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REVIVENDO O DEVANEIO

experimentos na percepção da arquitetura


Figurino para o Neue Sachlichkeit de Herbert Bayer. 1926. Bauhaus Barbican.


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para mercedes, que me ensinou os valores dos sentimentos


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universidade de são paulo faculdade de arquitetura e urbanismo

ex pe ra rim u t te ento i u q s na percepção da ar flávio raffaelli fonseca orientadora: dra. giselle beiguelman 2013


Índice

Introdução O sentimento da cidade Máquinas de afeto Sinto, logo existe Olhos famintos

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Mudança de foco O império dos sentidos Espaços intersticiais Teste de espacialidade Panos painéis

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Coisas do cais Revivendo o devaneio Conclusão

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Bibliografia Agradeço

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O devaneio de Gaston Bachelard É o desprendimento das próprias imediações de um indivíduo, durante o qual seu contato com a realidade é difuso e parcialmente substituído por uma fantasia visionária. Os aspectos negativos do devaneio começaram a ser apurados após o trabalho humano tornar-se ditado pelo movimento da ferramenta. Como a produção artesanal foi substituída em grande parte pela linha de montagem que não permitia qualquer tipo de criatividade, nenhum lugar foi deixado para os aspectos positivos do devaneio. Ele não só se tornou associado com preguiça, mas também com perigo.

Espaços Intersticiais. Flavio Raffaelli. São Paulo. 2013.


“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro pra fora, outra que olha de fora pra dentro.” Machado de Assis. O Espelho. “Quando chove em cima das igrejas, os anjos escorrem pelas paredes” Nelson Rodrigues. Valsa n. 6

Restauração da Faculdade de Medicina do Pelourinho. Salvador - Bahia. 2008. Foto; Flavio Raffaelli.

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Muitas ideias existiram ao longo do período de concepção deste trabalho, porém a intenção sempre foi a de buscar uma relação entre a arquitetura e nossas sensações. Busquei dividir este estudo em duas partes: teoria e projeto. Ambos tornaram-se ferramentas importantes para o desenvolvimento final que culminou em experimentos didáticos de formação criativa. É complicado lidar com teoria, quando se trata de sentimentos, já que eles migram, mudam e se dissolvem. Sendo assim, resolvi prendê-los, mesmo que momentaneamente, a um fio condutor pertinente aos meus conhecimentos, a linguagem fotográfica. Tomei como ponto de partida fotógrafos como Man Ray e Herbert Bayer, que desenvolveram historicamente conceitos, dentro da linguagem fotográfica, ligados ao surreal e a representação das sensações. A ideia de experimentações visuais se mostrou bastante presente durante todo meu percurso de vida, intensificando-se durante o mundo acadêmico, através do corpo e espírito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Desde seu surgimento, o edifício de Artigas configura um espaço destinado a liberdade de experimentação como maneira de ensinar e aprender arquitetura.

Cena do filme La Dolce Vita, de Federico Fellini. Itália. 1960.

O regresso ao devaneio foi uma forma encontrada para enfatizar as mudanças comportamentais das pessoas envolvidas em atividades criativas, não somente no campo arquitetônico, mas nas artes em geral. Semelhante a um processo arqueológico, descavando experiências, reinserindo-as no mundo atual, a figura de Flavio Império surgiu e tornou-se força motriz de inspiração sentimental. Voltar-se para este momento é entender a importância da manutenção dos valores colocados por ele dentro do ofício criativo, e impulsionar novos, que possam surgir desta fermentação artística. A imaginação deve ser nutrida constantemente, e por isso julgo necessário instigá-la através do campo visual e do corpo humano.

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Surge assim em meu trabalho a noção de hiperrealidade, a construção de cenas fisicamente possíveis no, mundo cotidiano, mas dificilmente encontradas. O inesperado na realidade, torna-se fantasmagórico. O paranormal que está presente no cerne da representação visual. Desconsiderá-lo empobrece a discussão vital que envolve o momento criativo. Devido ao caráter pejorativo que este termo adquiriu nos dias de hoje há, portanto, uma necessidade de resignificar sua aplicação. Assim como este propõe a ligação entre o corpo e espírito. Por meio da da fotografia, busco pôr em prática a experimentação de idéias presentes em textos de arquitetos contemporâneos, como Juhani Palasmaa, que enfatiza as relações presentes entre a arquitetura e as sensações. Fazendo isso, expõe-se fatos convenientes a estruturação do pensamento arquitetônico, sua crise e tentativas de manter presente o diálogo entre as construções físicas e as sensações das atmosferas criativas.

“Toda expressão plástica nada mais é que o resíduo de uma experiência.” Man Ray. A Era da Luz.

Foto-textura. Flavio Raffaelli. Londres. 2009

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O sentimento da cidade

A primeira grande indagação a respeito dos sentimentos englobados pela arquitetura, surgiu através da prática urbana, o uso da cidade, como transeunte — que transforma e se ajusta as nuances da cidade. Caminhando por São Paulo me deparei com a seguinte questão: Como seria projetar um ambiente que transmitisse sensações desarmoniosas? Um espaço com sérios riscos estruturais e que fosse perceptivelmente perigoso. Como seria criar uma arquitetura do medo? De certa maneira, este espaço já estava ali, configurado nas grandes avenidas e marginais sem calçadas e orientação a não ser para os veículos, nos viadutos pouco iluminados, situações herméticas, afastadas e desfiguradas, sem sobra de dúvidas, desrespeitosas para os seres humanos. Um pequeno deslize, talvez um corrimão frouxo possa significar a morte súbita; pisar em falso; se desfazer.

(NORBERG-SCHULZ, 2008:445)

Christian Norberg-Schulz, teórico norueguês de arquitetura, acredita que nosso dia a dia é constituído por fenômenos concretos e outros menos tangíveis. Dentro desta hipótese, a configuração de um lugar escapa das definições do conhecimento cientifico, pois, se preocupando somente em abstrair um conhecimento neutro, a ciência perde de vista o mundo-da-vida-cotidiana. “Felizmente, há uma saída para o impasse, o método chamado de fenomenologia. A fenomenologia foi concebida como um ‘retorno as coisas’ em oposição a abstrações e construções mentais”ӂ. Schulz ainda afirma que, filósofos se utilizam das artes, como poesia e literatura, para obter informações necessárias para a compreensão da vida do homem. Partindo deste pressuposto, usei como referencias imagens e filmes que me auxiliam a expressar estas ideias, ligadas a concepção espacial, visto que a arquitetura exerce tal poder sensorial através de seus campos de força visuais.

Cena do filme 8 1⁄2, de Fellini. 1963.

