No contato sensível com a produção artística, tanto de artistas de diferentes épocas quanto de parceiros num grupo, somos instigados a ampliar nossa própria significação do ser humano, do mundo, da cultura. Tocamos e somos tocados pelas formas simbólicas que o ser humano criou e tem criado em sua longa trajetória. Tocamos e somos tocados por aquilo que nos pode causar imenso prazer ou dolorosa sensação de mal-estar e não-saber, que muitas vezes nos afugenta. (Martins, 2012:19)
Ter um pé no caminho, não se deixar afugentar, transitar, chegar até a entrada do museu, cultivar as experiências, propor-se na preparação para o novo para si mesmo e para o outro em sala de aula traz algo ousado e destemido, passaporte para a descoberta. Prazer da descoberta, jogo, brincadeira, apropriação do espaço, de corpo inteiro... As crianças se surpreendem e surpreendem a nós... Historicamente, museus são sérios, são templos, e o Louvre é o templo dos templos. Daí nossa surpresa e incredulidade com o menino flagrado por Alécio de Andrade (Figura 3). Como ele conseguiu fazer isso? Por quê? Por vezes
Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (4): 221-233.
Preparação, espera, expectativa... A espiral no Louvre (Figura 1) prepara o corpo para o labirinto e o excesso, para a overdose de estímulos e sensações à qual os visitantes sabem que serão submetidos, e acreditam valer a pena. O portão de um galpão da Bienal do Mercosul (Figura 2) separam por minutos os adolescentes do espaço e das obras. Gostosa expectativa, esse estar tão perto e ainda longe... Como professores de arte, como nos preparamos e como preparamos os alunos para as visitas? Como os preparamos para apresentar a produção artística em sala de aula? A viagem começa na preparação, o antes já faz parte do caminho, chegar na ante-sala já é celebração. A celebração do cultivo e do deslocamento. Cultura tem a ver com cultivo e para que ela aconteça, devemos ter um pé na terra e trabalhar. E o outro pé no caminho. A comunhão do camponês com o marinheiro (Benjamim, 1987). É da natureza humana deslocar-se, buscar o novo, ir além do dado. Querer conhecer o que lhe aguarda do outro lado. Seja do outro lado do Atlântico, seja uma criação surpreendente vista na reprodução de uma imagem, ou algo pelo qual passávamos, não percebíamos e que foi possibilitado então existir para nós. Trazer para junto o que estava distante e distanciar-se para poder ver melhor o que está perto são conhecidas atitudes de apreciadores em museus e viajantes ao longo da história. Mirian Celeste Martins traz a metáfora da expedição como atitude de deslocamento e enriquecimento:
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4. Espaços de encontros