21 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 3 (2): 20-26.
O ensino da arte e o contato com as obras que é proporcionado às crianças, nos diferentes graus do ensino básico não tem como objectivo prioritário a formação de artistas (a prossecução de estudos na área artística só será escolha de alguns poucos) mas visa sobretudo preparar o jovem, como cidadão, para apreciar e fruir a obra de arte, seja um concerto, uma peça de teatro, a pintura exposta num museu, ou a arte pública com a qual se cruza na rua diariamente. Já Abel Salazar, que lecionou um curso na Associação Profissional de Estudantes de Medicina, entre 1932 e 1933, considerava que a escola tinha um papel essencial na formação crítica, de carácter axiológico, ético, político e artístico, não só do estudante, mas também do cidadão como homem integral (Ribeiro, 2000: 11). E devemos precisar que tomamos “arte pública” num sentido lato, não limitando o conceito ao século XX-XXI, mas consideramos também todos os monumentos públicos, que podem ir de um arco de triunfo romano, a uma fonte barroca, a um monumento do séc. XIX, e ainda todos os edifícios históricos que constituem o património das nossas cidades na Europa e que podem manter a sua função original ou uma semelhante, ou podem ter sido reutilizados com outras finalidades, como aconteceu em Portugal com os conventos depois da extinção das ordens religiosas, onde se instalaram hospitais, quartéis, escolas, como aquela em que nos encontramos. A obra de arte tem, no entanto, a particularidade de nos transmitir mensagens relacionadas com o poder público ou a religião, pelo que ao longo dos tempos tem sido objecto de atentados, quer por parte de invasores em busca de riquezas (violação de sarcófagos e túmulos durante as invasões francesas) quer no contexto de revoluções políticas, como a destruição de estátuas dos reis de França pela Revolução Francesa, ou da Coluna Vendôme pela Comuna de Paris, sob direção aliás de um bem conhecido pintor, Courbet, que considerava tal monumento mais significativo do ponto de vista político do que artístico. Outro caso de referência foi a espoliação dos bens dos Judeus pelos Nazis e o roubo de obras de arte europeias de valor incontornável, quer para integrarem as coleções de museus alemães, quer para as coleções pessoais de Hitler ou Goering. Na verdade, este elemento que era oriundo da Baviera e presidente do Reichtag em 1933, tornou-se o número 2 do regime nazi. Depois do falecimento da sua mulher instalou na sua casa de campo a norte de Berlim, a que chamou Carinhall, em honra dela, uma coleção de pintura e objetos de arte, que crescerá ao ritmo das pilhagens perpetradas pelos exércitos alemães (Feliciano, 2005: 67). A 5 de Julho de 1940 foi criado o ERR, cujas instalações se situavam no Hotel Commodore, no nº 12 do Boulevard Haussmann, perto da Ópera de Paris, cujo objectivo era organizar a confiscação de bibliotecas e arquivos nos países ocupados.