Federico Fellini, mestre do cinema neo realista italiano, tem como característica de sua obra a confusão gerada pela mistura entre o tangível e concreto, com elementos

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lúdicos, inesperados em cena, que muitas vezes servem como representantes das emoções vinculadas a construção psicológica do individuo. Cito seu caso em busca de um leque de referencias que possam me auxiliar na concepção de situações sensoriais. “Quanto a Fellini, desde seus primeiros filmes, não é apenas o espetáculo que tende a extravasar sobre o real, é o cotidiano que sempre se organiza como espetáculo ambulante, e os encadeamentos sensóriomotores dão lugar a uma sucessão de variedades, submetidas a suas próprias leis de passagem. [...] Fellini alcança a confusão desejada do real e do espetáculo, negando a heterogeneidade dos dois mundos, suprimindo não somente a distância, mas a própria distinção do espectador e do espetáculo.”ӂ

(DELEUZE.1990:14)

Em 8 1/2, filme de Fellini, um escritor voador aparece sendo puxado de volta para a terra. Esta imagem figurativiza uma necessidade inerente a este projeto: o retorno à realidade imediatamente após um devaneio criativo. Nos dias de hoje, a corda que envolve o tornozelo de cada momento criativo do homem está cada vez mais grossa e pesada, dificultando o alçar voo para o campo da imaginação. Recorrendo ao dicionário Aurélio; o significado de imaginação: “s.f. Faculdade de representar objetos pelo pensamento: ter uma imaginação viva. / Faculdade de inventar, criar, conceber: artista de muita imaginação. / Opinião sem fundamento, absurda: isso é pura imaginação. / Resultado da faculdade de imaginar.” Aurélio identifica uma relação entre o ato criativo de representação com a nossa capacidade de imaginação. Ao mesmo tempo incita certo caráter pejorativo ao ter como sinônimo da imaginação a opinião sem fundamento. O que nos levou, ao passar do tempo, a criar tal analogia e por que vemos tal comportamento como algo perigoso? ӂ Comparo este problema ao atual paradigma da situação do ser humano na grande metrópole. A cidade contemporânea, símbolo do grande desenvolvimento intelectual e

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(BACHELARD.2008:94)


tecnológico é, ao mesmo tempo, um campo experimental vivo e mutante; e uma delimitadora e corrosiva arma de aniquilação das sensações instintivas básicas e vitais do homem. Seus problemas urbanos hipertrofiam nossos sentidos e ao mesmo tempo geram patologias das mais variadas ordens e escalas.

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“Enquanto nossos meios tecnológicos se multiplicam, estamos crescendo – ou nos atrofiando – perceptualmente? Vivemos nossas vidas em espaços construídos, cercados por objetos físicos. Mas, nascidos dentro deste mundo de coisas, estamos aptos a experimentar completamente o fenômeno de suas inter-relações, para obter prazer da nossa percepção?” ӂ Esta citação do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa evidencia o que vem acontecendo, hoje em dia, com nossa capacidade criativa. Atualmente, a normatização excessiva dos padrões de vida, independentes de classe social ou quaisquer outros fatores socioeconômicos, vem se intensificando diariamente. Notwa-se mudanças sutis dia após dia nos hábitos e comportamentos humanos. Isto reflete não só diretamente sobre o convívio mas também na produção material de cada um de nós. “A criação de imagens por computador tende a reduzir nossa magnífica capacidade de imaginação multi sensorial, simultânea e sincrônica, ao transformar o processo de projeto em uma manipulação visual passiva, em um passeio na retina. O computador cria uma distância entre o criador e o objeto, enquanto o desenho à mão e a elaboração de maquetes convencionais põem o projetista em contato com o objeto ou o espaço. Na nossa imaginação, o objeto está simultaneamente em nossas mãos e dentro da nossa cabeça, e a imagem física é projetada e criada e modelada por nossos corpos. Estamos ao mesmo tempo dentro e fora do objeto. O trabalho criativo exige uma identificação corporal e mental, empatia e compaixão.” ӂ Exemplos inúmeros estão no simples ato diário da convivência social. Os núcleos de convívio, por assim dizer, delimitam escalas múltiplas da chamada ordem social vigente e da ausência da mesma. Atualmente vivemos e trabalhamos ligados em rede, online. Como chegamos a um nível desenfreado de solidão coletiva, junto às nossas máquinas de afeto? Junto a este sentimento, como acabamos por desenvolver tal ritual cotidiano de se sintonizar e compartilhar toques e caricias com estes elementos mecatrônicos? O desenvolvimento exacerbado das novas tecnologias e

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Máquinas de afeto (PALLASMAA.2008:36)

Jardim de Eus (Garden of Selves). Nova Iorque. 2000. O casal de fotógrafos Robert e Shana Parkeharrison possuem uma série fotográfica intitulada Architect’s Brother, que faz referência ao abuso excessivo da força em detrimento à natureza instintiva humana. Referência de linguagem hiperrealista no campo fotográfico. E do uso do arquétipo humano desprovido de irreverência.

(PALLASMAA.2011:12)


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ritmos laborais tem cada vez mais enclausurado o trabalhador, dentro de redes de vigilância, sistemas hierárquicos de controle, que acabam por moldar os deficientes prazeres de tais. Isto, para Michel Foucault adentra o subconsciente coletivo. Sua maneira de sentir determinado lugar ou sensação pode sim se tornar banal e desmotivador. Foucault descreve o início deste modo de vigilância e nos alerta para “as divisões tênues e analíticas por ela realizadas formaram, em torno dos homens, um aparelho de observação, de registro e de treinamento.” ӂ Pallasmaa acredita, que nos dias de hoje já é possível transmitir uma freqüência temporal e de ritmo na arquitetura “Não é geralmente reconhecido que o nosso mundo também domestica e escala a construção do tempo para o entendimento humano. Arquitetura retarda, pára, inverte, ou acelera o tempo, e podemos falar sobre arquitetura lenta e rápida.“ ӂ. Tal posicionamento critica esta ordem vigente, imposta que sufoca a liberdade criativa e delimita a personalidade humana.

(FOUCAULT.2004:145)

(PALLASMAA.2008:31)

Folheto distribuído no metrô Faria Lima em Fevereiro de 2013. São Paulo. ADESP.

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Sinto, logo existe (HALL. 1966:69)

Em Playtime (Foto a esquerda), Jacques Tati representa o panóptico moderno e como ele influencia estéticamente a concepção do espaço de trabalho. Temas recorrentes seriam a assepsia, impessoalidade, ritmo e controle, a maquinização e extrema racionalização, o elementarismo cientifico e o reducionismo.

