1.1 — Enquadramento Num estudo efetuado a partir dos relatórios dos reitores dos liceus entre 1836 e 1960, Barroso (1995) demonstrou que mesmo num contexto de grande unicidade e normatividade, ocorreram reinterpretações e práticas específicas ligadas aos contextos e lugares onde as ações aconteciam. Do mesmo modo, Nóvoa (1995) refere que as organizações escolares ainda que estejam integradas num contexto social mais amplo produzem uma cultura interna que lhes é própria e que exprime valores e crenças partilhados pelos seus membros. Ora, sendo todos os atores da escola produtores de cultura, esta é uma questão fundamental na formação de professores: a prática pedagógica está intimamente relacionada com os processos de construção de uma cultura de valorização do conhecimento. Sendo verdade que no imaginário dos professores é ainda a construção mítica do liceu que prevalece, as sucessivas reformas que chegaram às escolas tentaram forçá-los a uma prática menos expositiva e mais colaborativa sem que, no entanto, a sua praxis se tivesse alterado substancialmente (cf., Barroso et al., 1999). Mas, sobretudo porque ao ensino secundário não havia chegado ainda a escolaridade obrigatória, a escola foi conseguindo sobreviver com essa cultura académica mais ou menos intacta, através de uma seleção feroz dos alunos no décimo ano. Apesar desta seleção, os professores queixavam-se (e ainda se queixam) de que o nível escolar baixava de ano para ano, embora de algum modo a escola fosse conseguindo manter a conformidade com um processo pedagógico baseado no respeito pela figura tutelar do mestre, o estudo atempado das matérias, a preocupação com os trabalhos de casa e o entendimento da sala de aula como um espaço sagrado da relação pedagógica. No campo das artes, que é o assunto que nos traz aqui, esse espaço parecia para sempre protegido porque sendo um área de forte motivação
57 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (3): 56-65.
1— Introdução O planeamento e a aplicação da unidade didática (UD) em análise ocorreram no ano letivo de 2013-2014, durante o estágio curricular integrado no mestrado em Ensino das Artes Visuais do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, na disciplina Desenho-A de uma turma do 11º ano de Artes Visuais de uma Escola Secundária da cidade de Lisboa orientada pelas autoras. A UD, desenvolvida a partir de conteúdos de Desenho-A (estudo da figura humana e transformação gráfica) e dos conceitos de autorretrato e auto- representação, tinha como objectivo principal superar a resistência dos alunos ao trabalho e cultura escolar e motivá-los para superar dificuldades, de forma a melhorar autoconceitos e o sucesso escolar.