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® ARQUITETURA - DECORAÇÃO - DESIGN - ARTE ... A N O X I I I - N º 8 6 - D I S T R I B U I Ç Ã O DI R I G I DA

W W W. R E V I S TA S I M . C O M . B R

OSCAR NIEMEYER

PATRIMÔNIO IMATERIAL


SIm! 86

OSCAR NIEMEYER _p.50

Diretor Executivo Márcio Sena (marciodesena@gmail.com) Coordenação Gráfica e Editorial Patrícia Marinho (patriciamarinho@globo.com) Felipe Mendonça (felipe.bezerra@globo.com) REDAÇÃO / DESIGN / FOTOGRAFIA Patrícia Calife (patriciacalife.sim@gmail.com)

A perfeição do traço do arquiteto em matérias especiais

RÁPIDAS_p.12 As novidades da seção Fique por Dentro

Revisão Fabiana Barboza (fabiana_barboza@globo.com)

MERCADO_p.24

Arquiteto Colaborador Alexandre Mesquita (mesquitaita@gmail.com)

PANDEIROS_p.52 Última obra inaugurada em vida de Niemeyer

Objetos pensados para o verão

ARTIGOS_p.68 Profissionais falam sobre o arquiteto

DESIGN_p.36 O trabalho da designer Bel Andrade Lima

JARDINS_p.80 O Parque Dona Lindu além do concreto

ARTE_p.44

CAPA RevistaSIm!

Eliane Guerra (81) 9282.7979 (comercial@revistasim.com.br) Assessoria Jurídica Aldemar Santos - O.A.B. 15.430 SIM! é uma publicação bimestral da TOTALLE EDIÇÕES LTDA

Dicas de livros sobre Oscar Niemeyer

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Operações Comerciais Márcio Sena (marciodesena@globo.com)

As linguagens plurais de Beth da Matta

LIVROS_p.78

Detalhe do Museu de Arte Popular da Paraíba (Foto: Marco Pimentel)

Beth Oliveira Edi Souza Erika Valença Diego Pires Micaele Freitas Greg Marco Pimentel

PROJETO_p.84 Borsoi e Janete costa deixam museu na Paraíba

DELÍCIAS_p.94 O minimalismo de Hugo Prouvot

Redação R. Rio Real, 49 - Ipsep - Recife - PE CEP 51.190-420 redacao@revistasim.com.br Fone / Fax: (81) 3039.2220 Comercial R. Bruno Veloso, 603 - Sl 101 Boa Viagem - Recife - PE CEP 51.021-280 comercial@revistasim.com.br Fone / Fax: (81) 3327.3639 Os textos e artigos assinados não refletem necessariamente a opinião da revista.


O grande desafio do ser humano é deixar algo de si para a posteridade. Desenvolver, seja no campo das ideias, seja no campo material, um trabalho capaz de marcar, perdurar e transformar pessoas, movimentos ou uma época. Na arquitetura, temos muitos desses exemplos. Recentemente, perdemos um grande ícone da área, Oscar Niemeyer, que fez com que o mundo percebesse a importância de cálculos estruturais, de materiais construtivos adequados e, sobretudo, da transformação de elementos tão frios como esses em pura beleza. Mais do que nomes, essa edição da Revista SIM! fala sobre legado. Nossa equipe foi até a cidade de Campina Grande, interior da Paraíba, para conhecer a última obra de Niemeyer inaugurada em vida. O que descobrimos foi não só a perfeição do traço, tão característico em seus trabalhos, como a ousadia de equilibrar o uso do vidro com o concreto e a preservação do ambiente, inserindo parte do edifício em flutuação sobre o açude. Coisa de gênio. O envolvimento com o que fazia era tal que motivou o arquiteto a desenvolver um projeto, doado para a instituição, em paralelo ao do Museu dos Três Pandeiros: uma biblioteca que ainda entrará em licitação. A mesma cidade abriga, ainda, mais uma herança deixada por grandes nomes da arquitetura brasileira, o casal Acácio Gil Borsoi e Janete Costa, inaugurada há apenas alguns meses. O Museu Assis Chateaubriand, traçado no ano de 2005, foi executado pelos filhos e também arquitetos Roberta Borsoi e Mário Santos. Nesse trabalho, tão carregado da atmosfera familiar, está a definição do que realmente é perpetuado. Dando sequência, três profissionais desenvolvem artigos sobre a vida, a obra e suas experiências pessoais e profissionais com Oscar Niemeyer. Nas dicas de livros, títulos que falam também sobre o mestre e na coluna Jardins, o projeto paisagístico de Luiz Vieira para o Parque Dona Lindu (PE), desenhado por Niemeyer. Não perca tempo, leia SIM! Patrícia Calife

Erramos! Nas dicas de livros da última edição da Revista SIM! (85), selecionadas pelo psicólogo clínico João de Miranda, faltou a informação de serviço do profissional: Rua José Moreira Leal, nº 190 – 1º Andar, Boa Viagem – Recife/PE | Fone: (81) 8899.9392

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Ilustração: Mica Freitas

EDITORIAL


FIQUE POR DeNTRO

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1. As persianas de Alumínio da Uniflex se destacam por oferecer maior controle de entrada de luz no ambiente. Disponível em várias cores e acabamentos, o produto é executado com liga não corrosiva, que é mais flexível e durável. Ainda é possível escolher o comando: Standard, Mono ou Motorizado. Fone: (81) 3326.3731 | loja.boaviagem@uniflex.com.br

Fotos: Divulgação

2. Ideal para as altas temperaturas do verão, o Climatizador de chão Consul Bem-Estar garante o conforto térmico. O produto refresca, em até cinco graus, e umidifica o ambiente, minimizando sensações do ar seco. O modelo reverso (quente e frio) também pode aumentar a temperatura em até 10 graus, garantindo um ambiente ainda mais aconchegante. www.consul.com.br

3. Referência no mercado nacional de iluminação, a Bertolucci apresenta uma linha especial de luminárias que faz um mix de resgate histórico e design contemporâneo. O arquiteto croata Marko Brajovic e a designer Ana Strumpf assinaram algumas das novas criações da marca. www.bertolucci.com.br 2

4. Ideais para quebrar a sobriedade de qualquer ambiente, as cadeiras Anita apresentam uma cartela de cores bastante diversificada. Elaborada pelo designer Aristeu Pires, a peça pode ser encontrada na Carbono Design, em São Paulo. O produto é executado em jequitibá tingido. Fone: (11) 3815-1699 | www.carbonodesign.com.br

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FIQUE POR DeNTRO

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1. Referência em papeis de parede garimpados pelo mundo, a Jô Martins, de Curitiba, traz ao Brasil coleções exclusivas. A Mondo, da Wallquest dos Estados Unidos, reúne requinte e minimalismo. As estampas trazem cores mais sóbrias e desenhos que formam composições interessantes. Fone: (41) 3222.3020 | www.jomartins.com.br

Fotos: Divulgação

2. A Madeira Bonita lança neste verão a mini cômoda Chicago, que é produzida em madeira de Jequitibá, vidro e latão cromado. Nos projetos da marca, destacam-se peças voltadas para um design contemporâneo com linhas mais atemporais e de cores fortes. Fone: (11) 3062.9699 | www.madeirabonita.com

3. Charme e personalização são elementos que se traduzem nos objetos de décor da Hips Retrô. Todas as peças são criadas por Helena Ribeiro dos Santos, a idealizadora da grife. Destaque para a poltrona de madeira forrada com tecido de algodão, ideal para salas de estar e ambientes mais descontraídos. Fone: (11) 3078.4844 |www.hipsretro.com.br

4. Para deixar o estar ainda mais cheio de estilo, o designer Daniel Bauer criou a Poltrona Niko colorida. Produzido em veludo listrado e madeira de reflorestamento tapeçada, o móvel tem o perfil retrô chic. Ele pode ser encontrada na loja paulistana Clami. Fone: (11) 3032.8103 | www.clami.com.br

