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MATÉRIA-PRIMA 3

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Todos olham Narciso — padrões estéticos e emancipação da diferença O espelho a que nos referimos é o plano da autoimagem. Nem sempre o que vemos pode se exatamente o que os demais percebem, nosso reflexo está impregnado de imagens internas que se projetam — vemos o que encarnamos no mundo (Merleau-Ponty). Narciso decide permanecer indefinidamente ao lado de seu reflexo por sentir-se belo, recompensado. O problema de quem não se encontra reconhecido nos modelos de “normalidade” — em nosso país, Brasil, o modelo europeu é a norma: faixa restrita a uma figura caucasiana, masculina, jovem, cabelos abundantes e lisos (preferencialmente louros) de feições bem definidas e forte, saudável. Todos os demais, aqueles que não se identificam nesse padrão estão deslocados. Servem-se do modelo para se adequarem — quando isso é possível-, e aí há toda uma modelagem dos corpos,

21 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (3): 20-29.

Introdução A abordagem da perspectiva inclusiva vem transformando o trabalho da formação docente de modo intenso em nosso curso de Licenciatura em Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro desde 2004, época da Nova Deliberação do Ministério da Educação para os cursos de Licenciatura no Brasil. De uma desejável abertura, segue a exigida capacitação para os mais diferentes modos de inclusão; uma desafiadora tarefa, considerando que a própria universidade ainda não está devidamente preparada para essa prática. Ou seja, apresentamos as recomendações e princípios, observamos os espaços educativos em levantamento cuidadoso, mas não exibimos essa ação no cotidiano universitário: não temos alunos especiais e não atuamos verdadeiramente a não ser nos momentos finais dessa formação, nos estágios. Reconhecer quem é “especial” vem implicando, desse modo, uma delicada expansão do sentido da abrangência geral desse termo. A motivação é constituída por experiência direta e envolvimento profundo entre teoria e prática. Desenvolvemos uma relação íntima com cada trajetória pessoal, delineando perspectivas subjetivantes na questão da deficiência e de seu estigma (Goffman, 2011). Suas linhas teóricas compõem-se em três unidades: A) o sentido da diferença e os direitos humanos, B) as políticas educacionais inclusivas e as agências pedagógicas transformadoras, C) as instituições educativas formais e não formais e o lugar da arte na inclusão. Está contemplado, nesses três âmbitos, um progressivo adensamento teórico sobre a percepção em aporte fenomenológico (Merleau-Ponty, 2009), a arqueologia do pensamento sobre “os anormais” (Foucault, 2011), a desconstrução discursiva derridiana (Derrida, 2004) e a ecosofia de Guatarri (2004) entre outros estudos na conceitualização da diferença, da gênese da norma e do desvio na cultura.


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