Skip to main content

MATÉRIA-PRIMA 4

Page 91

O desenho é provavelmente a forma de expressão que sintetiza melhor a nossa relação com o mundo. Ele permite-nos, com a elaboração mental, o desenvolvimento de ideias e a descoberta do que ainda desconhecemos de nós mesmos (Carneiro, 2001: 34) .

Analisando o desenho como ferramenta de expressão de subjetividades do sujeito, aborda-se o primeiro como um processo de interiorização da realidade que rodeia o último — de fora para dentro — e ainda como um processo de exteriorização de si próprio — de dentro para fora-. 2. Riscos que nos definem 2.1. Vestígios do eu

Parafraseando Leonardo Da Vinci “Il pittore pinge se stesso”, ou seja “O pintor pinta-se a si mesmo”, posso dizer que o desenhador desenha-se a si mesmo. Desenhar traduz-se no gesto do sujeito para o seu exterior. Ultrapassa o simples pensamento ou contemplação, tornando-se numa ação com expressão corporal e gestual que identifica aquela pessoa. Qualquer que seja o gesto, este será sempre meu, com as minhas características, mesmo ecoando todas as familiaridades e condicionantes pedagógicas e genéticas. Assim um traço assume uma particularidade única de surgir do meu gesto. O resultado dos meus movimentos traduzidos em marcas, em traços, em manchas, transporta toda a minha história, consciente e não consciente, a minha vida no mundo e a minha vida dentro de mim. Quero com isto dizer que, ao fazer um desenho, a minha identidade traduzida no movimento dos meus gestos fica automaticamente impressa em cada registo deixado no suporte (Figura 2). Utilizando o verbo “desenhar” de forma reflexa — desenhar-se — pretende-se impor diretamente esta ideia de identidade contida no ato de desenhar. Desenhamo-nos sempre mesmo que essa ação tenha como resultado final um objeto que é o seu vestígio. A diferença que me distingue de todos os outros

91 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (4): 88-99.

Ao pensarmos nas garatujas de uma criança, onde a descoberta do poder de alterar as coisas é mais intensa do que qualquer outra significação possível, passando ao ato investigativo da realidade através do olhar, para culminar no que poderá vir a ser considerada uma obra artística, o desenho como processo vai mobilizar a mente e “ensinar” o cérebro a aproveitar e utilizar essa habilidade de modos específicos e úteis num leque variado de ações, das quais as artes e o pensamento criativo subjacente são focos de interesse (Figura 1).


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
MATÉRIA-PRIMA 4 by belas-artes ulisboa - Issuu