(PALLASMAA.2008:33)

Qual relação podemos criar a partir do corpo da arquitetura e o ser humano? Estudos vêm apontando ao longo do tempo relações entre o corpo humano e a percepção, pensamento e consciência. Tudo isso articulado pelos sentidos, vinculados no processamento das respostas sensoriais. “Uma prova significativa de que pessoas criadas em diferentes culturas vivem em mundos perceptuais diferentes está em seu modo de orientar-se no espaço, de mover-se e ir de um lugar para o outro.” ӂ Antigamente notava-se com mais facilidade a experiência descrita acima por Edward T. Hall, antropólogo que estudou o comportamento sensorial humano. O mundo se compondo em suas relações de aldeia global gera uma normatização destes mundos perceptuais. Diversos textos descrevem numerosas culturas que possuíam uma indiferença entre a visão, audição, olfato, tato e paladar. Todos tinham importância coletiva no comportamento e na comunicação. Hall ainda diz que um ponto muito importante que devemos considerar é que o homem atual está excluído para sempre da plena experiência dos vários mundos sensoriais de seus antepassados, pois estavam integrados e profundamente implantados e organizados em contextos que só podiam ser compreendidos por pessoas daquela época. Ele ainda diz que, nossa capacidade como homem contemporâneo se resume em “algo de nossas próprias reações sobre a índole e organização de nossos próprios sistemas visuais e de nossas expectativas; algumas noções do que pode ter sido o mundo perceptual primitivo”. Porém ele sempre afirma que nosso conhecimento sempre será incompleto e baseado em uma realidade imagética. Na renascença, o sistema dos sentidos era relacionado ao senso da visão do corpo cósmico; visão era relacionada ao fogo e luz, ouvir ao ar, cheiros ao vapor, gosto à água, toque a terra. Os cinco sentidos formavam uma linha hierárquica que ia do maior, a visão, ao menor, o toque. ӂ

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Maurice Merleau-Ponty, principal pensador fenomenológico cita em seus textos relações que artistas tem com a criação e a percepção em suas obras. Para ele vemos a profundidade, a velocidade, a maciez e a dureza dos objetos. Diz ainda que Cézanne captava até mesmo os cheiros. “Se um pintor deseja expressar o mundo, seu sistema de cores deve gerar um complexo indivisível de impressões, em outro caso suas pinturas acertam possibilidades sem produzir a unidade, presença e a intransponível diversidade que governa a experiência e que é a definição de realidade para nós.” ӂ A cidade contemporânea perdeu seu eco, afirma Pallasmaa (2005). A importância da intimidade entre acústica e percepção também é discutida em seus textos: “Os espaços abertos e amplos das ruas contemporâneas não devolvem os sons, e nos interiores as edificações atuais os ecos são absorvidos e censurados. A música gravada e programada que toca em shoppings centers e espaços públicos elimina a possibilidade de palparmos o volume acústico de seus espaços. Nossos ouvidos foram cegados.”ӂ

(MERLEAU-PONTY. 1962)

Em seus filmes, o diretor Jacques Tati busca criar uma linguagem que retrate a modernidade do século XX, e dentro dela acopla a discussão sonora. Retratar o silêncio se faz necessário para enfatizar variedade e complexidade. Ele descreve seu arranjo de sons como uma espécie de música concreta, uma coleção de ásperos, mas sutilmente equilibrados, e super realistas, barulhos, através do arranjo complexo de múltiplos planos e arranjos visuais densos. No campo arquitetônico Pallasmaa acredita que “uma experiência arquitetônica silencia todo o ruído externo, ela focaliza nossa atenção em uma única existência. nos faz consciente da nossa própria e fundamental solidão.” ӂ A discussão sonora é uma das tantas que englobam a situação atual da repressão dos sentidos pela onipotente visão. “É evidente que uma arquitetura que intensifique a vida deva provocar todos os sentidos simultaneamente e fundir nossa imagem de indivíduos com nossa experiência de mundo.” ӂ

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(PALLASMAA.2008: 31)

(PALLASMAA.2011: 11)


Olhos famintos

A dominação da visão sobre todos os outros sentidos se nota em diversos estudos de Goethe que utiliza a comparação cromática perceptiva do olho humano e a sensação que cada cor transmite sinestesicamente para os outros sentidos, para intensificar a vida, afirma ele.

“Que outra coisa o pintor ou o poeta poderia expressar senão seu encontro com o mundo?” Merleau-Ponty “As mãos querem ver, os olhos querem acariciar” Johann Wolfgang von Goethe Dado extraído de workshop de iluminação de obras de arte, ministrado em maio de 2013 pelo MAC USP.

A invenção da perspectiva tornou os olhos o ponto central do mundo perceptual, bem como do conceito de identidade pessoal. No início do século XX, as casas brasileiras, iluminadas à lamparina ainda concentravam, à noite, ambientes internos com luminância de 60 lux. Hoje em dia, o padrão de iluminação para interiores à noite chega a 500 lux, e 50 lux para ambientes ex- ternos. Talvez esse ofuscamento visual se comprove devido ao desenvolvimento tecnológico, talvez a massificadora sanitarização mundial, higienização dos espaços. Mas comprova que era possível viver com menos quantidade de luz. A íris ocular possui a capacidade de se acostumar às diferentes taxas de iluminação, somos capazes de reconhecer objetos e suas presenças com total nitidez a uma quantidade inferior de luminância. ӂ Merleau-Ponty (1962) critica este regime da perspectiva e cartesiano como ele mesmo define. Heidegger acredita que inicialmente a hegemonia da visão era encantadora, pois trazia um novo conceito de realismo para a sociedade, porém nos tempos modernos se transformou cada vez mais em uma visão niilista. As imagens se tornaram mercadorias, simultaneamente sobrepostas, vindas de diferentes espaços, transformando seu uso efêmero em qualquer outra coisa, afirma David Harvey. A hegemonia da visão foi reforçada em nosso tempo por uma multidão de invenções tecnológicas e da multiplicação infinita de produção de imagens — uma precipitação interminável de imagens, como Ítalo Calvino chama.

(PALLASMAA.2011)

A própria concepção arquitetônica está em processo de reformulação. Sua representatividade está em crise após sua excessiva virtualização e abandono de técnicas manuais de projeto. ӂ

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Mudança de foco (PALLASMAA.2011:26)

Apesar do sufoco exercido pela visão, devemos considerar sua utilização a partir de outro viés. Existe dentro do campo pictórico ocular, diferentes partes de percepção visual, entre elas a parte que compõe a chamada visão periférica. “A visão focada nos põe em confronto com o mundo, enquanto a visão periférica nos envolve na carne do mundo” afirma Pallasmaa, e defende a idéia de aproximação da visão afocal a primazia do tato. “Junto com a crítica da visão, devemos reconsiderar a própria essência da visão”. ӂ O filósofo americano David Michael Levin (1988) impulsiona a critica do predomínio do olho com as seguintes palavras: “creio que é convincente desafiar a hegemonia da visão, o ocular centrismo da nossa cultura. E creio que precisamos examinar de uma maneira muito critica o caráter da visão que atualmente domina o nosso mundo. Precisamos urgentemente de um diagnostico da patologia psicológica da visão cotidiana, e um entendimento critico de nós mesmo como seres visionários.”

(LEVIN.1988:440)

Levin assinala a via autônoma e a agressividade da vista e os fantasmas do sistema patriarcal que rondam nossa cultura ocular centrista: “a vontade do poder na visão é muito forte. Existe uma tendência muito solida da visão de captar e fixar, a coisificar e a totalizar: uma tendência a dominar, assegurar e controlar que, com o tempo, dado que se promoveu amplamente, assumiu certa hegemonia indiscutível sobre nossa cultura e seu discurso filosófico, estabelecendo uma metafísica ocular centrista da presença ao manter a racionalidade instrumental da nossa cultura e o caráter tecnológico da nossa sociedade”. ӂ Essas observações sugerem que uma das razões pelas quais os contextos arquitetônicos e urbanos de nossa época tendem a nos fazer sentir como forasteiros, em comparação com o extremo envolvimento emocional provocado pelos contextos naturais e históricos, é sua pobreza em termos de visão periférica.

