62 Bonilha, Caroline Leal (2014) “Onde vivem os monstros: Traçando linhas entre cinema, história da arte e expressão artística.”
Danto (2006) versando sobre o fim da disciplina e da própria arte. A história da arte cada vez menos é vista como um bloco que contém em si o registro dos fatos do passado encarrados como imutáveis e compreensíveis somente através de documentos oficiais. Este deslocamento se processa também no campo da história acompanhando uma mudança de sensibilidade perceptível através de conceitos trabalhados por autores como Michel Foucault que aponta para o fim das antigas noções da escrita ao afirmar que: [...] a história mudou sua posição acerca do documento: ela considera como sua tarefa primordial, não interpreta-lo, não determinar se diz a verdade nem qual é o seu valor expressivo, mas sim trabalha-lo no interior e elabora-lo: ela o organiza, recorta, distribui, ordena e reparte em níveis, estabelece séries, distingue o que é pertinente do que não é, identifica elementos, define unidades, descreve relações (Foucault, 2008: 07).
Foucault (2008), Hans Belting (2012) e Arthur Danto (2006) alertaram para o fim das narrativas centralizadoras que fundaram uma possível coerência na ordem constituindo aquilo que se compreendeu até então como história. Como resultado, vivenciamos na contemporaneidade uma profunda alteração das práticas e lugares adotados para compreender e valorar a arte, o artista e seus produtos, tangíveis ou não. Pode-se então perceber a história da arte atualmente como um conjunto de narrativas escritas por sujeitos posicionados em contextos determinados e que escrevem a partir de perspectivas particulares. Nesse contexto, a antropomorfização de figuras monstruosas ou a feiura podem muito bem funcionar como eixo condutor da narrativa historiográfica, caminho esse já trilhado por Umberto Eco no livro História da Feiura (2007). Para Eco (2007), a história da feiura está relacionada, na maioria das vezes, a sua oposição em relação ao belo e aos conceitos atrelados a ele. A partir da oposição entre os conceitos surgia a possibilidade de identificação de ambos, tendo sempre como polo positivo a beleza e, consequentemente, a feiura como negativa. No entanto, Eco (2007) nos mostra no decorrer de sua obra que, tanto a beleza quanto a feiura são conceitos históricos e propensos à modificação. Para o autor, Quando comparamos afirmações teóricas com um quadro ou uma construção arquitetônica da mesma época, podemos perceber que aquilo que é proporcional em um determinado século já não o é no outro: falando, por exemplo, da proporção, um filósofo medieval pensava nas dimensões e nas formas de uma catedral gótica; enquanto um teórico renascentista pensava em um templo quinhentista cujas partes eram reguladas pela noção áurea — e para os renascentistas pareciam barbaras e, justamente “góticas”, as proporções realizadas por aquelas catedrais (Eco, 2007:10).