22 Frade, Isabela (2014) “Arte educação inclusiva e formação docente: o corpo ferido e a imagem especular.”
um programa de investimento de esforço e tempo nessa indulgente aderência aos padrões dominantes. Ver-se é um importante exercício: reconhecer que exigência social não prescinde de modelos é o primeiro passo para o jogo mais rico de referenciais de beleza — e encontrar-se com os outros em um campo de trocas e diálogos afetuosos é estimulante. Nesse sentido, a aula é vista como espaço do encontro consigo mesmo e com o(s) outro(s) (Figura 1, Figura 2). Lugar privilegiado para a aproximação, comparação, imitação, diferenciação, e todos os jogos de identidade que podem surgir na interação humana nesse microcosmo do socius. A universidade deve se admitir como um campo de experimentações humanizantes, valorizando a interação que suscita o estar-junto e recriar essa interrogação íntima: — Quem estou sendo? A identidade ferida, o espelho que responde em rejeição, se estabelece a partir de uma relação ambígua entre estereotipo e atributo: quando aos olhos de si mesmo o sujeito se nega, recusa o que se observa, se percebendo não como o sujeito a partir de seu interior, mas completamente exteriorizado, alienado de si e plenamente identificado com a rigidez do modelo externo. Muitas vezes essa negação é antecipada por violentas formas de acusação, de rejeição e assédio moral. Esse, na escola reconhecido como “bulling”, é forma agressiva de negar a existencia da diferença de modo brutal: não se aceita uma deficiência e se acusa o outro de exibi-la; a agressão pode chegar ao dolor físico grave e mesmo à morte, como pode ocorrer em algumas circunstâncias. Uma grande campanha sobre o bullying foi desenvolvida no Brasil nos últimos anos. Vimos que esse aporte educativo requer uma atenção e cuidado constante. Não se trata de punir e evitar, com ameaças de castigo e exclusão, mas de esclarecer, de aproximar, de dialogar. As diferenças são desafiantes e é preciso que os educadores acompanhem esse exercício com muita dedicação: o ensaio nesse jogo da integração ao coletivo da turma e da escola como um todo é muito importante. O que se percebe nas nossas escolas — uma pressão esterna pelas politicas públicas de ensino calcadas em exames quantitativos — é a preocupaçao com resultados. Resultados numéricos de expressão comparativa. Não há busca de identidade ou de experiência investigativa, salvo raras exceções. Essa pedagogia corajosa fica à margem e a sociedade duvida de seu desempenho. Afinal, como ficar fora do ranking? Essa tem sido nossa obsessão — cada vez maior esse se trata de identificar excelências e de premiá-las como se fossem certezas universais. A universidade padece desse mesmo acometimento — o número do ranking mede proficiência e nivela sempre em função de quantidades de coisas produzidas — cursos, títulos, artigos, teses, produtos de uma