Conclusão O grupo de alunos (ou parte dele) a quem foi proposto o desenvolvimento deste projeto, muitos de pés assentes no ensino secundário e alguns no Curso de
101 Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 2 (3): 96-102.
igualmente de qualquer tipo de tecnologia actual, ligada à electrónica ou informática, que diariamente cativam estes jovens? Como resposta a estas questões recorri então ao Diário Gráfico como um mapa do tesouro e como suporte para a sua memória externa. Depois do aluno participar na sua construção e ficar por isso com algum envolvimento emocional com aquele objeto, olha para cada página em branco como um desafio. Desafios esses que numa fase inicial serão lançados pelo professor e que culminam em descobertas pessoais. Como exemplo, e frisando que para este exercício foram usados diferentes papéis com diferentes gramagens e texturas, um desenho de aguarela sem o aluno conhecer ainda os materiais, obrigam-no a experimentar a aguarela numa página aleatória, a página que estará disponível a seguir à última preenchida. Se, neste exemplo que refiro, o aluno experimentar as aguadas por cima de uma folha de jornal e esta rapidamente ensopar e rasgar leva-o sozinho a conclusões sobre a interacção do material sobre determinado suporte, o que o poderá levar a procurar uma página mais espessa e deixando algumas páginas em branco. Todo este trajeto entre descoberta e orientação do professor faz deste recurso uma ferramenta pedagógica onde o aluno reconhece o erro como gerador de conhecimento e não como um fator depreciativo na sua aprendizagem. Também as páginas que serão deixadas a branco pelo aluno não serão desprovidas de significado e é importante para o professor perceber os significados desses hiatos como resultado de uma experiência que poderá ter trazido algum constrangimento ou retração do aluno, ou se houve algum propósito experimental ou outro. Além da aprendizagem através da experimentação, o Diário Gráfico, tal como a leitura de um livro, promove o desaceleramento e a introspecção, e nas artes visuais, conceitos como olhar e ver são introduzidos ao aluno através da atenção que lhe é requerida, por exemplo, num desenho de observação, enriquecendo a sua cultura visual e sedimentando novos conceitos. É por esta ligação, entre a sua memória e aquele caderno, que lhe chamo memória externa ou arquivo vivo. O Diário Gráfico é um recurso pessoal ao qual o aluno poderá sempre recorrer, permitindo-lhe viajar por aprendizagens e conceitos, momentos da sua vida, histórias que ali registou ou mundos que gostaria de explorar “O desenho é como um catalisador de memória e do imaginário. A viagem torna-se aquele caderno.” (Salavisa, 2008)