41 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (4): 40-47.
dade de reflexão sobre a formação do professor de artes visuais, evidenciando a necessidade de mudança, ao se propor um professor criador, em estreita sintonia com as transformações contemporâneas, em substituição a um professor meramente reprodutor, em conformidade a uma formação tradicional. Como desenhadora e professora, formadora de artistas e professores de artes visuais, penso no não-método proposto por Maria Acaso (2009), e na auto-observação de Molina (2002), e, nesta relação, verifico que dá-se a possibilidade de ser surpreendida nesse processo constante em que eu estou sempre a observar, tal como um ser vivo observacional que educa a si próprio e a outro organismo observacional, como poderia nos afirmar Maturana (1979). Na tentativa de mapear um momento do processo de desenho em uma breve descrição em que me volto para o desenvolvimento de minha própria linguagem gráfico-plástica, tento construir uma alegoria ao enunciar um mapa do que se vai formando, que se apresenta com áreas marcadas por profundos sulcos, definindo lugares reiteradamente percorridos, bem como espaços vislumbrados somente em sobrevoos, ou, simplesmente, em apagamentos de limites, gerando bordas que são definidas como limiares, que tradicionalmente tem sido, a priori, negadas ou escondidas, e, por esse motivo, afastadas dos processos educativos. Inicialmente, em uma ação, aparentemente intimista, eu observo um objeto simbólico-cultural que tenho em minha mão e, de uma forma imaginária, começo a desenhá-lo com o olhar ao perceber que a sua forma faz parte de uma memória repleta de imagens que, em princípio, não me pertencem. Entretanto, a concretude do objeto apanhado pelo conjunto de meus dedos e que me faz experimentar a anatomia de minha própria mão, contamina meus sentidos que se impregnam de sua fisicalidade, e, nessa relação entre o olho e a mão, a experiência corporal se atravessa fazendo com que eu me aproprie cognitivamente da potência narrativa do objeto, e possa transformá-lo em um cortejo, cujos elementos, de imediato, eu tento dispor a desfilar. Na ânsia pela concretude do ato de desenhar, nesse momento, volto-me para o instrumento que tenho na outra mão, e vejo que ele poderia pertencer ao contexto do objeto que observo. O instrumento, que, funcionalmente, amplia a capacidade da mão de fixar marcas em uma superfície qualquer, possibilita, simultaneamente, a auto-observação. O fato de esse instrumento fazer parte do contexto atual, em que o objeto observado e o próprio instrumento se inserem perpassando toda a memória da tradição faz com que se possam criar marcas com ele, que também abarcam e ultrapassam a história, e, dessa forma, mantém a sua potência transgressora. Essa criação das marcas que vão sendo fixadas pelo instrumento, através da potência narrativa do objeto, se desenvolve