Skip to main content

MATÉRIA-PRIMA 6

Page 23

Os nossos monumentos são o maior sonho da França. É por isso que nós queremos salvá-los; para a admiração dos turistas, mas antes para a emoção das crianças que se levam pela mão (Choay, 2011: 214).

Sem querer aqui valorizar excessivamente uma ação profundamente criticada por Françoise Choay (2011: 209) mas apenas sublinhar a importância que o património tem na educação do olhar — ou devo dizer, educação artística — dos mais jovens. Já em 1932, entre as resoluções da Comissão Internacional de Cooperação Intelectual da Sociedade das Nações, presidida por Henri Bergson, estava a seguinte: Que os Estados membros convidem os educadores a instruir a infância e a juventude no respeito aos monumentos, seja qual for a civilização ou época a que os monumentos pertençam, e que esta acção educativa dos Estados se dirija igualmente ao público em geral, no sentido de associá-lo à proteção dos testemunhos de toda a civilização (Choay, 2011: 208).

A Sociedade das Nações desapareceu em 1939, com o início da II Guerra Mundial, mas o princípio mantém-se verdadeiro e atualmente a UNESCO distingue e classifica

23 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 3 (2): 20-26.

estudantes de Belas-Artes) e nesse sentido podem ser interpretadas e até ter um significado histórico. No entanto e para além dessa violência e desses actos de vandalismo em contextos de guerra, ou de iconoclastia, derivados de radicalismo religioso, não só islâmico, já que os protestantes destruíram muitas imagens religiosas, actualmente assistimos a uma espécie de vandalismo silencioso, que invadiu as grandes cidades, que começou por ser acto de marginalidade e hoje foi recuperado parcialmente. Falamos de grafitti, mas sobretudo de tags, ou seja de assinaturas em grafitti, que começaram por surgir em bairros e zonas de periferia, mas lentamente vão surgindo nos centros históricos. Na verdade, as zonas onde a arte urbana tem liberdade de manifestar-se, por vezes por iniciativa das autoridades municipais, e com recurso mesmo a curadores que dirigem convites a artistas já reconhecidos internacionalmente — como Vhils — nada têm a ver com esse “rabiscar” de paredes que vai desde a marcação de território de um gang a uma declaração de amor. O que nos deixa maior preocupação é o fato desse pitching começar a invadir centros históricos e, mais recentemente, a nossa Faculdade. André Malraux afirmou em 1967:


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
MATÉRIA-PRIMA 6 by belas-artes ulisboa - Issuu