Associo o atelier à caixa tão temida, que abriga a imaginação. Um lugar onde todas as possibilidades estão presentes e, portanto, onde o caos pode imperar. No atelier, ideias e materiais estão à espera de uma forma. Dar forma ao desconhecido é função da arte. A imaginação sem controle é assustadora e, talvez, seja esta uma leitura possível dos monstros libertos pela mão de Pandora. Porém, é preciso lembrar que a Esperança, que ficou presa no fundo da caixa pode guiar a imaginação, com cuidado, para a construção de uma nova ordem, quando a curiosidade será, então, premiada. Criar é dar forma ao caos e para criar é preciso poder fazer escolhas. A escolha é o limite que cria a forma. Só aprendemos a escolher o próprio caminho, quando temos liberdade de opção. O atelier compreendido, assim, como lugar de escolhas, refúgio de esperança (Albano, 2005: 6).
Dentro dessa perspectiva, o Objeto de Aprendizagem Caixa de Pandora — com
303 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756. Vol. 1 (1): 300-311.
levasse em conta parte dessa história que move o homem desde os tempos mais remotos até os dias de hoje, com uma carga simbólica que remetesse tanto ao ser humano quanto às crenças e medos que nos acompanham desde sempre. Foi a partir dessa lógica que o Objeto de Aprendizagem Caixa de Pandora foi criado, e que, além da vontade de abordar o mito do conhecimento, ainda traz as ideias de paradoxo, incompletude, precariedade da vida e da arte. Proveniente da mitologia Grega, em uma das versões (Bulfich, 2001), é narrado o mito afirmando ser Pandora uma divindade doadora de talentos divinos e, simultaneamente, de todos os males da humanidade. Por ordem de Zeus, numa trama que envolve uma vingança contra a humanidade, por esta ter recebido de Prometeu o segredo do fogo, Pandora foi enviada a Terra para seduzir Prometeu, recebendo uma “caixa” que não deveria ser aberta. Abriu e com essa atitude — que muitos atribuem a um símbolo de curiosidade feminina — espalhou todo o sofrimento sobre a humanidade. Ao perceber o que acontecia Pandora fechou a caixa, deixando dentro dela a Esperança. Pandora, possuidora de todos os dons aliada à esperança faz pensar em surpresa, em inovação, em mudança, em transformação, em capacidade de sonhar com o diferente, com o inusitado, com a arte. Como professora, parto do pressuposto que seres humanos motivados estão mais propensos para a aprendizagem, e que toda aprendizagem deva tentar estabelecer um processo de inferências entre os conhecimentos que se possui e os novos conhecimentos a serem construídos. Ao apresentar uma lenda, com sua narrativa e a exploração dos símbolos presentes na mesma, pode-se dar início a toda uma conversa sobre Arte. O mito serve como ponto de partida para uma viagem pela história, cultura, costumes, crenças, sociedade e humanidade. O ponto de chegada, diferente para cada indivíduo que se aproxima da caixa, passa pela ideia de atelier como espaço de escolhas, como tão bem nos relata Ana Angélica Albano: