1. O entrelaçamento dos fios da memória-objeto-lugar
Ao refletir sobre o próprio percurso, o professor entende que cada um mobiliza a seu modo, os conhecimentos internalizados e as experiências vividas, o que o leva a valorizar não somente a sua forma de ver e perceber o mundo, mas também a dos alunos. Para compreender que a formação e a atuação do professor são influenciadas pela memória-objeto-lugar, deve-se penetrar “nas noções que as orientam, fazer um reconhecimento de suas necessidades, ouvir o que já não é audível” (Bosi, 1994: 414), pois “a identidade é um lugar de lutas e conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão” (Nóvoa, 1995: 16). Ao longo do tempo, o entrelaçamento e a reciprocidade destes elementos, memória-objeto-lugar, vão configurando o fazer pedagógico. Para isso é preciso entender que a aprendizagem é um processo contínuo, que se dá pela absorção e troca de conhecimentos, e a memória via os objetos pessoais é um elemento importante neste contexto que pesquisamos aqui. Bosi ressalta que: [...] A memória é a faculdade épica por excelência. [...] A história deve reproduzir-se
de geração em geração, gerar muitas outras, cujos fios se cruzem, prolongando o original, puxados por outros dedos. (Bosi, 1994: 90)
Os objetos circundam os espaços e a vida das pessoas e graças a sua materialidade intrinsecamente ligada à vida, contam histórias, pois guardam a memória de uma época, de uma sociedade que são desveladas a partir da interação dialógica com as estruturas familiares. Sobre a universalidade dos objetos, Bosi reflete: [...] Mais que um sentimento estético ou de utilidade, os objetos nos dão um assentimento a nossa posição no mundo, a nossa identidade. Mais que da ordem e da beleza, falam a nossa alma em sua doce língua natal. (Bosi, 1995: 441). Gonçalves (2005) faz uma viagem antropológica a partir do objeto e ressalta que, ao se acompanhar seu deslocamento ao longo das fronteiras que delimitam os diferentes contextos, pode-se entender a dinâmica social e cultural, os conflitos, as ambiguidades e os paradoxos dos ambientes nos quais este está inserido, além de perceber que o mesmo se encontra envolto em subjetividade
323 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 1 (2): 321-333.
Assim, tornar-se sujeito da história implica em estar atento às novas possibilidades de alargamento do saber já constituído, pois, para ser educador, não basta apenas se graduar, mas é necessário estar em constante movimento em busca de um saber que advêm da inquietude.