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FIQUE POR DeNTRO

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1. A premiada cadeira ICZERO1, projetada pelo designer Guto Indio da Costa, chega ao Nordeste. A loja Lilia Casa, do Piauí, traz o produto com exclusividade. Inspirado nas típicas cadeiras de boteco, o móvel é executado em polipropileno reforçado com fibra de vidro e está disponível nas cores cereja, laranja, uva, chocolate, banana, creme, preta e baunilha. Fone: (86) 3232.7501 | www.liliacasa.com.br

Fotos: Divulgação

2. Pertencente à coleção de Paola de Orleans Bragança, os vasos Off White podem deixar um projeto de ambientação clean mais dinâmico e colorido, já que trazem três tons no mesmo objeto. A peça, que é executada em cerâmica, está disponível no Espaço 204. Fone: (11) 5102.3468 | www.espaco204.com.br

3. A Obba Design reúne peças para casa, escritório e uso pessoal com soluções e desenhos bastante criativos. Destaque para produtos irreverentes como a almofada anos 80, a tampa de ralo de banheira T Dog e o porta palito Cactoo. Os produtos podem ser comprados através do site e são entregues em todo o Brasil. www.obbadesign.com.br

4. Ideais para ambientes externo, como varandas e áreas de estar, as cadeiras de palha da Florense prometem deixar o verão ainda mais elegante. Executadas em madeira maciça de eucalipto, como a cadeira Lola, resgatam formas mais usadas durante o início do século XX no Brasil. O mobiliário traz leve toque retrô aliado à contemporaneidade. Fone: (81) 3302.3800 | www.florenserecife.com.br

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FIQUE POR DENTRO

Após muitos anos de dedicação à pesquisa sobre a arquitetura moderna no Recife, a arquiteta Guilah Naslavsky começa a divulgação do seu trabalho sobre a temática no período de 1949 a 1972. Formada pela UFPE, a autora já lecionou na Universidade Católica de Pernambuco e na UFPB e desde 2011 é professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Urbano. O livro traz uma seleta reunião de informações e imagens sobre edifícios e construções que marcam 24 anos do estilo moderno na cidade. A importância do tema se dá pelo reconhecimento internacional da arquitetura brasileira, inclusive com obras expostas no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque em 1943. Escrita em 2012, a publicação foi intitulada Arquitetura Moderna no Recife 1949 – 1972 e reúne trabalhos de grandes nomes como Acácio Gil Borsoi, Delfim Fernandes Amorim e o legado de Luiz Nunes.

Foto: Divulgação

Fotos livro: Marco Pimentel

Arquitetura Moderna no Recife 1949 -1972 Guilah Naslavsky

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MERCADO

Colorido e refrescante

Fotos: Divulgação e Lucas Oliveira| ilustrações: Shutterstock.com

Com a chegada das altas temperaturas, as tendências na décor tornam-se mais criativas, alegres e repletas de cores. Nesta edição, entramos no clima da estação mais quente do ano e trouxemos objetos com design irreverente, ousado e cheio de colorido para aquecer ainda mais a ambientação. Veja alguns produtos ideais para espaços internos e, principalmente, para áreas externas, piscina ou lounge.

Com uma proposta irreverente e exclusiva, o pendente Gemmy, da Slamp, é uma boa pedida para iluminar lounges e salas de estar. Encontrado na Eurolight, o produto é fabricado em Lentiflex, um material bastante transparente e brilhante. www.eurolight.com.br

A Simmetria Ambienti aposta em mobiliário com design arrojado e irreverente. Assinada por Alesandra Delgado, a Estante Mondrian é ideal para aqueles projetos mais ousados que investem em uma cartela ampla de cores. Executado em MDF laqueado, o produto faz referência ao pintor holandês que trabalhava uma estética mais ligada a geometria das formas. Fone: (41) 3027.3100 | www.simmetriaambienti.com.br

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MERCADO

Para deixar áreas internas, e até mesmo ambientes de estar externos, mais aquecidos, a lighting designer Adriana Sypniewski criou uma linha de abajures bastante coloridos para a Grey House. As cúpulas dos produtos trazem tons alegres como amarelo, vermelho e azul turquesa e bases com design descontraído ou retrô. Fone: (41) 3336.4159 | www.greyhouse.com.br

Executado em madeira de lei Garapeira com acabamento Ácqua, o Sofá Noronha é uma ótima opção para deixar ambientes externos mais aconchegantes e alegres. O produto pode ser encontrado na Saccaro e traz algumas opções de cores. Fone: (81) 3325-6464 www.saccaro.com.br

Com uma coleção especial para o período mais quente do ano, a Momentum&Design traz várias opções de mobiliário para áreas externas. Chaises, cadeiras, poltronas e mesas de centro em trama, conjuntos de mesa com cooler em madeira e peças coringa como a Garden Seat Bamboo tem espaço garantido na loja. Fone: (41) 3242.2920 | www.momentumdesign.com.br

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MERCADO

Comandada pela designer Marina Viturino e a arquiteta Lia Tavares a D.uas Design criou a charmosa coleção Pé Palito. Com estampas exclusivas, a baqueta que vira puff e o banco são ideias para deixar o ambiente mais colorido e com toque retrô. Fone: (81) 9272.7822 | 9637.1321 | www.duasdesign.com

A Sine Qua Non, da arquiteta Julice Pontual, traz algumas opções para o verão. Destaque para as bandejas de metal, caixas, xícaras e pratos que trazem estampas de cartoon, assinadas pela holandesa Babette Harms. Fone: 3037.6237 | www.sinequanon.art.br

A poltrona e puff Julia, que está disponível na Maria Casa, é um boa pedida para o verão. Com estampa assinada por Atílio Daschera e Gregório Kramer, o móvel traz um estilo bastante tropical para ambientes de estar. Fone: (81) 3327.6499 | mariaecasa@mariaecasa.com.br facebook/mariacasaloja

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MERCADO

Cores quentes e divertidas são apostas do décor para o começo do ano, mudando o visual de um projeto mais clean. A Dali Casa oferece várias opções de produtos que podem ser adquiridos pela internet. Entre os destaques estão os porta retratos Cirque nas versões rosa e verde limão, e um cabideiro que lembra uma gaiola. www.dalicasa.com.br

Inaugurada há pouco tempo no Rio de Janeiro, a Empório Dona Xica investiu em opções bem vibrantes para o verão. Ótima pedida para áreas externas de estar, as almofadas e o regador prometem deixar o projeto de ambientação ainda mais descontraído. Fone: (21) 2249.9211 www.emporiodonaxica.com.br

De origem italiana, a toalha Niles traz uma estampa exclusiva assinada pela Missoni Home. Executado 100% em algodão, o produto é sinônimo de charme e ousadia. Com versões para banho e rosto, a Niles absorve bem a água e confere conforto. Fone: (11) 2597.3004 / 2597.3005 www.missonihome.com.br

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Pensada para ambientes externos de estar ou elaborados para receber os amigos, a Mesa Seta se destaca pela harmonia de materiais e estilo. Assinado por Monica Cintra, da Usine design, o produto é executado em base de aço e tampo em madeira canela maciça. www.monicacintra.com.br


MERCADO

Com desenho da arquiteta Taciana Feitosa, o gaveteiro amarelo foi todo executado em laca. O móvel é ideal para quartos, funcionando como criado mudo ou mesa lateral. O planejado pode ser encontrado na Eko Ambientes que produz mobiliário modulado e executado sob medida. Fone: (81) 3463.3581

A Arte & Lar traz ao Recife duas linhas especiais de pastilhas em porcelana. Assinados por Marcelo Rosenbaum e Adriana Barra, os revestimentos, que contam com design diferenciado, podem ser aplicados em fachadas de edifícios e em ambientes internos, pois suportam altas temperaturas e absorvem bastante água.

