1. Desencontro
O estudo que foi elaborado para o projeto europeu ITEMS (baseado em questionários de resposta aberta e fechada) apresenta um conjunto de situações que levam a crer que a forma como escolas e museus se relacionam é, muitas vezes, desencontrada. Cada parte cria determinadas expectativas sobre a outra parte e o momento do encontro defrauda, por vezes, as expectativas criadas. Por exemplo, os museus creem que a maioria das professoras não prepara as turmas para a visita guiada/orientada e que isso impede uma sensibilização adequada para o conteúdo de cada visita (Eça & Ornelas, 2011). “A maioria dos alunos faz parte de um público muito pouco formado, alguns com referências da História de Arte mas que quase nunca vão até à contemporaneidade,” refere-me uma educadora de museu. Esta é uma expectativa que o museu cria sobre o público escolar que recebe: que as turmas venham preparadas. Por seu turno, a maioria das professoras referiu, neste questionário para o ITEMS, que prepara as suas turmas antes das visitas, o que leva a crer que há um desencontro na utilização do conceito preparar. Cerca de 20% das professoras inquiridas referiram que os museus não entendem o funcionamento das escolas e 14% indicaram ter dificuldades no contacto com os museus (Ornelas, 2012). A escola acredita que o museu educa e muitas vezes apropria-se daquilo que o museu lhe pode oferecer através uma ligação excessiva aos currículos escolares. A escola crê que o museu poderia ser um lugar mais livre, mas como o museu cataloga as pessoas como pertencentes a um determinado perfil de visitante, acaba por limitar essa liberdade, pois ao catalogar, significa que espera que as pessoas tenham determinados comportamentos ajustados ao perfil tipificado (Eça, Saldanha & Vidal, 2012).
181 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 1 (2): 179-188.
apoio ao currículo escolar (Gómez, 2009). Para descrever algumas situações que considero importantes para estabelecer uma perspectiva possível sobre a relação entre escolas e museus, recorrer-me-ei também, neste texto, da minha experiência de visitar museus, quer como professora, com as minhas turmas, quer como visitante individual, quer ainda como observadora de visitas escolares. Desta minha experiência, concluo que há desencontros entre o discurso do museu e as necessidades da escola e que esta relação é desigual, pois na maior parte dos casos o museu assume uma posição hegemónica perante a submissão da escola às regras e discursos do museu. Estes discursos são direcionados (Ellsworth, 2005), “ensinando” as/os alunas/os a reproduzir uma verdade universal, de acordo com práticas modernistas que não permitem o micro-relato (Acaso, 2012), acabando, assim, por não contribuir para o pensamento crítico como meta pedagógica.