Como já se subentende no texto escrito pelos alunos, para além da continuação da exposição pública dos seus corpos, esta nova proposta reflete uma mística cultural estruturante. Agora os corpos já não eram meros suportes e mostruários de design acessório, mas representam o que mais elevado a comunidade mitifica, e o nível de aproximação do outro, de si e do coletivo aprofunda-se através da obra. Sendo este Presépio efetivamente composto pelas figuras-retrato dos alunos, estes mantêm uma proximidade muito peculiar à obra como se fossem os próprios que ali estivessem em permanência, elevando-lhes a autoestima e promovendo a admiração da comunidade escolar e familiar (muitos trouxeram a família e amigos para verem a sua obra e os seus retratos). A deslocação da transcendência simbólica do presépio para a vida quotidiana, proporcionando um sentido mais abrangente, humanizante e ecuménico, é já sugestiva duma transfiguração para um corpo cultural momentaneamente assumido e conquistado coletivamente (através da consciência individual de si e da sua assunção como coletivo estruturante). 4. Comemorações 25 de Abril 4.1 Comemorações 25 de Abril: duas aulas de 270 min.
Foi através de um outro pedido da direção, agora para a participação nas comemorações do 30º aniversário do 25 de Abril, que nos lembrámos das figuras-retrato para se desenvolver uma intervenção na escola. Depois de se debater alguns aspetos históricos do 25 de Abril com a colaboração de outras disciplinas, os alunos vestiram as figuras-retrato com equipamento das forças armadas angariado junto das famílias e amigos; outras foram vestidas comummente, como ‘povo’. Outros professores, com outras turmas, pintaram faixas com palavras de ordem daquilo que na época se reivindicava e construíram uma réplica de um “chaimite”. Na zona exterior de entrada da escola encenou-se o 25 de Abril em que a participação das figuras-retrato foi a alma da revolução dos cravos (Figura 3).
133 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756, e-ISSN 2182-9829. Vol. 1 (2): 128-136.
A figura do semeador, aquela que dá uma árvore como oferenda ao menino nascido, foi elaborada pelo Paulo do 12º ano de OEP do ano letivo 2002-2003 sendo, portanto, o seu retrato. Tentámos fazer transparecer um Natal possível, um Natal de qualquer um. Uma comemoração do nascimento de um ser. O dia mais feliz para um pai — o dia do nascimento do seu filho, dádiva à vida por sua mãe. Tentámos simbolizar as forças espirituais pelo anjo que apresenta a cena, a única figura mais clara e que não assenta no chão, e a Natureza, simbolizada pelo semeador, pelo ser castanho Terra que carrega e oferece uma árvore cujas folhas são corações vermelhos, símbolo do regozijo de todos nós. Numa jarra está um ramo de oliveira que é também um símbolo de Paz, esperança e de fé. Não esquecemos, sobre a mesa, a presença da água, que se supõe encher a bilha, e a ténue chama da vela.