A Chá com Chita está com uma linha bem colorida de abajures desenhados e produzidos artesanalmente pela design Marília Calareso. Com base de garrafas e cúpula de tecidos estampados e garimpados, a peça confere charme e aquece ambientes de estar.

Fone: (81) 3243.5550 | www.arteelar.com.br

www.chacomchita.wordpress.com | Fone: (81) 3267.6662

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MERCADO

O designer Amir Slama assina para a Tok&Stok duas opções de cooler portátil para deixar o verão ainda mais alegre. Com desenhos coloridos, o produto possui alça e comporta 24 latas, além de ser executado em polipropileno injetado com aplicação de estampa heat transfer. www.tokstok.com.br

Com design assinado pelo brasileiro Sergio Matos, o Marakatu Banco apresenta desenho excêntrico, que confere movimento e descontração ao produto. Encontrado na loja paulistana By Kamy, a peça é executada em 100% poliéster e combina com as altas temperaturas da estação. Fone: (11) 3081.1266| www.bykamy.com

Na Tidelli o verão chegou bastante colorido. A espreguiçadeira Java, toda executada em corda amarela, promete aquecer ambientes externos ou áreas de piscina. Os ombrelones também são opções bem interessantes, nas cores azul e branco. De cor forte, a cadeira Bali vermelha, produzida em fibra ou corda, deixa o espaço ainda mais vibrante. Fone: (81) 3040.4660 www.tidelli.com.br

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DESIGN

Muito mais que

CARNAVAL por BETH OLIVEIRA

Bel Andrade Lima assina o projeto cenográfico do carnaval do Recife em 2013

fotos DIVULGAÇÃO

Embora o nome da ilustradora Bel Andrade Lima soe como novidade no Carnaval do Recife, sua trajetória é repleta de trabalhos importantes. A designer realizou vários trabalhos para a área editorial. Muitas de suas ilustrações deram mais vida a matérias de algumas publicações da Editora Abril. Ela desenvolveu, ainda, desenhos para cartazes e estampas e elaborou embalagens para produtos. Agora, a convite do escritório Carlos Augusto Lira Arquitetos, Bel traça o colorido que cobre a cidade nesta época do ano. Em referência aos homenageados deste ano, o percussionista Naná Vasconcelos e o fotógrafo Alcir Lacerda, algumas mudanças podem ser observadas na decoração. “Fiquei satisfeita com o resultado porque nós tivemos uma ótima solução para homenagearmos os dois de forma mais equilibrada. Achei que ficou divertido porque usamos até uma fantasia engraçada para Naná e mantivemos a sobriedade do trabalho de Alcir, que é em preto e branco, sem perder o colorido”, conta Bel. Pela primeira vez, o projeto gráfico trará fotografias que se encaixam harmonicamente com a paleta de cores explorada.

Bel Andrade Lima belandradelima@gmail.com (81) 9602.3444 Carlos Augusto Lira Arquitetos contato@carlosaugustolira.com.br (81) 3268.4933

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Todo o desenvolvimento da decoração teve início no final de novembro, quando a designer, formada pela UFPE, começou o processo de pesquisa sobre as manifestações culturais do Estado. Essas expressões se somaram a referências irlandesas, que compõem seu repertório visual. “Nunca tinha feito cenografia e foi um grande desafio porque eu já conhecia o trabalho desenvolvido por Joana Lira nas outras edições. Chegamos a conversar, e ela me disse que a proposta era fazer uma linha mais autoral. Senti liberdade para mostrar o meu traço, e isso possibilitou outra forma de olhar para o que eu faço”, explica.

Bel revela, ainda, que optou por manter uma paleta de cores mais restrita, utilizando cerca de quatro opções para cada pólo. Segundo ela, foi muito diferente criar essa nova identidade, já que o seu traço traz riqueza de detalhes e uso de mandalas. “Foi um ganho, até para sentir mais segurança em relação ao que faço. É um desafio e uma alegria dar continuidade a algo que para mim já era muito bom”, declara.

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Durante o período que morou em São Paulo, Bel Andrade Lima passou pela Editora Abril, elaborando ilustrações para as Revistas Bravo! e Mundo Estranho. No seu portfólio, trabalhos para a Nestlé, com criação de peças promocionais como bolsa, nécessaire e porta-retrato. Ela também assinou estampas para coleções da marca infantil Cookie. Na lista de experiências, a designer possui formações no exterior: passou pelo curso da Middlesex University, em Londres, e fez cursos de Tipografia e Publicidade na Saint Martins College of Arts and Design. No Recife, atuou em algumas empresas de comunicação, como o escritório de design de embalagem Herbert Perman Design e as agências de publicidade Plano B Comunicação e Rga Comunicação. Em sua passagem pelo Estúdio de design Mooz, produziu importantes projetos. Lá, Bel desenvolveu tanto a arte como o desenho para a divulgação do Rec Beat 2010, o Festival Virtuosi Brasil e de Gravatá e o Revela Design 2010. Nesse espaço, reconheceu-se mais como ilustradora que, propriamente, designer. Agora, seu traço ganha as ruas da cidade para alegrar ainda mais a festa do Carnaval.

Ilustração para a Revista Mundo Estranho; Estamparia para a grife infantil Cookie e Embalagens para o Leite Lilla

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DESIGN

Neate sentido: ilustração para site da Família Ovo, marca de roupa infantil; Ilustração para o Projeto Lingua Mãe; Ilustração para a Revista Bravo! e cartaz para o Festival Virtusosi Brasill

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ARTE

Beth da Matta por BETH OLIVEIRA

Artista envereda por linguagens plurais explorando o universo relacional

fotos LUCAS OLIVEIRA

Arte contemporânea e gastronomia sempre fizeram parte do contexto estético, sensorial e vivencial de Beth da Matta. Entretanto, ao assumir a direção do Museu de Arte Moderna Aluísio Magalhães (MAMAM), em 2010, a artista passou a dividir espaços éticos com a gestora, fato esse que suavizou sua produção artística. Em busca de desprender essa essência criativa tão pulsante, imergiu em outro universo, no qual passou a estudar e manipular os alimentos. “Não posso dizer que eu sou uma chef. O sistema da arte e da gastronomia é muito parecido, você precisa da formação e da legitimação”, argumenta.

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Não à toa Beth entrou na área. “Sempre trabalhei com a comida, que é um elemento importante para mim. O artista, na sua essência, já tem essa multiplicidade e escolhe a linguagem que mais gosta”, esclarece. Desta forma, a estética relacional e as relações humanas tornaram-se base para o seu processo criativo. “É por esse viés que eu trago a gastronomia para o campo artístico. Geralmente, a arte contemporânea esta muito próxima da sua realidade e do que você vive no cotidiano, talvez por isso a gente estranhe tanto”, complementa.

