230 Demarchi, Rita de Cássia & Martins, Mirian Celeste (2014) “Ver crianças e adolescentes que vêem: reflexões a partir de imagens de visitas em exposições de arte.”
as crianças mostram saídas e respostas que escapam à previsível lógica adulta. Talvez entediado, talvez tentando romper limites, o menino maroto parece não se importar com as pinturas, contudo, ainda que sem querer, integra-se a elas, cria uma performance. Colado à parede, e em meio às portentosas pinturas, eternamente fará parte do museu, seu corpo impregnou as centenárias paredes de um frescor jamais pensado.... O registro do instante nos conecta a alguns artistas contemporâneos que, entre o padecer e o lúdico, dedicam-se a elaborar propostas que unam arte e vida. Como um fauno meio escondido, debocha de nós e estará sempre lá para nos lembrar que, como professores, estudamos e planejamos, mas é inútil e contraditório querer aprisionar a floresta e seus seres surpreendentes e espontâneos, ainda bem. Se o “menino-fauno” de Alécio não nos deixa esquecer de que como professores, precisamos de flexiblidade, de perceber o outro, de incorporar os imprevistos e a abertura da própria arte e de seu entorno, as “graças”, meninas mergulhadas na penumbra (Figura 4) na instalação Seu corpo da obra de Olafur Eliasson também o fazem e nos seduzem, como ninfas em uma floresta cerrada, bailam no espaço. Onde a princípio nada se pode ver, nós adultos percorremos tateando as paredes, com passos trêmulos. Ver é o de menos para elas, talvez por isso vejam com o corpo todo, entregues e integradas à natureza da qual fazem parte, da qual são a razão de ser. Gratuitamente as crianças são assim, “gratuita” e feliz é a arte que sem precisar servir para algo, serve ao essencial da vida. Vamos aprender com elas, as crianças e a arte, a gozar das incertezas e atravessar as fronteiras? Há momentos de dança e festa e há momentos de mergulho silencioso...Silêncio necessário para ver melhor. Aquietar-se para sentir melhor. Diante de uma pintura barroca holandesa ou diante de um vídeo há que se parar o tempo, pelo tempo que for necessário (Figura 5 e Figura 6). Na exposição Sob o signo de Amadeu: um século de arte na Fundação Calouste Gulbenkian, vimos a menina totalmente absorvida, mergulhada na fruição silenciosa do vídeo. Sentou-se no chão, capturada pelas imagens e ali ficou, até os pais a tirarem de lá, com a “urgência” de que ainda havia muito a ver. Uma das reclamações cotidianas com relação aos alunos é a de que as crianças e jovens de hoje “não têm atenção”, “não páram quietos” — os chamados “sujeitos pós-modernos” discutidos por Hall (2005). Mas e quando somos nós, pais e professores, que não compreendemos o silêncio e os diferentes tempos para a experiência de cada um? Às vezes nos tornamos ávidos por querer “fazer render mais”, ansiosos por cumprir roteiros e cronogramas, para expor trabalhos finalizados, ansiosos por fornecer grande número de informações e