324 Martins, Vera Lúcia & Oliveira, Ronaldo Alexandre de (2013) “Memória, Objeto e Lugar: Descobrir-se e Desdobrar-se na Arte, na Educação e na Vida.”
individual e coletiva. Segundo Santos (1986: 23), “o objeto possui duas faces: a verdadeira, que não se entrega diretamente ao observador, e a face visível, amoldada pela ideologia.” Ao tomá-lo como fonte de pesquisa percebe-se que o objeto é parte do homem, basta buscar na história e na vida das pessoas essa presença vívida. Para Ramos (2004: 36), “os seres humanos criam e usam objetos, os objetos criam e usam os seres humanos,” a historicidade de um está impregnada na do outro, já que não se separam e formam um único corpo dialógico. É esta interdependência que possibilita um diálogo com o passado, o que não significa apenas preservar o objeto do esquecimento, mas interpretá-lo à luz de outros tempos. Acreditar que a história de vida pode ser um grande catalisador do conhecimento científico é possível quando há o entrelaçamento do sensível e do intelectual por meio de registros. Cada professor, com sua história, seus conflitos, inquietações e descobertas, é um pouco artista, docente e pesquisador. Assim, pode-se dizer que o ato docente é também um ato de criação. Madalena Freire corrobora essas reflexões ao afirmar, em seu texto A aventura de ensinar, criar e educar, que: “[...] O educador lida com a arte de educar. O instrumento de sua arte é a pedagogia. Ciência da educação, do ensinar. É no seu ensinar que se dá seu aprendizado de artista. [...]” (Freire, 1996: 5). Desse modo, a experiência do outro possibilita rearranjos na prática do professor e acaba por expandir numa profusão de fios que entrelaçam diferentes contextos. Ao apresentar ao professor a possibilidade de revelar sua história sem medo de parecer menos científico, a formação continuada instiga-o a “abordar o conhecimento de si mesmo pelo viés das transformações do ser — sujeito vivente e conhecente no tempo de uma vida, através das atividades, dos contextos de vida, dos encontros, acontecimentos de sua vida pessoal e social” (Josso, 2007: 420). Ao mesmo tempo em que este encontro consigo mesmo revela rupturas com antigas concepções e ações, evidencia também ligações com o contexto histórico, o que se traduz no fazer pedagógico e em mudanças atitudinais em relação ao grupo. O professor percebe que está em constante movimento. 2. Por uma história íntima do objeto
A proposta realizada na disciplina de Metodologia e Prática do Ensino de Artes Visuais I e II, coordenada pelo professor Ronaldo Alexandre de Oliveira, instigou-nos a escolher um objeto que nos ligasse a um lugar e a nossa própria história. O objeto poderia ser algo próprio, ou familiar, ou ainda, um objeto indistinto da proximidade física, mas que guardasse relação com um lugar, uma paisagem. O objeto não precisava remeter somente ao prazer, à saudade, a boas lembranças, mas também ao que incomoda, ou seja, ao espaço de conflito. A