Beth da Matta bethdamatta@gmail.com www.mamam.art.br Fone: (81) 3355.6870


A artista visual Integrante da ‘geração 2000’, Beth da Matta traçou um longo percurso até reconhecer-se artista. A definição, enquanto profissional, veio com a participação no Salão dos Novos, que aconteceu no MAC de Olinda. Antes disso, participou do Ateliê Coletivo, no próprio museu, onde aprendeu técnicas de desenho e pintura. Realizou, ainda, vários cursos na Escolinha de Arte do Recife e na Fundação Joaquim Nabuco. Mas, a afinidade com a arte contemporânea se deu em um curso de seis meses, onde participou de experiências artísticas com mestres como Gil Vicente, Paulo Bruscky e Sebastião Pedrosa. A partir daí, participou de vários salões e exposições, iniciando sua carreira. A curiosidade pelos sentimentos humanos, o tempo e as relações sociais foram alguns dos elementos que a seduziram e traduziram-se em performances, instalações, fotografia e vídeo. A exemplo da criação da personagem Judith, uma Drag Queen que iria fazer um show em Fortaleza. Beth (Judith) gravou um CD que era vendido em carrinhos piratas e espalhou cartazes ‘lambe-lambe’ pela cidade que diziam: ‘Judith, últimos dias’. “Eu mesma cantei a música e gravei em estúdio junto com uma equipe. A ideia era criar esse ambiente para ela, porque a personagem tinha a pretensão de ser uma estrela, mas era tudo muito precário e tratava dessa coisa tão humana de você querer ser uma ‘estrela’”, explica. No trabalho ‘Ele disse sim para Elisa’ de 2002, ela ‘casou-se’ por oito dias com um estranho que conheceu através de um bate papo. Aqui, ela mostra o seu encantamento com as relações na internet e a atmosfera do ambiente virtual, onde as pessoas se relacionam, amam, buscam sexo e tantas outras questões. Essa era a fagulha que a inquietava. Em paralelo à sua produção, de 2005 a 2009, comandou o Museu Murillo La Greca, onde desenvolveu várias experimentações. Neste período, destaque

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para o Projeto Cardápio, onde convidava três artistas para executarem um item do menu: entrada, prato principal e sobremesa. “Eles cozinhavam, mas havia uma especulação além do alimento e da apresentação. Uma especulação no sentido de passar algo além da comida, do ato de se alimentar e da própria estética”, conceitua. Desta ação participaram nomes como Gil Vicente, Paulo Meira, Márcio Almeida e Fernando Perez. Os registros das performances e dessa produção foram feitos em fotografia e vídeo. Em 2007, a série Do Deleite trazia uma reflexão sobre os espaços de convivência, o tempo e o

permitir-se estar em meio ao caos. Ela convidou amigos para desfrutar de um momento singular, onde em plena Agamenon Magalhães eles comiam e bebiam às margens da avenida. Assim como este, muitos projetos e criações estavam latentes e pulsantes no fazer de Beth da Matta. Sua atividade estava numa crescente até 2009, quando assumiu a diretoria do Mamam. “Depois que entrei, a minha questão ética foi decisiva, passei a me sentir incomodada em inscrever e expor trabalhos. Muitas vezes meus amigos faziam parte da comissão julgadora dos salões e não achava justo causar certos impasses”, reflete.


Na página anterior: Plantio (performance no Hospital Psiquiátrico Ulisses Pernambucano) e Série Do Deleite (ação coletiva); Acima: Judith, últimos dias (performance e intervenção urbana)

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A gastronomia Em 2010, Beth decidiu enveredar pelos caminhos da gastronomia, quando iniciou a graduação na Faculdade Maurício de Nassau. Em seguida, realizou o curso de Cozinha Internacional, na Escola Mausi Sebess da Argentina, ainda em fase de conclusão. Em 2011, realizou seu último trabalho de arte. Durante o Festival de Inverno de Garanhuns produziu a ação coletiva intitulada ‘O Banquete’ junto com Juliana Notari, onde criou todo um menu e serviu com certo rigor a convidados. O processo foi registrado em vídeo e, segundo ela, se diferencia porque “foi feito por uma artista”. “A gastronomia entrou mais no meu campo artístico do que no querer fazer uma gastronomia artística, acho que isso não funciona”, afirma. “Descobri um lugar para fazer algo que gostava fora da gestão e da arte, mas me deparei com o mesmo processo porque é preciso fazer pesquisa de campo, elaboração e ver o resultado. Existe um mercado e uma legitimação”, pontua. Atualmente, sua expressão se traduz na experiência da cozinha pop up, que permite a sua ligação entre as duas áreas. No final de 2012, comandou as panelas do Iraq, bar underground do Recife/PE. “Para mim foi uma superexperiência, porque entendi o potencial que a comida tem em um ambiente. A quinta-feira do Iraq se transformou completamente e foi especial para mim ter um espaço como esse”, comenta. Para a Revista SIM!, Beth criou um menu repleto de referências regionais e de memória afetiva, a exemplo da sobremesa Banano. O sorvete de banana caramelada é uma lembrança da infância quando voltava de Maria Farinha e parava na sorveteria Zeca’s. A receita mescla o sorvete com ganache de chocolate amargo, farofa crocante com castanha do pará e açúcar mascavo perfumado de baunilha. Acima: Beth da Matta em montagem de prato e O Banquete (ação coletiva); ao lado, Banano: sobremesa criada com base em valores afetivos

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Mais no site | www.gastroonline.com.br Veja todos os pratos feitos para esta matéria


CAPA

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O traçado de Niemeyer Quando uma forma cria beleza, tem nesta sua própria justificativa Oscar Niemeyer

A paixão pela curva conduziu o arquiteto Oscar Niemeyer em trabalhos emblemáticos, a exemplo do famoso plano piloto da capital federal, Brasília, e suas construções monumentais. Ao todo, o arquiteto deixa cerca de 500 obras públicas e privadas – muitas delas, inclusive, tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Para contribuir às homenagens ao chamado “arquiteto do século”, a Revista SIM! viajou para a cidade de Campina Grande, no agreste paraibano, para desvendar a imponência do recém-estruturado Museu de Arte Contemporânea da Paraíba e a grandiosidade da futura Biblioteca Central, desenhada e doada anos atrás. Segundo o arquiteto e amigo de Niemeyer, Luiz Marçal, genialidade e empenho conduziram suas linhas até o último momento. “Ele costumava escrever uma memória para ler depois. Se o texto não justificasse o projeto e convencesse as pessoas, Oscar o refazia completamente”, lembra. As homenagens seguem descritas por importantes nomes da arquitetura contemporânea. Roberto Montezuma, Marco Antônio Borsoi e Maria do Loreto expressam o legado de Niemeyer através de artigos assinados. De volta à capital pernambucana, ainda resgatamos os atrativos do Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, sob a ótica do paisagista Marcelo Kozmhinsky.

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Mais no site | www.revistasim.com.br Depoimentos de mais arquitetos sobre Oscar Niemeyer

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CAPA | PROJETO

Museu dos Três Pandeiros por EDI SOUZA fotos MARCO PIMENTEL

Projeto transforma discos de concreto e vidro em monumento turístico


Nos últimos meses os moradores de Campina Grande, no Agreste da Paraíba, viram o cenário próximo ao antigo açude da cidade se modificar. Ali, operários erguiam três discos formados basicamente por concreto e vidro, que pareciam desafiar a gravidade. Uma estrutura incomum que só se trataria de Oscar Niemeyer. A armação foi concluída em dezembro para abrigar o Museu de Arte Popular da Paraíba, da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Hoje, representa também a última obra finalizada com o arquiteto ainda em vida.

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É impossível ficar alheio diante de uma obra do arquiteto Oscar Niemeyer (1907 – 2012). A ousadia do desenho se materializa em concreto armado, erguido de maneira inconfundível no Brasil e no exterior. Embora os projetos mais significativos estejam espalhados no Sul e Centro-Oeste do País, o último trabalho concluído antes de sua morte, aos 104 anos, está localizado a apenas 188 km de distância do Recife/PE. O Museu de Arte Contemporânea da Paraíba foi entregue à população de Campina Grande/PB em dezembro do ano passado, tornando-se o monumento mais recente de um ícone capaz de mudar a paisagem urbana, por conta de sua arquitetura complexa e beleza sinuosa.

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RevistaSim!