Aulis Blomstedt em aula.

O olhar fixo defensivo e não focado de uma nova época, assolado pela sobrecarga sensorial, talvez chegue a abrir

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novas esferas de visão, percepção e pensamento, liberadas do desejo implícito que os olhos têm por controle e poder. A perda de foco pode liberar os olhos de sua dominação patriarcal. A visão periférica categoriza um tipo de devaneio e serve como exemplo para enfatizar a importância de tal sentimento, dentro da construção da nossa zona criativa. Esta técnica propicia liberar a visão para que possa ser absorvida através da negação do foco, da exatidão e do confronto direto, adquire uma importante contribuição ao modo de construir a percepção artística. Aulis Blomstedt, professor de Pallasmaa, utilizava métodos didáticos para o aprimoramento da linguagem arquitetônica de seus alunos, baseado em técnicas de supressão da visão. Visto este exemplo, coube analisar a relação entre a representação e o ensino.

Figurinos desenvolvidos na Bauhaus.

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O império dos sentidos “João de barro ou da Silva faz sua casa com a mão. Ninguém diz que é arquiteto, é João.” Flávio Império

(Flávio Império, Caderno 5.8) Aula ministrada por Flávio Império na FAU USP. Meados da década de 70. Foto do arquivo SCFI. Site da Ocupação Flávio Imperio.

Este trabalho não estava inicialmente voltado para questões disciplinares, mas a partir do momento em que me deparei com a obra do multi-artista Flávio Império, senti a necessidade de vincular minha pesquisa as potencialidades que existiriam no englobamento desta referencia para o cerne das discussões sobre as sensações. Primeiramente, saliento a importância da valorização da obra de Flávio como sendo extremamente múltipla, o que o torna um dos primeiros artistas multimídias do Brasil. Seu trabalho de diversas facetas (cenografia, figurino, arquitetura, artes plásticas, docência) é fruto de sua vivencia nos mais variados núcleos. Como professor de arquitetura em São Paulo, de 1962 até sua morte em 1985, suas aulas eram baseadas em técnicas pedagógicas experimentais, se pautando na necessidade de ação prática de atividades acadêmicas. “Meu processo pessoal de trabalho e pesquisa me levou para além da prancheta: para a ação direta, da manipulação do espaço e do movimento. Meu corpo abandonou a postura sedentária adquirida nos bancos escolares para empreender uma viagem de desbravamento das suas possibilidades de linguagem — manifestação, incorporando dinamicamente os materiais clássicos e os novos materiais que surgem pelo caminho. A respiração, o relaxamento muscular e mental, a expressão psico-física do movimento, o som aliado ao conhecimento anteriormente do desenho, da cor, das possibilidades de linguagem do plano, do espaço, do objeto, e da linguagem das palavras: o jogo dos personagens teatro- vida. Nessa nova constelação de elementos de linguagem, que não se limita à exprimir isoladamente a resultante super elaborada de uma forma específica de percepção: auditiva ou visual ou gestual, etc. Nasce dentro de mim uma necessidade de impulso cada vez mais forte de treino e experimentação, fora do alcance das aplicações estereotipadas. Nos campos do consumo profissionais. Daí as aulas, para mim, serem o próprio (ou um dos) campo de elaboração e pesquisa.” ӂ A liberdade experimental do teatro o proporcionou desenvolver uma linguagem de trabalho especifica, que não o

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teve somente em sua formação acadêmica como arquiteto, o que fez de suas aulas algo único a ser sentido no mundo acadêmico brasileiro. Assim como salienta Ana Paula Koury em seu livro Grupo Arquitetura Nova “O principal subsidio para as experimentações didáticas era sua múltipla atuação como artista, arquiteto e cenógrafo, formação paralela enriquecida por sua participação nas pesquisas dos laboratórios de interpretação de diversos grupos de teatro.” ӂ

(KOURY. 1999:36)

Como professor, Flávio iniciou suas atividades docentes logo após se formar arquiteto, em 1962, na FAUUSP, junto a outros dois colegas de faculdade, os professores Sérgio Ferro e Rodrigo Lefévre, que também participavam do Grupo Arquitetura Nova, junto a ele. Esta foi a época em que ocorreu a primeira grande reforma curricular da instituição em quatro departamentos: Projeto de Edificação, Planejamento Urbano, Comunicação Visual e Desenho Industrial. Flavio era professor do departamento de Comunicação Visual e lecionou as disciplina de Programação Visual, Apropriação do Espaço, Projetos – Sistemas Complexos de Programação Visual e Exercícios de Linguagem Visual. Para ele, o arquiteto deveria possuir uma abrangência maior dentro do seu campo profissional, atuar como artista e como pensador ӂ, por isso impulsionava discussões que buscavam aproximar a arte dos problemas da vida social numa “noção de cidadania transformadora da sociedade, presente tanto no Grupo Arquitetura Nova (Koury, 1999), como nas proposições de Vilanova Artigas” ӂ, de acordo com a dissertação de mestrado de Lívia Loureiro Garcia. “É como professor que eu pesquiso mais diretamente os mecanismos de funcionamento da percepção humana e da possibilidade que o espaço tem como linguagem” ӂ Em 1970, com a visita do grupo norte-americano Living Theatre ao Brasil, Flávio foi introduzido as teorias do grupo teatral que buscava criar uma nova forma de representatividade cênica através da interação efetiva entre a

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(GARCIA. 2012)

(KOURY. 1999)

(IMPÉRIO in HAMBURGER. 1997)

Captura de imagem de super8. Gravação de aula ministrada por Flávio Império, na FAU USP. Meados da década de 70. Autorização de uso de imagens pela família Império Hamburger.


