231 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756. Vol. 1 (1), pp. 224-233.
Vigotski (1991) vê na linguagem uma atividade simbólica constitutiva do ser humano, cujo surgimento não estaria atrelado apenas ao avanço no desenvolvimento motor, mas estaria presente desde que a criança nasce, desencadeando a constituição de significações para si mesma e para o seu entorno. O contato com o outro e o conseqüente contato com os usos de linguagem levaria a criança a incorporar, às suas funções biológicas, outros modos de perceber e de organizar o mundo. Assim, o fazer, o criar, o experimentar dentro da escola e especificamente, dentro da educação infantil, requer atitudes de planejamento e objetividade, que busquem a qualidade, para que não sejam apenas atividades banais com intenção de preencher o tempo, mas atividades que realmente incentivem e promovam o desenvolvimento durante todo o processo educativo, entendendo e respeitando o processo que a criança vivencia e experiência. Assim, há possibilidade de fornecer os meios necessários para a sua expressividade, o contato prazeroso, e mais tarde o pensamento crítico e reflexivo dessas infinitas fontes culturais e sociais que nos rodeiam. Nesse sentido percebemos que a formação na área de arte e educação infantil (bem como as reflexões que conectam as duas áreas de maneira que fiquem relacionadas e não submetidas uma à outra) deixa a desejar, visto que, os poucos cursos ou disciplinas oferecidos para as alunas da Pedagogia tendem a contribuir para que as linguagens artísticas sejam concebidas apenas como instrumentos, embora não deixe de sê-lo, mas não se resumem a tal. A escola é onde as relações sociais mais se evidenciam junto com a sistematização das diversas linguagens, sendo relacionadas e mediadas com o mundo “adulto” e concreto, é também o lugar de confluência das subjetividades através dos mais diferentes meios expressivos, criando um rico ambiente de significações no repertório das crianças. O equívoco na formação das pedagogas e professoras em geral é considerar a arte apenas como instrumento. Por não ver a Arte como uma área de conhecimento, não compreende como atuar pedagogicamente com as especificidades e peculiaridades que o ensino da arte apresenta. A falta de formação faz com que esses professores atuem movidos pela concepção da Arte (e do seu ensino, em geral) construída ao longo de suas histórias pessoais, como se a formação do professor fosse subjetiva e não uma obrigação do governo em garanti-la. Sem a formação adequada, o ensino de arte na educação infantil tem grande tendência intuitiva ou baseada apenas em técnicas como um fim em si mesmas. Ou seja, na prática educativa a arte com crianças vem descolada da teoria que possibilitaria a reflexão e aprofundamento teórico necessário para que a criança possa se desenvolver nos diferentes âmbitos de sua humanidade.