Museu de Arte Popular da Paraíba Fone: (83) 3315.3446 arteecultura@uepb.edu.br

Fundação Oscar Niemeyer Fone: (21) 2509.1844 www.niemeyer.org.br


O resultado seria apresentado a seu criador nas fotos registradas pelo arquiteto de sua equipe Luiz Marçal, que trocou temporariamente o Rio de Janeiro por Campina Grande. Foram dois anos de trabalho com mão de obra paraibana utilizando materiais da terra. Até mesmo as especificações originais foram substituídas para receber itens como mármore e granito fabricados no Estado. Tanta proximidade permitiu que a população logo batizasse o monumento de Museu dos Três Pandeiros – tomando como referência o formato dos discos. Segundo Marçal, o projeto estava restrito a uma área pequena de 2 mil m2, por isso a elevação das três peças deu solução ao terreno e serviu de recurso estético. “Um dos objetivos foi liberar a vista do açude para ele ser contemplado a todo o momento enquanto se transita pela calçada. É uma soma de ideias, além da função inicial de expor a cultura paraibana”. A suspensão de uma das estruturas é a que mais chama a atenção por parecer estar flutuando sobre a água. O formato envolveu um cálculo complexo de distribuição do concreto protendido. “Cabos reforçados são fixados em rochas com alcance de 20 metros abaixo do solo. Um trabalho muito bem executado pelo engenheiro José Benício e o topógrafo Vicente Neto”, completa.

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A elevação das três peças deu solução ao terreno e serviu de recurso estético (Luiz Marçal)


A entrada do visitante ocorre por meio de rampas inclinadas a 8%, que envolvem os discos das extremidades e permitem o ingresso de cadeirantes. Ambas são formadas por guarda-corpos de vidro laminado tríplex de alta resistência, que ainda serão incrementados com corrimãos de aço inox. Já o acesso à estrutura do meio acontece apenas por passarelas, quando o usuário atravessar um dos “pandeiros”. “Também estão prontas as tubulações de ar e de água, a central elétrica, o gerador e os espaços operacionais de controle e de funcionários. As esquadrilhas são escuras para filtrar os raios de sol e preservar o acervo”, garante Marçal.

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A paisagem refletida nos 126 painéis de vidro convida à contemplação. À noite, lâmpadas e refletores cumprem o papel de realçar ainda mais o espaço. “Essa iluminação é independente e capaz de clarear até a calçada. O reflexo do branco também ajuda nesse destaque”, explica Marçal, que também aponta o desenho dos bancos pré-moldados no mesmo formato dos já existentes à margem do açude, “favorecendo a continuidade”, diz.

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A arquiteta Mariana Medeiros foi uma das contratadas para a intervenção. O museu está exatamente onde funcionava o restaurante da sua família, numa área utilizada para a prática de esportes. Das mudanças sofridas nesse período, a integrante mais jovem da equipe destaca o surgimento de um novo ponto turístico. “A estrutura ainda abrigará um bar na plataforma, com as principais cachaças da região. Será um ponto com vista privilegiada para todo o entorno”, adianta a arquiteta, que também desenhou parte do mobiliário. Por não ter conhecido pessoalmente Campina Grande, Oscar Niemeyer se embasou nas principais referências culturais da cidade para elaborar o desenho. “Repassamos as informações necessárias e, em poucos dias, ele nos trouxe uma ideia para trabalharmos junto ao calculista”, lembra Marçal, que acompanhou o desenvolvimento do traço a partir da solicitação feita pelo governo da Paraíba na época.

Afinidade Se não existisse a parceria de meio século entre os arquitetos Luiz Marçal e Oscar Niemeyer seria difícil materializar uma proposta tão ousada. “Quando me avisaram que o Oscar não tinha resistido, olhei para a obra concluída e logo veio nossa trajetória de aventuras. Ele era um grande amigo”, confessa Marçal.

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Mais no site | www.revistasim.com.br Vídeo com entrevista do arquiteto Luiz Marçal


CAPA | PROJETO

Espaço para a cultura “Não imagino quantos museus Oscar fez pelo mundo, mas o suficiente para muitas soluções lhe virem imediatamente. Ele não resolvia o projeto na prancheta, mas na cabeça”, revela. Segundo a ex-reitora da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) e atual secretária de Cultura de Campina Grande, Marlene Alves, quando o projeto foi entregue à instituição o conceito museológico começou a ser ampliado. Sendo assim, cada disco receberá individualmente um tema para exposição. O de artesanato abrigará peças de couro, renda, cerâmica e outros. Já o de música reunirá obras de artistas como Luiz Gonzaga, Elba Ramalho e Jackson do Pandeiro. Enquanto isso, o de literatura apresentará trabalhos de xilogravura e cordel, por exemplo. As curadorias também serão individuais. Além das exposições permanentes, o local acolherá mostras temporárias repletas de elementos audiovisuais. “Se o museu não tiver uma proposta concreta, ele será apenas um depósito. A nossa, é de atrair e educar a população, pois se trata da nossa memória”, assegura Marlene.

Fotos: Divulgação

De acordo com o atual reitor da UEPB, Antônio Guedes Rangel Júnior, a expectativa é finalizar a montagem de móveis e expositores até a segunda quinzena de maio 2013. É quando o acesso será totalmente liberado para visitação. “Estamos organizando a segurança e alinhando detalhes para este monumento ser usufruído como um todo”, garante.

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CAPA | PROJETO

Fotos: Divulgação

Bases da Biblioteca Central

• Dois grandes blocos de 4 mil m2 cada • Teatro para 700 pessoas • Cinema • Auditório para 500 pessoas • Salas de leitura • Espaço multimídia • Área de lazer • Praça arborizada

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O complexo é uma proposta belíssima não só para os acadêmicos, mas para toda população. Niemeyer percebeu tanto nossa empolgação que cedeu o projeto e afirmou ter se inspirado numa versão melhorada da Biblioteca Central de Brasília

O segundo projeto da UEPB em andamento no município é a Biblioteca Central, desenhada e doada por Niemeyer. Trata-se de uma intervenção grandiosa, para abrigar cerca de dois milhões de livros, incluindo reestruturação urbanística dos arredores, no bairro de Bodocongó. A atual direção da Universidade aguarda a fase de licitação.

(Marlene Alves - Secretária de Cultura)


CAPA | ARTIGO

Tempo,

lugar e

significado

Foto: Marco Pimentel

Roberto Montezuma

Professor na área de projetos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de pesquisador em arquitetura e urbanismo e sócio-diretor da AFM Arquitetos. Montezuma tem 30 anos de mercado e é presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU/PE) Fone: (81) 3326.3754 montezuma@afmarquitetos.com.br

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No tempo de revisão do modelo urbanístico do Movimento Moderno e ante a realidade incontestável de Brasília – persistente, viva e brasileira, no sentido de patrimônio e orgulho nacional – um fragmento dele: o momento da noite do dia 05 de dezembro de 2012. Faltavam dez dias para Oscar Niemeyer completar 105 anos e ele estava internado no Rio de Janeiro com a saúde cada dia mais frágil. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo completava um ano de atividades e dois anos de sua criação. Era a cerimônia de abertura do Primeiro Seminário Internacional “O estado da arte de conselhos profissionais de arquitetura e urbanismo no mundo”, promovido no Brasil pelo CAU/BR. Durante três dias os representantes dos 27 CAUs estaduais, dos conselhos profissionais do Reino Unido, Espanha, França, Estados Unidos, Portugal, México e mais outros convidados, como a União Internacional de Arquitetos (UIA), iriam se reunir para discutir suas experiências e expor os desafios do passado, que se tornaram as conquistas do presente e as perspectivas futuras. Jamais houvera antes um encontro semelhante, embora os demais conselhos já existissem há anos. O lugar era Brasília (DF), no Plano Piloto, Eixo Monumental da cidade modernista, Patrimônio Cultural da Humanidade, única cidade integralmente projetada sob as ideias do Movimento Moderno a merecer essa distinção. Precisamente no Memorial JK, no salão nobre localizado no subsolo, embaixo do sarcófago do presidente do Brasil que amalgamou a vontade política que deu ao País sua nova Capital. Lugar único onde o urbanismo de Lúcio Costa, a arquitetura e Niemeyer e o paisagismo de Burle Marx se complementam numa obra superlativa.


