2. Da cultura popular à cultura popular: o intercâmbio de ficções nas sociedades ao longo da história
O intercâmbio de modelos de personagens, ou heróis e dos modos de narrativa ficcional sempre existiu entre as pessoas, desde os tempos em que os meios de comunicação não eram tão avançados como hoje. Um exemplo disso foi o que aconteceu com as narrativas orientais “As Mil e uma noites”, como demonstra Costa (2002), ao citar o primeiro ato de colonização ou o processo de mundialização da cultura, que foi o comércio com os territórios asiáticos. Aquele narrar misturou-se rapidamente ao imaginário de uma população migrante e proletarizada, que encontrou nas narrativas de ficção um porto seguro, a memória, o saber espontâneo e o estímulo a alcançar um conhecimento indicial que a cultura letrada não considerava (Costa, 2002). Do picadeiro para as telas de TV, das tendas para as redes digitais, as narrativas míticas e mágicas mantiveram o gosto e confiança na vida, incorporando nessa confiança um pouco do mundo alheio (Bougnoux, 1999, apud Costa, 2002: 110). Mas esse intercâmbio de narrativas não acontece apenas entre nações diferentes, mas entre universos culturais que coexistem em um mesmo
287 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 1 (2): 285-293.
mente o mundo humano, ou cultural, em que está necessariamente inserida. O desenvolvimento dos meios de comunicação vem expandindo as possibilidades de narrar e compartilhar ficções, desde o registro da informação escrita em rolos de papiro e seu armazenamento em bibliotecas à prensa de Gutenberg e à internet. Os resultados da evolução tecnológica vivenciados hoje em dia também reforçam a necessidade ficcional do ser humano, pois a transformam e permitem que sejam alcançadas por um maior número de pessoas. A necessidade desse constante ouvir e narrar histórias ficcionais é explicada por Propp, ao afirmar haver uma unidade de composição nos contos originais de qualquer cultura, que sofre interpretações na medida que o homem vai modificando sua maneira de produzir sua subsistência, (Propp, 1997, apud Costa, 2002: 26). Ocorre, assim, uma transformação constante dos personagens e de suas funções narrativas e que nesse processo constante de mudança, há a dessacralização do mito e sua transformação em objeto estético. Dessa forma, o ser humano abandona as explicações mitológicas da natureza e se abre para uma perspectiva mais criativa: seu estar no mundo agora é mediado pela necessidade de estética, presente na ficção (Propp, apud Costa, 2002: 26). Graças ao distanciamento em relação à realidade concreta, a ficção é revolucionária, pois torna visíveis a realidade e a utopia, oferecendo à primeira, uma oportunidade de mudança.