24 Oliveira, Ronaldo (2014) “O sentido da memória e dos objetos pessoais na formação docente em artes visuais.”
nem tão querida assim. Vejo que ai tem algo que muito interessa a todos, aqueles que trabalham com arte e com a educação: aprender a lidar também com a dor, a falta, a perda, aprender a lidar com aquilo que nos incomoda. Madalena freire, autora que escolhi para ajudar-nos nesta construção nos diz: [...] O educador educa a dor da falta. Educa a fome do desejo. O educador educa a dor da falta cognitiva e afetiva para a construção do prazer. É da falta que nasce o desejo. Educa a aflição da tensão, da angústia de desejar. Educa a fome do desejo [...] (Freire, 1997: 6-7). O espaço da aprendizagem é, portanto, construído neste espaço da falta, da dor, daquilo que eu preciso enquanto sujeito; sujeito este que têm e trás uma história e vai assim acrescendo, transformando em conjunto, em comunhão uns com os outros. Faz-se necessário criar um espaço para falar: ouvir e ser ouvido. O processo aqui descrito exigiu que construíssemos este espaço de confiança, pois, como comentei em um dos nossos encontros: “só nos abrimos à aqueles a quem confiamos”. Creio que criamos este lugar. No momento de organização da disciplina, à medida que os objetos iam sendo trazidos, intitulei o processo, ainda que provisoriamente, de: Por uma História íntima do Objeto. Queria deixar claro, ali, desde aquele momento inicial, que só abriríamos as nossas intimidades, se criássemos, um lastro afetivo, um vinculo. Pois, acredito que não confiamos e nem dividimos nossas intimidades com estranhos, mas sim, as revelo, somente compartilho com aqueles a quem criamos laços. Ali, criamos um grupo mediado e construído pelos objetos e pelos nossos afetos. Utilizando do pensamento de Ecléa Bosi, percebemos o quanto precisamos e devemos ter cuidado quando lidamos com as narrativas na pesquisa. Sobre esta questão Bosi nos diz: [...] “é necessário que o pesquisador sofra de maneira irreversível o destino dos sujeitos observados, criando um vínculo de amizade e confiança com os recordadores” (Bosi apud Caldas, 2003: 2). Essa postura/dimensão da acolhida, da amizade, da confiança é um processo que se constrói, não existe a priori, ela vai estabelecendo ou não dependendo das maneiras como cada um encaminha os processos de pesquisa / formação. Vejo que o processo na disciplina foi sendo consolidado por meio do espaço propicio que se criou para cada um abrir-se para ouvir e ser ouvido. Sair da daquilo que queríamos escutar e ouvir verdadeiramente o outro, sem pré concepções. Madalena freire, nos diz: [...] Instrumental importante na vida do ensinar do educador é o ver (observação), o escutar e o falar. [...] Para escutar não basta, também, só ter ouvidos. Escutar envolve receber o ponto de vista do outro (diferente ou similar com o nosso), abrir-se para o entendimento de sua hipótese, identificar-se com sua hipótese, para a compreensão do seu desejo (Freire, 1997: 6-7).