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MATÉRIA-PRIMA 3

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58 Mendonça, Elisa & Henriques, Sandra (2014) “A minha arte é ser eu: O reflexo da cultura do aluno na autorrepresentação e a sobreposição desta à cultura de escola.”

vocacional por parte dos alunos, era possível construir turmas heterogéneas mas mesmo assim interessadas onde um núcleo mais motivado de alunos puxava pelos outros. Desde há anos, este clima tem vindo a mudar em muitas das escolas secundárias. Algumas das escolas das cidades, procuradas por alunos oriundos de ambientes mais desfavorecidos em busca de promessas de ascensão social, transformam-se em palcos onde uma população escolar multicultural e heterogénea se confronta com a cultura tradicional e académica dos professores. Estamos em crer que esta condição é comum à maioria das escolas, excepto aquelas que, no rescaldo dos exames e rankings têm escapado à guetização (cf., Ravitch, 2010). No entanto, aí chegados, os alunos desenvolvem o que Paul Willis designa de resistência à cultura escolar. Assumem uma postura típica de jovens oriundos das classes operárias: contestam o saber e a autoridade do professor e as regras da escola; desvalorizam as tarefas intelectuais, a leitura e do estudo; e desenvolvem um comportamento jocoso e desafiante face à autoridade dos professores (cf., Willis, 1991). Acresce uma outra resistência que deriva de uma autoimagem construída pelos jovens enquanto consumidores de objetos, de moda e tecnologia: esta nova vaga de alunos, para além de desdenhar o saber académico, valoriza a experiência vivenciada, o imediato, o centro comercial, o telemóvel. Este clima, a que muitos professores apodam de “inferno”, terá certamente diversas causas: uns dirão que a escola não faz sentido porque se mantém obsessivamente amarrada a modelos pedagógicos e tecnológicos anacrónicos; outros imputá-lo-ão à tensão social e desesperança provocada pela crise política e económica que percorre o país e a UE; outros, ainda, invocarão o alargamento da escolaridade obrigatória como origem do “mal”. A tónica colocada na elevação das qualificações-base dos portugueses é uma constante em estudos e relatórios de autoridades e instituições nacionais e internacionais (cf., CNE, 2004). No entanto, uma escola secundária que sempre se viu como uma antecâmara da universidade, dificilmente estará preparada para lidar com os jovens provenientes das classes sociais mais desfavorecidas que a demandam. Menos ainda quando da tutela emana um discurso meritocrático que tudo quer aferir à norma. Estes alunos requerem praxiologias que lhes permitam superar as condições adversas, de severa carência cultural, com que chegam ao secundário. Como está organizada, a escola não tem nem tempo, nem recursos, nem, provavelmente propensão para repensar práticas e metodologias para que estes alunos


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