Foto: Shutterstock.com

Memorial JK, em BrasĂ­lia - DF | Brasil

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A notícia da morte de Niemeyer foi dada pelo presidente do CAU/BR, Haroldo Pinheiro, aos presentes. Não pretendo acrescentar nada à vasta literatura sobre a obra de Niemeyer que não seja o testemunho pessoal daquele momento em que o silêncio e a comoção tomaram conta do evento. As coisas, os fenômenos e a história oferecem dados que permitem interpretar a mensagem que emerge da conjunção de fatores observados naquela noite. A imaginação dos homens tenta dar sentido ao que muitas vezes são os jogos aleatórios do destino e do acaso, da vida e da morte sempre envoltas em mistérios além de nossa compreensão. A primeira reflexão foi uma mensagem de esperança para um futuro melhor para as nossas cidades. Os arquitetos e urbanistas presentes naquela noite no Memorial JK estavam dispostos a debater o futuro da arquitetura e das cidades, inclusive a própria Brasília, tão elogiada quanto criticada segundo as ideologias que determinam sua análise. Na atualidade não há distinção antagônica entre o espaço rural e urbano. Toda a lógica da organização espacial é urbana, mesmo para quem presume viver fora dela. A geração de Niemeyer ousou

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construí-la a partir do zero. Resta a nós, prioritariamente, construir no construído, como professa Francisco De Gracia, compreender o processo da arquitetura e do urbanismo como transformador da realidade. Fazer e refazer a cidade e suas ampliações continuamente no espaço onde ela encontrou a sua lógica. Imortalizar nossas Novas Romas porque, enquanto mortais, permanecerá nelas a nossa memória. A transcendência de Brasília reside no significado de um fato urbano e social que marca a força e a coragem dos brasileiros. Conjunção de fatores que possibilitaram, em tempo e espaço conjugados no coração do País, o desafio de construir uma utopia com prazo estabelecido, que reuniu a visão de futuro do político estadista, a racionalidade estruturadora do urbanista, a capacidade criativa e inventiva do arquiteto, a ousadia feita realidade pela engenharia, a complementação ambiental qualificada do paisagista, a estratégia do construtor, o aporte das artes plásticas e, especialmente, a vontade do povo brasileiro que forjou uma nova pátria através da construção da cidade emblemática de um novo tempo de progresso, igualdade e justiça.

A transcendência de Brasília reside no significado de um fato urbano e social que marca a força e a coragem dos brasileiros


CAPA | ARTIGO

Niemeyer e a dimensão mítica da

beleza

Foto: Marco Pimentel

Marco Antônio Borsoi

Por trás da longa trajetória de Oscar Niemeyer, emerge o relato da vida e da obra, em uma de suas formas mais primitivas, intensas e pungentes: o mito. Enraizado e originado no passado e, no entanto, profundamente atual, apto a responder, portanto, às inquietações e indagações cruciantes que afligem e atormentam a todos, no momento presente. Uma das mais salutares obsessões de Niemeyer é a busca constante da dimensão mítica da beleza: a arquitetura ao tempo da pura comoção e poesia. O amplo reconhecimento e aceitação universal de sua obra advêm da grande coerência e convicção com que persegue poucos, mas firmes, fundamentos estéticos. Estes estão baseados, principalmente, em uma forte ideia de ordem, e de relações consistentes entre a materialidade, a estrutura e a espacialidade, a forma se fundindo ao conteúdo.

Arquiteto formado pela FAU-UFRJ, em 1976. É professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), além de titular do MA Borsoi Arquietura LTDA. Fone: (81) 3465.4311 mrcoantonio.borsoi@gmail.com

A preferência pela imaginação e invenção, pelo caráter surpreendente da arquitetura e a expressão de uma audaciosa simplicidade e leveza, propiciou a Niemeyer as afirmações de que os edifícios deveriam assombrar as pessoas com a sua beleza. “Deveriam ser tão lindos que alegrariam o coração de todos, mesmo para os pobres.” Ou ainda, “para mim, é sempre importante que algo assombroso seja inerente aos meus edifícios, que formule algo nunca visto”. No Congresso Nacional, em Brasília, tudo é estranhamente antigo, quase espiritual, no qual se pode escutar o tempo puro e o próprio vazio. É como estar no topo de uma Acrópole, como a de Atenas, e muito longe da sensação fria e anônima de certas arquiteturas modernas. É o cruzamento perfeito do velho e do novo, da matéria e do espírito, entre o limite e o ilimitado, em um edifício público concebido na escala

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Foto: Acervo Pessoal

Museu de Arte Moderna, em Caracas | Venezuela

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Uma das mais salutares obsessões de Niemeyer é a busca constante da dimensão mítica da beleza: a arquitetura ao tempo da pura comoção e poesia

do sagrado, o coração da Nação. Uma espécie de borda infinita, situada na linha do horizonte a confundir-se como as noites sem fim do planalto. Uma condição única nas Américas, que o faz estar incluído entre os 50 edifícios mais emblemáticos do mundo, de todos os tempos. Em meados da década de 50, Oscar já havia proposto uma de suas mais conceituais e originais concepções arquitetônicas, síntese de uma vertente a ser bastante desenvolvida em trabalhos posteriores. A formulação estrutural de um edifício de forma elementar, elevado do solo, sobre apoio único central convergindo para o centro de gravidade. No magistral Museu de Arte Moderna, em Caracas na Venezuela, destaca-se o gesto, de genial intuição, de inverter a lógica da ancestral forma piramidal, construída transportando gigantescos blocos de pedra, no qual os antigos celebravam cultos e rituais. Inversão da relação peso versus leveza, que significa permitir no interior, anteriormente cheio de materiais, ser agora um imenso espaço vazio, definido pela interpenetração de sinuosas e livres plataformas para uso e integração pública do edifício. A obra de referência é a monumental necrópole de Quéops, em Gisé no sudoeste do Cairo, há mais de 4.500 anos, no qual 2,5 milhões de blocos foram aparelhados e sobrepostos por cerca de 5.000 artesãos, em um trabalho envolvendo as mãos de quase 25.000 trabalhadores, durante

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quase vinte anos. Na grande pirâmide, o maciço compacto de pedra calcária se apoia diretamente sobre o solo, por compressão. No museu de Caracas, a pirâmide ôca invertida, de concreto armado, desafia as leis da gravidade. Os esforços, cargas e tensões, de lajes e coberta, são transferidos pelas paredes laterais inclinadas, em balanço, ao cento de apoio sobre o solo firme, por tração. Em Caracas, o edifício concebido na escala do sublime, se reencontra com o sonho modernista de uma arquitetura de estonteante beleza. Não por acaso, grandes estrelas internacionais, ainda atuantes na Arquitetura Contemporânea, entre eles, Norman Foster, Rem Koolhaas, Zaha Hadid, sem mencionar a nova geração, não só rendem homenagens, como tem nas obras e princípios desenvolvidos pelo mestre, uma forte fonte de inspiração e referência. A reelaboração do mito pressupõe aqui, a construção de um potente referencial, capaz de nos conduzir a um modelo próprio, de propor e resolver problemas, para além da nossa eterna subserviência colonizada. Diante da avassaladora redução dos objetos construídos - banalizados como meros produtos de consumo - as inúmeras lições, reflexões, obras e a autobiografia de Oscar Niemeyer, com certeza deverá ser a fonte de uma inesgotável contribuição para as novas gerações.


CAPA | ARTIGO

Oscar Niemeyer Foto: Marco Pimentel

Maria do Loreto

Não venho falar do gênio, de suas qualidades profissionais. Muito já foi falado, detalhado, analisado, sobretudo nos últimos anos e mais ainda após o seu centenário. Venho, na verdade, traduzir meu sentimento diante do seu nome e como sua arquitetura fez parte da minha história, assim como de muitos colegas. Voltando no tempo, vejo-me durante os anos 60, quando escolhi fazer arquitetura. Era o momento das linhas curvas da Pampulha e da nova capital, Brasília, que emocionavam estudantes secundaristas com ideias novas sobre um novo modo de conceber o espaço, que recebia as glórias do mundo.

