Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: Quando cheias de areia de formiga e musgo elas Podem um dia milagrar flores. — Manoel de Barros (2000: 57)
Entre máquinas, formigas e flores, as metáforas criadas pelo poeta e o cineasta ressignificaram também o cotidiano dos alunos. Na autoavaliação, apenas 5 alunos entre os 37da turma não citaram diretamente o documentário.
121 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (4): 115-124.
A elaboração da síntese visual e/ou escrita, a partir dos conteúdos trabalhos na aula anterior, apresentada logo após a agenda cultural semanal, potencializou as trocas entre os alunos e ampliou a compreensão da própria linguagem da arte.. A ‘obrigatoriedade’ dessa apresentação se transformou em partilha e aprendizado coletivo, numa recriação da própria aula, como vemos na Figura 3. Assim, como resultado dessas releituras, os alunos apresentaram para a turma, musicas ao vivo; produção e leitura de poesias; vídeos, fotografias, desenhos, autorais, objetos personalizados, performances, jogos e até uma instalação. Os estudantes destacaram positivamente o momento pessoal da elaboração e produção, bem como o momento coletivo das apresentações das sínteses em aula. Mariana K afirma que se sentiu segura ao apresentar a síntese aos colegas e também “senti prazer em participar da aula como nunca havia sido antes”. Entre os 37 alunos da turma, 33 declararam explicitamente a riqueza das trocas e reconheceram a importância da diversidade de pontos de vista apresentados. Facilitar encontros... Não seria este o papel fundamental da escola/universidade? “Tudo que não invento é falso!” Apostamos na poesia de Manoel de Barros, para construir no coletivo a complexidade das palavras invenção e sentido. Nascido em Cuiabá/MT, nos idos de 1916 e hoje na terceira infância, escreve que sua poesia “precisa atrapalhar as significâncias” e que se sente um “apanhador de desperdícios”. Não será preciso fazer o mesmo com a formação inicial dos futuros professores? Ao reconfigurar a palavra, o poeta diz do mundo, revelando desaprendizagens e novas significações para o cotidiano. Um encontro cinematográfico de inventividade espetacular, palavras, imagens e sons compõem a desbiografia autorizada de Manoel de Barros. O premiado documentário Só dez por cento é mentira, (Figura 4), do diretor Pedro Cezar, produzido em 2008, apresenta entrevistas inéditas com o escritor, seu processo de criação, versos e depoimentos variados. Nas palavras da aluna Isabella, os despropósitos apresentados através de Manoel de Barros trouxeram muita inspiração poética para a turma.