Transformando-se, a matéria não é destruída de seu caráter. Pelo contrário, ela é mais diferenciada e, ao mesmo tempo, é definida como um modo de ser. Transformando-se e adquirindo forma nova, a matéria adquire unicidade e é reafirmada em sua essência. Ela se torna matéria configurada, matéria-e-forma, e nessa síntese entre o geral e o único é impregnada de significações.
Transformar a matéria e lhe atribuir um novo significado a partir daquilo que se cria e [re]cria, modificando, aproximando, pertencendo. Repertórios e experiências vividas servem de combustível para a criação das crianças. A transformação da matéria em algo significante para aquele que a manipula é possível de ser observada nas produções das crianças, onde tinta e papel ganham movimento, significado, vida. Para Alexandre (Figura 7), “A mulher gorda pega a maçã”, representa um corpo em movimento, não apenas pela figura humana, mas também pelo cenário e detalhes do desenho como as maçãs caídas no chão, os cabelos da mulher soltos, a mão que pega a fruta, elementos que transmitem a ideia do autor. No desenho de Eduardo, o corpo em movimento está “brincando com a espada”, empunhada ao alto, segurada pelo corpo que tem um adorno na cabeça, seria um chapéu com uma pena, representando talvez uma personagem literária. No desenho de Lucas F., o movimento do corpo ocorre devido à situação representada, onde “Ele está fugindo de um burro”, apresentando além da figura humana, o próprio animal responsável pela ação do corpo (Figura 8). Segundo Derdyk (2010: 90), “a interpretação verbal que a criança realiza ao ver ou ao fazer o seu desenho muitas vezes se transforma numa outra ‘estória’. Às vezes é pura constatação, em outras, é atribuição de valor”. Suas expressões sobre o que desenham retratam a aproximação do fazer artístico às suas realidades vivenciadas ou imaginadas. Diversas representações de movimento foram realizadas durante a intervenção e em todos os desenhos notamos a preocupação das crianças em retratar o movimento escolhido, interferindo na posição do corpo, utilizando elementos que contextualizam o ambiente em que são representadas as figuras humanas,
161 Revista Matéria-Prima, Práticas Artísticas no Ensino Básico e Secundário. ISSN 2182-9756. Vol. 1 (1): 153-163.
Arnheim (2005) descreve a imaginação artística como algo que se aproxima da invenção, uma nova forma ou conceito em substituição a um velho assunto, ou a um conteúdo passado. Podemos olhar os desenhos produzidos pelas crianças como novas soluções transformadoras daquilo que lhes é proposto na intervenção. O desenho representa para as crianças uma forma de expressar e demonstrar suas visões de mundo e o próprio mundo à sua volta. No ato de desenhar, pensamento e sentimentos estão interligados. Segundo Ostrower (2001: 51),