172 Bahia, Sara & Trindade, José Pedro (2013) “Arte como desenvolvimento da literacia crítica.”
auto-capacitação (Freire, 1992). Como refere Figueiredo (1994), a literacia não é apenas aprender a codificar e descodificar linguagens mas é também interiorizar culturas, pela acção e pela interacção. Essa constante construção de significados, interpretação e reinterpretação gera a capacidade reflexiva e transformadora característica de quem pensa em termos críticos e criativos. Intrinsecamente oposto ao pensamento reprodutivo e fragmentado, o pensamento crítico parte de uma visão sistémica e complexa do todo que é o conhecimento (e.g. Ennis, 1989; Morin, 1996). Envolve a produção de ideias e pensamentos originais (Jonassen, 1996), a intuição, imaginação, criatividade para análise dos processos de pensamento responsáveis pela compreensão e interpretação da realidade circundante (e.g. Litecky, 1992) Trata-se de um processo sequencial de resolução de problemas, interno que permite que a pessoa se separe do mundo externo para se concentrar num diálogo interno e na contemplação de ideias, conceitos e imagens (Garrison, 1992). A literacia crítica requer a construção conjunta do conhecimento, verdade e linguagem através do questionamento dos pressupostos de base e da acção de pensar e de sentir sobre as imagens que nos constroem (DE, 2009). O mundo interno emerge a partir de uma ação conjunta e dialética com base na criatividade da interacção humana que constrói e ao mesmo tempo é construída pelas realidades sociais) (Shotter, 1993). Desenvolvimento
A educação artística favorece a literacia crítica possibilita na medida em que permite uma reflexão constante acerca dos processos e a exploração de múltiplas alternativas. A experiência artística é crítica no sentido em que permite a criação de estratégias alternativas que permitem que os alunos explorem e aprendam sobre as suas próprias vivencias (Millman, 2009). A educação artística promove a atenção aos detalhes e às nuances, a interacção com a experiência, a noção de tempo, a ideia de que se aprende com a experiência somática e que os limites da linguagem não são os limites da cognição (Eisner, 2008). Neste sentido, as artes plásticas permitem uma vinculação profunda com o mundo e novas formas de olhar e de sentir (Cooper & Jackson, 2011). Tendo como objetivo o desenvolvimento de competências críticas e criativas, foram efetuadas duas experiências artísticas com crianças e adolescentes em dois contextos de educação não formal. Ambas partiram da utilização das competências de observação, análise e contextualização de imagens por parte dos participantes, e envolveram-nos na concepção de projetos e experimentação de materiais.