Conclusão
Trabalhar com memes em sala de aula representou para mim um momento de desconstrução de alguns paradigmas estereotipados acerca do que é e o que não é conteúdo para ser estudado na escola e, mais especificamente, em uma aula de arte. Acredito que o ponto de maior tensão de toda a atividade foi o confronto que tivemos com as linguagens consideradas desapropriadas, ou palavrões, utilizados pelos memes da internet. Posso, enquanto professor, permitir o uso ou a presença desse tipo de linguagem na escola? Acredito que não posso, uma vez que estou sob uma hierarquia institucional. A limitação nas expressões verbais (consideradas inapropriadas) incluiu o elemento (ou contexto) “escola” à criação dos memes, modificando-os mais uma vez (lembremo-nos que os memes não são replicadores de alta fidelidade, conforme Dawkins). A linguagem utilizada não pôde ser exatamente a dos
87 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 1 (2): 80-88.
arte na escola. Pensar acerca de si próprios através das histórias com memes pareceu-lhes um desafio estranho no princípio, mas a maior parte dos grupos aceitou a proposta. Sobre o trabalho prático, o recorte e a colagem no software Gimp resultou mais difícil do que o esperado, levando-me a propor a impressão de algumas imagens e a montagem de forma manual das histórias para alguns grupos. Após esse processo fotografei as montagens para a publicação no blog. O problema técnico nos levou a refletir acerca de diferentes possibilidades para além do computador para nossos objetivos de criação online. “Poderíamos criar memes fotografando uns aos outros”, sugeriu uma estudante. Observando o resultado final dos trabalhos, percebi que a totalidade das histórias desenvolvidas pelos alunos já existem na internet, e isso acredito não ter sido um problema, uma vez que o conceito do meme é a imitação, e o objetivo deste trabalho foi percebermos as alterações que o mesmo sofre a cada duplicação, além dos motivos que levaram o aluno à escolha daquele meme e daquela história. A linguagem utilizada chamou-me a atenção, uma vez que um grupo optou por escrever tudo em inglês, distanciando o trabalho da proposta que era a representação de si próprios. Apesar da maior parte dos estudantes ser de etnia africana, ninguém alterou a cor dos personagens recortados para identificação. Por fim, os trabalhos foram publicados no blog para serem comentados. Todos os estudantes gostaram da experiência e muitos afirmaram querer trabalhar mais com outros tipos de memes nas próximas aulas. Chegamos à conclusão de que um meme novo pode ou não se tornar famoso, e que qualquer um de nós pode ser criador, para além de simples propagador ou espectador.