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MATÉRIA-PRIMA 1

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Como se fosse um conto de realismo fantástico, L. F., no e-mail abaixo, também relata as emoções que sentiu ao “conversar” cosigo mesmo: (...) Fiquei meio assim de ler a carta, não era medo, nem alegria, era tudo junto... Uma emoção cor branca, que pode ser todas juntas ou nenhuma. (...) Parece incrível como eu, mesmo tendo mudado muito, sentia que ia mudar. Não sabia racionalmente, mas parece que sentia (...) Na carta eu basicamente conto como eu era em 2004 e me questiono como eu sou hoje. Coisas como música, série de TV e tal da época que eu continuo gostando, e não tem nada escrito explicitamente que demonstra que eu tenha mudado. Mas não precisa estar escrito, eu sei como eu era... só não lembrava! Eu era uma pessoa muito sonhadora (que levava fé mesmo!) e ia à luta. Hoje em dia eu posso até ser muito sonhador ainda, mas sou muito mais acomodado. Na carta, pergunto que faculdade eu curso (cuja resposta é nenhuma!). Veja bem: o L. F. de 2004 pergunta isso, ele nem cogita que eu não fosse estar em nenhuma. Mas estarei, por ele. No final, esse rapaz incrível e nem um pouco bobinho fala meio assim: ‘’Se a vida não estiver como tu quiser, não se preocupe, eu sempre estarei lá pra te ajudar’’... Olha só que viagem, eu acabo de descobrir que sempre vou poder contar com... eu mesmo! (sic) (CC, 2009, linhas 39-65)

Esse duplo de si é acessado pela lembrança e expressa uma dimensão de si mais profunda e pura, existente em um tempo não mensurável. Esse duplo se difere em grau e em natureza daquele eu mais superficial e ordinário, preso às demandas do tempo presente. Nesse sentido, é importante que se diga que, sem dúvida, não temos apenas um duplo. Quantos “L. F.s de 2004” não devem existir? Deve existir ainda os L. Fs. de 2003, os L. Fs. de 2002, os L. Fs. de 2001... Poderíamos ainda fracionar os “L. Fs. ” em meses, dias, horas, minutos, segundos... E assim nos daríamos conta que este esforço é inócuo e sem sentido, pois o “L. F. de 2004” não se trata da relação de um L. F. com um tempo quantificável, divisível, homogêneo. O “L. F. de 2004” é uma referência à relação de um L. F. com um tempo qualitativo, indivisível e heterogêneo. Trata-se de uma lembrança pura. Existem, portanto, infinitos “L. F.s” a serem acessados pela memória. Porém, apesar de o L. F. possuir todos eles sempre consigo, em sua virtualidade pura, um deles só pode ser atualizado quando nossa vida ordinária clama sua presença. O encontro com um duplo rompe a rotina do dia-a-dia como uma clareira na floresta, evidenciando dados imediatos à nossa consciência. Mas qual

43 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756. Vol. 1 (1): 37-45.

(...) Nessa função toda, lembrei de um conto do Jorge Luis Borges onde ele, um velho de sessenta anos, encontra consigo mesmo num banco de praça, um Borges então com vinte anos. O velho Borges sentava-se num banco na cidade de Boston. O jovem Borges sentava-se num banco em Genebra. E os dois ficavam ali conversando. Quem me dera, fiquei imaginando, eu pudesse marcar um encontro comigo mesma de tempos em tempos, só pra olhar um pouco pra mim e para os caminhos pelos quais eu andei (e continuo andando) (...)


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