42 Machado, Alexsandro dos Santos (2013) “Intuições para uma Pedagogia da Intuição no Ensino Médio: a Duração e os Sentidos da Educação por meio da Dinâmica das Cartas.”
natureza. A primeira possui uma relação indireta com a natureza. Trata-se de um processo que necessita de intermediações racionais e lógicas para produzir coisas úteis e práticas ao ser humano a partir da matéria, dos objetos. Assim sendo, ela não consegue penetrar na realidade movente da natureza. A segunda, por sua vez, possui uma relação simpática e íntima com a natureza, mas não consegue ultrapassar a materialidade em direção à consciência pura. Sintetizando esse dilema, Bergson afirma que “Há coisas que apenas a inteligência é capaz de procurar, mas que, por si mesma, não encontrará nunca. Essas coisas, apenas o instinto as encontraria; mas não as procurará nunca” (Bergson, 2005: 164). Durante a evolução da humanidade, a inteligência construiu um modo de pensar adequado à matéria inorganizada, considerando-a como descontínua e imóvel. Mas esse modo de produzir conhecimento continua sendo usado quando considera também o vivo organizado. Isso nos conduz a um vício original de supor que somente há este jeito de pensar, partindo de conceitos definidos para abarcar a realidade. Porém, nosso espírito pode seguir o processo inverso, aprendendo a realidade intuitivamente. Por isso que Bergson afirma que “Filosofar consiste em inverter a marcha habitual do trabalho do pensamento” (Bergson, 1984b: 31-32). Para Bergson, a intuição é um conhecimento da realidade “para o interior mesmo da vida” (Bergson, 2005b: 191), uma “consciência, mas consciência imediata, visão que quase não se distingue do objeto visto” (Bergson, 1984ª: 114). Ela é, portanto, resultado de um processo em que o sujeito contraria voluntariamente as propensões naturais do seu pensamento de pensar a matéria, procurando a duração e a possibilidade de mudança. Somente o método da intuição é capaz de pensar em duração, exercício que surge da intersecção de nosso eu profundo e das necessidades da vida ordinária. Quais são os sentidos do Ensino Médio?
A literatura tem, enquanto arte, a potencialidade de criar mundos e encontros para que possamos experimentar outros modos de perceber e sentir a vida. Nesse sentido, o duplo tem sido usado como um recurso literário e simbólico, propiciando reflexões sobre contrastes ou contrários no próprio sujeito, ou nos personagens aludidos pela literatura. Por meio de seu universo de realismo fantástico, o autor argentino Jorge Luis Borges talvez tenha criado uma das cenas mais geniais sobre o duplo, por meio do conto 25 de Agosto — 1983. Em um e-mail datado de 29 de Maio de 2005, C. F. comparou a sua experiência por meio da Dinâmica das Cartas ao referido conto. Abaixo, um fragmento de seu relato: