258 Guimarães, Ana Luiza Bernardo (2013) “Não me proteja do que eu quero! Parangoleando a formação dos Professores de Arte”
três momentos imprescindíveis ao pensamento do professor reflexivo: reflexão na ação, reflexão sobre a ação e reflexão sobre a reflexão na ação. Por reflexão na ação podemos entender a ação de surpreender-se e de refletir sobre essa surpresa, procurando reformular o seu modo de ver o problema, em um processo de pensar sobre o que se faz ao mesmo tempo em que atua. Já a reflexão sobre a ação se caracteriza pela análise que o indivíduo realiza a posteriori, enquanto que a reflexão sobre a reflexão na ação, busca a apropriação de teorias sobre o problema a ser investigado. Para Mattar (2010) é nessas instâncias que o indivíduo toma consciência dos saberes mobilizados e construídos durante a ação, de modo que o conhecimento tácito se torne consciente e seja ativado quando necessário. Esse pensar reflexivo aciona tanto a invenção quanto o planejamento. Invenção para dispersar a mesmice e planejamento para conduzir ações concretas para a efetivação da aprendizagem. Por intermédio da reflexão constante, o professor aperfeiçoa e antecipa as consequências resultantes de suas ações — seja para evitá-las ou para respaldá-las — e, ao se defrontar com situações de incerteza, contextualizadas e únicas, recorre à investigação como uma forma de decidir e de intervir em tais situações, fazendo emergir novas e singulares concepções para sua própria prática. Desencadeando Devires
Para dar concretude a esse desejo de uma formação que se respalde na desaprendizagem das práticas estereotipadas e, ao mesmo tempo, no desencadeamento do devir, a investigação balizou-se pela análise de vivências formativas prático/artístico/reflexivas, realizadas com os alunos do último ano da licenciatura em Artes Visuais de uma Faculdade privada do interior paulista. A escolha deste grupo de alunos não foi por acaso; ao contrário, os futuros professores, muitos já atuantes nas Escolas de Educação Básica, têm na prática de estágio supervisionado a oportunidade de intervir no local em que atuam, reconfigurando a cena docente. Tomando como mote o conceito de “professor declanchador”, os licenciandos construíram parangolés que atuaram como primeiro dispositivo para a invenção de uma prática artística que integrasse a reflexão e a vivência formativa (Figuras 2 e 3). Cumpre destacar que o termo declanchar, do francês, déclencher, significa abrir a porta tirando a tranca, desencadear, dar início à, provocar (Houaiss, 2009). A acepção deste termo se refere a professores/licenciandos que instigam no outro, experiências estéticas e formativas, retirando deles — e de si próprios — as amarras que ainda sustentam concepções arcaicas de um ensino de arte, ora calcado no laissez faire, ora alicerçado em cânones idealizados de beleza e perfeição.