286 Paim, Ivana Soares (2013) “Era uma vez e para sempre: a narrativa no ensino de artes e literatura.”
da cultura onde foram criadas, e por isso, estudá-las implica em ir além do que aparece apenas no visual: “é um olhar na vida da sociedade, e, na vida da sociedade, representada nesses objetos” (Hernández, 2000: 53). Essa concepção abre a possibilidade de estudar a produção imagética de uma sociedade em pleno diálogo com outras linguagens artísticas e disciplinas, como a literatura, a história, a música e a sociologia. Contudo, é importante deixar claro que a abordagem de Hernández, proposta para o ensino de artes, não diz que as imagens devam ser tratadas como meros trampolins para o engrandecimento pessoal dos estudantes, mas que eles possam compreender mais amplamente aquilo que já apreciam. Partindo desse ponto de vista, a ideia do ensino de artes como ensino da cultura visual endossa o pensamento de Lanier (1984, apud Barbosa, 2005: 45), no que diz respeito a ampliação do universo estético que o aluno já traz para a escola, principalmente por entender a arte e as imagens criadas por uma sociedade como intermediadores culturais. Assim, partindo das abordagens de Hernández e Lanier, foi possível pensar em um projeto que auxiliasse alunos a ampliar seu repertório estético, partindo do viés das narrativas ficcionais, que vêm constituindo o imaginário humano ao longo dos tempos, estando presentes principalmente nas linguagens: imagética e verbal, ou na literatura e nas artes visuais. Nas demais seções deste artigo, serão apresentadas teorias que sustentam a proposta do projeto de tomar as narrativas ficcionais como eixo de coesão entre os diálogos significativos, entre artes visuais e literatura; como também, a apresentação da dificuldade de manter uma relação democrática com os alunos no desenrolar do projeto. 1. A necessidade de ficção: narrativas ficcionais para a constituição de um mundo aculturado
A comunicação por meio da linguagem transforma-se em veículo que liga a interioridade e a exterioridade do ser humano, resgatando o elo perdido entre ele e seu mundo. “Em razão disso, a expressão humana dirige-se para o real, constituindo-o, impregnando-o de um simbolismo que o acultura e torna partilhável” (Costa, 2002: 12). Há, porém, um discurso que não se orienta explicitamente para o real, mas dele se afasta para referir-se à interioridade humana, que é a ficção. A ficção na verdade não se opõe à objetividade dos fatos, mas a apresenta de acordo com a subjetividade que a vivencia, e assim, mobiliza a natureza sensível e afetiva da dimensão cognitiva da mente humana (Costa, 2002). Não importa a nacionalidade, época ou classe social de que faça parte uma pessoa, ela sempre necessitará de ficção para compreender estetica-