2. Considerações finais
Com esta atividade assume-se, tal como refere Paulo Freire (2004) que, “(…) ensinar não é transmitir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.” e, parte-se desse pressuposto quando se desenvolve um processo destes com uma turma. É, contudo, fundamental que se acompanhe de perto este processo para que nenhum aluno se centre nesta questão ao ponto de bloquear perante a proposta. Há aqui uma intenção clara de manipulação do pensamento dos alunos, no sentido em que se pretende que, no momento em que se confrontam com a impossibilidade de desenhar dentro da sua esfera de conforto e têm que desenhar o que lhes é imposto, reflitam sobre as possibilidades do desenho que normalmente não são consideradas dentro da sala de aula. Não posso deixar de sublinhar que se parte do princípio que não se pode organizar o conhecimento que se tem do aluno a partir de uma ou duas imagens,
171 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756. Vol. 1 (1): 164-172.
Se, por exemplo, este aluno está a lidar negativamente com a impossibilidade de desenhar uma flor, porque é um dos elementos registados no quadro como não sendo permitida a sua representação, é-lhe solicitado que pense em diversas flores que conhece, que invente uma flor, que desenhe aquilo que sabe que constitui uma flor… No caso de uma das alunas do 7º ano com quem desenvolvi este trabalho acabou por se desenvolver um trabalho ainda muito ligado às representações estereotipadas, mas onde é notório o esforço da aluna por reinventar essas representações, alargando assim o seu campo de possibilidades (Figura 4). O objetivo deste processo não é, repito, fazer deste desenho um projeto individual de onde se obtém um produto acabado e definitivo, mas sim proporcionar ao aluno um momento de aprendizagem e reflexão que, enquanto decorre, permite ao professor fazer uma série de registos acerca de cada um dos alunos da turma com quem vai estar durante um curto espaço de tempo, obtendo então uma melhor compreensão dos contextos, hábitos e características no âmbito específico dos processos de ensino e aprendizagem desta disciplina. Com estes dados, o professor pode/deve programar o desenvolvimento das atividades (provavelmente já planificadas pelo docente efetivo) tentando intervir neste contexto provisório sem esquecer as repercussões das suas ações. É questionável se é pertinente orientar o aluno para que pense em modos de representação individuais, quando aquilo que se pretende na escola é que corresponda a um resultado coletivo. Considero, no entanto que, se no âmbito dessa representação coletiva, o aluno conseguir envolver alguma da sua individualidade, o processo de trabalho será certamente mais positivo.