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platéia e os atores. Deste modo, inicia-se uma fase de grande ruptura no modelo, de aulas, empregado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Através de sua sensibilidade artística, as aulas de Império se transformaram em experimentos sensoriais, e devido a isso, na maioria das vezes eram pautadas no improviso. O ato do improviso nas lições do professor Flávio Império é de tamanha grandiosidade, visto que, através deste método de ensino, se chegavam a algumas conclusões implícitas no desenvolvimento pessoal de cada um. Vários depoimentos de estudantes ditos traumatizados com seus métodos muito fortes de intervenção,no entanto, estes consideram tais aulas como remodeladoras de suas essências e de suas formações. “Ao introduzir o domínio artístico aos alunos o professor tinha o cuidado em desmantelar as pré-concepções relativas ao ofício. A partir da sensibilização espacial e da consciência corporal deixava-se de desenhar com a mão no plano horizontal da prancheta e passava-se a desenhar com o corpo todo. A motivação intrínseca dos alunos foi decorrente do entusiasmo e energia promovidos pelas aulas de Flavio Império. O questionamento critico sobre o ensino acadêmico cativou os alunos, fato que os tornaram pessoas reflexivas e criticas sobre o pensar e o fazer.”ӂ

(GARCIA. 2012)

Tomo como referência esta citação de Garcia para a tentativa de dialogo proposta por Flávio entre o momento de criação, o ensino da técnica e a pausa. Mais uma vez o devaneio volta a servir como maneira de conquistar o espaço da criação. E dentro deste conceito reside a força motriz do ensino livre que briga para se perpetuar no ensino da arquitetura brasileira. Na dissertação de mestrado Flávio Império, Arquiteto e Professor, de Marcelina Gorni, consta a maneira que o imaginava que deveria ser sua postura didática, em que o professor deveria servir como auxiliar nas descobertas dos

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Página anterior: Captura de imagem de super8. Gravação de aula ministrada por Flávio Império, na FAU USP. Meados da década de 70. Autorização de uso de imagens pela família Império Hamburger.


(Extrato da carta de Flávio Império a Paula Motta Saia, 1983, presente no mestrado de Gorni)

alunos de suas próprias naturezas criativas, ensinando-os a enxergar, pensar e criar a partir de suas próprias potencialidades e inclinações estéticas e culturais. “Ao surpreender meus alunos eu os impulsiono. Por impressionar meus alunos, eu os devolvo a si mesmos. Detesto qualquer tipo de ‘adoção’. Cada um que se ‘apegue’ a sua própria capacidade de criação, na área que acontece ser.” ӂ Em artigo cientifico vinculado a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Humberto Pio Guimarães identifica um prumo que conduzia tais métodos, e “os primeiros passos rumo a uma perspectiva mais antropocêntrica no ensino de Flávio Império, que colocava a necessidade do arquiteto conhecer o próprio corpo, condição sine qua non para o projeto, que deveria voltar-se para as necessidades humanas. Assim, apareciam os exercícios de sensibilização, visando a utilização dos órgãos do sentido por parte dos alunos e a apreensão do espaço a partir da experimentação. As idéias de percepção e sensibilização pressupõem uma participação efetiva do aluno, devendo se entregar às práticas de relaxamento, expressão corporal, interpretação.”

(GORNI, 2004)

Tais exercícios de sensibilização tinham como função contrapor-se ao sistema de ensino altamente intelectualizante dos alunos, e via no desenvolvimento de todos os sentidos humanos a maneira de conscientizar e estimular a criatividade, através da apreensão espacial, transformando-os em experimentadores dos espaços e dos sentidos. ӂ

(IMPERIO. Caderno 5.8)

Em conversa com a artista plástica e professora, Claudia Braga, formada pela FAU, houve o resgate de sua memória um relato sobre a ultima palestra de Flavio Império na USP, antes de morrer. Tal evento tinha como tema A Prisão de Ventre Criativa que os estudantes sentiam quando entravam na faculdade. Posicionados como mero espectadores, os alunos viam sua produção confrontada com os grandes pensadores, “onde deuses de cadeiras surgem dispersos no curso de seus estudos, mais como obstáculos a serem transpostos mecanicamente do que como fatores indispensáveis a sua formação.” ӂ Durante o tempo em que lecionou, existiam muitos ques-

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tionamentos vindos de Império a respeito do posicionamento passivo do aluno padrão que “ vagueia pela rampa e acaba no bar completamente desorientado, alguns com claros sintomas de catatonia, com a mente dispersa por varias pequenas obrigações aleatórias tipo provas, trabalhos, fichamentos, listas de presença, pelo menos dez cadeiras diferentes, separadas e esvaziadas.” ӂ

(IMPERIO. Caderno 5.8)

Nos quase 70 anos de história da FAU USP, muito do que foi criado permanece em seu espírito letivo. Durante anos, pessoas entram no curso de arquitetura sem realmente ter como propósito saírem arquitetos. Cineastas, artistas plásticos, cenógrafos, pintores, fotógrafos, são algumas de muitas profissões vinculadas ao ensino fauano. Digo isso por experiência própria da minha vivência nesta faculdade, e acredito que, mais que historia, este conceito já se tornou tradição. No documentário Flávio Império em Tempo, de Cao Hamburger e Ramiro Benedetti, Paulo Mendes da Rocha diz que “seria muito interessante rever o trabalho do Flavio, e mais do que rever instituí-lo como uma peça indispensável. E que fosse a fundação de um modo de abordar o ensino da arquitetura na América.” Atualmente o departamento de Comunicação Visual foi acoplado ao de Projetos, e tem perdido sua autonomia cada vez mais. Em conversa com o professor Chico Homem de Melo, foi constatado que grande parte dos professores não sentem mais a necessidade de haver disciplinas obrigatórias de comunicação visual, visto que não existe uma continuidade das discussões durante todos os anos letivos. Para driblar esta tentativa de opressão, de algo presente na concepção da linguagem única da FAU, Chico propôs o fracionamento das disciplinas obrigatórias visuais por todos os semestres, e não somente em dois. Tal tentativa faz com que a luta pelo espaço de ensino total da arquitetura continue presente, mas que também se enfraquece. Na década de 70, Flávio Império lutou pela manutenção

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Aula ministrada por Flávio Império na FAU USP. Meados da década de 70. Foto do arquivo SCFI. Site da Ocupação Flávio Imperio.


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de suas aulas, contra a passividade dos estudantes (De acordo com ele faltava o envolvimento real de aproximadamente 70% dos alunos), lutou contra o pensamento reacionário de grande parte dos professores da FAU, que preconceituosamente freavam a ruptura dos paradigmas estabelecidos. Tal posicionamento negligenciava a liberdade de expressão, assim como o contexto de coletivo, que era proposto por Flávio dentro das possibilidades da produção de uma arquitetura dentro da FAU USP. ӂ Hoje em dia, somos sufocados pela mão do progresso vazio ӂ, que funciona como normatizador de pedagogias e pessoas, transformando tudo o que é considerado diferente, ou fora do padrão, errado. Mais uma vez, constato a pejoratividade que o devaneio possui no universo pósmoderno. O estudante que vagueia pela rampa continua presente nos dias de hoje, de modo mais estático ainda.

(GARCIA. 2012)

(BETHÂNIA, 2010)

O tocar superficial englobou a rotina, o trabalho e o lazer das pessoas. Diferente de Garcia que vê o papel da academia exclusivamente voltado para “refletir o quanto esta experiência foi valida, e como pode ser inserida nos quadros do ensino artístico”, me utilizei da autonomia estudantil, ainda existente, para experimentar a arquitetura.

Captura de imagem de super8. Gravação de aula ministrada por Flávio Império, na FAU USP. Meados da década de 70. Autorização de uso de imagens pela família Império Hamburger.

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“Depois de um devaneio hipertrofiado, é preciso sempre voltar ao devaneio que se marca por sua simplicidade primeira. Sabemos perfeitamente que é preciso estar só para habitar uma concha. Vivendo a imagem, sabemos que admitimos a solidão.” Gaston Bachelard

Início das experimentações baseadas nos temas precedentes.

