27 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 1 (2): 24-29.
Nesse caso, é necessário pensar se os conteúdos, sua organização e os exercícios artísticos propostos no livro didático são extraídos dos saberes que possibilitam aos alunos compreenderem: primeiro, que as representações artísticas são intencionais, são expressões de um sujeito e para um sujeito, que, assim como os discursos, as imagens representam e se referem a algo, dizem algo sobre alguma coisa; segundo, são construções que exibem uma estrutura articulada e estão sempre inseridas em processos e contextos sociais e históricos específicos dentro dos quais e por meio dos quais as imagens são produzidas, transmitidas e recebidas; por último, que a produção, a construção ou o emprego das representações artísticas, bem como a interpretação das mesmas pelos sujeitos que as recebem, são processos que envolvem a aplicação de regras, códigos ou convenções de vários tipos. Em síntese, compreender que as representações artísticas não são simples reproduções passivas — objetos miméticos — daquilo que alguém percebe, mas um sistema de significações: as obras de arte são monumentos representativos da civilização na qual foram produzidas. Desse prisma, outro eixo norteador da análise e da crítica refere-se aos pressupostos teóricos e metodológicos por trás da leitura e interpretação das imagens, por conseguinte, que conceito de imagem e representação o livro didático postula. Isto por que, muitas vezes, toma-se uma pela outra. Assim, esclarecendo, uma imagem, segundo Damasceno (2004: 32), “é uma semelhança feita a partir de um modelo com o qual e para o qual difere em algumas coisas, pois certamente não identifica-se completamente com o arquétipo”. Portanto, pode-se deduzir que são representações e enquanto sistemas simbólicos são interpretações. O problema é que a leitura de uma representação ou da imagem presa ao que é dado a ver na sua aparência imediata, sobretudo aqueles que carecem dos códigos de sua apreciação, pode não só impedir que se penetre nos seus significados como também velar, obscurecer e dificultar o acesso à sua opacidade. É necessário, então, identificar no livro se ele aborda a dupla função — a transparência e a opacidade — da representação. Uma imagem é o representante, o substituto de qualquer coisa que ela não é e que não está presente. Por exemplo: “olho uma fotografia qualquer de De Gaulle. Digo: ‘É De Gaulle’. Olho um retrato de Descartes feito por Franz Hals. Digo: ‘É Descartes, é efetivamente ele, reconheço seu sorriso e sua altivez’. Mas digo também: ‘É Franz Hals, é realmente ele, reconheço sua maneira e sua desenvoltura’” (Wollf, 2005: 39). Uma representação é uma construção, uma montagem, portanto, sua leitura é uma indagação sobre os sentidos que encarna. Daí a importância da escola: talvez o único lugar de acesso ao saber artístico para o conjunto dos alunos da escola pública. Por essas razões, a principal tarefa da arte na escola