44 Barreto, Umbelina (2014) “O duplo fio da investigação: a didática do desenho.”
abordadas as mudanças a partir da modificação das ferramentas, para ênfase no cenário em um cruzamento que redefine o imaginário com o mundo virtual definindo um novo campo de ação. Dessa forma, se enfatiza a importância do sujeito criador que passa de autor-ator a autor-personagem, em uma articulação da ação de desenhador à atitude de desenhador. É interessante ressaltar nesse sentido a obra do artista sul-africano William Kentridge, que se desdobra entre o desenho e a atuação do desenhador, em um caminho contínuo que vai gerando produções em diversos meios, ao fazer dialogar o território do desenho e os diversos mundos virtuais trazidos pelas novas e velhas tecnologias, analógicas e digitais. O processo de criação do artista, didaticamente, vai mudando o meio e o instrumento, e dessa forma, o novo imaginário passa a ser conhecido através do território em que se cruzam as diversas narrativas do desenho. 2. Dissonância ou cacofonia?
A concepção de desenho vai se transformando no tempo, constituindo uma história das formas visuais em um processo não cumulativo e descontínuo, em que convivem as mais diversas visões da arte, que se constituem através de procedimentos construtivos e desconstrutivos, gerando imaginários que, com frequência, causam estranhamento. A complexidade do desenho contemporâneo, construído de forma substantiva a partir desse mar de possibilidades, coloca-nos frente ao paradoxo da busca infinita, em que se pode pensar o desenhista como aquele que tem na arte o seu objeto de desejo, entretanto, sua única possibilidade é a de se colocar sempre no papel de um aprendiz. Dessa forma, o processo é reiteradamente redimensionado no desenvolvimento da linguagem, que se reestrutura redefinindo os limites do desenho, ao se apresentar, a cada vez, como outro. A aprendizagem do desenho só ocorre quando o desenhador abre mão de seu desejo, para conquistar a especificidade de um fazer constitutivo de uma linguagem, tendo a arte como objeto de desejo. E, nesse sentido, pode-se dizer que o desenho passa a ser também a incontinência de um fazer, que ao se mostrar aparentemente inútil, se encadeia em reiterações constantes que acabam por imprimir novos padrões ao olhar, em um imaginário que, metaforicamente, transforma esse padrão visual em uma pele do mundo, ao aproximar o visível do invisível, tecendo-os de forma contínua. Por outro lado, tem-se o professor de artes visuais a tentar desenvolver sua didática em um contexto em que os elementos da arte foram apropriados e disponibilizados, em um universo caracterizado pelo excesso de informação e to-