Skip to main content

MATÉRIA-PRIMA 4

Page 94

94 Paulo, Ana Cristina L. de Sousa (2014) “Riscos que nos definem: o desenho como experiência de transformação do sujeito.”

desenho no campo da experiência artística? Podemos desenhar uma experiência? Relacionando o conceito de experiência com a arte (ela própria uma experiência) podemos afirmar que a arte, e dentro dela, o desenho, é uma experiência intensificada, concentrada, exponenciada; aquela que retira o sujeito da monotonia do quotidiano, ressigificando-o. A expressão artística poderá ser tida como uma reorganização de outras experiências. Aqui, o desenho poderá até surgir como catarse para quem a usa com o objetivo de organizar pensamentos e realidades. Tal como o desenho, a experiência permite uma compreensão do que nos rodeia. Está intrinsecamente vinculada com a cognição e as ações efetuadas. Tal como Dewey (2008) afirma, a interação mente/corpo cede espaço para a interação do sujeito com o meio permitindo uma compreensão mais ampla das dinâmicas cognitivas. Surge assim uma atenção voltada para o dinamismo da experiência do sujeito e o desenvolvimento do seu conhecimento. 4. Unidade didática

A ideia esboçada para a proposta de trabalho teve como mote um “desabafo” de um aluno perante o tipo de trabalho que tinha vindo a ser desenvolvido desde o início do ano: “Professora: quando começamos a desenhar coisas que não existem?” Interpretei esta questão do aluno em causa como um desabafo de quem se sentia fatigado de desenvolver um trabalho que se cingia principalmente ao desenho de observação. Não retirando a imensa importância que este tipo de desenho tem no percurso destes jovens, questionei-me sobre o porque não abordar os conteúdos de síntese de um modo mais livre dessa realidade observada? Porque não tentar criar uma experiência nova para os alunos? Não obstante, e aliado a esse pensamento, foi minha intenção perceber o que cada aluno depositava de si mesmo no seu trabalho. Para tal, desenvolvi uma proposta de trabalho que respondesse não só ao programa da disciplina mas que ao mesmo tempo procurasse algo mais pessoal do próprio aluno. Estes alunos ainda no início do deu percurso apresentam já alguma destreza na representação do real. No entanto revelam algumas lacunas relacionadas com a criatividade, com o pensamento crítico e cultura visual. Interpretar o seu mundo interior, explorá-lo e manifestá-lo ainda é uma tarefa complexa. Habituado a registar o que vê — fora para dentro — o aluno revela dificuldades em trazer a visualidade do seu mundo interior para o exterior, para a folha de papel — dentro para fora.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
MATÉRIA-PRIMA 4 by belas-artes ulisboa - Issuu