Skip to main content

MATÉRIA-PRIMA 4

Page 231

Invertamos o ponto de vista: o museu como sujeito, o espectador como objeto. Como uma paisagem, o museu também é um constructo; apesar de seu papel global e de largo alcance como verdadeiro mito, em realidade pode ter um potencial social. Ver-se sentindo.(Eliasson, 2012: 26)

“Ver-se sentindo” nos remete à “razão sensível” trazida por Maffesolli (1998), que propõe o encontro entre a sensibilidade e o intelecto para alargar e aprofundar o pensamento. Emancipação, ação, experiência. A experiência é pessoal e intransferível, cada um só pode ver, mergulhar e sentir por si. Mas podemos ver juntos. Além do incomparável encontro com a obra, um dos maiores prazeres se refere ao encontro entre as pessoas! Como professores e mediadores não estamos do lado de fora. Independemente das diferenças de idade, de experiência e de papéis, não deixamos de ser apreciadores junto de apreciadores. Fazemos parte da expedição, somos todos viajantes (Figura 7 e Figura 8). A diferença talvez seja de que, como mediadores, olhamos mais para o outro e para tudo o que acontece, queremos favorecer as relações. Conscientes de nosso papel e de que a afetividade permeia os encontros, nossas mãos podem ajudar a apoiar, a sustentar, a dividir, a compartilhar (Figura 7). Às vezes é preciso encorajar o outro a fazer a travessia, a espiar em cima do muro, a pular o muro. Tantas vezes é preciso reconhecer que nossos olhos também não dão conta e não há como sabermos tudo. Estamos juntos no processo de mediação, no maravilhamento, entre mil possibilidades de exploração e a impossibilidade de dar conta do inesgotável:

231 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (4): 221-233.

receber palavras claras que nos indiquem que tudo está correndo bem... e esquecemos que a experiência dentro de cada um é o que nunca vai perecer. É preciso dosar, buscar encontrar a justa medida entre o estímulo e o repouso. Pois para se ter “uma experiência” no sentido que Dewey (1980:89) coloca, faz-se necessário mergulho e momentos de quietude. “A sensação nos guia e nos defende, sem ela morreríamos.[...] A mudez inunda nossos sentidos. O silêncio constrói o ninho, o habitat da sensação”, é o que nos sussura Serres (2001:127). Há propostas que lançam uma ruptura no tempo para poder ir além dele e convocam o corpo do apreciador de maneira especial, como as espetaculares intalações de Olafur Eliasson na exposição Seu corpo da obra (Figura 4), ocorrida em São Paulo. Estratégias para ver os apreciadores/protagonistas, e para se verem e perceberem suas sensações e sentimentos nessas situações de jogo:


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
MATÉRIA-PRIMA 4 by belas-artes ulisboa - Issuu