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GAMA 1

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68 Lopes, Renata Perim Albuquerque (2013) “O olhar à margem.”

As grandes narrativas conectivas do capitalismo e da classe dirigem os mecanismos de reprodução social, mas não fornecem em si próprios uma estrutura fundamental para aqueles modos de identificação cultural e afeto político que se formam em torno de questões da sexualidade, raça, feminismo, o mundo de refugiados ou migrantes ou o destino social fatal da AIDS (Bhabha, 1998: 25).

É importante notar que a arte de Leonilson nesse período não pode ser reduzida a sintoma da doença. Seria mais coerente com a poética do artista observar que seus trabalhos — principalmente os bordados — engendram “o novo” dentro das artes plásticas a partir desse fato. Dito de outra forma, essa nova estética que emerge nas artes seria a atitude do artista como tradução de um novo dado cultural. Nas palavras de Bhabha: Essa arte não apenas retoma o passado como causa social ou precedente estético; ela renova o passado reconfigurando-o como um “entre-lugar” contingente, que inova e interrompe a atuação do presente (Bhabha, 1998, p. 27).

Sob esse ponto de vista observa-se que o local do artista, de acordo com o pensamento de Bhabha, é um lugar capaz de reinscrever o imaginário social. Leonilson expressa na arte a condição de ser artista, homossexual e portador do vírus HIV. Certa reconfiguração do presente está contida nos panos bordados de Leonilson. É o que se nota nos trabalhos com inscrições como “O penelópe, o recruta, o aranha” e “Você que espero imenso e não sei quem é”. É possível notar ambiguidade, espera e angústia contidas em palavras bordadas que representam esse momento. O relato de questões pessoais se transforma em diário bordado feito com tecidos e linhas. A recorrência dos pespontos de linhas pretas em volta de pedaços de pano parece demarcar seu lugar no mundo, como se os objetos de pano marcassem a fronteira com o seu mundo. “Os desenhos são sempre dentro de retângulos ou quadradinhos. A partir da figura surge o que está em volta. É uma pequena reconstrução do mundo” (Lagnado, 1995: 108). A maioria dos trabalhos com tecido e linhas é construída nessa perspectiva. A tradução da rotina de ser portador do vírus HIV e a morte anunciada fazem parte do que o artista elabora como matéria bruta para o seu discurso. “Leonilson desconstrói a ideia da doença, com todas as suas contradições, dentro da própria doença” (Veneroso, 2012: 327). Essa ideia faz com que o artista construa sua arte a partir da diferença, característica do outsider — palavra que Leonilson empregava para falar de si (Lagnado, 1995: 87).


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