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experimento 1

Espaços intersticiais

A idéia de trabalhar a arquitetura sensorial através da fotografia, partiu de referências vindas de fotógrafos surrealistas como Man Ray, professores da Bauhaus como Herbert Beyer, cineastas como Fellini e fotógrafos contemporâneos como o casal Robert e Shana Parkeharrison. Neste último caso, são abordadas discussões de como o homem é opressor da natureza e a modifica incessantemente. Para concepção das fotografias, foi utilizado a presença de um arquétipo humano, que figurativiza o homem contemporâneo, com vestimentas sociais, em contraposição a paisagens terrestres áridas ou desoladas, com a presença de elementos super realistas, construídos através de fotomontagem. O experimento existe como uma tentativa de abordar o risco de degeneração humana, construída através da imagem de um ser duvidoso. Tal personagem habita um local comum a imaginação de todos. A floresta e a cidade. Por isso a noção de espaços intersticiais, ou seja, espaços distantes das pessoas e ao mesmo tempo próximos. A síntese da figura performática é simples. Ela se constitui no nú e no rosto escondido por uma máscara. A figura desnuda tem como função representar o movimento do tempo, que cria manchas e marcas tanto nas paredes das construções quanto na pele. Ao mesmo tempo, a pele nua se destaca do cenário desconstruído, se opondo a brutalidade do entorno e se mostrando viva e pulsante.

(SENNETT. 1999:264)

A máscara é o artefato, remete a dúvida pois oculta a identidade. Nas palavras de Richard Sennet “As máscaras permitem a sociabilidade pura, distante das circunstâncias do poder, do mal-estar e dos sentimentos privados das pessoas que as usam.” ӂ

Espaços Intersticiais. Flávio Raffaelli. São Paulo. 2013.

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experimento 2

Teste de espacialidade

Após o contato com o material acadêmico de Império, surge a idéia de transformar a vertente imposta para este trabalho, de experimentações fotográficas, para documentações de experiências. Era necessário alinhar a importância desta referência de alguma forma com a essência da pesquisa de representação. Visto assim, não era mais uma questão de testar a linguagem fotográfica, e sim conceber testes sensoriais voltados a situações que poderiam convergir a um resultado hiper-realista, mas não vinculado a manipulação das imagens (composição, enquadramentos, mise en scéne). Sendo assim, me desliguei das pesquisas iniciais voltadas a representação fotográfica e parti para o campo físico de interação homem-ambiente, e sua documentação.O teste de espacialidade surgiu junto ao experimento 3, panos painéis, porem mais ligado ao trabalho com pessoas. A inserção da presença de um grupo de pessoas nos experimentos se deu por inspiração das aulas de Flávio Império. O que exigiu uma propriedade ainda não desenvolvida por mim, a questão didática. Este foi um teste de interação entre duas pessoas refletindo sobre as potencialidades da manipulação de tecidos múltiplos em ambiente urbano.

“A existência pode assim ser um movimento pendular entre a luz e a sombra com a passagem inevitável pela penumbra.” Ernesto Boccara

Teste de espacialidade. Flávio Raffaelli. São Paulo. 2013.

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Panos painéis. Flávio Raffaelli. Jacutinga. 2013.

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experimento 3

Panos painéis

A partir do momento em que iniciei minha pesquisa a respeito das aulas ministradas por Flávio Império, me deparei com uma gama universal de métodos e estilos empregados por ele no desenvolvimento de seus trabalhos. Esta multiplicidade não envolve somente a parte acadêmica de seu trabalho, mas toda a sua produção artística. Através das filmagens do documentário Flávio Império em Tempo, de Cao Hamburger e Ramiro Benedetti, entrei em contato com o universo dos tecidos em sua obra como cenógrafo. Os cenários dos shows de Maria Bethania, Doces Bárbaros, peças como Patética, Pano de Boca e Morte e Vida Severina, entre outras composições de suas companheiras de trabalho Márcia Benevento e Loira (Maria Cecília Cerroti). Tais cenários, feitos em pano, me inspiraram a criar uma linha de raciocínio arquetípica, em que a composição de painéis seriam sínteses de pensamentos da pesquisa. Alem disso, a imposição destas obras em diferentes lugares propicia a fermentação e permeabilidade do pensamento associado a apropriação e transformação espacial, através da arte. Foram realizados 2 painéis experimentais. O primeiro foi baseado nas idéias de Flávio Império, desenhos e cenários. Apesar da tentativa de focalizar em seu trabalho como docente, existe uma confluência estética de referencias entre aula, obra e projetos. O segundo remete as idéias de Palasmaa sobre a importância das mãos para a percepção. Sua composição, bastante orgânica, cria a relação entre os braços jogados ao ar, em posição vertical, sendo atravessados por um outro braço em diagonal em direção a lua, como maneira de reverenciar a importância onírica dentro da natureza.

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experimento 4

Coisas do cais “O teu destino deveria ter Passado neste porto Onde tudo se torna Impessoal e livre Onde tudo é divino como Convém ao real” Sophia de Mello Breyer

A fim de resgatar discussões sobre as sensações presentes no espaço físico, entrei em contato com pensadores contemporâneos, que buscam o dialogo entre a fenomenologia e a arquitetura. Esta pesquisa desenvolveu a analise de meu próprio trajeto como estudante dentro dos ensinamentos da FAU, o que me fez constatar que esta faculdade já tem como tradição pesquisas vinculadas a experimentação da linguagem. Tal idéia se embasou através da pesquisa histórica sobre as lições de Flavio Império e por conseqüência, de sua vida. Em entrevista concebida a Lívia Loureiro, o arquiteto Sergio Ferro nos explica a lógica das atividades acadêmicas propostas por ele e Império, baseando-se nas atividades como docente junto a Flavio no âmbito de outras universidades, em que estes propuseram também experimentações da linguagem. “Na FAAP ele dava aula no primeiro e segundo anos e eu dava no terceiro e quarto. Nós tínhamos feito uma divisão do trabalho, dessa vez bem programada. Primeiro e segundo ano ele destruía os preconceitos dos alunos. Ele era bastante agressivo e os meninos saiam de lá em pedaços. E eu no terceiro ano era o bacana, devia pegar os caquinhos que ele me entregava, os cacos das pessoas, e rejuntá-los. Funcionou bem.” Entre 1967 e 1968, Flávio e um grupo de jovens professores, participaram da criação da Faculdade de Arquitetura de Santos. Tais propostas de ensino, de conduzir os alunos por um campo de atuação didático mais pratico, foram importantes sementes plantadas por eles e que ainda exercem o papel de formação de muitos estudantes de arquitetura.

Coisas do cais. Flávio Raffaelli. Santos. 2013.

