98 Afonso, Salomé Ferreira (2014) “Diário Gráfico ou a nossa Memória Externa.”
2. Construção de um diário A construção de uma narrativa através do Diário Gráfico é a chave para iniciar o projeto dialógico que o aluno irá construir de raiz, desde a sua encadernação, até ao seu total preenchimento durante aquele ano letivo. Esta narrativa articula-se pelas páginas sequenciais encadernadas, que diferem das folhas soltas com que o aluno está habituado a trabalhar, tornando por isso o seu caderno, num percurso em consciência através das suas aprendizagens. Partilhar o seu diário com o professor poderá parecer em si uma ideia paradoxal visto ser este um objeto pessoal, mas o arranque para a autonomia terá de ser iniciado e incutido pelo professor aquando dos primeiros passos do aluno no mundo da experimentação. Assim, será importante o estabelecimento de algumas regras acordadas entre professor e aluno no que concerne à avaliação deste objeto, propostas de trabalho obrigatórias e aqueles momentos de intimidade com o caderno a que só o aluno terá acesso. O Diário Gráfico terá de ser por isso apresentado ao aluno, não como imposição, mas fazendo-o sentir que este faz parte da sua rotina e que será uma extensão de si. Ao nível dos conteúdos programáticos para a realização deste projeto, estes serão variados visto ser um exercício em construção ao longo do ano lectivo. Na sua fase inicial de execução está, no entanto, associada alguma assertividade no lecionamento de alguns conteúdos como sendo o diário gráfico, a encadernação e todos os materiais e técnicas vinculados ao processo de encadernação escolhido pelo professor, metodologia de projeto e alguma abordagem à geometria (Figura 1 e Figura 2). Quanto à planificação do mesmo e com base no projeto desenvolvido numa turma de Educação Visual e Tecnológica do 6º ano de escolaridade, foi realizada uma planificação em que a encadernação do diário decorreu durante o primeiro período para que todos os conteúdos abordados ao longo do ano pudessem de alguma forma ser explorados nesse objeto. Desta forma, foi feita uma avaliação formativa tendo em atenção a evolução das aprendizagens do aluno. Para a encadernação foram tidas em conta questões de sustentabilidade e por isso foi requisitado que o aluno trouxesse para a aula folhas que tivessem sobrado de antigos cadernos ou blocos de desenho ou de jornais. Assim, os alunos além de reutilizarem material, tiveram a oportunidade de explorar as diferentes potencialidades deste suporte no que concerne às suas cores, gramagens e texturas através dos diversos materiais riscadores ou de pintura, bem como fazendo uso de colagens entre outras técnicas recorrentes e comuns utilizadas em diários gráficos (Figura 3).