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MATÉRIA-PRIMA 1

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327 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756. Vol. 1 (1): 319-328.

processo está possibilitando articular melhor tanto os objetivos quanto os resultados. No momento, é possível pensar mais em percepções do que conclusões sobre o processo. Entrementes, pode-se dizer que o desafio de manter a proposta pulsante durante todo o ano letivo foi solucionado, uma vez que o projeto ficou claro para o grupo. Acredito que o uso de uma mesma estratégia de trabalho permitiu a criação de um ritual de aprendizagem, no qual cada aluno sentia-se seguro para tomar nota da forma que desejasse, para transformar criativamente o conteúdo em um verbete para o seu Caderno do Olhar. Assim, aquela ideia convencional de aula de arte como espontaneidade e livre expressão deu lugar a uma metodologia de trabalho bastante clara. Com isso, percebeu-se que já ao final do primeiro trimestre, o aluno, mais consciente do próprio processo, passou a agir de forma mais autônoma em relação ao próprio trabalho, tomando notas e pesquisando por conta própria, criando projetos visuais cada vez mais ousados. Ao verem seus verbetes completos e encadernados, os alunos pareciam ter uma sensação de completude em relação ao que haviam aprendido, além de saberem que aquele material produzido futuramente poderá servir de fonte de referências e experiências concretas. Algo que o aluno levará consigo. Acredito que o grande trunfo deste longo processo foi justamente o lugar inesperado que a escrita ocupou na aula de Artes Visuais. Com o dispositivo de escrita usado, além da libertação da escrita, senti que rumamos para a uma relação mais prazerosa com a própria escritura. Os alunos se entusiasmavam com a produção deles e dos colegas, se surpreendiam com como cada um podia sistematizar e ocupar o espaço branco da folha de maneiras tão diversas, trazendo à prática da escrita algo da ordem da brincadeira, que extrapolava a representação e os significados, definindo de forma marcante as singularidades do processo de cada aluno num “movimento novo e puro da escrita, que extraia do escrever como evento a sua energia” (Corazza, 2006: 22). Os dois anos da proposta Cadernos do Olhar abriram uma possibilidade de criação processual de longa duração, muitas vezes deficitária nas aulas de Artes Visuais, especialmente com alunos desta faixa etária. Para mim, poder participar da construção literal do conhecimento ao longo do ano e vê-lo materializado a partir das escolhas de cada aluno no seu di[cion]ário extrapola o sentimento de reconhecimento e gratificação tão próprios à profissão. É, assim como nas palavras do poeta, da ordem do encantamento, da resignificação da potência da sala de aula como um lugar de criação, no sentido artístico, no qual: A lição emancipadora do artista, oposta termo a termo da lição embrutecedora


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