(...) Não amei minhas ruínas porque não as respeitei, cometi um pecado historiográfico: o anacronismo. Justamente quando mais dentro do meu curso (História) estou. Não respeitei minhas ruínas porque esqueci que elas são datadas, tem e fazem parte de um tempo próprio — aquele tempo que vemos quando olhamos para as estrelas que não estão mais ali. Aquele tempo que não se repete. Se eu falava e escrevia com aqueles conceitos, era porque eu vivia aquilo, aquilo era coerente com aquele presente e foi parte importante da minha formação. Não é nem pode ser com o presente de hoje e tampouco posso medir aquele momento com meus instrumentos de hoje. Perceber isso me fez fazer as pazes comigo mesma (CC, 2008, linhas 3204-3213).
Etimologicamente, a palavra respeito vem do latim res-pectare (Cunha, 2001: 678); re-espectar, re-ver. Pensar em duração é mirar com respeito a jornada da vida que está sendo percorrida, dando-se conta de que “aquele tempo que vemos quando olhamos para as estrelas que não estão mais ali” não pode ser medido porque ele é de natureza intensiva e não extensiva. Durar significa continuar a ser. Para Bergson, a vida psíquica do sujeito é composta por sucessões e não por justaposições. Cometemos “pecados historiográficos” quando tentamos homogeneizar o tempo para tentar medi-lo. Nesse caso, tentamos esquecer de que cada vivência faz parte de seu “tempo próprio” e tentamos atribuir à duração uma forma ilusória e homogênea (Bergson, 2011: 82). Intuições para uma Pedagogia da Intuição
Deleuze considera a intuição bergsoniana como “um dos mais elaborados métodos da filosofia” (Deleuze, 1999: 7). Todavia, é importante não abordá-la como um sentimento, nem uma inspiração, nem um instinto, nem uma simpatia confusa. Assim, se faz necessário distinguir instinto e intuição. O instinto é uma percepção inconsciente característica da vida animal e totalmente dirigido para a ação. A intuição é “o instinto tornado desinteressado, consciente de si mesmo, capaz de refletir sobre seu objeto e de ampliá-lo indefinidamente” (Bergson, 2005: 191). Ou seja, é um conhecimento imediato, consciente e voluntário, direcionado para a essência da vida e para a duração. Inteligência e Instinto possuem uma vinculação diferenciada em relação à
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com sua duração. E isso é ao mesmo tempo singular e universal. Singular à medida que me reconheço em minha autonomia. Universal à medida que me sinto mais vivo por estar conectado à alma do mundo. 'A Dinâmica das Cartas, por sua vez, se constituiu em um dispositivo de reflexão sobre aquilo que dura e, portanto, fortalece o vivo. O fragmento abaixo de um e-mail de C.C. ilustra isso belamente: