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MATÉRIA-PRIMA 2

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327 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 1 (2): 321-333.

Fica evidente, assim, que os currículos devem incluir, de algum modo, as vozes daqueles para os quais são construídos. Percebi que o bibelô não só fez parte da vida de todos os que vivem ou viveram na casa adornada por ele, mas foi capaz de provocar sensações, emoções e pequenos prazeres cotidianos, conforme relatos de pesquisa feita com os oito filhos. O objeto, aos poucos, revelou verdades e saudades, presenças e ausências, além de afinidades que já existiam. Certamente, somos cúmplices, construtores e guardiões de nossas histórias de vida; precisamos saber disso. Ao percorrer a história do objeto, percebi que, impregnada de minhas experiências anteriores, fui capaz de interpretar o que foi significativo no entrelaçamento das disciplinas, o que possibilitou a quebra de paradigmas, pois “estudamos muitos conceitos na escola, mas sobre nós mesmos, quase nada” (Cunha, 2007: 15). Num primeiro momento, durante o desenvolvimento da disciplina, fomos convidados a narrar e a ouvir as muitas vozes trazidas via objetos; foi o tempo da narrativa, de entrar em nosso espaço/tempo e no do outro. O entrelaçamento das disciplinas de Metodologia e Poética se deu por meio da linguagem da gravura. O Professor Cláudio Garcia, na disciplina de Gravura, aceitou trabalhar de maneira interdisciplinar com o objetivo de explorar as diversas possibilidades que o objeto poderia propiciar. Assim, foi introduzido o desenho de observação e atividades de aproximação e distanciamento do objeto. Ao término dessas atividades, cada um pode escolher o material que julgasse melhor para as primeiras investidas na gravura. Optei por algo que nunca havia realizado a xilogravura. A partir daí, fui dando vida ao meu cachorro de louça por meio de entalhes e da tinta uniforme que, ao passar pela prensa, registrava com precisão as marcas impressas na madeira. Cada novo entalhe resultava em mais luz na matéria, na educação e na vida. Saboreei cada traço, cada sulco, cada nova descoberta. A cada impressão, um novo detalhe foi necessário e, às vezes, as mãos e os braços doíam, mas se a persistência e a paciência são elementos essenciais à gravura, vejo que, de fato, o cachorro de louça (Figura 3) lembra meus pais, que, apesar das dificuldades, não desistiram nunca, nem dos sonhos, nem de nós. Não é possível ser a mesma após passar por este processo de ensino aprendizagem, como diz Dworecki “é importante que eu faça, para saber conduzir e entender processos” (Dworecki, 2006). Quando me deparei com meu Cachorro de Louça (Figura 4) escapando da folha, não por intenção minha, mas porque ele quis deixar sua impressão imperceptível no rolo que espalha a tinta, eu não tive mais dúvida, o trabalho falava por si. O próprio objeto revelou que ele queria ser mais. Assim, conclui que


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