44 Machado, Alexsandro dos Santos (2013) “Intuições para uma Pedagogia da Intuição no Ensino Médio: a Duração e os Sentidos da Educação por meio da Dinâmica das Cartas.”
dos “L. F.s” seria o “essencial”? É muito importante ressaltarmos que não podemos conceber o eu profundo enquanto uma essência imutável, um “L. F. Ideal”, acessado por reminiscências, nos moldes platônicos. O eu profundo, em termos bergsonianos, só pode ser concebido em duração, ou seja, em movimento. Acreditamos que, como em qualquer Pedagogia, podemos planejar seus objetivos, mas nunca seus sentidos. A Pedagogia da Intuição é uma obra educativa e artística. Ela objetiva, em outras palavras, ponderar inteligência com sabedoria; objetivos de vida com sentidos de vida. Ora, estabelecer um objetivo de vida é pretender chegar nalgum lugar. É traçar uma rota. Planificar. E, como geralmente temos pressa de chegar, buscamos a reta (que é a menor distância entre dois pontos) e o plano (porque desprendemos mais energia em terrenos acidentados). Assim, geralmente representamos um objetivo de vida como uma reta em um plano bidimensional. Olhando com bom senso, porém, percebemos facilmente que nada do que é vivo é reto. A reta é uma pretensão humana. Tudo o que é vivo, em convivência com os outros seres e suas ambiências, precisa buscar caminhos que contornem obstáculos, que se bifurcam e se entrecruzam. Pois (...) é em vão que se gostaria de conferir à vida um objetivo, no sentido humano da palavra. Falar de um objetivo é pensar em um modelo preexistente ao qual falta apenas realizar-se. É, portanto, supor, no fundo, que tudo está dado, que o porvir pode ser lido no presente. É acreditar que a vida, em seu movimento e em sua integralidade, procede como nossa inteligência, a qual é apenas uma vista imóvel e fragmentária que tomamos da vida e que se coloca sempre naturalmente fora do tempo. A vida, ela, progride e dura. Sem dúvida sempre será possível, deitando um lance de olhos ao caminho já percorrido, marcar-lhe a direção, anotá-la em termos psicológicos e falar como se tivesse havido persecução de um objetivo. É assim que nós próprios nos expressamos. Mas, acerca do caminho que iria ser percorrido, o espírito humano nada tem a dizer, pois o caminho foi criado ao mesmo passo que o ato que o percorria, não sendo mais que a direção desse ato ele próprio (Bergson, 2005: 55-56).
Uma Pedagogia da Intuição pode contribuir efetivamente para que possamos, enquanto criadores e artistas de nossas vidas, revisitar-nos sistematicamente em um ato contínuo de auto-criação e reflexão sobre os objetivos e os sentidos de nossas vidas e da vida dos educandos.