Paulo Von Poser, artista plástico, leciona há mais de vinte anos a disciplina Plástica, na atual UniSantos. Suas aulas tem como característica desenvolver a expressividade dos desenhos de estudantes, através do contato direto com o ambiente urbano, suas linhas de força e construções espaciais. Para isso, tem como partido, lecionar sempre que

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possível pela cidade, dos mais variados ângulos, tempos e realidades. Em 1989, foi documentado seu processo letivo no vídeo Coisas do Cais onde um grupo de alunos é orientado pela cidade de Santos, no litoral paulista, em experimentos de linguagem e desenho, por trajetos alternativos dentro da concepção urbana. Paulo dá a oportunidade a eles de experimentarem o desenho em sua forma mais livre, ao relento, pelo cais do porto, em mirantes, e pelo chão de mercados de frutas. Tudo isso serve como pressuposto a concepção de uma liberdade representativa, e por isso emociona ao pensarmos como este método de ensino, ligado a busca das sensações, encontra-se ligado ao ensino da arquitetura. De certa maneira, esta referencia fez com que se iniciasse uma linha de raciocínio, que relaciona os espaços intersticiais, dúbios, as pesquisas relacionadas a tradição de ensino de Império. Coisas do Cais foi responsável pelo encadeamento da idéia final presente neste trabalho investigativo. Utilizou-se a estética em ruína do local intersticial, em ruína, sobreposto aos trabalhos plásticos em tecido. De certa maneira, interventiva urbana, o resultado deste ensaio fotográfico criou uma leitura espectral destes ambientes. E por isso serviu como impulsionador de um novo experimento, desta vez ligado aos estudantes da FAU, ao seu atual estado de conservação e aos seus fantasmas.

Coisas do cais. Flávio Raffaelli. Santos. 2013.

Coisas do cais. Video de Paulo Von Poser. 1989.

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experimento 5

Revivendo o devaneio (BAUMAN.2000:111)

“O encontro de estranhos é um evento sem passado. Freqüentemente é também um evento sem futuro (O esperado é não tenha futuro, uma história para não ser continuada, uma oportunidade única a ser consumada enquanto dure e no ato, sem adiamento e sem deixar questões inacabadas para outra ocasião” ӂ Em depoimento a mostra realizada pelo Itaú Cultural, Ocupação Flavio Império, o professor de arquitetura Flavio Motta critica o posicionamento de muitos professores em utilizar somente o quadro negro durante aulas teóricas de arquitetura. Afirma que, no caso da FAU, as potencialidades do prédio de Vilanova Artigas são maiores no campo do ensinamento, visto a amplitude espacial do edifício, que disponibiliza uma variada gama de possibilidades na configuração de aulas mistas que instiguem mais, tanto alunos quanto docentes. Em conversa com a professora Márcia Benevento, a respeito de métodos empregados no campo didático representativo, divagamos sobre a percepção das experiências de vida de cada pessoa. Muitas vezes não sabemos descrever com exatidão passagens ou acontecimentos do dia a dia, mas se extrairmos de nossa memória algo relacionado as sensações, podemos constatar impulsos vitais. Por exemplo, ao assistir um filme, e comentá-lo tempo depois, podemos não lembrar com exatidão o campo cênico, a figura dos atores, mas talvez lembremos da grandiosidade de uma cena, do terror de outra, da mudança inesperada da trama. Tais impulsos vitais são, de certa forma, o produto final deste trabalho.

Revivendo o devaneio. Flávio Raffaelli. São Paulo. 2013.

Revivendo o devaneio propõe-se refazer uma aula de arquitetura aos moldes do professor Flávio Império. Mais que isso, tal experiência serviu como síntese de todos os anteriores. Partindo do pressuposto de deterioração tanto física quanto didática da FAU USP, senti minha vivencia da faculdade ir se deteriorando ano apos ano junto a situação critica que se encontra nosso prédio. A fragilidade espacial é algo que também molda nossos impulsos vitais, nossa liberdade de apropriação e uso daquele espaço.

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Inicialmente a parte projetual seria constituída de fotografias pensadas para estarem englobadas dentro da linguagem sobre realista, utilizando sempre como ponto de partida a opressão dos sentidos dentro da sociedade contemporânea. Porém, vi a necessidade de inserir o movimento da imagem, transpor da situação pictórica ao ato, pois somente assim, conseguiria extrair sensações mais livres durante a fase experimental. Visto assim, me deparei com questões vinculadas ao aprofundamento da linguagem. Como transpor a barreira da fotografia estática e entrar na atmosfera? Pensar em sentimentos nos faz pensar em nós mesmos. No inicio, buscando entender a relação entre arquitetura e fenomenologia, houve certo momento de entender os próprios passos, dentro de meu aprendizado na faculdade. É imprescindível não relacionar o espaço da FAU com as sensações que ele nos transmite, desde sua amplitude até o enclausuramento e alienação. Em 2008, ano do meu ingresso na FAU, podia avistar os domos, assim como o céu difuso por trás deles. Fui ao longo dos anos, acobertado pela lona azul de proteção contra lascas e pedaços de concreto caídos do teto, juntamente a todos que usufruíam da experiência direta de contato com aquela superfície espacial. Difícil seria conceber um trabalho de discussão fenomenológica dentro deste contexto e não reparar em como minha própria maneira de sentir o espaço da faculdade se modificou durante estes 6 anos. Em outubro de 2013 realizei um encontro com alguns estudantes da FAU, no estúdio 3, que se propuseram a participar de uma releitura da disciplina AUP 325 Apropriação do Espaço, ministrada por Império na FAU, tinha por objetivo “desenvolver a ‘sensorialização, a percepção e análise do espaço, a partir de uma série de exercícios corporais”. Ele propunha a organização e apropriação do espaço através do corpo e de materiais diversos. Essa disciplina propunha “exercícios práticos e psico-físicos

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preparatórios; análise do espaço arquitetônico; análise de um setor do espaço urbano; montagem de um espaço experimental.” Com isso ele procurava estimular o nível sensorial dos alunos com reforço à criatividade, procurando trabalhar a manipulação da linguagem através do corpo, do som, da imagem, de materiais diversos, etc. Nessas aulas ele propunha as práticas de participação física e exercícios de relaxamento muscular descritos por Renina. Propunha também “jogos de participação física com elementos espaciais, placas, cores, luzes, som, etc., improvisação de jogos espaciais com materiais diversos; plásticos, panos, papel, etc., leitura visual e física e registro fotográfico e cinematográfico para exame posterior e documentação.’” Com a ajuda de alguns estudantes e interessados na pesquisa, iniciamos a construção e montagem deste espaço experimental, que era permeada por projeções de aulas antigas, da década de 70, em super8, gravadas pelo próprio Flávio Império (Imagens gentilmente cedidas pela família Império-Hamburger). A idéia desta sobreposição seria proporcionar algo realmente espectral durante a atividade, como se revivendo tais experiências, revivêssemos também a alma do professor, sua presença na faculdade. Algo que devemos analisar seria a questão estética, das construções físicas e modelos plásticos. Baseando tal experiência na vertente das aulas de Flávio Império, a obtenção de resultados estéticos não deveria se levado em conta, e sim a importância da percepção presente no ato de experimentação. “Encontrar ou criar condições nas quais os alunos sintam-se bem construindo seja lá o que for como se já, naquele momento, eles fossem arquitetos, isto é, como leigos que são, esquecessem que estão aprendendo. Assim, minha experiência de vida me ensina, a gente cria com as mãos-cabeça um rastro menos bloqueado, mais criativo e livre e creio mais verdadeiro, como os signos sonoros dos pássaros, dos gatos, signo arquitetônico do joão de barro, em particular, do jogo intuitivo

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que é a repetição arcaica do gesto de construir seja uma forma-cor seja um movimento- espaço, seja um grosseiro-singelo e colorido enfeite de papel crepom.” ӂ Entre os depoimentos colhidos, semanas após o acontecimento, a sensação descrita por vários era a de profunda entrega e sintonia com a atmosfera presente naquele momento. Isto demonstra que tal pensamento de Márcia, a respeito dos impulsos vitais, se mostra conivente com a realidade.

