote Rafael é pai pequeno de ela não é apenas uma dança de Umbanda, ou seja, é um subor- candomblé. É uma dança. Ou dinado hierarquicamente ao Pai seja, a discussão do objeto de ade Santo da casa. Com 31 anos taque dos vereadores já está ede idade e nascido em berço quivocada, porque, no máximo, o umbandista, Pai Rafael é sacer- que foi feito foi apresentar um dote desde 2017 em Curitiba. aspecto de uma cultura africana “A própria conceituação e até mesmo indígena. e o próprio objeto da discussão "O que fazer para mudar sobre a dança já está equi- essa mentalidade de ignorânvocada. O maculelê não é uma cia é a conversa, o esclarecidança de candomblé. O macu- mento, mas também teria que lelê é uma dança de matriz afri- ter um esforço maior dos pratiQuarteto princesino com influencias de Queens of Stone Age a Los Hermanos, The Wonderboys cantam em suas letras, temas sérios (Preocupação) e alguns deboches (Não Pertenço a Ninguém). Casam o instrumental indie com toques de psicodelia, remetendo ao No Wave e lembrando bandas como Sonic Youth. Seu EP entitulado “NÃO” foi lançado em agosto de 2011, em show no auditório B do Cine Teatro Ópera. O disco pode ser ouvido na íntegra no Youtube. https://www.youtube.com/watch? MANDAU v=PHhmm0y9vQc

cantes de matriz afro para estar nas comunidades menos favorecidas, para estar dentro dos bairros pobres, das favelas. "Mas as religiões de matriz afro hoje, pelo menos em Curitiba, ela não atinge a camada mais rasa da sociedade, somente da classe média pra alta. Temos dois ou três terreiros bem famosos em Curitiba que eu acho que não fazem muita questão de ter gente pobre frequentando, então se não for pela conversa, pelo diálogo, eu não consigo ver outra maneira de existir uma conversa entre as religiões. "Recentemente um terreiro muito grande, de nome na cidade, de respeito, da Mãe Cláudia de Oxum foi incendiado. No interior sim nós somos 'tratorados', afogados. Mas em Curitiba há sim uma intolerância, inclusive agora na caminhada contra a intolerância religiosa [realizada no dia 15 de setembro], um cidadão foi preso portando uma faca e dizendo que ia matar todos os pretos e macumbeiros. Quer dizer, não existe respeito, não existe aceitação.

Por Marcus Benedetti

Nascida em Ponta Grossa no ano de 2005, a banda Mandau mistura influencias do soul com música brasileira, cuba-na e rock. A banda é vencedora do Festival Jeito Speedy Telefônica de 2009,já abriu shows de Lulu Santos a Scorpions e vendeu 5 mil cópias de seu primeiro disco independente apenas em shows. Os dois álbuns da banda, Mandau (2007) e Suave na Nave (2011) podem ser baixados gratuitamente no site: https://www.bandamadau.com.br/ Seleção por Cássio Murilo


UM FRETE NA CONTA E UM PAÍS NA CARRETA

. Enquanto confraternizamos com os familiares nos feriados da Páscoa, Natal e Ano Novo, milhares de caminhoneiros movimentam as estradas do Brasil e ligam o país de norte a sul, de sudeste a nordeste Entre postos de abastecimento, hotéis, restaurantes e oficinas ao longo da Avenida Souza Naves, histórias de sangue, suor, solidão e prazos de entrega revelam o quanto o Brasil de JK e suas metas transformaram as rodovias nas artérias do país. Por Cássio Murilo, Eduardo Machado, Germano Busato & Yuri A.F. Marcinik

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