A arquiteta atua no mercado desde 1975. O seu escritório Maria do Loreto Projetos é um dos mais tradicionais do Recife, presente desde a década de 1980. Seu foco são os projetos de arquitetura,

Na faculdade de arquitetura da Avenida Conde da Boa Vista, em 1970, esta emoção torna-se realidade a partir do contato com grandes mestres – dentre eles Acácio Gil Borsoi e Delfim Amorim – que traziam em seus trabalhos elementos da mudança radical, iniciada por Niemeyer e por Lúcio Costa e inspirada em Le Corbusier. Nesta transformação, desafiava-se a natureza na forma como o concreto armado ganhava curvas e novos elementos. Isso com o aval de calculistas que seguiam o exemplo de Joaquim Cardoso, para quem o cálculo estrutural se punha em favor da arquitetura – e não o contrário.

urbanismo e design, com trabalhos executados em diversas cidades do País. Fone: (81) 3462.9010 loreto@mariadoloreto.com.br

N’outro momento, estreitei contatos profissionais com Borsoi e com Janete Costa – esta a quem considero minha amiga, minha referência, minha mãe adotiva – que novamente me aproximaram do modernismo de Niemeyer e me permitiram conhecer Marianne Perretti, a dama por trás dos vitrais da Catedral de Brasília. Assim, ao olhar para dentro, vejo como foi bom viver estes períodos de mudanças tão radicais no pensar, no desenhar e no conceber o espaço. Homens como Oscar Niemeyer abriram vastos caminhos e deixaram um legado sem fim para as novas gerações.

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Foto: Shutterstock.com

Catedral, em Brasília - DF | Brasil

Homens como Oscar Niemeyer abriram vastos caminhos e deixaram um legado sem fim para as novas gerações.


Fotos: Divulgação

CAPA | LIVROS Livraria Cultura Paço Alfândega www.livrariacultura.com.br

1. As Curvas do Tempo Oscar Niemeyer | Editora Revan Esse é um livro de memórias do arquiteto. Nas suas páginas, Niemeyer fala de temas como a família, amigos, solidariedade e as artes que as integram. É uma obra que mostra, em forma de diário, apesar de não ser datado, o arquiteto, escritor, criador, cidadão e amigo. O título ainda apresenta desenhos feitos com exclusividade para a obra. 2. Da Matéria à Invenção Danilo Matoso Macedo | Editora Edições Câmara Publicado originalmente como dissertação de mestrado, o título apresenta um panorama das obras edificadas por Niemeyer em Minas Gerais, estado de grande destaque de seus projetos no período de 1938 a 1955. O livro está disponível para download no endereço: http://danilo.arq.br/textos/da-materia-a-invencao 3. A vida é um sopro (documentário) Roteiro: Fábio Maciel | Produção: Andrea Barros Santa Clara Produções Documentário que conta a história de Oscar Niemeyer. No seu contexto, é mostrado como ele revolucionou a arquitetura moderna ao inserir curvas e explorar novas possibilidades de uso do concreto armado. No vídeo, também são mostradas as impressões do mestre sobre vida e o ideal de uma sociedade mais justa. 4. As igrejas de Oscar Niemeyer Oscar Niemeyer | Editora Nosso Caminho Nessa edição, Oscar Niemeyer apresenta 16 obras religiosas. Dentre elas estão a Igreja São Francisco de Assis (MG), a Catedral de Nossa Senhora Aparecida (DF) além de projetos não executados, como a catedral católica planejada para o Caminho Niemeyer, conjunto de obras do arquiteto em Niterói. Há ainda projetos feitos para outros países. 5. Oscar Niemeyer – Casas Alan Hess e Alan Weintraub | Editora Gg É a primeira obra dedicada aos projetos residenciais do arquiteto. O livro é um retrato da evolução do seu estilo arquitetônico, o trabalho com as curvas e sua crescente liberdade formal.O resultado é um conjunto de casas únicas que, completadas pelo trabalho de Athos Bulcão e do paisagista Burle Marx, são, até hoje, verdadeiras obras de arte.

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OSCAR NIEMEYER Nesta edição, a Revista SIM! indica cinco títulos, um deles em vídeo, para que você possa conhecer mais sobre o renomado arquiteto Oscar Niemeyer e sua obra. Confira!


CAPA | jardins

Marcelo Kozmhinsky é agrônomo e paisagista. www.raiplantas.com marckoz@hotmail.com Fone: (81) 9146.7721

Além do concreto Em 2011, a praia de Boa Viagem, no Recife, recebeu o Parque Dona Lindu, concebido pelo ícone da arquitetura Oscar Niemeyer e executado por sua notória equipe. Na época, o projeto gerou controvérsias entre setores da população, que refletia o desejo da comunidade em ter uma área com mais verde. Após cerca de dois anos da inauguração, a área hoje é abraçada pelos cidadãos que a frequentam para passeio, lazer, esportes, recreação e atividades culturais. As famílias invadem o gramado fazendo piquenique ao estilo mais real da palavra, com direito a toalhas no chão, isopor com bebidas, cestas com comida e muitas crianças brincando. Somado aos grandes monumentos construtivos, existe o projeto paisagístico do arquiteto Luiz Vieira. O percurso, marcado por um caminho circular e canteiros com vegetações herbáceas, além de um pergolado brindado com as belas buganvilles, transforma esse caminhar nas horas de sol mais brando num agradável passeio. Um belo parque infantil, feito de toras de eucalipto autoclavado instalado numa área com areia branca, dá destaque a esse espaço, além de quadra, pista de cooper, espaço para skatistas, patinadores e ciclistas. Na época da implantação, muitas plantas eram de pequeno porte e só agora estão podendo começar a mostrar sua exuberância. Na beira mar, o parque possui uma variedade de espécies adaptadas ao ambiente com fortes ventos e maresia. Palmeiras de manila, palmeira triângulo, coqueiros, paus-brasil, ipês roxos, craibeiras, felicios, mororós e paus-formiga figuram como vegetação de grande porte. Já dentre as de menor porte estão filodendros, cicas, crinos, panamás, ixoras, jasmins, alamandas, etc. Longe de ser um oásis de verde em meio a construções, o Dona Lindu funciona como centro de lazer e atividades culturais, um espaço democrático para a população. Na verdade faltam parques no Recife, os que existem são poucos. Outras áreas poderiam ser transformadas em espaços verdes públicos, como área onde que abriga a Rádio Pina – com aproximadamente 250 ha, dos quais 90% é área de mangue. Para isso, vale salientar a importância da parceria arquiteto/paisagista na projeção e transformação de espaços como esses em áreas de preservação destinada à população transformando-os em parques públicos.

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Fotos: Marco Pimentel | Croquis: Oscar Niemeyer/Divulgação


PROJETO

Projetado para a arte por EDI SOUZA

Acácio Gil Borsoi e Janete Costa deixam projeto moderno e arrojado para o MAC

fotos MARCO PIMENTEL

Dois grandes nomes da arquitetura moderna no Nordeste caracterizaram um projeto que coloca Campina Grande/PB nos principais roteiros de arte do País. Acácio Gil Borsoi (1924 – 2009) e Janete Costa (1932 – 2008) desenharam o Museu Assis Chateaubriand (MAC), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), que abriga atualmente 184 peças já pertencentes a um dos maiores empreendedores da comunicação no Brasil. A estrutura foi inaugurada há alguns meses no bairro do Catolé. Atualmente, recebe acervo garimpado do antigo Museu de Artes Assis Chateaubriand (MAAC), localizado no centro da cidade desde a década de 1960. As condições ideais de exposição e preservação foram aprimoradas na nova casa, que conta com moderno sistema de segurança, climatização e iluminação adequado para famosas obras de acadêmicos, modernistas, pós-modernistas e contemporâneos.