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(IMPÉRIO. Caderno 5.8)


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Revivendo o devaneio. Flรกvio Raffaelli. Sรฃo Paulo. 2013.

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Conclusão

Desde o início da concepção do tfg, me propus dividí-lo em duas partes: teoria e projeto. Ambas se tornaram ferramentas importantes para o desenvolvimento final que culminou nos experimentos didáticos de formação criativa, realizados em outubro de 2013. Ao final, considero o resultado obtido na ultima experiência, um impulsionador de novas idéias, relacionadas a arte, ao ensino e a arquitetura. Somente através da arte é que se mostrou viável seu desenvolvimento. Assim como Schulz afirma, a arte é uma maneira de se obter respostas intangíveis ao conhecimento técnico, e necessárias para a compreensão de nossos estímulos vitais. Viver este trabalho, durante um ano, valeuse da profunda compreensão de valores abafados pela rotina (do desenho livre a espiritualidade), impulsionar os momentos criativos, alçar vôo a imaginação, propor uma mudança. O sentir, ao longo do tempo, foi deixando de ser múltiplo, tornando-se mais padronizado, como afirma Hall. Retomando a minha questão inicial, sobre como seria projetar um ambiente desarmonioso, acredito que hoje em dia é isso o que mais fazemos. Desconsideramos fortemente nossa identidade sensorial, em aprazia a um senso comum que na verdade não existe. Talvez o domínio excessivo da visão tenha nos cegado, e como arquiteto, desconsiderar o resultado estético de seu projeto, fez me valer de outros impulsos. Algo intrínseco de nossa formação, os sentimentos humanos.

Revivendo o devaneio. Flávio Raffaelli. São Paulo. 2013.

“Meti a cara em vários terreiros, me coloquei muito tempo de paide-santo, a ioga procurando acompanhar os meus mortos sumidos e consumidos com as guerras do mundo. Acho que pus os pés no fundo, onde está São Pedro, mas morri de medo embora ache tudo divino e maravilhoso. Encontrei meu transe tranzido de pavor. E vi, juro que vi, embora tenha esquecido, coisas tão estranhas que, ao voltar para o lado de cá, estranhei muito o meu mundo, que nunca tinha encarado bem de frente. Acho que fiquei louco, ou loucos são todos aqueles que se dizem normais. Durante algum tempo, fiquei recolhido, pintando

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o que sentia e aos poucos fui sendo trazido de volta ao convívio dos mortais, iguais a mim, bem comportadamente representando seus pequenos papéis no teatro do mundo. Procuro me orientar o melhor possível entre meus pares, fingindo não ver óbvio e sentindo cada vez mais próximo o limite provável da insensatez.” ӂ

(IMPÉRIO, 1983:47)

Império se mostrou um verdadeiro guia das sensações e resultantes deste processo. Partir de seu alicerce filosófico, para mim, foi algo extremamente necessário, que impulsionou a vontade de desenvolver este projeto, mesmo sabendo dos riscos que envolvem a discussão das sensações, principalmente no mundo acadêmico. Flavio acreditava não ser ele o orientador metodológico, e sim nós mesmos, que através da nossa busca pessoal, encontraríamos as nossas respostas. Dizia que seu papel era somente de juntar as pessoas com interesses em comum, através da arte e sensibilização; e que fazendo isso, a força motriz da criação já seria impulsionada. Este trabalho é uma tentativa de abordagem teórica, experimental fotográfica, tentativas artísticas e, acima de tudo, investigativo. Na busca em ligar o prático ao teórico, pelo viés da percepção, se nota uma falta de clareza direta do porque desta proposta, mas somente através da dúvida é que nos sentimos permeados pela discussão, não como expectadores, mas seres humanos que dominam seus próprios sentimentos e reações ao mundo externo. “Uma abordagem introspectiva da arte geralmente causa suspeita porque se acredita que ela carece de objetividade. Mas as pessoas parecem não exigir o mesmo tipo de objetividade da obra criativa do artista. Uma obra de arte é uma realidade somente quando se tem uma experiência dela e ter uma experiência de uma obra de arte significa recriar sua dimensão de sentimento.” ӂ

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(PALLASMAA. 2008:485)


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Agradeço

A família pelo apoio de sempre, aos amigos que guardo do lado esquerdo do peito e a todos aqueles que contribuíram de forma direta ou indireta para a concepção deste trabalho. Giselle Beiguelman, Márcia Benevento, Clice Mazzilli, Cristina Raffaelli, Angélica Raffaelli, Vívian Raffaelli, Gabriele Toth Lender, Joana Brasiliano, Yasmim Uehara, Marcos Caleffi Cesario, Daniel Barbosa, André Turazzi, Mara Silvia Beltrami, Paulo Von Poser, Maria Cecilia Cerroti (Loira), Vera Império Hamburger, Ernst Wolfgang Hamburger, Esther Império Hamburger, Sônia Império Hamburger, Carlos Império Hamburger, Fernando Império Hamburger, Juan Cabello Arribas, Ricardo Alves Junior, Claudia Braga, Chico Homem de Melo, Ana Beatriz Nestlehner, VideoFAU, Diógenes Miranda, Maurício Miraglia Chaubet, Antonio Gonçalves, Fernando Passetti, Juliana Donato, Kira Fernandes, Larissa Cantieri, Livia Basile, Manuela CostaLima, Susan Ritschel, Gabriela Deleu, Julia Lopez da Mota, Lívia Loureiro Garcia, Marcelina Gorni, Pedro Fiori. Agradecimentos especiais a Flávio Império, Flávio de Carvalho e Flávio Motta. Ao amor que permeia tudo e todos. Saravá

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revivendo o devaneio: experimentos na percepção da arquitetura, foi impresso em são paulo, em offset digital pela i9 gráfica digital, em novembro de 2013 a composição foi realizada no tipo baskerville de 8 a 65 pontos tiragem de 15 exemplares


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Profile for Flavio Raffaelli

Revivendo o devaneio  

trabalho final de graduação faculdade de arquitetura e urbanismo universidade de são paulo flávio raffaelli orientadora giselle beiguelman...

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