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94 Blauth, Lurdi (2013) “Impregnações pictóricas na produção artística de Clóvis Martins Costa.”

capturar, nas superfícies dessas pinturas, os resíduos de matérias orgânicas e planos de cor, que ora velam ora ocultam os distintos fragmentos de imagens relacionadas para algo além delas. Contudo, é necessário que o olhar se adentre, pois, conforme Flusser (2002: 7), “o fator decisivo no deciframento de imagens é tratar-se de planos. [...] No entanto, esse deciframento será apenas superficial, pois quem quiser aprofundar o significado e restituir as dimensões abstraídas, deve permitir à sua vista vaguear pela superfície da imagem.” De certo modo, o vaguear pelos interstícios dessas paisagens desconstruídas e fragmentadas sugerem diferentes percursos, exploramos imagens no interior dos diversos planos das pinturas, simultaneamente, remetem ao exterior, de forma a habitarmos outros horizontes em nosso imaginário. Erwin Strauss, ao comentar sobre as experiências relacionadas ao deslocamento geográfico em paisagens, coloca que “o espaço geográfico habitado, que é o espaço do mundo humano da percepção, não tem horizonte: é fundado sobre um sistema de coordenadas, parado e transparente; na paisagem, o horizonte que nos cerca se desloca conosco” (Ferreira, 2010: 189). As pinturas Trazendo aqui pra marte são resultantes de acúmulos de vestígios e de registros provenientes das distintas operações experimentadas durante o deslocamento, materializando aspectos indiciais envolvidos pela ação, impregnação, impressão e elaboração do campo pictórico. Para Martins Costa, o lugar experimentado por suas ações é constituído por essas ambivalências, assim como a organização dos campos de cor na superfície da tela que evidencia ou soterra o referente fotográfico. A estrutura é formada pelo intercâmbio de intensidades que acomodam as áreas de pintura e fotografia, ‘transparências e opacidades, incrustações e dilatações do suporte-tecido sempre ativado no limite de suas bordas, tencionando fronteiras entre linguagens e materialidades’ (Figuras 4, 5). Conclusão

As impregnações nas pinturas de Martins Costa e as operações de contato deflagram tensões e distensões de sentidos através de dispostivos que empregam técnicas tradicionais de pintura e tecnológica por meio da impressão por sublimação. As paisagens fotografadas por uma câmera digital retornam ao suporte matérico do tecido de algodão cru, aproximando-se do referente real. Nessas pinturas percebemos a coexistencia de elementos que engendram sobreposições e justaposições entre densidades e transparências, ao mesmo tempo, algumas imagens resistem e persistem entre os planos de cor. Em sua busca poética, o artista evidencia o trânsito entre diferentes linguagens e ações, em cujas


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