Forma visual do saber ou forma sábia do ver, o atlas perturba quaisquer limites de inteligibilidade. Introduz uma impureza fundamental — mas também uma exuberância, uma notável fecundidade — que estes modelos haviam sido concebidos para conjurar. Contra toda a pureza epistémica, o atlas introduz no saber a dimensão sensível, o diverso, o carácter lacunar de cada imagem. Contra toda a pureza estética, introduz o múltiplo, o diverso, a hibridez de toda a montagem. (Didi-Huberman, 2013: 12)
Procurando uma possibilidade de resistência à pureza epistémica e partindo do conceito de montagem, avança-se a possibilidade de criação de um jogo em que as imagens possam ser colocadas lado a lado e re-imaginadas, procurando-lhes novos sentidos, já que o jogo é também ele, em si mesmo, algo para “… além dos limites das actividades puramente físicas e biológicas. Tem uma função significante, ou seja, tem um sentido.” (Huizinga, 2003: 17) Este jogo/atlas (Figura 1) poderá constituir-se como uma devolução da possibilidade do pensamento sobre as imagens ao uso comum e, portanto, profanar o sagrado, porque “… não se pode fundamentar em qualquer nexo racional (…). A existência do jogo não está associada a qualquer estádio especial de civilização nem a qualquer mundividência. Qualquer pessoa que pense, mesmo que a sua linguagem não possua um conceito geral para o exprimir, poderá ver imediatamente que o jogo constitui uma coisa em si mesmo.” (Huizinga, 2003: 19) Não pretendendo associar-se a qualquer característica especial ou a uma racionalidade predefinida, o jogo está ao alcance de todos, tal como deveria estar a aprendizagem e a arte, e se o “…jogo apenas se torna possível, pensável e compreensível quando um influxo da mente rompe o determinismo absoluto do cosmos” (Huizinga, 2003: 20), será possível perceber a importância atribuída
183 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (4): 180-187.
reimpressão. Lógicas de inscrição, de transmissão e de reprodutibilidade que se encontram amplamente incrustadas nas práticas escolarizadas, assumindo o professor o papel do guardião dos conhecimentos e seu legítimo intérprete e associando-se aos alunos a ideia de que constituem os suportes sobre os quais se processa a escrita, em operações de recalque. Para procurar modos de profanação dos espaços sagrados da escola, parte-se do Atlas Mnemósine de Aby Warburg, “historiador de arte” que, sentindo a limitação de uma história que não dava resposta às suas inquietações, optou por montar imagens sobre pranchas de acordo com as temáticas segundo as quais pretendia olhá-las e que, entre elas, introduziu a contaminação, uma vez que não só as dispôs sem respeitar uma ordem cronológica, como misturou referências de diversos universos que não necessariamente os das belas-artes.