2 — Desenvolvimento O trabalho com esta turma começou no ano letivo de 2012/2013 quando um grupo de trinta alunos do décimo ano do curso de artes. Nenhum dos alunos residia na área em que a escola se insere, a maioria, de diferentes origens étnicas, provinha das zonas suburbanas da cidade. Apesar do trabalho desenvolvido na disciplina de Desenho-A ser positivo, de se ter tentado aumentar a cultura artística através de visitas de estudo e de desenvolver um trabalho centrado em projetos práticos, com um caráter lúdico e propenso à inclusão, não foi possível evitar um grande número de retenções e desistências no final do 10º ano. Em 2013-2014, no 11º ano, a turma começou com dezanove alunos a Desenho-A. Apenas doze era do grupo original, dez raparigas e dois rapazes. Dos sete alunos integrados neste ano lectivo, um repetia o ano na escola, três vieram de países lusófonos e os restantes provinham de outras escolas. Desde o início do ano, foi evidente que as condições pedagógicas da turma se tinham agravado. Alguns não se conheciam e outros não estavam habituados ao ritmos e práticas consolidados no ano anterior: uso do diário gráfico, experimentação constante, autonomia e procura da originalidade. Por outro lado, a cultura descrita por Willis (1991) parecia estar agora completamente instalada. Apesar do bom relacionamento com todos os professores, a turma desenvolveu formas de boicote aos trabalhos escolares em todas as disciplinas: protelar o início dos trabalhos; pedir constantemente mais explicações que, no entanto, não resultavam em maior produtividade; pouco ou nenhum estudo sobretudo
59 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (3): 56-65.
possam desenvolver uma relação empenhada com a escola e o estudo. O quotidiano escolar é marcado, do lado dos alunos, pelo aumento da indisciplina, absentismo e desmotivação para tarefas escolares e, do lado dos professores, pela crescente sensação de que os alunos não estão dispostos a aprender. Verifica-se que existe um divórcio objectivo entre as representações que os professores têm da escola e aquelas que os alunos trazem sobre o “valor” e “utilidade” do saber que ela transmite e são sobretudo as representações dos alunos que estão a transformar a escola. No campo da formação artística, os desafios pedagógicos estão na ordem do dia: a opção pelas artes parece revelar que a escolha já não deriva da «vocação» mas antes resulta da fuga a outros campos. Das tranquilas turmas de outros anos em que o desenho e a oficina eram acarinhados e se constituíam até como motivadores para o trabalho das disciplinas mais teóricas, passamos para alunos que parecem desinteressados do trabalho, que revelam o medo de desenhar arrastando as tarefas até ao limite e que paralisam quando uma tarefa lhes exige mais autonomia.