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Em seu memorial descritivo, ainda de 2005, Acácio Gil Borsoi define: “Enquadrado nos conceitos simples na sua forma e no sistema construtivo, procurou-se a expressão em uma imagem singular na busca da beleza, como o registro de uma emoção”. Na visita, é fácil perceber que todas as atividades se unem a partir de um ambiente comum, o foyer – onde o espectador visualiza todos os espaços do museu.

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Procurou-se a expressão em uma imagem singular na busca da beleza, como o registro de uma emoção

O branco predomina na parte interna e externa, contrastado em detalhes como escadas, rampas e até um painel de vidro Alucobond em tom bronze (composto por lâminas de alumínio e núcleo em polietileno) presente na entrada. No térreo fica sala para exposições dinâmicas, auditório para palestras e área do café. No piso superior estão duas salas com o acervo permanente, área administrativa, de apoio e de serviços.

(Acácio Gil Borsoi)


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A arquiteta Roberta Borsoi atuou na parte de interiores ao lado do irmão Mário Santos. Segundo a filha do casal idealizador, o destaque do projeto é a composição de espaços generosos. “Borsoi soube trabalhar bem a volumetria fazendo as aberturas necessárias. O foyer, por exemplo, possui uma pirâmide invertida, que demonstra uma característica dele. Foi tudo muito bem pensado”, define Roberta, que também aponta o forte planejamento da iluminação. “Existe um controle da luz natural para ela ser suficiente às obras. Esse detalhe é composto basicamente por iluminação difusa, com sancas, e pontual”, conclui.

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Existe um controle da luz natural para ela ser suficiente às obras. (Roberta Borsoi)


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A arquitetura não é egocêntrica, ela funciona em prol da coleção de arte. Isso é muito representativo em Borsoi, e serve de escola para Roberta e eu

Sobre o legado deixado pela família, o arquiteto Mário Santos, também filho de Borsoi, defende a funcionalidade do espaço perante a estrutura. “A arquitetura não é egocêntrica, ela funciona em prol da coleção de arte. Isso é muito representativo em Borsoi, e serve de escola para Roberta e eu”. O trabalho de museografia foi composto principalmente pelo uso de paineis que se encaixam e se apoiam um no outro propondo leveza e mobilidade ao lugar. “Trata-se de uma concepção aplicada em qualquer parte do mundo. É muito clean e limpo, respeitando o trabalho de Janete e Borsoi”, revela.

(Mário Santos)

Roberta Borsoi, Mário Santos e Ângelo Rafael Bezerra

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Acervo de grandes nomes Campina Grande tem hoje sete museus em funcionamento. O MAC é um dos mais recentes inaugurados e, de certa forma, está ligado ao trabalho de descentralização das artes, fora do eixo Rio/São Paulo, por Assis Chateaubriand. “Ele notou que estava tudo muito centralizado antes de iniciar a campanha dos museus, a partir de 1967, levando acervos para Feira de Santana/BA, Olinda/PE, São Luiz do Maranhão e Campina Grande/PB, por exemplo. Com o tempo, a estrutura do nosso antigo museu precisava de reforço, que é este novo prédio da UEPB”, explica o diretor Ângelo Rafael Bezerra. A coleção fixa inclui modernistas como Portinari, Di Cavalcanti e Anita Malfatti, além de acadêmicos como Pedro Américo e Visconti. A lista ainda inclui gravuras da escola francesa e alemã. “Nas exposições temporárias trazemos fotógrafos, escultores e pintores que trabalham com ações transversais da nova museologia”, elenca o diretor, lembrando que a programação de 2013 está fechada.

A curadoria é externa, contratada de acordo com a mostra. Para garantir a segurança de tantos objetos, foi estruturado monitoramento por vídeo, sistema anti-incêndio e segurança armada. Ainda segundo Ângelo, a visão futurista da Universidade promete ainda mais novidades ao museu. “Prova disso é a aquisição de obras como o fusca de ponta cabeça de Sérgio Ramagnolo e o quadro de Roberto Aguilar, que abriu a Bienal de São Paulo de 2010”, detalha.

MAC museu.uepb.edu.br/mac (83) 3337.3637

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delícias

Inspiração minimalista por BETH OLIVEIRA

Hugo Prouvot valoriza a estética de alimentos naturais e frescos

fotos MARCO PIMENTEL

Adepto de uma apresentação clean, onde a exuberância e as características naturais dos alimentos frescos se sobressaem, Hugo Prouvot mostra uma nova concepção para a montagem de seus pratos. Eleito chef do ano pela Veja Recife Comer & Beber 2011/2012, o paulistano de Ubatuta, que mora há 10 anos no Recife, desenvolve seu trabalho com base nas técnicas francesas. Apesar de o baixo cozimento ser muito utilizado por essa escola, o chef trouxe para Delícias uma arquitetura do sabor diferenciada, na qual o insumo é o próprio elemento estético. “Em todos os pratos usei o mínimo de cocção e cozimento para mostrar melhor o frescor dos alimentos. Tudo mais rápido e sem passar por muito processo de fogão, para deixar os ingredientes mais vivos e realçar a beleza deles”, explica. Por isso, o chef elegeu frutas pouco conhecidas do público recifense. “O Tartare de Pytaia e Camarão acabou sendo um prato mais monocromático, porém de cores exuberantes. O camarão fresco, cozido antes do ponto, permite sentir a textura mais macia e o sabor mais forte. Ele contrasta bem com a fruta, que é mais adocicada, leve e diferente”, comenta o chef.

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delícias

Aproveitando essas características do ingrediente, o chef dispôs sobre o vidro, a macia Quenelle de Physalis com mirtillos macerados ao vinho do porto e castanhas de caju caramelizadas. Nesta sugestão, elementos diferentes indicam harmonia e singularidade, já que a crocância da castanha faz um contraste interessante com a textura

Usei o mínimo de cocção e cozimento para mostrar melhor o frescor dos alimentos. Tudo (...) para deixar os ingredientes mais vivos e realçar a beleza deles

Nessa entrada, destacam-se o laranja do crustáceo e o tom rosa pink do insumo mexicano, mais conhecido como a fruta do dragão. “A pytaia embaixo parece um molho. Cortados em cubos, os ingredientes trabalham a precisão do corte, lembrando um pouco da cozinha japonesa”, acrescenta. Na segunda preparação, Prouvot experimenta uma mudança sutil na base. “Inovei com o uso da physalis, que é uma fruta meio azedinha e tem essa casca linda. Ela tem beleza, cor forte e sabor ácido”, aponta.

dos mirtillos. O brilho e a textura da mousse se ligam às propriedades refletivas do vidro.

vagem, romã e palmito pupunha ao vinagrete de laranja, a base usada ressaltou linhas retas.

Em seu trabalho, Prouvot mantém um toque mais minimalista, pois revela a predileção por louças brancas na hora da montagem. “Não penso muito em usar a altura como elemento de apresentação. Gosto de trabalhar com o prato branco por ele ressaltar o alimento e mostrar sua qualidade”, pontua. Ele afirma, ainda, não gostar de bases que tenham moldura. Para montar a Pescada Amarela com salada de lichia,

Ele trabalha com múltiplos elementos. “Aqui se destaca o colorido da salada, a exemplo do verde mais acentuado da vagem. O vegetal, inclusive, dá vida à mastigação pela sua crocância. Já a romã, é para dar a cor e o adocicado, em contraste com o ácido do molho de laranja. A lichia tem sabor delicado, já o sal piramidal de Chipre dá um toque totalmente especial ao prato,” arremata.

Na página anterior: Tartare de Pytaia e Camarão; abaixo: Quenelle de Physalis com mirtillos macerados ao vinho do porto e castanhas de caju caramelizadas; ao lado: Pescada Amarela com salada de lichia, vagem, romã e palmito pupunha ao vinagrete de laranja

Bistrot du Vin Fone: (81) 3326.5719 www.clubduvin.com.br hugoprouvot@gmail.com

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