Criando Estados de Invenção
Pensar a questão da formação dos professores de Arte é tarefa desafiadora, uma vez que a especificidade da área trabalha tanto com aspectos subjetivos quanto objetivos do conhecimento e da experiência artística. A formação contemporânea dos professores em Arte precisa buscar nos fundamentos da Educação, da Arte e do seu ensino, elementos para uma epistemologia dessa formação, como já proclamava a professora Noêmia Varela: Mas, que devemos pensar da formação do arte-educador? Quais as relações da arte com a educação que poderão melhor delimitar o lugar e a natureza do processo de formação do arte-educador? O que dá mais a pensar sobre esta questão e que ainda não foi pensado? Que é necessário desaprender para encontrar o caminho mais sábio que nos leve à elaboração mais rica do processo de formação do arte-educador? (Varela, 1986: 12).
Dentre tantas questões levantadas por Varela, penso que a primeira demanda a ser analisada se refere a conceber a docência em arte como uma docência para a preparação de artistas (Read, 1982), não tanto no sentido literal da palavra, mas principalmente, na acepção de professores que dilataram sua capacidade de sentir, idear, perceber, imagizar em sua prática a fim de melhorá-la, como define Corazza (2012): Docência que, ao modo de seu artífice, poderia ser chamada “artística”. Que, ao se exercer, cria e inventa. [...] Que, ao educar, reescreve os roteiros rotineiros de outras épocas. Desenvolve a “artistagem” de práticas pedagógicas ainda inimagináveis e,
255 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756. Vol. 1 (1): 253-263.
Desaprender, assim, é uma ação intencional que dialoga intrinsecamente com o cenário da formação de professores em Arte, uma vez que o desapego dos hábitos cristalizados — quando transformados em meras escoras a respaldar ações infundadas e inertes de significado — implica uma ação de deslocamento no espaço/tempo educativo. Estar em desaprendizagem, ser/estar em ‘estado de invenção’ significa, também, inquietar-se. O inquietar provoca e é provocado pela ação investigativa, pela reflexão constante e pelo mergulho no equilíbrio entre conservar e transformar. E essa busca — acionada pela inquietude e aquilatada pela reflexão — age na essência do professor, no âmago da sua integridade, gerando deslocamentos, rupturas e continuidades. As relações entre a poética de Oiticica e a formação de professores de Arte reflexivos são o mote da presente pesquisa. Evitando cair nos modismos, o que se espera é possibilitar outros pensares na formação dos licenciandos em Arte e, ao mesmo tempo, traçar pontos de luz para uma docência que se faça artística, reflexiva e investigadora de suas práticas.